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sábado, 13 de fevereiro de 2016

AS PAIXÕES: Fontes de nossos pecados


LEITURA MEDITADA: Dia 13 de fevereiro

Sendo o pecado o mal absoluto e extremo, devemos empregar todos os meios, todos os esforços, para evitá-lo. E nunca alcançaremos a  pureza de coração que nos dá aquela liberdade e facilidade em compreender as coisas de Deus, senão levarmos o combate ao pecado até às suas fontes. Dos regatos e rios remontaremos às suas fontes, para nos esforçarmos em secá-los. E quais são estas fontes dos rios e regatos de lamas contaminadas do pecado? São as nossas paixões.

I - Devemos temer todas as paixões, porque todas nos conduzem ao pecado: Enganam-nos, lisonjeiam-nos e tiranizam-nos. Três efeitos terríveis. Reflitamos sobre cada um deles.

1 - ENGANAM-NOS: As nuvens encobrem a luz do sol; as inclinações desregradas obscurecem a luz da fé, e até a da razão. O pecador fica cego quando se deixa dominar por alguma paixão. Por exemplo: Que dizia a Caim a inocência de Abel, a voz do sangue? Era seu irmão! Que diziam os cabelos brancos e o seu cargo de magistrados, aos infames anciãos, que tentaram manchar a virtude de Suzana, e não o conseguindo condenando à morte através de calúnia uma mulher santa, quando era obrigação deles defendê-la? Que diziam a Judas Iscariotes a bondade e as ternas palavras de Jesus? Mas, logo que a paixão entra em uma alma, amontoa nela tão densas trevas, que já não vê o que para outros é tão visível como o sol. É o que diz a Bíblia: "Serão destruídos como a cera que se derrete; caiu fogo de cima sobre eles, e não viram mais o sol" (Salmo 57, 9). É que toda paixão nasce do amor desordenado de si mesmo; ora, naquilo que nos lisonjeia, queremos crer sempre que não há mal, como diz Santo Agostinho: "Tudo o que nós queremos, nos parece santo". Na verdade, como diz o mesmo 

Santo Doutor: Somente amando a Deus de todo coração é que poderemos fazer tudo o que queremos, porque aí sim, tudo será santo. Mas, infelizmente, quem é dominado por alguma paixão, seja a avareza, seja a luxúria etc., logo que alguma paixão entra em uma alma, encontra-se sempre alguma desculpa; ou melhor, inventa-se uma, fundada na mesma paixão, na sua violência. Vê-se porém mais do que se quereria ver; e o que faz a iniquidade, é resistir à próprias luzes, porque é raro que a cegueira seja absoluta. Na verdade, apesar da paixão, descobre-se a lei que fala, o crime que a quebranta, e o castigo que a vingará. Por isso que a Bíblia diz que o temor de Deus é o início da sabedoria.


2 - LISONJEIAM-NOS: com os deleites que prometem, seduzem o coração, e arrastam a vontade. Em vão reclama a razão, brada a consciência, avisa a graça de Deus; a nada se atende. A imaginação inflama-se; ela EXAGERA o prazer, faz esquecer as consequências, e o homem cai. Oh! quanto importa que nos arranquemos, desde o princípio, aos atrativos da paixão! Caso contrário, a queda será fatal.

2 - TIRANIZAM-NOS: Concedendo-lhes alguma coisa, aumento o seu poder, torno-as exigentes, imperiosas. Tiro a mim mesmo a força que lhes dou. Cedi primeiramente às suas solicitações importunas, dentro em pouco tempo, já nada sei recusar-lhes, e as minhas condescendências tornam-se um hábito. Ora, o hábito, diz Sto. Agostinho, é como um corrente de ferro, que prende a vontade; e aonde não pode ela arrastar?


