terça-feira, 31 de maio de 2016

MARIA E O SAGRADO CORAÇÃO


Pelo Servo de Deus Padre Mateo Crawley-Boevey   SS. CC.

"Verão aquele a quem trespassaram" (Zacarias XII, 10;  S. João XIX, 37).

Quero apenas acrescentar este tema  da Sagrada Escritura, e observar que a primeira a ver e adorar o Coração trespassado de Jesus Cristo na Cruz, foi Sua Mãe Santíssima , a sempre Virgem Maria. Agora, demos a palavra ao grande Missionário do Sagrado Coração de Jesus, Pe. Mateo Crawley-Boevey:

   "Jesus todo inteiro pertence a Maria, mas há algo em Jesus que é mais especialmente de sua Mãe: seu Coração.

O que São Francisco de Assis, Santa Gertrudes ou Santa Margarida Maria conheceram desse Coração adorável, é apenas um átomo do sol radiante que foi o conhecimento íntimo com que a Virgem Maria penetrou nesse abismo de amor e de misericórdia.

Daí a semelhança prodigiosa, muito mais ainda que no físico, no moral, entre o Coração de Jesus e o de Maria. Porque, se na fisionomia de Jesus estavam seguramente muito marcados os traços de rara formosura da Virgem, que diremos das outras semelhanças, as dessas duas almas e dos seus sentimentos interiores? A este Filho-Deus, esta Mãe única!

Por isso os dois títulos que para nós têm um significado e importância e sabor especialíssimos: "Mãe do Belo Amor" e Mãe de Misericórdia".

Mãe d'Aquele que é o Amor dos amores, d'Aquele que se define como Caridade e Amor. E foi Ele mesmo quem criou à sua imagem e semelhança a sua própria Mãe, a mais amante e  amorosa de todas as criaturas, por se a que mais perfeitamente reproduz em seu Coração Imaculado o atributo por excelência do Senhor: a Caridade.

Toda a grandeza, toda a formosura, todo o poder e toda a fecundidade desta Filha e Mãe do Rei está no seu amor. E por isso Deus colocou n'Ela todas as suas complacências e depositou em seu Coração todos os seus tesouros, porque como nenhum outro ser criado, nenhum serafim ou santo, dilexit multum, "amou muito".  

Devia ser Imaculada por ser Mãe d'Aquele que é a Santidade substancial, e também porque devia amar com capacidade de amor que nenhum coração manchado pôde jamais ter ao dar-se a Deus. Amou, portanto, com plenitude de amor, porque pôde amar e amou com um Coração Imaculado.

Amou como criatura, a única perfeita, com amor perfeito; amou como Esposa, a eleita entre milhares, e como Virgem cuja integridade, realçada pelo milagre da fecundidade divina, centuplicara em Maria a potência de amor pelo seu Criador, convertido em Esposo divino e em Filho seu. Maria amou a Deus como Mãe, pois que o Verbo foi na realidade seu Filho, envolto nos panos da carne mortal. Que de incêndios não comunicaria o Filho à Mãe, pagando seus desvelos, seus beijos e ternuras com chamas de caridade abrasadora, infinita!

Daí seguiu-se para esse Coração virginal e materno, feito brasa viva de amor divino, aquela suavidade e doçura, piedade e misericórdia da Rainha: Mater misericordiae.

Chega o Senhor à terra, trazendo-nos na forma encantadora de Irmão nosso a benignidade do Pai celestial, o seu perdão.

Mas chegou até nós nos braços de uma criatura incomparável, mulher como nossas mães, mil vezes mais terna ainda que todas elas. Do berço do seu regaço, apoiado no Coração da Rainha, sorriu à terra, olhou-a com piedade infinita. Dos seus braços maternais, Jesus deu a primeira bênção ao mundo culpado, chorando já, nesse altar que era Maria, e oferecendo-se nele ao Pai, como Salvador de infinita misericórdia.

Ah! Como a Hóstia de misericórdia, Jesus, assim também trono e ara de misericórdia, Maria!
Quem jamais reproduziu como a Virgem a infinita compaixão do Coração de Jesus? Quem jamais melhor que Ela pregou e prodigalizou toda a doutrina do Amor misericordioso de Deus, encarnado não para julgar, mas para salvar?

