quarta-feira, 31 de agosto de 2016

AS PALAVRAS DA CONSAGRAÇÃO NA MISSA

 Tenho recebido por e-emails algumas perguntas sobre as palavras da Consagração na Missa, ou seja qual seria a forma? Quais as palavras essenciais? E questões sobre o "pro multis", traduzido na Missa Nova "por todos". 
 Neste post trataremos das palavras que constituem a "Forma". 

 Primeira Consagração, isto é, a do pão:
 As palavras da Consagração do pão são transcritas literalmente dos Evangelhos sinópticos (São Mateus, São Marcos e São Lucas).São somente as palavras essenciais. São João não fala da instituição da Eucaristia; fala, porém, da promessa da Eucaristia no capítulo VI.
Cotejemos os textos bíblicos:
São Mateus, XXVI, 26: "Accipite et comedite: Hoc est corpus meum". "Tomai e comei: Isto é o meu corpo".
São Marcos, XIV, 22: "Sumite, hoc est corpus meum", "Tomai, isto é o meu corpo".
São Lucas, XXII, 19: "Hoc est corpus meum, quod pro vobis datur", "Isto é o meu corpo, que é dado por vós". 
São Paulo, 1ª Coríntios, XI, 24: "Accipite et manducate: hoc est corpus meum, quod pro vobis tradetur", "Tomai e comei: isto é o meu corpo, que será entregue por vós".

  Vemos que a Santa Igreja tomou destes autores sagrados para a forma da consagração do pão apenas as palavras essenciais: "Hoc est (enim) corpus meum". Só acrescentou a partícula "enim". As palavra de São Paulo: "Accipite et manducate" vêm antes das palavras propriamente da Consagração do pão. As palavras de São Lucas: "quod pro vobis datur"; e as de São Paulo: "quod pro vobis tradetur" simplesmente são omitidas.
Apenas devemos observar que foi acrescentada a conjunção "enim" (=pois) que serve para situar a fórmula consecratória dentro do relato da Ceia. Na verdade, como vimos, tal conjunção não se encontra no Evangelho. Mas São Mateus a emprega na consagração do vinho. Foi, certamente, por analogia que ela passou também para a consagração do pão. Mas, desde já, fique claro que esta conjunção não faz parte das palavras essenciais da Consagração. Isto significa que, se não for pronunciada, isto não invalida a Consagração. 

Segunda Consagração, isto é, a do vinho:
A fórmula da consagração do vinho é uma combinação dos textos bíblicos relativos à Última Ceia e não corresponde literalmente a nenhum deles tomado separadamente. Cotejemos os três Evangelhos: 
   
São Mateus, XXVI, 28: "Hic est enim sanguis meus novi testamenti, qui  pro multis effundetur in remissionem peccatorum". "Isto é, pois, o meu sangue da nova aliança, que será derramado por muitos, para remissão dos pecados".

São Marcos, XIV, 24: "Hic est sanguis meus novi testamenti, qui pro multis effundetur". "Isto é o meu sangue da nova aliança, que será derramado por muitos". 

São Lucas, XXII, 20: "Hic est calix novum testamentum in sanguine meo, qui pro vobis fundetur". "Este cálice é a nova aliança em meu sangue, que será derramado por vós".

Observação: "Pro multis" é traduzido - "por muitos", "em prol de muitos", "em benefício de muitos". "Testamentum" pode ser traduzido por Testamento ou por Aliança, pois, são sinônimos
   

São Paulo na sua 1ª Epístola aos Coríntios XI, 23-25 diz: "Porque eu recebi do Senhor o que também vos ensinei a vós, que o Senhor Jesus, na noite em que foi entregue, tomou o pão e, dando graças, o partiu e disse: Tomai e comei; isto é o meu corpo, que será entregue por vós; fazei isto em memória de mim. Igualmente também, depois de ter ceado, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é o novo testamento no meu sangue; fazei isto em memória de mim todas as vezes que o beberdes". 
   Vemos que, no que se refere às palavras essenciais da consagração do vinho, São Paulo coincide com o texto de São Lucas quase que literalmente: "Hic calix novum testamentum est in meo sanguine" "Este cálice é a nova aliança em meu sangue". São Paulo, como podemos notar, não traz as palavras referidas por São Lucas: "qui pro vobis fundetur", "que será derramado por vós". 

Isto posto, comparemos agora a fórmula litúrgica (é claro, da Santa Missa de Sempre):

     "Hic est enim calix sanguinis mei novi et aeterni testamenti: mysterium fidei: qui pro vobis et pro multis effundetur in remissionem peccatorum".
       
       Em Português: "Este é, pois, o cálice do meu sangue, da nova e eterna aliança: mistério de fé: que será derramado em prol de vós e em prol de muitos em remissão dos pecados". 

Vê-se claramente que a Santa Madre Igreja preferiu o texto de São Lucas e São Paulo, combinando-o com o de São Mateus e São Marcos. Além disso, fez dois acréscimos:
         a) O adjetivo eterno: "cálice do meu sangue, do novo e eterno Testamento";
         b) A expressão mistério da fé
 Agora limito-me a observar que estes dois acréscimos não alteram a forma do sacramento. 
Foi intencionalmente que a Igreja preferiu o texto de São Lucas e São Paulo. De fato, é só nestes dois autores sagrados que aparece a palavra cálice, e ela tem uma significação técnica, pois Nosso Senhor Jesus Cristo, duas vezes pelo menos, a empregou para indicar o Sacrifício da Cruz:
     "Podeis beber o cálice que eu hei de beber?" (São Marcos, X, 38).
     "Pai, se for possível, passe de mim este cálice" (São Mateus, XXVI, 39). 
  O Catecismo Romano também assim explica: "Quando, pois, se diz: 'Este é o Cálice do Meu Sangue' - cumpre entender: 'Este é o Meu Sangue, que se contém neste cálice'. Como aqui se consagra sangue, para ser bebida, é oportuno e acertado fazer-se menção do cálice. Sangue como tal não lembraria bastante a ideia de bebida, se não estivesse colocado num recipiente". 

  Por último, observemos que a Igreja ainda acrescentou ao "em benefício de vós", de São Lucas, o "Em benefício de muitos" de São Mateus e São Marcos.

  CONCLUINDO, podemos agora reproduzir a fórmula da Consagração do vinho, destacando o que pertence a cada autor sagrado. Vou dar em latim, visto como a tradução de todas as partes já está acima:

  "Hic est enim (São Mateus) calix (São Lucas e São Paulo) sanguinis mei (São Mateus e São Marcos)novi (São Mateus e São Marcos) et aeterni (a Igreja) testamenti (São Mateus e São Marcos): mysterium fidei (a Igreja): qui pro vobis ( São Lucas ) et pro multis (São Mateus e São Marcos) effundetur (São Mateus e São Marcos) in remissionem peccatorum" (São Mateus).


VERDADEIRA ARGUMENTAÇÃO DE SÃO PAULO



   A interpretação protestante que quer ver neste texto - o homem é justificado pela fé sem as obras da lei - uma prova de que as nossas obras, a observância dos mandamentos não contribuem para a justificação do homem, está completamente em desacordo com a argumentação apresentada por São Paulo. São Paulo apresenta a fé em Cristo, a Religião de Cristo, como remédio contra o pecado. Para prová-lo, deplora aqueles crimes cometidos pelos pagãos, principalmente a idolatria que é contra o 1º mandamento, os pecados de impureza que são contra o 6º, os homicídios que são contra o 5º, a desobediência aos pais que é contra o 4º São Paulo, o que mais deplora nos judeus é a falta de obediência ao 7º, ao 6º e ao 1º mandamento: Tu que pregas que se não deve furtar, furtas; tu que dizes que se não deve cometer adultério, e cometes; tu que abominas os ídolos, sacrilegamente os adoras (Romanos II-21 e 22). E se destes crimes cometidos pelos gentios e pelos judeus, tira a conclusão de que eles não estão justificados diante de Deus, o que se segue daí é que a observância dos 10 mandamentos é necessária para a justificação do homem. Se ele apresenta, portanto, a fé em Cristo como realizadora da justificação do homem, é claro que não está dispensando o homem de observar estes mandamentos para viver como um justo diante de Deus; está mostrando a fé em Cristo como o caminho para melhor observá-los. O remédio para a depravação não seria de forma alguma Deus desobrigar o homem da prática dos 10 mandamentos; isto seria levá-lo a uma depravação ainda maior, a saber: antigamente se fazia o mal, desobedecendo a Deus; agora se faria o mal, sem medo algum de desagradar-lhe, porque Ele, dando-se por vencido, teria desistido de exigir do homem a prática do bem, exigindo somente a fé, e não mais a observância do Decálogo, como meio para obter-se a salvação. Não seria um remédio para o pecado; seria piorar horrivelmente a situação moral do mundo.

   A fé em Cristo é o remédio para o pecado, porque, embora Cristo exija a observância dos 10 mandamentos com maior perfeição do que antigamente (Sede vós, logo, perfeitos, como também vosso Pai Celestial é perfeito - Mateus V, 48), Ele nos orienta admiravelmente para a verdadeira santificação, ensinando-nos a não confiar nas nossas próprias forças e a implorar continuamente o auxílio da sua graça (Sem mim não podeis fazer nada - João XV-5); Ele, cheio de graça, de cuja plenitude todos nós recebemos, nos veio distribuir esta vida da graça mais abundantemente: Eu vim para elas terem vida, a para a terem em maior abundância (João X-10).