II - De todas as paixões, as mais temíveis são as que se disfarçam, porque arrastam aos últimos excessos do pecado:  As paixões disfarçam-se para três coisas: a) ou para esconder o crime; b) ou para o multiplicar; c) ou para tranquilizar a quem o comete.

a) Na verdade, o crime descoberto será sempre odioso, até àquele que o comete, porque a consciência lho representará sempre como oposto à ordem, à razão, e à lei da justiça, escrita no coração de todos os homens; e se ele é odioso até ao culpado, como o não será aos que o presenciam? Para escapar à vergonha e ao ódio que merece, é que a paixão se encobre. Por exemplo, quem acreditaria que o Iscariotes, ladrão, quisesse passar por advogado dos pobres? Contudo, a sua avareza é que lhe inspira esta queixa no episódio da Madalena: "Porque se não vendeu este bálsamo, para se dar aos pobres? Este disfarce é um crime a mais, isto é, a hipocrisia.

b) Raras vezes sucede que uma paixão, que se mostra com descaro, não seja reprimida, ou ao menos perturbada nas suas desordens. Mas, se ela consegue ocultar-se, nada a detém; entrega-se a todos os excessos. A mina explosiva, se é descoberta, é pouco perigosa; pelo contrário, tudo é para temer, quando o inimigo esconde o sua bomba aos olhos que o observam.  Exemplo: Cobrindo a sua inveja contra Jesus com a capa de zelo do bem público e da religião, é que os fariseus, com uma série de iniquidades, chegam ao crime mais monstruoso, ao deicídio.

c) Que artifícios, que subterfúgios, para ocultar aos olhos dos homens a desordem de certas paixões! Como se fosse possível, ocultar também aos olhos de Deus. Como se fosse possível enganar a Justiça divina, que vai pedir contas até de uma palavra ociosa. Muitas vezes até, quando a astúcia hipócrita não pode impedir que o mal transpire, procuram-se abafar as suspeitas à força de impudência. Prova-o o exemplo de Judas Iscariotes: A triste declaração que Jesus fez aos seus discípulos que um deles o atraiçoará, consterna-os. Cada um se consulta a si mesmo, nenhum ousa fiar-se na sua própria consciência; só o pérfido Apóstolo, que bem sabe que aquela palavra é para ele, e que o deve assustar mais que a todos, é o único que parece não sentir o menor susto; e ajuntando o insulto à audácia, pergunta friamente, com a maior cara de pau: "Por acaso sou eu, Mestre?"

Mister se faz uma última observação: Há uma paixão mais impudente que as outras: é a desonestidade ou impureza. A mentira, o embuste, o perjúrio, o sacrilégio estão, por assim dizer, a soldo desta paixão.  Esta paixão hedionda procura até esconder-se algumas vezes com uns ares de descaramento, que bastariam para a fazer conhecer.


Santo Ambrósio compara as paixões àquela febre ardente que padecia a sogra de São Pedro. Mas Jesus entrou na casa desta enferma, e a sarou. Na comunhão, peçamos a Jesus esta cura. Amém. 

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

O PENSAMENTO DA ETERNIDADE



 LEITURA  MEDITADA - Dia 5 de fevereiro

   1 - Há uma eternidade. - A razão demonstra-me a imortalidade da minha alma; a mais evidente revelação ensina-me a ressurreição do meu corpo e a futura eternidade de todo o meu ser. O Divino Mestre, Nosso Senhor Jesus Cristo falou de maneira tão clara que não há possibilidade de interpretação em outro sentido, mas literalmente deixou claro que existe uma eternidade feliz para os bons e uma eternidade infeliz para os maus: "E estes [os maus] irão para o suplício eterno; e os justos para a vida eterna" (Mateus XXV, 46). Sim, depois desta vida em que tudo passa, entrarei na eternidade em que nada passa. Os céus e a terra, que são obra das mãos de Deus, hão de acabar; mas Deus e eu mesmo pela disposição da suprema vontade de Deus, permanecerei. Eis o que diz o Divino Espírito Santo nos Salma CI, 28 e 29: "Tu porém és sempre o mesmo, e os teus anos não têm fim. O filhos dos teus servos habitarão seguros, e a sua posteridade subsistirá diante de ti". Deus quis que a eternidade estivesse ligada com o meu ser, assim como o está n'Ele. Portanto, Deus e o homem subsistirão eternamente.