Como deve ter dilacerado o Coração de Maria o grito de pânico e de gelo lançado pelo jansenismo! Como deve ter protestado com lágrimas de sangue, em união com a Igreja católica, quando se esforçavam por fechar a ferida do lado, ou ao menos ocultá-la à caravana de almas débeis e pecadoras que a buscavam com afã, para asilo e farol, manancial e porto!

Ela, que sabia por que chorava o Menino, ainda tão pequeno, nos seus braços; Ela que sabia o motivo pelo qual sofreu o desterro do Egito; Ela, que sabia o porquê misterioso daqueles trinta anos de solidão, de humilhações e silêncio em Nazaré; Ela que, como ninguém, sabia o último porquê do prodígio de amor da Quinta-Feira Santa e de todas as ignomínias e dores da Sexta-Feira Santa; Ela que recebeu o Coração do Salvador e o da Igreja, ambos arcas de salvação e não tribunais de condenação... Ah! como deve ter desviado os olhos e fechado os seus ouvidos quando algum filho degenerado, de sobrolhos carregados, gesto inclemente e palavras destituídas de misericórdia, desfigurou ao seu Jesus!

Bebei, devotos do Divino Coração, bebei a sorvos largos, no Coração de Maria, a doutrina suave e forte do amor, a doutrina sólida, autêntica e tão consoladora da misericórdia. Aprendei na escola de Maria que ser bom com as almas, ser compassivo, ser misericordioso não é   oh!, não!  -  nenhuma debilidade, nenhuma condescendência ridícula e indevida, mas o mais substancial, o mais forte e puro da farinha com a qual se engendra e forma a Jesus nas almas.

Em vossos momentos de filial intimidade com a Mãe do Belo Amor, suplicai-Lhe que infunda em vós, como fez a S. João Eudes, o verdadeiro espírito do amor e do apostolado do Coração de Jesus, aquele espírito que não se aprende nem se adquire em toda a sua pureza senão nessa escola do Puríssimo Coração de Maria.

Por isso encontrareis sempre nos grandes servidores da Rainha, como São Grignon de Montfort e o S. Antônio Claret, aliada à santa intransigência de princípios, aquela unção, aquela ternura apostólica, aquela imensa compaixão e indulgência que aprenderam sem dúvida, dos lábios de Maria. Por isso comoveram o mundo das almas, por isso foram os mensageiros vitoriosos do Evangelho e os renovadores providenciais, na sua época, do verdadeiro espírito cristão." (...)


Caríssimos, sede filhos amantes da Mãe do Belo Amor, da Mãe de Misericórdia! Amém!

domingo, 29 de maio de 2016

Jesus pregando Retiro aos seus sacerdotes ( III )

