segunda-feira, 2 de abril de 2018

O INFERNO




 Nossa alma é imortal. Com o último suspiro cessa o TEMPO DA PROVA e se entra no ESTADO DO TERMO.  Agora é o tempo de semear; depois da morte isto não é mais possível: o que o homem semear, isto ele vai colher. Criados por Deus, caminhamos para Deus. Durante esta vida devemos decidir: queremos estar unidos a Deus por meio da graça? Queremos estar separados de Deus pelo pecado mortal? Perseverando no primeiro estado, teremos, depois da morte o CÉU; perseverando no segundo estado, teremos o INFERNO (alhures já expliquei um pouco sobre o PURGATÓRIO). O prêmio e o castigo são eternos. Esta eternidade é afirmada clara e repetidamente por Nosso Senhor Jesus Cristo.

Vamos explicá-lo à luz do amor de Deus. Caríssimos, Deus nos amou e nos ama infinitamente, e as provas do seu infinito amor são abundantes tanto no campo natural como no sobrenatural. Deus nos criou, nos remiu e nos santifica para nos unir a Ele. Na verdade, Deus é infinitamente feliz em si mesmo, mas sendo a própria Bondade e o Sumo Bem, nos criou para Ele, pois só assim, poderíamos ser felizes. Deus quer a união de nossos corações e a união sobrenatural das almas com Ele neste mundo, para começar já aqui no mundo a união que será perfeita no céu. S. Paulo diz que tudo é nosso, mas nós somos de Jesus Cristo. Todas as coisas criadas com suas grandiosidades e belezas,  a Igreja com seus sacramentos e apostolado, pela eficácia do Sangue de Jesus Cristo, tudo isto nos conduz a Deus que é nosso último fim.

Mas Deus não nos quer forçados no Céu. Isto não coaduna com a Bondade e Perfeição divinas. Deus quer que sejamos felizes amando-O e servindo-O livremente e de boa vontade, isto é, por amor. Daí Ele respeita a nossa liberdade. Deus quer uma adoração livre e consciente.

É imensa e monstruosa a nossa estupidez quando nos revoltamos contra Deus e nos voltamos para as criaturas buscando em vão o que possa encher o nosso coração. Se Deus fez o nosso coração só para Ele é porque só Ele o pode tornar inteira e eternamente feliz; e assim, é claro,  estaremos sempre inquietos, se não repousarmos em Deus.

Devemos dizer que é, em certo sentido, infinita a gravidade de nossos pecados, porque esta se mede pela dignidade da pessoa ofendida. E, aqui se ofende a Deus de infinita grandeza. Daí é infinita a nossa culpabilidade, quando nos revoltamos contra o Onipotente e nos voltamos para as criaturas. Ora, o inferno não pode ser infinito, porque é uma criatura. A justiça divina, torna-o, no entanto, em certo sentido INFINITO, pela ETERNIDADE. A justiça exige que depois do período da misericórdia, haja proporção entre o pecado e o castigo.

Caríssimos, é inominável a nossa ingratidão para com Deus quando nos revoltamos contra Ele. Deus nos deu o que possuímos, elevou-nos à dignidade de filhos Seus, divinizou-nos, morreu por nós na cruz, cumulou-nos de graças e quis ser o nosso alimento pela Santíssima Eucaristia. E até o último instante nos dá a graça suficiente de salvação. Deus quer a salvação de todos, mas, como dissemos, respeita a liberdade. E quem se condena, abusa desta liberdade, e prefere morrer no pecado rejeitando até ao último suspiro a graça suficiente que Deus lhe dá. Por culpa do pecador, a graça que era de si suficiente, torna-se ineficaz. Portanto, quem morre em pecado mortal opõe a um amor infinito, uma ingratidão infinita. Assim, se os incrédulos meditassem estas duas coisas: o infinito amor divino de um lado, e de outro a infinita ingratidão humana, sentiriam morrer nos lábios qualquer objeção contra o inferno eterno.

Acontece que após a morte, isto é, já na eternidade, a outra vida já não nos oferece a possibilidade da emenda do pecado ou a aquisição de novos méritos. A união ou a separação de Deus será definitiva. Na oitava estação da Via Sacra meditamos naquelas palavras de Jesus às santas mulheres que batiam no peito e O lamentavam: "Filhas de Jerusalém, não choreis sobre mim, mas chorai sobre vós mesmas e sobre vossos filhos. Porque eis que virá tempo em que se dirá: Ditosas as estéreis, e ditosos os seios que não geraram e os peitos que não amamentaram. Então começarão os homens a dizer aos montes: Caí sobre nós; e aos outeiros: Cobri-nos". E também S. João no Apocalipse, falando sobre o fim do mundo diz: "E diziam aos montes e aos rochedos: caí sobre nós, escondei-nos da face daquele que está sentado sobre o trono e da ira do Cordeiro, porque chegou o grande dia da ira de ambos" (Apocalipse VI, 16). Na verdade, os condenados preferirão ser aniquilados. Mas a Justiça divina, da mesma forma que dará a recompensa aos bons: "Vinde benditos de meu Pai, possuí o reino que vos foi preparado desde o início do mundo" ( S. Mateus XXV, 34); também dará o castigo aos maus: "Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para os demônios e seus seguidores"(S. Mateus XXV, 41).

O homem deve estar unido a Deus em razão da ordem natural e sobrenatural. O inferno, ao contrário, é a eterna e definitiva separação de Deus. Se fosse  infinitamente maiores as penas que sofrem os condenados mas não estivessem sujeitos à pena do dano, não existiria o inferno. Mas agora isto não é compreendido. Os grandes santos compreendem-no mais um pouco. Mas o pecador que se engolfa nas coisas sensíveis e perecedoras, como não pensa em Deus, não chega a compreender como o verdadeiro inferno possa consistir na separação do Senhor. A perda de Deus será para o condenado o seu verme roedor e principal tormento.

Mas Jesus Cristo fala também da pena dos sentidos. Já que os condenados enquanto estavam aqui no mundo, pecaram não só se afastando de Deus como também fazendo uso de seu corpo para se voltarem para as criaturas, é justo que sejam castigados também desta maneira, isto é, nos seus sentidos pelo tormento do fogo e outros de acordo com os pecados cometidos.

Caríssimos, se o pensamento do inferno e das suas penas deve despertar em nós sentimentos de temor, nem por isto devemos chegar ao desespero. Sigamos o conselho do primeiro Papa: "Irmãos, ponde cada vez maior cuidado em tornardes certa a vossa vocação e eleição por meio das boas obras, porque, fazendo isto, não pecareis jamais" (2 Pedro I, 10). Amém!


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