   2 - Que é a eternidade? - Com relação a nós, a eternidade é uma duração sem fim: nada pode medi-la; um estado sempre fixo: nada pode mudá-lo; duração que não se pode medir e estado imutável, são as ideias mais simples e mais verdadeiras que eu posso ter da eternidade. Na verdade é uma duração sem fim, pois, qualquer que seja o número que se lhe ajunte, não se aumenta; qualquer que seja a quantidade que se lhe tire, não se abrevia. Sempre! nunca! não se pode exprimir melhor a duração da eternidade. Poder-se-ia dizer, um dia, de um homem: "Começa a us eternidade (quando acaba de morrer)"; e nunca se dirá com verdade, que ele chegou à terceira, à quarta parte, que percorreu a milésima parte da sua eternidade, ela estará sempre para ele tão inteira como no momento em a principiou. Quanto tempo estará um santo gozando da sua suprema felicidade no Céu? Sempre. Quando vai acabar ou mesmo diminuir esta felicidade? Nunca! Quanto tempo estará o condenado nos tormentos? Sempre! Quando vão acabar estes sofrimentos ou, ao menos, diminuir? Nunca! A eternidade nunca acaba e nunca muda. O Divino Espírito Santo no Livro do Eclesiastes  XI, 3,  faz a seguinte comparação: " Se a árvore cair para a parte do meio-dia ou para a do norte, em qualquer lugar onde cair, aí ficará". Quantas gotas d'água há nos oceanos, quantos grãos de areia há em todas as praias, quantas folhas de todas as árvores no mundo, quantas letras em todos os livros e computadores da terra, tudo isto multiplicado por milhões de séculos não é nada em comparação da eternidade.  As mudanças são próprias da nossa condição presente; a imutabilidade está ligada ao nosso destino futuro. Aqui, as horas seguem-se umas às outras, sem se ajuntarem; lá, tudo é invariável e permanente. Nenhuma mudança há de temer no Céu; nenhuma mudança a esperar no inferno. Há uma coisa terrível na eternidade infeliz: assim como há a eternidade do sofrimento, há também o sofrimento da eternidade. A esperança de acabar um dia o sofrimento, não deixa de ser um alívio. Pois bem, no inferno não há esta esperança.

Caríssimos, para terminar, quero fazer uma pergunta. Não há outra alternativa: um dia cairei na eternidade. Qual será a minha eternidade? Ainda bem que só depende de mim! E não posso esquecer nunca : há um só passo entre mim e a eternidade. Pelo que acabamos de meditar devemos concluir que, em se tratando de eternidade, todo cuidado é pouco. E não esqueçamos mais uma verdade: não se pode voltar atrás. "A vós que sois meus amigos, disse Jesus, quero dizer que não deveis temer aqueles que só podem tirar a vida corporal e nada mais podem fazer; direi a quem deveis temer: temei Aquele que tem poder de tirar a vida e depois lançar no inferno o corpo e a alma".


quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

TUDO É DO CRISTÃO, MAS ELE MESMO É DE JESUS CRISTO - ARTIGO 17

LEITURA MEDITADA


"Todas as coisas são vossas, ou seja Paulo, ou seja Apolo, ou seja Cefas, ou seja o mundo, ou seja a vida, ou seja a morte ou sejam as coisas presentes, ou sejam as futuras; tudo é vosso; mas vós (sois) de Cristo, e Cristo de Deus" (1 Coríntios. III, 22 e 23).


Estas palavras mostram-nos, no cristão, a mais gloriosa realeza e a mais nobre servidão. Tudo é seu: mas ele mesmo é de Jesus Cristo.
   1 - Tudo é meu. - Quando Deus me adotou, na fonte do batismo, revestiu-me de uma admirável realeza, dizendo-me, pela boca do grande Apóstolo: Meu filho, tudo é teu: todas as coisas são vossas. Que imenso horizonte se descobre, aqui, aos olhos da minha fé! Desde o momento em que sou filho de Deus, tudo me pertence: em primeiro lugar, a Igreja, representada pelos homens apostólicos, ou Paulo, ou Apolo, ou Cefas. Sim, a Igreja é minha; a Igreja, com o esplendor dos seus mistérios, com as águas vivas de seus Sacramentos, a sua nuvem de mártires, ou testemunhas, de protetores e de modelos; com os seus tesouros de graças, verdadeiramente inesgotáveis. Os trabalhos dos Apóstolos e dos seus sucessores, a sua vida, a sua morte: tudo o que é da Igreja, é meu. Todos os seus ministros, todos os meios de santificação de que dispõe, não me pertencem menos que a luz e o orvalho do céu. Que cuidado devo ter em  aproveitar-me de tamanho tesouro! Uma alma ingrata não pode meditar, sem terror, estas palavras do Apóstolo: "A terra que absorve a chuva que cai muitas vezes sobre ela, e produz erva proveitosa a quem a cultiva, recebe a bênção de Deus. Mas, se ela produz espinhos e abrolhos, é reprovada e está perto da maldição, e o seu fim é a queima" (Hebreus VI, 7 e 8).