O sacerdote deve ser santo

   Meu Padre, tu vives desde sempre no pensamento de Deus, associado a Mim, o Santo dos santos, e à minha Mãe Imaculada. Oh!, como esta nobreza divina te obriga a ser santo!
   Durante a Missa vês-me estendido diante de ti sobre o altar, revestido de humildes aparências e inteiramente ao teu dispor.
   Não deves tu ser santo e inocente para te inclinares sobre a mesma Santidade e Inocência?
   Os teus olhos não devem ser puros e singelos como os da pomba para poderes suportar o olhar da infinita Pureza?
   Não devem as tuas mãos ser sem mancha para ousares tocar e oferecer o Cordeiro imaculado?
   Considera a que grau de inocência eu elevei minha Mãe para lhe permitir satisfazer as obrigações do seu augusto ofício, para a fazer digna de me albergar no seu seio e levar-me em seus braços. 
   Mas pensa ao mesmo tempo em ti próprio, tão semelhante a Ela na dignidade e no poder, destinado igualmente a dar-me a existência no altar e a fazer-me nascer nas almas.
   Como o humilde José, foste associado à divina Família. Eu quis que ele fosse santo e puro porque em suas mãos havia de por a guarda da minha Mãe e de mim mesmo.
   Mas quanto mais santo ainda que o justo José não deverias ser tu! A ti confiei também a honra da minha Mãe, a ti me entreguei eu próprio como criancinha sem defesa; a ti deixei o cuidado de me procurares almas, nas quais eu possa nascer como outrora na gruta de Belém.
   Quando celebras, milhares de anjos enchem o meu santuário, abismados na adoração e nos louvores. Eles são meus servidores, mas tu és meu sacerdote. Tu sobes ao altar com plenos direitos; mandas-me descer dos céus e nascer em tuas mãos.
   Oh, como eu te preferi aos anjos e como a tua santidade deveria eclipsar a deles!
   Tu és mediador comigo entre Deus e os homens. É-lo pela tua ordenação, e para sempre.
   Deves apresentar a meu Pai as homenagens de adoração e de reconhecimento das criaturas. Mas, como as aceitaria meu Pai, se as tuas mãos estivessem manchadas?
   Estás encarregado de abrandar a cólera do Juiz justamente irritado, e de pedir perdão pelos inumeráveis crimes dos homens. Mas, como aplacarás se tu mesmo és pecador?
   Estás na obrigação de alcançar para os teus semelhantes as graças de que estão necessitados. Mas, como te ouvirá Deus, se és seu inimigo?
   Eu ti confiei o cuidado das almas resgatadas com o meu sangue, o dever de proteger a inocência daqueles que me pertencem. Mas tem cautela! Se não és um anjo de pureza, o teu hálito fanará a candura destas almas.
   Eu vim para lançar fogo à terra, e tu és o facho flamejante que o ateará nas almas. Mas, como atearás tu este fogo nos outros, se o teu próprio coração é de gelo?
   Tu foste escolhido para ires à procura das ovelhas desgarradas, carregá-las sobre os teus ombros e trazê-las ao redil. Mas, se tu não és o bom Pastor, as ovelhas fugirão de ti; não conhecem a voz do estranho. E assim eu perderei essas almas queridas pelas quais derramei o meu sangue, e será por tua culpa.
   Tu és a luz do mundo. Coloquei-te nas alturas como farol luminoso para que os teus bons exemplos lancem ao longe o seu fulgor. Mas, como iluminarás se está apagado o teu brilho? Não me obrigarás a arrancar do seu lugar o candelabro?
   Oh, não te aflijas, meu filho, à vista de tantas responsabilidades! Não percas a coragem, considerando a tua fraqueza!
   Bem sei que confiei a minha graça a um vaso frágil. Bem sei que és pó e que a tua natureza te inclina para o mal desde a juventude. Eu conheço o número dos teus inimigos e as ciladas que te armam, precisamente porque és meu sacerdote.
   Reza. Recorre a mim sem cessar e obterás o triunfo. Não és sozinho a pedir. A Virgem, minha Mãe, pede contigo. O meu divino Espírito marcou-te com o seu selo e pede dentro de ti com gemidos inenarráveis.
   Que tens a temer? Todos os meus bens são teus e os teus interesses são meus. A minha própria glória vai unida ao teu triunfo. 
   Podia eu confiar-te tanto poder sem te dar a graça de o exerceres dignamente? Quereria impor sobre ti uma obrigação e depois recusar-te a graça para a cumprires?
   Não percas a coragem à vista da tua miséria. O inferno nada pode contra mim, nem contra aqueles que põem em mim o seu apoio.
   Eu sou o Senhor dos senhores, o Deus dos exércitos. Todos os meus inimigos e os teus são menos que a gota de água que brilha num copo.
   Se queres ser santo, podes sê-lo com a minha ajuda. Recomenda-te sem cessar à minha Mãe. Eu a constituí teu Perpétuo Socorro. 
   Ninguém pode arrancar das minhas mãos as almas que me amam e invocam o meu nome. 