   É neste sentido que o homem é justificado, que a Humanidade toma o caminho da justiça, da santificação, pela fé em Cristo e sem as obras da lei, isto é, sem mais obrigação daquelas cerimônias e prescrições do Antigo Testamento, que serviram apenas de preparação para a justiça cristã que nos foi trazida pelo Evangelho.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

UM PARÊNTESIS PARA ENTENDER ARGUMENTAÇÃO DE S. PAULO



   Para bem entendermos a argumentação de São Paulo, precisamos fazer um confronto entre o pensamento paulino e a mentalidade dos judeus. Estes estavam muito envaidecidos, julgando-se superiores aos gentios por causa da LEI, que lhes fora dada por Deus e também muito confiados em suas próprias forças para a prática da virtude. Mas não sabiam estes judeus de uma coisa muito importante: é que a lei nada adianta como remédio do pecado, se Deus não der a sua graça, sem a qual não é possível observá-la. A lei é na verdade, santa; e o mandamento é santo, e justo, e bom (Romanos VII-12), porque é a expressão da vontade de Deus. Mas a lei, por si só, não resolve o problema do homem, porque o que a lei nos traz é o conhecimento do que é pecado e do que não é: Pela lei é que vem o conhecimento do pecado (Romanos III-20); se a lei que foi dada pudesse VIVIFICAR,  a justiça, na verdade, seria pela lei (Gálatas III-21). O problema do homem não é somente saber o que é pecado e o que não é, o seu maior problema é este: quem o vivificará na luta contra o mal? quem lhe dará  forças para viver santamente, para evitar o pecado? Quem lhe dá forças para isto é a graça de Deus. A lei é espiritual, mas eu sou carnal (Romanos VII-14). Eu me deleito na lei de Deus, segundo o homem interior; mas sinto nos meus membros outra lei que repugna à lei do meu espírito e que me faz cativo na lei do pecado, que está nos meus membros. Infeliz homem eu, quem me livrará do corpo desta morte? A graça de Deus por Jesus Cristo Nosso Senhor (Romanos VII-22 a 25).

   A graça de Deus, tinham-na os judeus e os gentios e tinham suficiente para a salvação, pois Deus quer que todos os homens se salvem (1ª Timóteo II-4). E não sabiam eles que esta graça que Deus lhes concedia era graça de Cristo (veja-se Atos XV-10 e 11), que Deus lhes dava por antecipação, em virtude dos futuros merecimentos do Salvador.

   Mas, apesar de ter sido oferecida a todos esta graça, apesar de terem podido, com o auxílio desta graça, os gentios observar a lei natural, e os judeus, a lei mosaica; na realidade estiveram muitíssimo longe de observá-las como deviam. E a conclusão natural disto é que sejam substituídas a lei natural e a lei mosaica, que pela ingratidão e malícia dos homens vieram a dar num grande fracasso, sejam substituídas pela fé em Cristo, pela Religião de Cristo, que nos vem trazer a graça em muito maior abundância: Onde abundou o pecado, superabundou a graça (Romanos V-20). De forma que, segundo os desígnios altíssimos de Deus, a lei mosaica serviu para mostrar aos homens a necessidade imensa em que o mundo se achava de receber a Cristo, a sua doutrina e a sua graça. E é neste sentido que diz São Paulo: A lei nos serviu de PEDAGOGO que nos conduziu a Cristo, para sermos justificados pela fé. Mas depois que veio a fé, já não estamos debaixo do pedagogo (Gálatas III-24 e 25). 

REATANDO O FIO DA ARGUMENTAÇÃO



   Fechando o parêntesis, voltamos à argumentação feita nos 3 primeiros capítulos da Epístola aos Romanos. São Paulo quer demonstrar como não é mais suficiente nem a lei natural, nem a lei mosaica, uma vez que tanto sob o regime de uma como de outra, os homens pecaram da maneira mais desastrosa. Já mostrou, no 1º capítulo, como os gentios, que estavam sob a lei natural, caíram nos mais abomináveis pecados. 

   No capítulo 2º chega a vez dos judeus. Estão eles muito orgulhosos de sua lei, falando com bastante desprezo a respeito dos gentios que são pecadores, e no entanto, são eles, judeus, pecadores da mesma forma: Assim diz o 1º versículo: És inescusável tu, ó homem qualquer que julgas; porque no mesmo em julgas a outro, a ti mesmo te condenas, porque fazes essas mesmas coisas que julgas (Romanos II-1).

   São Paulo se baseia neste princípio de que, seja qual for a lei sob a qual o homem se encontre, ou lei natural, ou lei mosaica, ou lei de Cristo, o que é fato é que não são justos diante de Deus aqueles que ouvem a lei, ou que leem as palavras da lei, mas os que cumprem o que a lei manda: Não são justos diante de Deus os que ouvem a lei mas os que fazem o que manda a lei, serão justificados (Romanos II-113), porque Deus há de retribuir a cada um segundo as suas obras (Romanos II-6) e não há para com Deus acepção de pessoas (Romanos II-11). Basta este princípio estabelecido por São Paulo para nos mostrar que erram os protestantes atribuindo ao Apóstolo a doutrina de que o homem se justifica pela fé somente.

   Estabelecido o princípio de que são justos os que cumprem a lei, não os que a ouvem, São Paulo tira a conclusão de que os judeus já não são justos, nem agradáveis a Deus, estão fora do caminho da salvação. Ele fala ao judeu de seu tempo: Se tu que tens o sobrenome de judeu e repousas sobra a lei, e te glorias em Deus, e sabes a sua vontade, e distingues o que é mais proveitoso, instruído pela lei, tu mesmo que presumes ser o guia dos cegos, o farol daqueles que estão em trevas, o doutor dos ignorantes, o mestre das crianças, que tens a regra da ciência e da verdade na lei; tu, pois, que a outro ensinas, não te ensinas a ti mesmo; tu que pregas que se não deve furtar, furtas; tu que dizes que se não deve cometer adultério, o cometes; tu que abominas os ídolos, sacrilegamente os adoras; tu que te glorias na lei, desonras a Deus pela transgressão da lei (Romanos II-17 a 224). 


   Depois de mostrar o fracasso de ambos os lados, da parte dos gentios e dos judeus, depois de resolver uma objeção sobre as vantagens da circuncisão até aquele tempo, São Paulo vai enfeixar, no capítulo 3º, o seu argumento: Já que temos provado que judeus e gentios estão todos debaixo do pecado, assim como está escrito: Não há, pois, nenhum justo; não há quem entenda, não há quem busque a Deus. Todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis, não há quem faça bem, nem sequer um. A garganta deles é um sepulcro aberto; com as suas línguas fabricaram enganos; um veneno de áspides se encobre debaixo dos lábios deles, cuja boca está cheia de maldição e de amargura; os pés deles são velozes para derramar sangue. A dor e a infelicidade se acha nos caminhos deles, e não conheceram o caminho da paz. Não há temor de Deus diante dos olhos deles (Romanos III-9 a 18).

   Alguns protestantes de hoje ainda não compreendem este texto, porque se mostram apegados ao erro de Lutero, o qual aí enxergava a prova de que a natureza do homem está depravada completamente pelo pecado, de tal modo que não possa haver nenhum homem justo. Aí não se diz que não pode haver justos na terra, mas sim que o mundo tinha degenerado de tal forma, que os justos praticamente haviam desaparecido, nos tempos que antecederam a vinda de Cristo. Não há nenhum - explica Santo Tomás que é um modo de falar por hipérbole, figura pela qual se procura exagerar para encarecer. Desta figura usamos frequentemente dizendo - não vejo nada - quando o que vemos é muito pouca coisa. Uma hipérbole usou São João quando disse: Muitas outras coisas, porém, há ainda que fez Jesus; as quais, se se escrevessem uma por uma, creio que NEM NO MUNDO TODO PODERIAM CABER os livros que delas se houvessem de escrever (João XXI-25) e os judeus, quando disseram a respeito de Jesus: eis aí vai após ele todo o mundo (João XII-19); todo o mundo, isto é, muita gente. 

   Que podem existir justos na terra, que havia um ou outro naquele tempo, isto se mostra em outros textos da Escritura: E José, seu esposo, como era JUSTO... (Mateus I-19). Para serdes filhos de vosso Pai que está nos céus, o qual faz nascer o sol sobre bons e maus, e vir chuva sobre JUSTOS e injustos (Mateus V-45). Eu não vim a chamar os JUSTOS, mas os pecadores (Mateus IX-13). O que recebe um JUSTO na qualidade de justo receberá a recompensa de justo (Mateus X-41). Herodes temia a João, sabendo que ele era varão JUSTO e santo (Marcos VI-20). Haverá maior júbilo no céu sobre um pecador que fizer penitência que sobre noventa e nove JUSTOS que não hão de mister penitência (Lucas XV-7). Havia, então em Jerusalém um homem chamado Simeão; e este home JUSTO e timorato esperava a consolação de Israel (Lucas II-25). O centurião Cornélio, homem JUSTO e temente a Deus... (Atos X-22).