Mas, se a Igreja é minha, e o mundo é da Igreja, é, por conseguinte, meu o mundo, ou seja todas as coisas criadas, ou o mundo. Oh! quantas vozes me dão as criaturas, para me incitar a amar o meu Deus! Como se doem e gemem, quando faço violência à sua natureza, desviando-as do seu fim, empregando em ofender a Deus, o que me é dado para ajudar-me a servi-Lo!

A vida é minha, ou a vida: sim, a vida, com todas as suas vicissitudes, tristezas, alegrias, dias belos e dias sombrios, tribulações e consolações. Diz a Sagrada Escritura que todas as coisas contribuem para o bem daqueles que amam ao Senhor (Cf. Romanos. VIII, 28): sim, a vida, que o Filho de Deus veio trazer à terra: Eu vim para que tenham a vida; e tenham-na com abundância" (S. João. X, 10). E não é Ele mesmo a vida?; ora, Jesus pertence-me: seu Pai deu-mo; Ele mesmo se deu, e se dá, ainda, a mim todos os dias, na qualidade de pão vivo e princípio de vida: "Eu sou o pão vivo que dá a vida aos homens" (S. João, VI, 48 e 51).

A morte é minha, ou a morte. Caríssimos, é verdade que não posso evitá-la, mas posso pôr-me em estado, não só de não a temer, mas, também, de a desejar, como dizia São Paulo: "Tenho o desejo de estar desatado e estar com Cristo" (Filipenses, I, 23). Desde que o meu Salvador venceu a morte, só de mim depende fazê-la minha serva, e tirar dela, grande utilidade; posso constrangê-la a abrir-me as portas da prisão, e a introduzir-me no Céu.

Tudo é, pois, meu: o futuro, assim como o presente; o bem, que Deus me faz, é um penhor seguro do que me prepara. 

   2 - Sou de Jesus Cristo.  - Sou de Jesus Cristo, como preço da sua paixão e morte. Jesus fez a aquisição de todo o meu ser, entregando-se a si mesmo por mim. Não sou de mim mesmo; como custei caro ao meu amável Redentor! Pagando o meu resgate, e incorporando-me em si, pelo batismo, Jesus quis ter mais uma inteligência, para contemplar a seu Pai adorável, mais uma vontade, para O seguir com amor, mais um coração, para o amar, mais uma boca, para cantar eternamente os seus louvores. Ser de Jesus Cristo é o meu título de nobreza. Mas cumpre não esquecer que  - Nobreza, obriga. Para ser de Jesus Cristo, é necessário ter o seu Espírito: "Se alguém não tem o Espírito de Cristo, este não é d'Ele" (Romanos VIII, 9).

Terminemos com Santo Ambrósio: "Os homens do mundo têm tantos senhores como paixões. A luxúria vem, e diz: Sois meu, porque cobiçais os prazeres da carne. A avareza vem, e diz: Sois meu; o ouro e a prata, que possuís, são o preço da vossa liberdade. Vêm todos os vícios, e cada um diz: Sois meu. Não pode ser inteiramente de Jesus Cristo, senão aquele que está livre de todo o apego culpável, e mostra sempre, com o seu procedimento, que é servo deste adorável Senhor".