quinta-feira, 26 de maio de 2016

ZELO SACERDOTAL

Zelo e padre são duas palavras, pode-se dizer, sinônimas e correlativas. O que a primeira exprime é condição essencial que a segunda exige. Todavia, passando da teoria à prática, podemos bem distinguir quatro espécies de padre no ministério.
   1- Há padres zelosos da sua própria salvação e da salvação do povo. São verdadeiramente padres. Santos e apóstolos. Santos, porque não se descuidam da sua perfeição sacerdotal. Apóstolos, porque se atiram à luta para levar ao céu o rebanho que lhes foi confiado. Felizes pastores  e felizes rebanhos!
   2- Há padres zelosos de sua salvação e indiferentes pela salvação do povo. São bons cristãos, mas não são bons padres. Seriam santos, se não fossem padres, mas já que o são, é preciso ver neles padres imcompletos.
   3- Há padres zelosos da salvação do povo e indiferentes de sua própria salvação. São operários cheios de probidade no serviço da Igreja. Não alteram nem a matéria nem a forma dos sacramentos. São pregadores que não deixam a verdade cativa em seus lábios. Tais padres não são traídores do povo, mas são traidores de si próprios. Seriam apóstolos, se fosse possível ser apóstolo, sem ser santo.
   4- Há padres indiferentes pela sua própria salvação e indiferentes também pela salvação do povo. Não são apóstolos nem santos. Nem salvadores de almas, nem cristãos de consciência. São padres  simplesmente infìéis à sua vocação. Não querem abrir o céu nem para os outros nem para si.
   Um bispo francês, em um retiro eclesiástico, pregava ao auditório, com acentos de dor: "Dizeis que a fé se vai extinguindo dia a dia: Vos estis lux mundi! Dizeis que a corrupção dos costumes hoje avassala a sociedade e conquista todas as idades e condições, entretanto: Vos estis sal terrae! A luz teria se apagado? O sal tornou-se insípido? A palavra de Deus não está em vossos lábios? O sangue de Jesus Cristo não está em vossas mãos? Tantos padres, tantos padres, e o cristianismo a se enfraquecer em nossa terra! Há nisto um mistério!!! (Pe. Valuy, S.J.)
  Um dia, certo professor de medicina, acompanhando os seus jovens ouvintes a uma sala de hospital, perguntava-lhes, depois de os ter colocado no meio da enfermaria: "Observemos a distância; dizei-me qual é o doente mais gravemente atingido?"  - ? - "Vede, é aquele lá ao fundo que tem moscas pousadas no rosto. Quando um doente suporta em total apatia que as moscas lhe ataquem o rosto, isso é só por si, sinal de morte próxima". Este fato acontecido há muito tempo, serve, hoje de parábola: Quando um padre consente que tudo se faça contra Deus, na sua paróquia (ou na sua obra) sem se mexer, sem reagir, isto é um sinal: o seu zelo está morto.
EXEMPLO DE ZELO
   Numa pequena paróquia, está moribundo o velho pároco: pregado no seu leito, aguarda a hora de partir, e a hora aproxima-se. Dizem-lhe que um dos seus paroquianos, desde há muito tempo revoltado contra Deus e a Igreja, está também moribundo. Envia-lhe o seu coadjutor. Este vai, mas volta sem ter conseguido coisa alguma. "Ó meu Deus, exclama o velho pároco ao seu coadjutor; peço-lhe que volte lá e diga a este infeliz que ele me prometeu não morrer sem se reconciliar com Deus." O coadjutor obedece, mas o moribundo responde zombando com ar sinistro: "Vai-te embora; a quem eu prometi isto foi ao pároco."
   O bom pároco ao saber isto, levanta os braços e os olhos ao céu e depois, sob o influxo duma inspiração súbita, diz: "Tragam-me uma padiola!" Manda colocar sobre ela um enxergão; faz-se transportar para cima dele e envolver em mantas, e ordena: "Vamos! levem-me lá".
   E, nas trevas da noite, iluminado por uma tocha que vacila, o moribundo é levado através de ásperos e longos caminhos. Quando o impenitente vê entrar no seu quarto aquela padiola e aquele velho pálido que vem ter com ele, ergue-se no seu leito com extrema dificuldade, e exclama: "Oh! que vem o senhor fazer aqui?!" - "Venho salvá-lo, responde o padre".
   Aproximam a padiola da cama do doente e deixam sós os dois moribundos. Quando, passado algum tempo, voltam ao quarto, os dois choram e pela última vez o velho pároco abençoa o doente e diz-lhe: "Meu querido filho espiritual, até breve, no céu!"
   O cortejo retoma a sua marcha nas trevas da noite, silencioso, como um cortejo fúnebre. Todos choram comovidos diante de tão heróica caridade. Chegados ao plesbitério, quando pousam a padiola e retiram as mantas, o corpo, cadavérico, fica imóvel; a alma tinha partido!
   Ó Jesus, que vos responderei eu, se a mim vos queixardes da inutilidade de vosso sangue: "Quae utilitas in sanguine meo?" Venha sobre mim, este Sangue divino, para me purificar, inflamar e transformar num sacerdote santo! Derramá-lo-ei, então, sobre as almas com mais zelo e eficácia. Amém!
  