   O caso de Cornélio é típico: era um gentio, não era circuncidado, nem observava a lei de Moisés, ainda não conhecia a Religião de Cristo e já é chamado justo. O que mostra que São Paulo fala de um modo geral. Em regra geral os gentios e os judeus, ou seja, todos os homens, não eram justos diante de Deus, mas esta regra geral tinha exceções. No meio da depravação geral, alguns cooperavam com a graça de Deus e a Ele eram agradáveis. 

REATANDO O FIO DA ARGUMENTAÇÃO



   Falando de maneira geral, a Humanidade toda está, ao tempo em que fala o Apóstolo São Paulo, no caminho do vício e da depravação. Nestas circunstâncias todos pecaram e todos estão necessitando de um socorro, de uma intervenção especial de Deus, que redunde na glória divina: Todos pecaram e necessitam da glória de Deus (Romanos III-23). Se todos pecaram, se todos estavam naquele estado de corrupção e de miséria, a justificação, a reconciliação que Cristo operou na cruz, não foi merecida pelas obras dos homens, foi realizada gratuitamente por mera bondade divina: tendo sido justificados GRATUITAMENTE por sua graça, pela redenção que tem em Jesus Cristo (Romanos III-24). 

   E desde que pecaram demasiadamente, tanto os judeus como os gentios, é preciso que se estabeleça uma nova ordem de coisas; não se exige mais a obediência à lei mosaica, ela está morta, Deus quer que se abrace a Religião de Cristo, Deus impõe a fé em Jesus Cristo, sem distinção alguma entre gentios e judeus: Agora SEM A LEI se tem manifestado a justiça de Deus, testificada pela lei e pelos profetas, e a justiça de Deus é infundida pela fé de Jesus Cristo em todos e sobre todos os que creem n'Ele, porque NÃO HÁ NISTO DISTINÇÃO ALGUMA (Romanos III-21 e 22).

   E chegamos então ao texto apresentado pelos protestantes. Mas nada melhor do que fazê-lo acompanhar das palavras que o seguem, para perfeitamente conhecer-lhe o sentido: Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé SEM AS OBRAS DA LEI. Porventura Deus só o É DOS JUDEUS? não no é Ele também dos gentios? Sim, por certo, Ele o é também dos gentios; porque na verdade não há senão um Deus que justifica pela fé os circuncidados e que também pela fé JUSTIFICA OS INCIRCUNCIDADOS (Romanos III-28 a 30).

   São Paulo fala aos Romanos, que podem vir a ser trabalhados pelo judaizantes (se é que já não o estão sendo) no sentido de se julgarem obrigados a cumprir a lei de Moisés para poderem salvar-se. Fala a cristãos novos que podem pela leitura da Bíblia, do Antigo Testamento, ficar com a ideia de que a circuncisão, a proibição de certas comidas, todas aquelas purificações e cerimônias ordenadas por Deus na Lei Antiga, ainda são obrigatórias. Faz-lhes ver então que em vista do estado geral do mundo, chegou agora o momento de Deus estabelecer um novo caminho para o homem se tornar um justo. A Lei Antiga vai desaparecer para dar lugar à fé em Cristo. Mas a fé em Cristo acarreta, é claro, a obrigação de obedecer à nova lei, à lei de Cristo, na qual se preceituam os 10 mandamentos até com maior rigor do que entre os judeus (em compensação estamos livres daquela escravidão de tantos preceitos, de tantas restrições, como estava os judeus na lei mosaica). A fé em Cristo conduz à recepção dos sacramentos que Cristo apontar como necessários à salvação. A fé em Cristo leva à obediência a todos os preceitos que por Cristo nos são impostos na doutrina do Evangelho. 

domingo, 28 de agosto de 2016

A CONVERSÃO DE SANTO AGOSTINHO - "CONFISSÕES"

   - "Então não poderás fazer o que estes e estas fizeram? - É porventura por si mesmos que estes o podem fazer? Não é por virtude de seu Deus e Senhor? Foi o Senhor seu Deus quem me entregou a eles. Por que te apoias em ti, ficando assim instável? Lança-te n'Ele e não temas! Ele não fugirá de ti, e tu não cairás. Lança-te confiadamente e Ele recebendo-te curar-te-á.
   Eu estava todo envergonhado porque ainda ouvia os murmúrios daquelas bagatelas e ficava suspenso na dúvida. De novo a castidade parecia dizer-me: "Sê surdo às tentações imundas dos teus membros na terra, para os mortificares. Narram-te deleites, mas estes não são segundo a lei do Senhor teu Deus".
   Esta controvérsia em meu coração, era apenas eu a lutar comigo mesmo.
   Entretanto Alípio, fixo a meu lado, aguardava, silencioso, o desenlace desta insólita agitação.
   Quando por uma análise profunda, arranquei do mais íntimo toda a minha miséria e a reuni perante a vista do meu coração, levantou-se enorme tempestade que arrastou consigo uma chuva torrencial de lágrimas. Para as derramar todas com seus gemidos, afastei-me de Alípio, porque a solidão  representava-se-me mais acondicionada ao choro. Retirei-me o suficiente para que a sua presença me não pudesse ser pesada.
   Eis em que estado me encontrava! Alipio bem o adivinhou, porque lhe disse, julgo eu, qualquer coisa em que se descortinava o tom pesado que o choro imprimia ao timbre da voz. Tinha-me, então erguido. Alípio, no auge do assombro, fixou-se imóvel no sítio onde estivéramos. Retirei-me, não sei como, para debaixo duma figueira, e larguei as rédeas ao choro.
   Prorromperam em rios de lágrimas os meus olhos. Este sacrifício era-Vos agradável (ó Senhor!!!). Dirigi-Vos muitas perguntas, não por estas mesmas palavras, mas por outras do mesmo teor: - "E Vós, Senhor, até quando? Até quando continuareis irritado?(Salmo VI, 4). Não Vos lembreis das minhas antigas iniqüidades" (Salmo LXXVIII,8). Sentia ainda, que elas me prendiam. Soltava gritos lamentosos: - "Por quanto tempo, por quanto tempo, andarei a clamar: - "Amanhã, amanhã? Por que não há de ser agora? Por que o termo das minhas torpezas não há de vir nesta hora?"
   Assim falava e chorava, oprimido pela mais amarga dor do coração. Eis que, de súbito, ouço uma voz vinda da casa próxima. Não sei se era de menino, se de menina. Cantava e repetia freqüentes vezes: - "Toma e lê; toma e lê".
   Imediatamente, mudando de semblante, comecei com a máxima atenção a considerar se as crianças tinham ou não o costume de trautear essa canção em alguns dos jogos. Vendo que em parte nenhuma a tinha ouvido, reprimi o ímpeto das lágrimas, e levantei-me persuadindo-me que Deus só me mandava uma coisa: abrir o códice,(epístolas) e ler o primeiro capítulo que encontrasse. Tinha ouvido que Antão, assistindo, por acaso, a uma leitura do Evangelho fora por ela advertido, como se essa passagem que se lia, lhe fosse dirigida pessoalmente: - "Vai, vende tudo o que possuis, dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; depois vem e segue-Me". Com este oráculo se converteu a Vós.
   Abalado, voltei aonde Alípio estava sentado, pois eu tinha aí colocado o livro das Epístolas dos Apóstolos, quando de lá me levantei. Agarrei-o, abri-o e li em silêncio o primeiro capítulo em que pus os olhos: - "Não caminheis em glutonarias e embriaguez, nem em desonestidades e dissoluções, nem em contendas e rixas; mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e não procureis a satisfação da carne com seus apetites". (Epístola aos Romanos, XIII, 13).
   Não quis ler mais, nem era necessário. Apenas acabei de ler estas frases, penetrou-me no coração uma espécie de luz serena e todas as trevas da dúvida fugiram. Então, marcando a passagem com o dedo ou com outro sinal qualquer, fechei o livro.
   Já com o rosto tranqüilo mostrei-o a Alípio. Por sua vez, ele também me descobriu tudo o que por si se passara e que eu ignorava. Pediu-me que lhe mostrasse a passagem lida por mim. Indiquei-lha e ele prosseguiu ultrapassando o que eu tinha lido. Eu ignorava, porém, o texto seguinte que era este: - "Recebei ao fraco na fé". Alípio aplicou-o a si próprio e mostrou-mo. Com tal advertência, firmou-se no desejo e bom propósito, perfeitamente de acordo com os seus costumes regrados que, desde há muito tempo, o distanciavam enormemente de mim. Vamos ter em seguida com minha mãe, e declaramos-lhe o sucedido. Ela rejubila. Contamos-lhe como o caso se passou. Exulta e triunfa, bendizendo-Vos, Senhor, "que sois poderoso para fazer todas as coisas mais superabundantemente do que pedimos ou entendemos. Ela (Santa Mônica) bendizia-Vos porque via que, em mim, lhe tínheis concedido muito mais do que ela costumava pedir, com tristes e lastimosos gemidos.
   De tal forma me convertestes a Vós, Senhor, que eu já não procurava esposa, nem esperança alguma do século, mas permanecia firme naquela regra de fé em que tantos anos antes, me tínheis mostrado a minha mãe. Transformastes a sua tristeza numa alegria muito mais fecunda do que ela desejava, e muita mais querida e casta do que a que podia esperar dos netos nascidos da minha carne.
  "Ó SENHOR! ESSE HOMEM, PARTICULAZINHA DA CRIAÇÃO, DESEJA LOUVAR-VOS. VÓS O INCITAIS A QUE SE DELEITE NOS VOSSOS LOUVORES, PORQUE NOS CRIASTES PARA VÓS E O NOSSO CORAÇÃO VIVE INQUIETO, ENQUANTO NÃO REPOUSA EM VÓS!
                                                                                                    28 de agosto, festa de Santo Agostinho

A ARGUMENTAÇÃO DE SÃO PAULO



   Mas voltemos ao nosso versículo: Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé sem as obras da lei (Romanos III-28).