Sou vosso, ó Jesus: isto explica os cuidados paternais da vossa Providência a meu respeito e nisto fundo a esperança da minha salvação. E poderia eu perder-me nas vossas mãos? Não, Senhor; e, salvando-me, será um bem vosso que salvareis. Arrependo-me e espero vossa misericórdia, ó Jesus, por tantas e tantas vezes que ousei dispor de mim, em detrimento dos vossos direitos mais incontestáveis: usando do meu espírito, do meu coração, do meu corpo, da minha saúde, do meu tempo, como se tudo isto me pertencesse; e que uso, meu Deus, fiz eu de tudo isto? Mas, pela vossa graça, tomo a resolução de combater, energicamente, tudo o que pode separar-me de Vós. Amém!


quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

MEIOS SOBRENATURAIS CONCEDIDOS AO HOMEM PARA ALCANÇAR O SEU FIM ÚLTIMO

LEITURA MEDITADA - Dia 3 de fevereiro

Deus, que é Pai, concede-nos a sua graça e dá-Se a si mesmo ao homem. Quis ser o nosso fim e também o Meio para chegarmos a Ele. "Amou-nos tanto, que nos deu o seu Filho unigênito" (João, III, 16).

   1º - Deus concede a sua graça. São todos os auxílios que nos são dados, pelos merecimentos de Jesus Cristo, para nos conduzirem à salvação: graças exteriores: como a palavra de Deus, os exemplos do Salvador e dos Santos, as ocasiões favoráveis que nos são oferecidas para nos santificarmos; tudo o que, fora de nós, pode nos desviar-nos do mal, e induzir-nos ao bem.

  Graças interiores: graça habitual, graça atual; luz que nos ilumina, moção interior que nos move. Temores, desejos, impressões salutares; tudo o que nos desapega das criaturas e de nós mesmos, para nos unir a Deus; tudo o que nos mantém na prática da virtude, e nos ajuda a vencer as tentações. E, meditando sobre a graça, podemos pensar no que Jesus disse a mulher samaritana: "Ó se tu conhecesses o dom de Deus!" (Jo. IV, 10). Na verdade, a graça é um bem, que excede, sem comparação, todos os tesouros do mundo; e esta graça é oferecida a todos, sob tantas formas diversas! Deus concede-ma com prodigalidade: os  exercícios de piedade todos os dias, para muitos há a possibilidade da santa missa também todos os dias, ou, ao menos, frequentemente; quase a todo momento, alguma luz da verdade, alguma santa inspiração. E qual tem sido minha correspondência? Receio muito, que Deus lance o mesmo anátema que a Saul: "Como tu rejeitaste a palavra do Senhor, o Senhor te rejeitou a ti; as graças e os favores novos, que eu te destinava, dei-os a outro melhor que tu" (1 Reis XV, 23 e 28). Caríssimos, pode alguém reconhecer-se infiel à graça, e não tremer, vendo este precioso dom passar de Heli a Samuel, de Saul a Davi, de Judas Iscariotes a S. Matias? Mas, Senhor, já que vos lembrais da vossa misericórdia, ainda quando estais irado (Habacuc, III, 2) suplico-Vos que me faleis de novo; o vosso servo escuta-Vos com um coração dócil.
   2º - Deus dá-se a si mesmo. - A liberalidade de Deus para com o homem chegou ao mais prodigioso excesso. Achou que era pouco ter-nos dado os Anjos para nossa guarda, e ter posto ao nosso serviço, as suas inumeráveis criaturas; quis, Ele que é o nosso fim, ser, também, o nosso meio.  "Deus amou-nos de tal modo que nos deu o seu Filho Unigênito" (Jo III, 16). Este filho adorável deu-se a si próprio: " (Tit. II, 14). Nascendo no presépio de Belém, fez-se nosso irmão; no Cenáculo, nosso alimento; no Calvário morrendo na cruz, fez-se nosso resgate; reinado no Céu dá-se-nos como nosso prêmio eterno.  E este dom máximo de si mesmo é justamente para nos facilitar a salvação, isto é, como meio de soberana eficácia.
Tendo a Jesus, que nos falta, para preenchermos todas as condições da salvação? É na verdade, a inefável misericórdia de Nosso Pai do Céu! Eis: O Eterno Pai diz-me: Toma o meu Filho, dou-to; o Filho diz: Toma-me, e oferece-me, por ti, a meu Pai. Meditemos nisto: sem Jesus Cristo, que valeriam as minhas adorações, as minhas ações de graças, as minhas orações, as minhas satisfações? Mas, quando uno o meu pensamento ao pensamento de Jesus Cristo, os meus afetos aos seus, as minhas fracas penitências às suas infinitas satisfações,  os testemunhos do meu respeito, do meu amor aos que Ele mesmo oferece a seu Eterno Pai, em seu nome, e em nome de todos os seus membros; quando uno a minha oração à sua, a voz do meu coração contrito à voz do seu sangue: é óbvio que o Pai fica satisfeito; e, assim, já não temo que rejeite as minhas homenagens e as minhas petições! Sou muito feliz em ter certeza que assim posso cobrir a minha soberba com a humildade do meu Salvador, as minhas revoltas com a sua obediência, as minhas culpas com a sua santidade, a minha vida abominável com a sua vida adorável! Assim, não obstante o meu nada e a minha profunda indignidade, posso desempenhar-me para com o meu Deus. Basta recorrer ao seu Filho; n'Ele encontro tudo o que me falta a mim.