NA CHINA - O VIÁTICO DA MÁRTIR

   O inspetor escolar, acompanhado de quatro policiais armados até aos dentes, entra na escola paroquial clandestina do Padre Fransen. Em pé diante dos alunos, manda arrancar o crucifixo da parede: "As imagens religiosas são antipatrióticas...". Depois ordena às crianças: "Adiantem-se em fila, e entreguem todas as imagens". A maioria obedece. A única rebelde é uma menina de treze anos. Segura entre as mãos uma imagem já deteriorada. O inspetor, furibundo, tenta constrangê-la. Em vão. Esbofeteia-a no rosto. Mas a menina aperta sempre mais a imagem com as mãos. "Prendam o pai dessa rebelde e conduzam-no à minha presença!"
   Os soldados reúnem todos os habitantes da aldeia dentro da igreja. A menina com  o pai, está à mesa da comunhão. Tem as mãos agrilhoadas atrás das costas. O inspetor sobe o degrau do altar. Vira as costas para o tabernáculo e pronuncia violento discurso contra o Santíssimo Sacramento. Ordena depois aos policiais de arrombar o tabernáculo, abrir a âmbula e espalhar por terra as partículas consagradas. O Padre Fransen, é fechado num quarto contíguo à igreja, de onde assiste tudo impotente.
   O povo, por fim, abandona a igreja. O padre é arrastado ao cárcere. A menina apóia-se quase sem vida a uma coluna. Depois, uma mulher amiga leva-a consigo.
   Certa manhã, bem cedo, de sua cela de prisioneiro, o Pe. Fransen, vê a menina entrar na igreja vazia. Ajoelha-se, reza, toma com os lábios uma hóstia do chão. Reza breve ação de graças e retira-se. Assim repetiu por muitos dias. Certa manhã, porém, o Padre Fransen vê um soldado entrar na igreja. A menina está na igreja ajoelhada, preparando-se para comungar. Mas o soldado tira o revólver, aponta. Uma descarga. A menina cai. Tenta reerguer-se. Arrasta-se até a hóstia mais vizinha, toma-A com os lábios e cai morta...
   Os comunistas permitiram ao Padre Fransen de sepultar esta heroica mártir da Eucaristia. Ao sair do cemitério, já esperava-o um carro. A polícia secreta transportou-o até as fronteiras, lá para as bandas de Hong Kong. 
        ( Relato de Alfredo Barth).

terça-feira, 24 de maio de 2016

CASTIDADE: O celibato eclesiástico



"Disseram-lhe os discípulos: Se tal é a condição do homem a respeito da sua mulher[não poder se  separar dela senão em caso de adultério e mesmo assim, se o fizer, não poder se casar com outra], não convém casar. Ele disse-lhes: Nem todos compreendem esta palavra, mas somente aqueles a quem foi concedido. Porque há eunucos que nasceram assim do ventre da sua mãe, há eunucos a quem os homens fizeram tais e há eunucos que a si mesmos se fizeram [no sentido espiritual] eunucos por amor do reino dos céus. Quem pode compreender compreenda" (S. Mateus XIX, 10-12).

O Papa Pio XI em 20 de dezembro de 1935 escreveu a Encíclica "AD CATHOLICI SACERDOTII", Sobre o Sacerdócio Católico.