   Por esta palavra - CONCLUÍMOS - estamos logo vendo que São Paulo fez um argumento e chegou a uma conclusão.

  São Paulo, como é natural, quer mostrar a necessidade de se abraçar a Religião de Cristo. O seu argumento para chegar a tal conclusão é o seguinte:

   No tempo em que fala São Paulo, o mundo inteiro está completamente fora do bom caminho, do caminho da salvação. 

   Aqueles que viviam sob a LEI NATURAL caíram lamentavelmente nos erros mais deploráveis e nos mais horrendos pecados. É o que, depois de fazer as costumeiras saudações, demonstra o Apóstolo, do versículo 18º até o fim da capítulo 1º, descrevendo a depravação em que estavam mergulhados os gentios. 

   São Paulo acusa-os por causa da idolatria: mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança de figura de homem corruptível, e de aves, e de quadrúpedes, e de serpentes (Romanos I-23); adoraram e serviram à criatura antes que ao Criador, que é bendito por todos os séculos (Romanos I-25). E depois de acusá-los de pecados vergonhosos que são, não só contra a castidade, mas também contra a natureza, os descreve como sujeitos a inúmeras perversões: cheios de toda a iniquidade, de malícia, de fornicação, de avareza, de maldade, cheios de inveja, de homicídios, de contendas, de engano, de malignidade, mexeriqueiros, murmuradores, aborrecidos de Deus, contumeliosos, soberbos, altivos, inventores de males, desobedientes a seus pais, insipientes, imodestos, sem benevolência, sem palavra, sem misericórdia, os quais tendo conhecido a justiça de Deus, não compreenderam que os que fazem semelhantes coisas são dignos de morte; e não somente os que estas coisas fazem, senão também os que consentem aos que as fazem (Romanos I-29 a 32). 

   O capítulo 2º é endereçado aos judeus que estavam sob a LEI MOSAICA. Antes de estudá-lo, porém, precisamos abrir um parênteses. [É o que faremos no próximo post, se Deus quiser]. 

(Extraído do Livro "LEGÍTIMA INTERPRETAÇÃO DA BÍBLIA", autor: Lúcio Navarro).
   

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

O CORAÇÃO IMACULADO DE MARIA SANTÍSSIMA

   A devoção a este Coração Puríssimo tem por finalidade honrar o amor de Maria Santíssima encerrado porém no seu coração como em vaso precioso. O seu amor é a joia e o seu coração o cofre que a encerra. Na verdade, todo ato de culto tributado ao Coração de Maria, é um ato que abrange toda a sua pessoa.

   Consultando o Dicionário Bíblico pude verificar que o Divino Espírito Santo nas Sagradas Escrituras emprega a palavra "coração" por mais de 600 vezes. Julgo, no entanto, suficiente citar uma única passagem: "Praebe, fili mi, cor tuum mihi" (Prov. 23, 26). Em Português: "Dá-me, meu filho, o teu coração". Com esta palavra, Deus está pedindo todo o nosso ser.

   Beijamos a mão de um superior, mas sabemos que com este gesto queremos demonstrar o nosso respeito e afeto a toda a sua pessoa e não apenas à sua mão. Assim, comparando, ao honrarmos, ao prestarmos um culto de veneração ao Coração de Maria Santíssima, temos em vista honrar  toda a grandeza e santidade de sua pessoa. Queremos honrar e venerar sobretudo o seu amor do qual o coração é símbolo. Olhemos para o Coração de Nossa Mãe do Céu e não esqueçamos que ela é também Mãe de Deus. Deus empregou o sua onipotência, a sua sabedoria e todo o seu amor ao preparar o Coração de Sua Mãe Santíssima. É a obra-prima saída das mãos de Deus Onipotente. Se Maria Santíssima havia de amar a Deus e aos homens com um amor só inferior ao de Deus, como seria o coração que encerraria tal amor? 
   O coração de carne de Maria Santíssima (objeto material desta devoção) foi o instrumento de que se valeu o Espírito Santo para a Encarnação. Daquele Coração puríssimo e imaculado, brotou o sangue preciosíssimo de que se formou o corpo sacrossanto e até o próprio Coração Sacratíssimo de Jesus! Ali formou o Altíssimo aquele sangue que Jesus havia de oferecer na cruz pela salvação da humanidade.

   Não podemos conceber nenhum mistério da vida da Santíssima Virgem ao qual não correspondam neste Coração novas pulsações. O Coração Imaculado de Maria era o órgão sensível do seu amor, como instrumento que recebia todas as impressões do corpo e da alma para se transformar em amor, para se abrasar cada vez mais no fogo do amor de Deus e do próximo. Por isso o representamos encimado de chamas.

 Caríssimos, na verdade a devoção ao Imaculado Coração de Maria é o melhor caminho , a melhor preparação para a prática da devoção ao Coração de Jesus. "Eis o Coração que tanto amou os homens", disse Jesus, para nos incitar ao seu amor. Pois bem, depois do de Jesus, nenhum coração nos amou como o de Maria, nenhum coração pode servir-nos de modelo como o de Maria. Portanto, a devoção ao Coração de Jesus, exige uma devoção terna ao Coração da Santíssima Virgem. E esta é a vontade de Deus. Daí, estes dois Corações, o de Jesus digno de toda veneração e também adoração na Eucaristia; e o de Maria, digno não de adoração mas de uma veneração toda especial, isto é, digno de uma hiperdulia, devem estar sempre juntos. Esta é a vontade de Deus. Neste particular podemos também dizer: "Não separe o homem o que Deus uniu". Como disse São Luiz Grignon de Montfort: "Foi por intermédio da Santíssima Virgem Maria que Jesus Cristo veio ao mundo, e é também por meio dela que Ele deve reinar no mundo". Assim podemos dizer que o próprio Deus deseja que o Sacratíssimo Coração de Jesus reine no mundo através do Imaculado Coração de Sua Mãe Santíssima. Devemos, pois, pedir ao Coração Imaculado da Santíssima Virgem que nos ensine a conhecer e a amar o Coração Divino de Jesus.

   Sabemos pela Sagrada Teologia que Maria Santíssima, pela sua dignidade de Mãe de Deus, foi introduzida na participação do mesmo Deus, quanto isso é permitido a uma pura criatura.  Filha predileta de Deus Pai; Mãe amorosíssima de Deus Filho; Esposa santíssima e fidelíssima do Divino Espírito Santo. Teve um período na vida de Maria Virgem e Mãe em que realmente a vida de Deus era a vida de Maria. O Coração de Deus pulsava pelos impulsos do Coração de sua Mãe Santíssima. E, por isso era tal a união entre os dois Corações, que viviam uma vida perfeitamente comum.