Caríssimos, tomemos a resolução de nos unirmos muitas vezes, a Jesus Cristo, à sua intenção, à sua ação. Façamo-lo principalmente quando participarmos da Santa Missa. Amém!

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

COMO DEVEMOS SERVIR-NOS DAS CRIATURAS, PARA QUE ELAS NOS CONDUZAM AO NOSSO FIM


LEITURA MEDITADA - 2 de fevereiro

Devemos usar das criaturas tanto quanto elas nos conduzam ao nosso fim último. "Foram-nos dadas todas as coisas, diz S. Bernardo, para nosso bem; mas contribuem, para isso, de diverso modo. Umas são destinadas a conservar-nos a vida e as forças; outras, a instruir-nos; outras, a dar-nos descanso; outras, finalmente, a corrigir-nos e a provar-nos". A sabedoria consiste em usar de cada uma, segundo o desígnio de Deus, e conforme a nossa necessidade presente. Apresentam-se, aqui, duas regras:

   1ª - Tratando-se das criaturas de que não poderemos prescindir para comida, habitação, vestuário, descanso: limitemo-nos ao necessário, e recebamo-lo com agradecimento, sacrificando, generosamente, tudo o que é supérfluo. Estas mesmas espécies de criaturas dão-nos este conselho: "Recebei, restituí, temei. -  Recebei o benefício, que vos faço; agradecei-o àquele Senhor, por quem e para quem vo-lo faço, o que vale tanto como restituir-lho; temei a conta que haveis de dar do uso, que dele tiverdes feito" (Ricardo de São Vítor). Não podemos deixar de ver o céu e a terra, os homens, que nos rodeiam; de ouvir milhares de coisas, tristes ou agradáveis; mas há, em todas, algum lado por onde as poderemos encarar, para nos elevarmos por elas a Deus. É o que os Santos chamam: ver a Deus nas criaturas.

   2ª - Quanto àquelas, cujo uso se deixa ao nosso arbítrio, como adotar um gênero de vida, ou abraçar outro, buscar a fortuna, a reputação, ou não fazer nenhum caso disto, etc; a regra que nos dá Santo Inácio de Loiola, é pormo-nos indiferentes para com estas coisas, enquanto não entra a consideração do serviço de Deus e do nosso eterno destino; não buscando, não repelindo por si mesma, coisas alguma criada, mas, unicamente segundo nos aproxima ou afasta do nosso fim. Não há nada mais justo. Não tem Deus, sobre nós, um domínio absoluto e universal? Sem esta indiferença, subtraio-me a esse supremo domínio, dispondo dos meus afetos segundo a minha própria vontade, e não segundo a Sua. Que é o que me leva para Deus? Os exercícios de piedade, o recolhimento de espírito; pois quero aplicar-me a eles. Que é o que me afasta de Deus, ou me impede de ser todo dele? A distração, a imperfeição voluntária, certa paixão, que me domina; é isso o que convém que eu combata intrepidamente. Nosso Senhor Jesus Cristo disse que: "O reino dos céus sofre violência e só os violentos poderão arrebatá-lo".

Devemos louvar a Deus em nome das criaturas: "Quão magníficas são, Senhor, as tuas obras! Quão profundos são os teus pensamentos! O homem insensato não conhece, e o néscio não compreende estas coisas" (Salmo 91, 6 e 7). "Obras do Senhor, bendizei todas o Senhor; louvai-O e exaltai-O por todos os séculos" (Daniel, III, 57)

Tomemos a resolução de não nos prendermos senão a Deus: só Deus, somente Deus: nos meus temores, nos meus desejos.Amém!