Transcreverei apenas o que expôs o Papa sobre o celibato eclesiástico, nos números 65-73:

65.  Intimamente relacionado com a piedade anda outro ornamento gloriosíssimo do Sacerdócio católico, a castidade, cuja observância integral e perfeita é uma obrigação tão grave para os clérigos da Igreja Latina, constituídos  em Ordens maiores que, se a ela faltarem, serão por isso mesmo réus de sacrilégio (Cod. Jur. Can., c. 132, § 1). E, se esta lei não obriga em todo o seu rigor aos clérigos da Igreja Oriental, ainda entre eles é tido em honra o celibato eclesiástico; e em certos casos, - particularmente, tratando dos supremos graus da Hierarquia - é um requisito necessário e obrigatório.
66. Que esta virtude convém ao ministério sacerdotal, basta a simples luz da razão humana para o demonstrar, pois: "sendo Deus espírito" (Jo 4, 24), parece de toda a conveniência que quem se consagra ao divino serviço, em certo modo "se despoje do corpo". Já os antigos Romanos tinham visto esta conveniência: porquanto, citando o maior dos seus oradores esta lei antiquíssima: "Dos deuses aproximai-vos castamente", comenta-a com estas palavras: "Manda a lei aproximar-se dos deuses castamente, isto é, com a alma casta, da qual tudo depende; não exclui, porém, a castidade do corpo; mas isto deve entender-se assim: sendo a alma muito superior ao corpo, se se deve conservar a pureza dos corpos, muito mais se deve guardar a das almas" (M. T. Cícero, De leg. lib., II, c. 8 e 10). E no Antigo Testamento, a Aarão e a seus filhos fora ordenado por Moisés em nome de Deus que durante a semana em que se realizasse a sua consagração, não saíssem do Tabernáculo, e portanto guardassem continência durante aqueles dias (Cf. Lev. 8, 33-35).

67. Ora ao Sacerdote na Nova Lei, tão superior ao da Antiga, sem dúvida que se exige maior pureza e castidade. Os primeiros traços do celibato eclesiástico são-nos descritos na cânon 33 do Concílio de Elvira (Com Eliberit., cân. 33; Mansi, t. II, col. 11), celebrado nos princípios do século IV, quando ainda ardia o fogo da perseguição do nome cristão; o que certamente prova que esta prática já há muito estava em uso. E esta prescrição da lei não faz mais, por assim dizer, do que dar força de obrigação a um como postulado que se deriva do Evangelho e da pregação apostólica.

68. O ter o Divino Mestre, a quem chamamos num hino "flor da Virgem Mãe" (Cf. Brev. Rom. Hymn. ad Laudes in festo SS. Nom. Jesu), mostrado tão grande estima do dom da castidade, que o exaltou como coisa superior à virtude comum dos homens (Cf. Mt 19, 11); o ter querido ser educado desde os mais tenros anos na casa de Nazaré com Maria e José, ambos eles virgens; o ter amado com especial predileção as almas puras e virginais de João Batista e João Evangelista; o ouvir enfim o Apóstolo das gentes, aquele fiel intérprete da lei evangélica e da doutrina de Cristo, apregoar as excelências inestimáveis da virgindade, em ordem sobretudo ao serviço de Deus mais cuidadoso: "Quem está sem mulher, está solícito das coisas que são do Senhor, de como há de agradar a Deus" (1 Cor 7, 32): tudo isto, Veneráveis Irmãos, não podia deixar de dar em resultado que os sacerdotes da Nova Aliança não somente sentissem a atração celestial desta virtude tão privilegiada, mas se esforçassem por ser contados em o número daqueles "a quem foi dado compreender esta palavra" (Cf. Mt 19, 11), e se impusessem espontaneamente a si mesmos a observância desta continência sacerdotal, o que em seguida foi sancionado, em toda a Igreja Latina, por gravíssimo preceito da autoridade eclesiástica. Porquanto, já ao fim do século quarto, faz esta exortação o Concílio de Cartago: "a fim de que também nós guardemos o que os Apóstolos ensinaram e toda a antiguidade observou" (Conc. Carthag., can. 2; cf. Mansi, Collet. Conc., t. III, col, 191).