    O único Coração que ama a Deus com o amor que merece é o Coração Sacratíssimo de Jesus, e depois, mas juntamente com Ele e por Ele, o puríssimo Coração de Maria Santíssima. A sempre Virgem Maria poderia dizer com muito mais razão e propriedade do que São Paulo: "Vivo, mas não sou eu que vivo, é Jesus que vive em mim". Aí fica patente a santidade do Coração de Maria! Pois, a santidade consiste na participação de Deus, no amor que transforma a alma em Deus, em chegar a ser uma verdadeira imagem de Deus. O Coração de Maria é o tabernáculo da divindade, o templo vivo onde Deus se dignou fixar a sua morada. Donde, tudo neste Coração é santo, nada há nele, até o mais imperceptível movimento, que o não seja: pensamentos, desejos, amores, palavras, obras, tudo, tudo é santo. Digno Coração da digna Mãe de Deus! E toda língua se cale! E se o Coração de Maria Santíssima é santo com a santidade participada de Deus, é também formosíssimo com a beleza de Deus. Santo Agostinho define a beleza como: O esplendor da ordem". Haverá ordem no coração e em todo o nosso ser, quando se seguir a vontade de Deus, manifestada interiormente pelos impulsos da graça e pelas inspirações divinas. Tudo que Deus fez era bom, estava tudo em ordem. Reinava a paz. O pecado trouxe a desordem. O coração humano abusando do poder da sua vontade, e do dom da sua liberdade, desprezou esta ordem divina e passou a viver em contínua desordem.  Pois bem! O Coração de Maria é puríssimo e imaculado desde o primeiro instante de sua existência. Que ordem, que paz, que beleza, que simplicidade reúnem-se no Coração Imaculado de Maria! No Coração de Maria Santíssima temos o modelo que Deus nos concede, não só para que o admiremos, mas sobretudo para o imitarmos. 
Imagem de Nossa Senhora das Dores
Encontra-se na 13ª estação da Via-Sacra,
no Monte Calvário. Foi doada, assim como grande parte
dos presentes em ouro e pedras preciosas, por D. Maria I
 Rainha de Portugal.
   Mas o Coração de Maria tinha de ser um Coração de Mãe, mas de Mãe Dolorosa. Seu Coração aparece sempre trespassado por uma espada cruel e penetrante. Representamo-lo também cercado de rosas. Mas não esqueçamos que debaixo das rosas estão os espinhos. Segundo as profecias, Jesus devia ser o Homem das dores. Como foi da vontade de Deus que sua Mãe fosse Corredentora, assim ela devia ser também a Mãe das dores. Não devia sofrer em seu corpo tormentos físicos; e por isso todos os sofrimentos se lhe acumularam forçosamente no Coração. De acordo com os Santos Padres, todos os padecimentos sofridos por Jesus em seu Corpo Sacrossanto, sofreu-os Maria todos, um por um, no seu Coração Imaculado de Mãe. Como uma sacerdotisa, estava de pé junto à cruz de seu Divino Filho, oferecendo-O, segundo a vontade do Pai, como vítima pela salvação dos homens; oferecendo em consequência, igualmente o seu Coração Imaculado para ser transpassado por aquela espada de dor predita pelo velho Simeão, para que desta ferida aberta na sua alma, nascêssemos todos nós, os filhos de sua dor. Diante de seus olhos, Jesus foi morrendo aos poucos derramando gota a gota, todo o seu sangue. E, assim, vendo extinguir-se a Vida que ela gerou sem dor, deu-nos a vida, gerando-nos na dor.  Nossa Senhora é nossa  Mãe espiritual. O amor de seu Puríssimo Coração por nós, é amor de mãe. Sabemos o que isto significa. Tudo o que na terra é amor, está compendiado no coração de uma mãe. O próprio Deus, quando quer falar do seu amor aos homens e que estes saibam até onde chega o seu amor,compara-se a uma mãe: "Será possível a uma mãe esquecer o seu filho"? O coração de mãe é como um  oceano de amor que não tem limites.

   E, caríssimos, quem mais mãe do que a Virgem Santíssima? Se é Mãe de Deus!!! e mãe de todos os homens, como será então os seu Coração? Que amor nele haverá!!! Há sim maravilhas infinitas! Depois, devemos considerar que o Filho de Deus era exclusivamente seu filho, sem intervenção de nenhuma outra paternidade, além da de Deus; por isso é mais mãe que nenhuma outra mãe: Deus e Ela, ninguém mais interveio nesta admirável maternidade. Mãe alguma pode dizer com maior razão do que Ela, ao estreitar o filhinho sobre o coração: "és meu e todo meu".
   E nunca certamente o Coração de Maria esteve separado em seu amor, do de seu divino Filho! Ele foi principalmente o objeto do seu amor. Mas n'Ele e com Ele e também num sentido certo e verdadeiro, éramos outrossim seus filhos. Que amor do seu Coração maternal para conosco! Na verdade, com o seu fiat na Anunciação Maria aceitou ser Mãe de Deus e Mãe nossa. Sabendo que esta era a vontade de Deus, o seu Coração amantíssimo abraça-se com as duas maternidades .   Deus é nosso Pai amantíssimo e bondoso. O Coração misericordiosíssimo da Santíssima Virgem é efeito desta bondade e deste amor de Deus para com os homens. É um Coração compassivo que sente como próprias as necessidades e misérias alheias; um Coração misericordioso que chora com os que choram, sofre com os que sofrem e também alegra-se com os que estão alegres. Basta pensarmos nas Bodas de Caná, na visita a sua prima Santa Isabel, no Calvário, no Cenáculo após a Ressurreição e Ascensão de Jesus.  Que exemplo maravilhoso de bondade! O Coração de Maria Santíssima nunca desanima, nem se cansa. Espera sempre, confia sempre em poder remediar a situação dos filhos. Como que voa por toda parte fazendo o bem!
   Maria Santíssima é a Onipotência Suplicante e emprega-a total e generosamente para socorrer os seus filhos. E a compaixão de Seu Coração nunca é inútil, como acontece frequentemente com as outras mães que desejam fazer o melhor pelos seus filhos, mas não sabem ou não podem.
   E o mais admirável é que esta misericórdia maternal de Nossa Senhora não terminou com a morte, como sucede com a das mães terrenas. Agora que está no céu o seu Coração é o mesmo. Se alguma mudança sofreu no Céu o Coração de Maria, foi para ser ainda mais compassiva, mais clemente e misericordiosa para se aproveitar melhor da sua condição de Imperatriz em favor dos degredados filhos de Eva.

   "CORAÇÃO IMACULADO DE MARIA! SEDE A NOSSA SALVAÇÃO JUNTO AO CORAÇÃO DE JESUS! AMÉM!

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

DOGMA DA ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA: PAPA PIO XII - (1950)

   Apresentamos alguns excertos da CONSTITUIÇÃO APOSTÓLICA "MUNIFICENTISSIMUS DEUS".
   "Nestes nossos tempos refulgiu com luz mais clara o privilégio da Assunção corpória da Mãe de Deus.
   Este privilégio brilhou com novo fulgor quando o nosso Predecessor de imortal memória, Pio IX, definiu solenemente o dogma da Imaculada Conceição. De fato, estes dois dogmas estão estreitamente conexos entre si. Cristo com o própria morte venceu a morte e o pecado, e todo aquele que pelo batismo de novo é gerado, sobrenaturalmente, pela graça, vence também o pecado e a morte. Porém Deus, por lei ordinária, só concederá aos justos o pleno efeito desta vitória sobre a morte, quando chegar o fim dos tempos. Por este motivo, os corpos dos justos corrompem-se depois da morte, e só no último dia se juntarão com a própria alma gloriosa.
   Mas Deus quis excetuar desta lei geral a Bem-aventurada Virgem Maria. Por um privilégio inteiramente singular ela venceu o pecado com a sua Conceição Imaculada; e por esse motivo não foi sujeita à lei de permanecer na corrupção do sepulcro, nem teve de esperar a redenção do corpo até ao fim dos tempos.
   "A razão primária e fundamental diziam (os teólogos) ser o amor filial de Cristo para o levar a querer a Assunção de Sua Mãe ao céu. E advertiam mais , que a força dos argumentos se baseava na imcomparável dignidade da sua maternidade divina em todas as graças que dela derivam: a santidade altíssima que excede a santidade de todos os homens e anjos, e íntima união de Maria com o Seu Filho, e sobretudo o amor que o Filho consagrava à Sua Mãe digníssima...
   Os doutores escolásticos vislumbram igualmente a Assunção da Mãe de Deus não só em várias figuras do Antigo Testamento, mas também aquela mulher, revestida de sol, que o Apóstolo São João comtemplou na Ilha de Patmos (Apoc. XII,1 e segs.). Porém, entre os textos do Novo Testamento, consideraram e examinaram com particular cuidado aquelas palavras: "Ave, cheia de graça, o Senhor é convosco, bendita sois vós entre as mulheres" (S. Luc. I, 28), pois viram no mistério da Assunção o complemento dquela plenitude de graça, concedida à Santíssima Virgem, e uma bênção singular contraposta à maldição de Eva.
   ..."Na festa da Assunção, Santo Antônio de Pádua, ao comentar aquelas palavras de Isaías "glorificarei o lugar dos meus pés (Is. LX, 13), afirmou com segurança que o Divino Redentor glorificou de modo mais perfeito a sua Mãe amantíssima, da qual tomara carne humana. "Daqui vê-se claramente, diz, que o corpo da Santíssima Virgem foi assunto ao céu, pois era o lugar dos pés do Senhor". Pelo que escreve o Salmista: " Erguei-vos, Senhor, para o vosso repouso, vós e a Arca da vossa santificação". E assim como, acrescenta ainda, Jesus Cristo ressuscitou triunfante da morte e subiu para a direita do Pai, assim também "ressuscitou a Arca da sua santificação, quando neste dia a Virgem Mãe foi assunta ao tálamo celestial".
   ..."Saõ Bernardino de Sena diz que a semelhança entre a divina Mãe e o divino Filho, no que respeita à perfeição e dignidade de alma e corpo, - semelhança que nem sequer nos permite pensar que a Rainha celestial possa estar separada do Rei dos Céus, - exige absolutamente que Maria "só deva estar onde está Crsito". Outro argumento dado por São Bernardino: "O fato de nunca a Igreja ter procurado as relíquias da Santíssima Virgem, nem as ter exposto à veneração dos fiéis, constitui um argumento que é "como que uma experiência sensível da Assunção".
   "São Francisco de Sales afirma que não se pode duvidar que Jesus Cristo cumpriu do modo mais perfeito o divino mandamento que obriga os filhos a honrar os pais. E a seguir faz esta pergunta: "Que filho haveria, que, se pudesse, não ressuscitava a sua mãe e não o levava para o céu?" E Santo Afonso escreve por sua vez: "Jesus não quis que o corpo de Maria se corrompesse depois da morte, pois redundaria em Seu desdouro que se transformasse em podridão aquela carne virginal de que Ele mesmo tomara a própria carne".
DEFINIÇÃO DO DOGMA
   "Pelo que, depois de termos dirigido a Deus repetidas súplicas, e de termos invocado a luz do Espírito de Verdade, para glória de Deus Onipotente que à Virgem Maria concebeu a sua especial benevolência, para honra do seu Filho, Rei imortal dos séculos e triunfador do pecado e da morte, para aumento da glória da Sua augusta Mãe, e para gozo e júbilo de toda a Igreja, com a autoridade de Nosso Senhor Jesus Cristo, dos Bem-aventurados Apóstolos São Pedro e São Paulo e com a Nossa, pronunciamos, declaramos e definimos ser dogma divinamente revelado que: A IMACULADA MÃE DE DEUS, A SEMPRE VIRGEM MARIA, TERMINANDO O CURSO DA VIDA TERRESTRE, FOI ASSUNTA EM CORPO E ALMA À GLÓRIA CELESTIAL".
  