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

FIM DO HOMEM


LEITURA ESPIRITUAL MEDITADA: Dia 1 de fevereiro

   Para que fim Deus criou o homem: Para conhecer, amar e servir a Deus aqui na terra e assim ser feliz depois para sempre no céu. 

   Deus é o meu princípio; é o meu fim e é a minha recompensa. 

   1- Deus, meu princípio: Percorrendo toda a cadeia dos seres, chego ao primeiro elo, chego a Deus. Deus é o Ser que existe por Si mesmo e é eterno: não teve princípio, nem terá fim. Ser único antes da criação. Devo adorá-Lo nessa eternidade que precedeu o mundo. Mas Deus é a própria Bondade. A Sagrada Escritura diz que Deus nos amou primeiro, porque nos amou sempre, antes mesmo de ter criado o mundo. E assim, de preferência a tantos outros que poderiam ter vindo ao mundo e nunca virão, amava-me e me criou. E como não tenho em mim a razão de minha existência, Deus ao criar-me continua me sustentando no ser. Seria como uma criação continuada. Deus é meu Pai. "Pai Nosso que está no Céu". Ah! a quanto reconhecimento e amor estava eu obrigado! Ouço, no entanto o Divino Espírito Santo dizer-me: "Abandonaste a Deus que te criou, e esqueceste-te de teu Senhor e Criador" (Deut.XXXII, 18). 

   2 - Deus é o meu fim. Assim como, sendo Deus a própria Bondade, amou-me deste toda eternidade e depois criou-me, assim também sendo a própria Sabedoria, teve um fim, ao dar-me a vida: conhecê-Lo, amá-Lo e servir a Ele. Isto porque Deus sabia que o homem só poderia ser feliz cumprindo esta finalidade. Se, preencho este fim, tudo está salvo para mim. Fim único, fim necessário, fim glorioso, fim de todo o meu ser. Sou de Deus em todos os tempos, em todos os lugares. Tudo o que sou e tudo o que faço deve ser de Deus. 

   3 - Deus é a minha recompensa. Como servi-Lo é o meu fim próximo, assim possuí-Lo é o meu fim último. A minha existência na terra só começou; há de completar-se no Céu. "Para mim é bom unir-me a Deus!" Salmo 72, 28). 

   Resumindo: Sou todo de Deus, sou todo para Deus e Deus é tudo para mim.

   a) Sou todo de Deus. Se tudo em mim é d'Ele, tudo em mim lhe pertence. Sou mais de Deus que o súdito do seu soberano, o filho de seu pai, o painel do pintor que o fez.

   b) Sou todo para Deus. O que sou, é obra sua; deu-me o que possuo, para lhe render a obediência que lhe devo. Que nobre é meu fim! Assemelha-me aos Anjos, a Jesus Cristo, ao próprio Deus, que nada faz que não seja para sua glória.

   c) Deus é tudo para mim. Quis que a minha felicidade estivesse vinculada ao seu serviço: felicidade eterna, felicidade presente. Quero ser feliz; sei onde está a felicidade; como tenho eu podido obstinar-me, tanto tempo, em buscá-la onde sei que ela não está? Deus é meu Pai; quero ser feliz com Ele agora e depois para sempre no Céu!

EXEMPLO

   São Francisco de Assis topou certa vez um pedreiro que trabalhava, e amistosamente o interrogou: "Que fazeis, meu irmão?" - Faço paredes da manhã à noite". - "E por que fazeis paredes?" - "Ora essa! para ganhar dinheiro!" - "E para que quereis ganhar dinheiro?" - E o outro meio aborrecido: "Para comprar pão e viver", - "Bem, prossegue São Francisco; e para que fim viveis?" -  Desta vez o pedreiro não sabia o que responder; mas São Francisco aproveitou para explicar para aquele homem o fim para qual estamos aqui na terra. Vamos morrer e não estará tudo acabado, como acontece com os irracionais. Temos uma alma e Jesus Cristo disse: "Que adianta o homem ganhar o mundo todo se vier a perder a sua alma?"