69. Não faltam testemunhos, nem sequer dos mais ilustres Padres orientais, que exaltam a excelência do celibato eclesiástico e atestam que ainda neste ponto havia então acordo entre a Igreja Latina e a Oriental naquelas regiões onde estava em vigor disciplina mais rigorosa. E assim,  -  para aduzirmos os exemplos mais ilustres   -  S. Epifânio, ao fim do mesmo quarto século, afirma que o celibato se estendia já aos subdiáconos: "Aquele que vive ainda ao matrimônio e tem que atender a seus filhos, posto que seja marido duma só mulher, de forma alguma o admite [a Igreja] à ordem de diácono, presbítero, bispo ou subdiácono, mas tão somente aquele que se houver separado da sua única consorte, ou for viúvo; disciplina esta que sobretudo se guarda nos lugares onde se observam com exatidão os cânones eclesiásticos" (S. Epifânio, Adversus haeres, 59, 4; Migne, P G, XLI, col. 1024).
70. Mas nesta matéria sobre todos parece eloquente S. Efrém Sírio, Diácono de Edessa e Doutor da Igreja universal, "chamado com razão cítara do Espírito Santo" (Brev. Rom., d. 18 de jun. lect 6). Dirigindo-se a Abraão, Bispo amigo seu, assim lhe diz nestes versos: "Bem acreditais o nome que tens, Abraão, porque também tu foste feito pai de muitos; mas, porque tu não tens esposa, como Abraão teve Sara, eis que a tua grei é a tua esposa. Educa os seus filhos na tua verdade, sejam para ti filhos do espírito e filhos da promessa, a fim de que venham a ser herdeiros no Éden. Ó fruto formoso da castidade, em que se compraz o Sacerdócio!... A âmbula transbordante do óleo sagrado ungiu-te, a mão sacerdotal pousou sobre ti e escolheu-te, a Igreja desejou-te e amou-te" (Carmina Nisibaena, carm. 19). E noutro lugar: "Não basta ao Sacerdote e ao seu bom nome, enquanto oferece o corpo vivo [de Cristo], purificar a alma e a língua, lavar as mãos e conservar limpo todo o corpo, mas deve ser completamente puro em todo o tempo, porque está posto como mediador entre Deus e o gênero humano. Seja louvado Aquele que purificou os seus ministros" (Ibid., carm. 18). Igualmente afirma S. Crisóstomo que "o que exerce o sacerdócio deve ser tão puro, como se estivesse colocado nos céus entre as Potestades" (De sacerd., I, III, c. 4; Migne, PG, XLVIII, 642).

71. Demais, a mesma sublimidade do Sacerdócio cristão e, para empregar a expressão de S. Epifânio, a sua "inacreditável honra e dignidade", que acima sumária e concisamente acenamos, demonstra a suma beleza do celibato e a oportunidade da lei que o impõe aos ministros sagrados do altar: quem desempenha um ofício superior, em certo modo, ao dos espíritos celestiais "que estão na presença do Senhor" (Cf. Tob 12, 49; 1 Cor 7, 32), não é razão que leve, quanto possível, uma vida celestial? Quem tem obrigação de estar inteiramente "nas coisas que são do Senhor" (Cf. Lc 2, 49; 1 Cor 7, 32), não é justo que viva separado das coisas terrenas e tenha "a sua conversação nos céus"? (Cf. Filip 3, 20). Quem há de tão solicita e constantemente andar empregado na salvação eterna das almas que continue por sua parte a obra divina do Redentor, não é conveniente que tenha a alma livre e desembaraçada dos cuidados duma família própria, que absorveriam grande parte da sua atividade?