   Pelo que, se alguém, o que Deus não permita, ousar, voluntariamente, negar ou pôr em dúvida esta Nossa definição, saiba que naufraga na fé divina e católica.

domingo, 7 de agosto de 2016

AVISO

Ainda preciso continuar minhas consultas e exames médicos. Agradeço as orações. Peço a caridade de vossas orações especialmente nesta semana em que cuidarei da saúde da alma, ou seja, pela graça de Deus, farei um Retiro Espiritual.
Obrigado!
Padre Elcio Murucci

UMA TRELA DE LUTERO

2º - NA EPÍSTOLA AOS ROMANOS



   Passamos agora ao versículo da Epístola aos Romanos: 
   
   Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, sem as obras da lei (Romanos III-28). 

   Antes de fazermos o comentário sobre este versículo, queremos relembrar um pequeno episódio da vida de Lutero. Lutero fez a tradução da Bíblia para o alemão, aliás numa linguagem clássica e elegante, que exerceu profunda influência sobra a língua e literatura alemãs, pois ele era de fato um grande escritor. Mas, na sua tradução, esteve longe de mostrar-se consciencioso. Fez maliciosas alterações na Bíblia, levado pelo seu sectarismo. Os nomes com que o povo designava os sacerdotes católicos e as suas vestes, Lutero na Bíblia os aplicou aos sacerdotes idólatras. Usou no Antigo Testamento a palavra - Igreja - para designar os lugares em que se adoravam os ídolos, e no Novo Testamento substituiu a palavra Igreja, quando designava a Igreja de Cristo, pela palavra - comunidade.

   Onde a Bíblia traz a palavra JUSTO, ele tomou como norma substituí-la pela palavra PIO, explicando que PIO quer dizer que tem fé, isto para favorecer à sua teoria de que ninguém pode ser justo, apenas podemos ter uma justiça exteriormente imputada, atribuída a nós por Deus que nos considera justos, embora realmente não o sejamos. 

   Onde se lê: A lei obra ira (Romanos IV-15), ele acrescentou a palavra SOMENTE: A lei obra somente ira.

   Neste versículo de que ora tratamos, Lutero, para ajustá-lo à sua doutrina, acrescentou também a palavra SOMENTE e assim traduziu: Concluímos, pois, que o homem é justificado sem as obras da lei, SOMENTE pela fé. 

   Um católico reclamou contra o acréscimo desta palavra SOMENTE que não estava no texto. E Lutero assim respondeu numa carta dirigida a Link: "Se o nosso novo papista quiser importunar-nos por causa da palavra SOMENTE, responde-lhe logo: assim o quer o Doutor Martinho Lutero que diz: papista e burro são a mesma coisa. Assim quero, assim mando, ponha-se a vontade em vez da razão" (Weimar XXX 2 Abt 635).

   E a frase de Lutero: Sic volo, sic jubeo, sit pro ratione voluntas - assim quero, assim mando, ponha-se a vontade em vez da razão - que aliás, já era tomada de um escritor pagão, ficou célebre para indicar que uma pessoa se obstina numa opinião ou numa atitude, mesmo sabendo que está errada, como se diz também em português: É de pau, porque eu quero; é de pau, e bem bonito; é de pau, e tenho dito. (Extraído do livro "LEGÍTIMA INTERPRETAÇÃO DA BÍBLIA", autor: Lúcio Navarro).

sábado, 6 de agosto de 2016

O PENSAMENTO PAULINO E A DOUTRINA CATÓLICA


   Finalmente vamos provar a identidade do pensamento de São Paulo com a doutrina da Igreja. Já mostramos, no capítulo 2º, que segundo a doutrina católica, para a nossa salvação, são necessárias três coisas: uma é a FÉ, pois quem não crer será condenado. Outra são as nossas OBRAS, pela GUARDA DOS MANDAMENTOS. Outra, por fim, é a GRAÇA DE DEUS, que tanto é necessária para termos fé, como também é necessária para se fazer qualquer obra boa meritória para a vida eterna, pois sem a graça de Cristo nada podemos fazer.

   Vejamos agora este trecho de São Paulo nesta Epístola aos Gálatas. Em Jesus Cristo nem a circuncisão, vale alguma coisa, nem o prepúcio; mas sim a FÉ que obra por caridade (Gálatas V-6). Sempre a mesma preocupação de mostrar que a circuncisão já não tem valor; o que tem valor é a fé, mas não a fé morta, a fé sem as obras e sim a fé que opera pela caridade.

   Vejamos agora mais este outro versículo desta mesma Epístola aos Gálatas: Em Jesus Cristo nem a circuncisão nem a incircuncisão valem nada, mas o ser uma NOVA CRIATURA (Gálatas VI-15). São Paulo, que, no versículo há pouco citado, mostrou o valor da FÉ, mas a fé que opera pela caridade, agora mostra o valor da graça. A nova criatura de que ele fala é o homem revestido da graça, o homem elevado a uma grandeza sobrenatural e que assim foi objeto de uma nova criação espiritual feita por Deus. Esta graça nos vem pelos sacramentos, a começar pelo Batismo que produz em nós uma verdadeira renovação espiritual: Todos os que fostes batizados em Cristo, revestistes-vos de Cristo (Gálatas III-27).

   Agora confrontemos estes dois versículos em que São Paulo nos diz que o que tem valor diante de Deus é a fé, o que tem valor diante de Deus é a graça, que faz do homem uma nova criatura, com este versículo também de São Paulo, na 1ª Epístola aos Coríntios: A circuncisão nada vale, e o prepúcio nada vale; senão A GUARDA DOS MANDAMENTOS (1ª Coríntios VII-19).

   Assim se completam, segundo o pensamento de São Paulo, os três elementos indispensáveis para a salvação, de acordo com a doutrina católica: a fé, a graça e a guarda dos mandamentos. 

   Isto não impede o próprio São Paulo de resumir o problema da nossa salvação numa só palavra: O homem é justificado pela fé em Cristo. A fé em Cristo é o médico que nos aponta a necessidade da GRAÇA que nos vem pelos sacramentos, pois a fé é aceitar toda a doutrina de Cristo e Cristo disse: Quem não renascer da água e do Espírito Santo, não pode entrar no reino de Deus (João III-5). Se não comerdes a carne do Filho do Homem e beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós (João VI-54). Cristo nos mostra como nos vem o perdão dos pecados: Aos que vós perdoardes os pecados, ser-lhes-ão eles perdoados; e aos que vós os retiverdes, ser-lhes-ão eles retidos (João XX-23). 

   A fé em Cristo é o médico que nos aponta a necessidade da GUARDA DOS MANDAMENTOS, pois a fé é aceitar a doutrina de Cristo, e Cristo disse: Se tu queres entrar na vida, GUARDA OS MANDAMENTOS (Mateus XIX-17). (Extraído do Livro "LEGÍTIMA INTERPRETAÇÃO DA BÍBLIA", autor: Lúcio Navarro).

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

A LUTA CONTRA OS JUDAIZANTES NA EPÍSTOLA AOS GÁLATAS


   Continuando na sua obra dissolvente, os judaizantes procuram induzir os Gálatas à profissão de judaísmo. E como São Paulo se lhes opõe vivamente, eles procuram diminuir a autoridade do Apóstolo, fazendo ver que ele não era como os outros, não tinha convivido com o Mestre, e assim não tinha o mesmo valor que os outros Apóstolos.

   É contra eles que São Paulo escreve sua Epístola aos Gálatas a qual, do princípio ao fim, se refere a esta questão. Logo no primeiro versículo vai São Paulo defendendo a sua autoridade que os adversários procuram diminuir: Paulo Apóstolo, não pelos homens, nem por algum homem, mas por Jesus Cristo e por Deus Pai, que O ressuscitou dentre os mortos (Gálatas I-1). E logo depois da saudação de costume, ele começa: Eu me espanto de que, deixando aquele que vos chamou à graça de Cristo, passáveis assim tão depressa a outro Evangelho; porque não há outro, se não é que há alguns que vos perturbam e querem transformar o Evangelho de Cristo. Mas ainda quando nós mesmos, ou um anjo do céu vos anuncie um Evangelho diferente do que nós vos temos anunciado, seja anátema (Gálatas I-6 a 8). 

   Este Evangelho diferente, de que fala São Paulo, é a doutrina daqueles que queriam obrigar os cristãos convertidos dentre os gentios a serem circuncidados; e um dos argumentos de que usa para mostrar como estão errados, é o seguinte: Ele esteve conferindo a sua doutrina com os outros Apóstolos e levou consigo a Tito, mas nem Tito foi impelido a circundar-se: Comuniquei com eles o Evangelho que prego entre os gentios, e particularmente com aqueles que pareciam ser de maior consideração, por temor de não correr em vão, ou de haver corrido. Mas nem ainda Tito, que estava comigo, sendo gentio, foi compelido a que SE CIRCUNCIDASSE (Gálatas II-2 e 3).

   Basta ler com atenção a Epístola para se ver como o que São Paulo está condenando aí não é a doutrina católica de que a observância dos mandamentos, ou seja, a caridade para com Deus e com o próximo, seja necessária para a salvação. Esta é também a doutrina de Jesus, como provamos n capítulo 4º, e, consequentemente, a doutrina de São Paulo.

   O que São Paulo condena é a heresia daqueles que, mesmo depois do que foi decidido pelos Apóstolos no Concílio de Jerusalém, ainda ensinam que para o homem ser um justo perante Deus, é necessária a observância daquelas cerimônias e prescrições da lei mosaica, a começar pela circuncisão.

   Vejamos estas passagens da nossa Epístola aos Gálatas: Olhai que eu, Paulo, vos digo que se vos fazeis CIRCUNCIDAR, Cristo vos não aproveitará nada. E de novo protesto a todo homem que se CIRCUNCIDA que está obrigado a guardar TODA A LEI. Vazios estais de Cristo os que vos justificais pela LEI: decaístes da graça (Gálatas V-2 a 4).

   Todos os que querem agradar na carne, estes vos obrigam a que vos CIRCUNCIDEIS, só por não padecerem eles a perseguição da cruz de Cristo. Porque estes mesmos que SE CIRCUNCIDAM não guardam a lei; mas querem que  vos CIRCUNCIDEIS, para se gloriarem na vossa carne (Gálatas VI- 12 e 13). 

   E a conclusão a que chega São Paulo é que agora na religião de Cristo não há mais nenhuma distinção entre os que são circuncidados e os que não são, entre os judeus e os gentios; Não há JUDEU NEM GREGO, não há servo, nem livre, não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Jesus Cristo (Gálatas III-28).

   São Paulo continua a considerar a prática dos 10 mandamentos como necessária à salvação, é o que se vê claramente na sua enumeração das obras da carne (Gálatas V-19 a 21) entre as quais ele inclui a impureza (pecado contra o 6º mandamento), a idolatria (contra o 1º), os homicídios (contra o 5º), as contendas, as invejas, as iras, as brigas que são contra a caridade para com o próximo, e finda dizendo: os que tais coisas cometem não possuirão o reino de Deus (Gálatas V-21). (Extraído do Livro "Legítima Interpretação da Bíblia", autor: Lúcio Navarro).



   

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

INCIDENTE ENTRE SÃO PEDRO E SÃO PAULO

1º - NA EPÍSTOLA AOS GÁLATAS


   São Pedro em Antioquia estava convivendo com os gentios, comendo de todos os alimentos que eles comiam, mesmo dos que tinham sido proibidos aos judeus, quando chegaram os judeus que tinham ido falar com São Tiago. Depois da chegada deles, São Pedro começou a retrair-se, a afastar-se dos gentios, temendo ofender aos que eram circuncidados (Gálatas II-12). No dilema em que se havia colocado, São Pedro achou que, tendo-se encarregado especialmente da pregação aos judeus, enquanto São Paulo o era da pregação entre os gentios, cabia-lhe em primeiro lugar evitar o desgosto da parte dos judeus. Não previu, porém, as consequências do seu retraimento. Sendo o chefe da Igreja, tendo tanta autoridade que o próprio Barnabé, apesar de companheiro de São Paulo, apesar de ser um dos campeões na luta contra os judaizantes (Atos XV-2), começou a seguir-lhe o exemplo, a sua atitude bem podia ser explorada pelos partidários da circuncisão obrigatória. São Paulo resolveu então adverti-lo do mal que estava fazendo com isto: eu lhe resisti em face, porque era repreensível (Gálatas II-11) e reclamar contra aquela simulação (Gálatas II-13). A verdade é que simulação maior do que esta fez o próprio São Paulo, entrando no templo de Jerusalém para submeter-se a uma purificação e apresentando-se como uma espécie de padrinho para os quatro nazarenos (Atos XXXI-26), o que, aliás, não deu resultado, porque os judeus findaram sempre revoltando-se contra ele; maior, porque a atitude de São Pedro foi apenas negativa; retraiu-se do convívio com os gentios. O que agravava a situação era a exploração que os judaizantes podiam fazer do caso, perigo este que foi previsto por São Paulo, antes que São Pedro o percebesse. 

   São Pedro recebeu humildemente a advertência de São Paulo, achou que ele tinha razão e encerrou-se o incidente. A respeito disto diz São Gregório Magno: "Calou-se Pedro, para que aquele que era o primeiro na culminância do apostolado, fosse também o primeiro na humildade" (Homilia 18 in Ezechielem). E Santo Agostinho assim comenta: "Pedro aceitou com santa e piedosa humildade a observação que utilmente lhe fizera Paulo, inspirado pela liberdade do amor, deixando assim aos pósteros o raro exemplo de não se dedignarem em ser corrigidos pelos inferiores, onde quer que se desviassem do reto caminho; exemplo mais raro e mais santo que o deixado por Paulo aos inferiores que, por defender a verdade evangélica, ousassem resistir confiadamente, salvando-se, porém, a verdade... Em Paulo louvemos a justa liberdade; em Pedro a santa humildade" (Epístola 19 ad Hieronymum). 

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

A QUESTÃO DOS JUDAIZANTES (continuação)

   1º. - NA EPÍSTOLA AOS GÁLATAS


   Acontecia, porém, que para os judeus nascidos e criados entre aqueles costumes da lei mosaica, embora a lei já estivesse morta, para eles não se considerava grande mal que a cumprissem, enterrando-a com honras. Cumpriam uma coisa que não lhes era imposta, não porque se considerassem obrigados a isto, mas por uma questão de hábito ou por um motivo qualquer de conveniência. Isto fez o próprio São Paulo, o qual vimos, há pouco, dizer: E me fiz para os judeus, como judeu, para ganhar os judeus; para os que estão debaixo da lei, como se eu estivera debaixo da lei (não me achando eu debaixo da lei) por ganhar aqueles que estavam debaixo da lei (1ª Coríntios IX-20 e 21). Assim procedeu São Paulo, por exemplo, no caso de Timóteo, como vem narrado nos Atos XVI-1 a 3). Paulo sabia muito bem que a circuncisão não era mais obrigatória, mas querendo utilizar em prol da Igreja os bons serviços de Timóteo, que era filho de pai gentio com mãe judia, tomando os discípulo, o circuncidou por causa dos judeus que havia naqueles lugares (Atos XVI-3); assim Timóteo teria mais prestígio para conquistar os judeus ao reino de Cristo, porque podiam os judeus não lhe dar muita autoridade, sendo um incircunciso a serviço do Evangelho. Outro caso, em que São Paulo obedece a prescrições da lei mosaica, mesmo sabendo-se não sujeito a ela, se lê nos Atos, XXI. São Paulo chega a Jerusalém. Os anciãos o advertem: Bem vês, irmão, quantos milhares de judeus são os que têm crido e todos são zeladores da lei. E têm ouvido de ti que ensinas aos judeus que estão entre os gentios que deixem a Moisés, dizendo que eles não devem circuncidar a seus filhos, nem andar segundo o seu rito (Atos XXI-20 e 21). Com o pensamento de conquistar as graças dos judeus, São Paulo concorda em entrar no templo de Jerusalém, juntamente com quatro varões que têm voto sobre si (Atos XXI-23) e submeter-se com eles a uma cerimônia judaica, embora sabendo que a lei de Moisés não estava mais em vigor: Então Paulo, depois de tomar consigo aqueles varões, purificado com eles, no seguinte dia entrou no templo, fazendo saber o cumprimento dos dias da purificação, até que se fizesse a oferenda por cada um deles (Atos XXI-26).

   Apesar do que foi decidido no Concílio de Jerusalém, obstinam-se alguns judeus convertidos na sua tarefa de induzir os gentios a professar o judaísmo juntamente com a Religião Cristã, ensinando que eles não podiam salvar-se sem a observância da lei mosaica. 

  A questão vai tomando assim um aspecto mais grave. Que os judeus já acostumados a observar a lei mosaica, embora estivessem agora livres da lei, continuassem temporariamente a observá-la, para sepultar com honras esta lei que já estava morta, não era tão grande mal. Mas querer obrigar os gentios, que a esta lei nunca estiveram sujeitos, que não eram da raça judaica, a se circuncidarem, a fazerem profissão de judaísmo juntamente com a de Cristianismo, era um erro muito grave. Equivalia a ensinar que o homem não pode justificar-se diante de Deus sem as obras da lei mosaica, quando a Religião Cristã ensinava que o judaísmo está abolido e não se deve admitir outra religião, a não ser a fé cristã. Assim, se a lei para os judeus estava morta, para os gentios ia tornar-se mortífera. Querer obrigar os gentios à observância da lei, como condição para salvar-se, era o erro dos HEREGES JUDAIZANTES. 

   E o pior é que invocavam a autoridade dos Apóstolos que, que, uma vez ou outra, obedeciam à lei de Moisés, embora soubessem não ser obrigados a isto. Os Apóstolos estavam assim num dilema. Se se mostravam muito intransigentes com os judeus, que já estavam tão habituados a observar a lei mosaica, ofendiam os judeus e os afastavam de si. Se condescendiam com eles, davam margem a que os judaizantes apontassem o seu exemplo para ensinar que a observância da lei mosaica era necessária para a salvação e a prova é que os Apóstolos também a observavam. Foi isto que deu origem em Antioquia ao incidente entre São Paulo e São Pedro. (Extraído do Livro "LEGÍTIMA INTERPRETAÇÃO DA BÍBLIA", autor: Lúcio Navarro). 
                                    É o que veremos no próximo post, se Deus quiser. 

terça-feira, 2 de agosto de 2016

MÁXIMAS DE SANTO AFONSO M. DE LIGÓRIO

   "Para viver sempre bem, diz Santo Afonso, é preciso que gravemos profundamente no espírito certas máximas gerais de vida eterna:
   "Todas as coisas deste mundo acabam, o gozo e o sofrimento; mas a eternidade nunca tem fim".

   "De que servem no momento da morte, todas as grandezas deste mundo?"

   "Tudo o que vem de Deus, ou próspero ou adverso, é bom e para nosso bem".

   "É preciso deixar tudo para ganhar tudo."

   "Sem Deus não se pode ter verdadeira paz".

   "Só é necessário amar a Deus e salvar a alma".

   "Só o pecado se deve temer".

   "Perdido Deus, é tudo perdido".

   "Quem nada deseja deste mundo, é senhor de todo o mundo".

   "Quem reza se salva; quem não reza perde-se".

   "Morra-se, mas dê-se gosto a Deus".

   "Custe Deus o que custar, nunca nos sairá caro".

   "Para quem mereceu o inferno, toda pena é leve".

   "Tudo sofre quem considera Jesus na cruz".

   "O que não se faz por Deus, tudo redunda em pena".

   "Quem só quer a Deus, é rico de todos os bens".

   "Ditoso daquele que pode dizer do coração: Meu Jesus, só a Ti quero, e nada mais".

   "Quem ama a Deus, em todas as coisas achará prazer; quem não ama a Deus, em nenhuma coisa encontrará verdadeiro prazer".

   "QUEM REZA SE SALVA; QUEM NÃO REZA SE CONDENA".

A QUESTÃO DOS JUDAIZANTES (continuação)

1º. - NA EPÍSTOLA AOS GÁLATAS


   Mas aconteceu que vindo alguns da Judeia, ensinavam assim aos irmãos: Pois se vos não circuncidais segundo o rito de Moisés, não podeis ser salvos. E tendo-os movido uma disputa não mui pequena de Paulo e Barnabé contra eles, sem os convencer, resolveram que fossem Paulo e Barnabé e alguns dos outros, aos Apóstolos e aos presbíteros de Jerusalém, sobre esta questão (Atos XVI-1 e 2).

   Reunidos os Apóstolos e presbíteros no Concílio de Jerusalém, quando está mais acesa a discussão sobre o assunto, depois de se fazer sobre ele um grande exame (Atos XV-7), Pedro levanta-se e mata a questão. Deus não fez diferença alguma entre os judeus e os gentios, dando também a estes últimos o Espírito Santo. E com a palavra decisiva de Pedro, acabou-se a discussão: ENTÃO TODA A ASSEMBLEIA SE CALOU (Atos XV-12). Falam Paulo e Barnabé contando quão grandes milagres e prodígios fizera Deus por intervenção deles nos gentios (Atos XV-12).

   Levanta-se por fim São Tiago, para mostrar como a decisão de São Pedro concordava com o que tinham anunciado os profetas e para fazer também uma proposta; proposta que é aprovada, porque pareceu bem aos Apóstolos e aos presbíteros, com toda a Igreja (Atos XV-22).

   A proposta de Tiago é a seguinte:

   1º Que se mande aos cristãos que se abstenham de comer das carnes sacrificadas aos ídolos.

   Era costume entre os gentios separar para os sacerdotes uma parte dos animais que foram sacrificados aos ídolos. Esta carne era vendida nos mercados e às vezes com elas se faziam banquetes. Aos cristãos convertidos do gentilismo se manda que se abstenham de tais banquetes, afim de não escandalizarem os judeus, para quem tais carnes eram abominação e também pelo perigo de recaírem na idolatria ou de parecerem aos idólatras como coniventes com o seu culto. 

   2º Mande-se que se abstenham da fornicação, porque os gentios pensavam erradamente que a simples fornicação (sem adultério) não era pecado, e parece até que juntavam a fornicação a esses banquetes feitos com carnes dos sacrifícios; é, pelo menos, o que se insinua em Números XXV-1 e 2: Neste tempo estava Israel em Selim, e o povo caiu em fornicação com as filhas de Moab, as quais os chamaram para os seus sacrifícios; e eles comeram e adoraram os deuses delas. É claro que a fornicação é proibida de qualquer maneira na lei cristã. 

   3º Mande-se que não comam nem o sangue, nem os animais sufocados.
   
   Os antigos, mesmo os gentios, tinham horror a este ato de comer o sangue; parecia-lhes isto uma demonstração de selvageria, à imitação dos cães que lambem o sangue dos animais.

   Depois, com o tempo, feita a verdadeira fusão entre os judeus e os gentios no seio da Igreja, desparecidas aquelas ideias antigas, esta proibição caiu em desuso, uma vez que cessava o motivo pelo qual havia sido feita, isto é, evitar a aversão mútua entre gentios e judeus. É interessante notar neste ponto como os protestantes, que só admitem aquilo que está na Bíblia, deveriam ainda hoje obedecer a esta lei e no entanto comem a carne dos animais sufocados, como é a carne de boi que se vende nos nossos açougues, e comem o sangue dos animais. Deveriam fazer como fazem ainda hoje os judeus: matar as galinhas por um processo todo especial e deixar escorrer todo o seu sangue; pois a Bíblia não fala na revogação desta lei, revogação que foi feita depois pela autoridade da Igreja, pelos sucessores dos Apóstolos, quando esta lei não foi mais julgada necessária. 

   Fora as restrições propostas por São Tiago, ficou de pé o princípio de que a lei de Moisés não obrigava mais: os cristãos não estavam mais obrigados a circuncidar-se, nem àquelas purificações e cerimônias da Lei Antiga, nem a abster-se de todos aqueles alimentos considerados imundos na legislação mosaica, como a carne de porco, etc. 

Continua no próximo post.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

A QUESTÃO DOS JUDAIZANTES

1º - NA EPÍSTOLA AOS GÁLATAS

   

   Vamos citar o trecho todo da Epístola aos Gálatas: Nós somos JUDEUS por natureza e não pecadores dentre os gentios, MAS como sabemos que o homem não se justifica pelas obras da lei, senão pela fé de Jesus Cristo, por isso também nós cremos em Jesus Cristo, para sermos justificados pela fé de Cristo, e não pelas obras da lei; porquanto pelas obras da lei não será justificada toda a carne (Gálatas II-15 e 16)

   Estas palavras se prendem à questão dos judaizantes, assunto sobre o qual versa TODA a Epístola aos Gálatas. Temos, portanto, que fazer o histórico desta questão. 

   Depois da morte de Jesus Cristo, que em vida obedeceu à lei mosaica, ficou uma dúvida entre os cristãos, que no princípio tinham sido recrutados entre os judeus: estariam eles obrigados ainda a observar a lei de Moisés? A São Pedro, como chefe da Igreja, é que cabia resolver a questão. Por isto Deus o instruiu com uma visão especial: viu o céu aberto e que descendo um vaso, como uma grande toalha suspensa pelos quatro cantos, era feito baixar do céu à terra, no qual havia de todos os quadrúpedes, e dos repteis da terra, e das aves do céu. E foi dirigida a ele uma voz, que lhe disse: Levanta-te, Pedro; mata e come. E disse Pedro; Não, Senhor, porque nunca comi coisa alguma comum, nem imunda. E a voz lhe tornou segunda vez a dizer: Ao que Deus purificou, não chames tu comum (Atos X-11 a 15). Estava ainda a imaginar no que quereria dizer esta visão, quando lhe batem à porta os enviados de Cornélio, um gentio, um incircunciso, que o mandava chamar à sua casa. Indo Pedro à casa de Cornélio e fazendo a sua pregação diante de Cornélio, e dos seus, desceu o Espírito Santo sobre todos os que ouviam a palavra de Deus. E se espantaram os fiéis que eram da circuncisão, os quais tinham vindo com Pedro, de verem que a graça do Espírito Santo foi também derramada sobre os gentios (Atos X-45). E São Pedro mandou que eles fossem batizados em nome do Senhor Jesus Cristo (Atos X-48). Estava evidente que Deus, para justificar o homem, para dar-lhe a graça do Espírito Santo, não exigia absolutamente a observância da lei de Moisés. (Extraído o Livro LEGÍTIMA INTERPRETAÇÃO DA BÍBLIA, autor: Lúcio Navarro). 

Continua no próximo post.