72. Grande, na verdade, e digno da mais comovida admiração é o espetáculo, que tão frequentemente se repete na Igreja Católica: ver os jovens levitas, que, antes de receberem a ordem do Subdiaconato, isto é, antes de se consagrarem absolutamente ao serviço e ao culto de Deus, espontânea e jubilosamente prometem renunciar aos gozos e satisfações que em outro gênero de vida honestamente se poderiam permitir. Espontânea e jubilosamente, dizemos; portanto, se, depois de recebida a Ordem sacra, já lhes não é permitido contrair núpcias terrenas, para a ordenação contudo avançam sem a menor coação de qualquer lei ou pessoa, mas sim movidos por sua própria vontade (Cf. Cod. Jur, Can., Can. 971).


73. Não obstante o que até aqui levamos dito em favor do celibato eclesiástico, não queremos que seja interpretado, como se tivéssemos intenção de desaprovar e censurar em certo modo a disciplina diversa, que legitimamente foi introduzida na Igreja Oriental: de fato, a nossa única intenção é exaltar aquela verdade, que não somente consideramos como uma das glórias mais preclaras do Sacerdócio católico, mas também nos parece corresponder mais digna e convenientemente aos desígnios e desejos do Sacratíssimo Coração de Jesus acerca das almas sacerdotais". 

domingo, 22 de maio de 2016

A SANTÍSSIMA TRINDADE NA ALMA ( Extraído dos escritos teológicos de Tanquerey)

   Era na última Ceia. Jesus Cristo acabava de anunciar aos apóstolos a vinda do Espírito Santo, do divino Paráclito, que ficaria para sempre com eles (S. João, XIV, 19 e 20 ), quando lhes fez esta consoladora promessa: "Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos a ele e faremos nele a nossa morada (S. João, XIV, 23 ).
   Assim, pois, toda a alma que ama a Jesus e guarda os seus mandamentos é amada pelo Pai, e o Pai vem a ela, com o Filho e o Espírito Santo, e vem não para uma simples visita, mas para se fixar e nela fazer a sua morada; portanto, não por um prazo limitado, mas para sempre, enquanto não tiver a infelicidade de o expulsar com um pecado grave.
   Mas como vem até nós a Santíssima Trindade?
   Deus, diz-nos Santo Tomás, está naturalmente nas criaturas de três modos diferentes: pelo seu poder, porque todas elas estão sujeitas ao seu império; pela sua presença, porque ele vê tudo, mesmo os mais secretos pensamentos da alma; pela sua essência, visto que opera em toda a parte e em toda a parte Ele é a plenitude do ser e a causa primária de tudo o que há de real nas criaturas, comunicando-lhes sem cessar não apenas o movimento e a vida, mas o próprio  ser: "porque é nele que temos a vida, o movimento e o ser" (Atos, XVII, 28). 
   Entretanto, a Sua presença em nós pela graça é de uma ordem muito superior e mais íntima. É a presença da própria Santíssima Trindade, tal como a fé no-la revelou; o Pai vem até nós e em nós continua a gerar o Verbo; com Ele recebemos o Filho, perfeitamente igual ao Pai, sua imagem viva e substancial, que não cessa de amar infinitamente o Pai como por Ele é amado; deste amor mútuo brota o Espírito Santo, pessoa igual ao Pai  ao Filho, laço mútuo entre os dois, e no entanto distinto de um e de outro. Quantas maravilhas se operam numa alma em estado de graça!
   Se quisermos exprimir em duas palavras a diferença essencial que existe entre a presença de Deus em nós pela natureza e s sua habitação pela graça, podemos dizer que pela sua presença natural Deus está e opera em nós, mas que pela sua presença sobrenatural Ele próprio se nos dá para que gozemos a sua amizade, a sua vida e as suas perfeições: " O amor de Deus está em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado" (Rom. V, 5). Assim, pois, é-nos dado o Espírito Santo e com ele a Santíssima Trindade, pois as três pessoas divinas são inseparáveis.; é nosso e, se disso tivéssemos uma consciência viva e profunda, compreenderíamos que a graça é já um início da vida eterna, desta inefável alegria que se experimenta com a posse de Deus.
   Que relações estabelece a graça entre nós e as três pessoas divinas?
   Para aprofundarmos um pouco mais os nossos conhecimentos desta presença íntima, nada mais apropriado e seguro do que a própria palavra de Deus. Por isso escolhemos alguns textos das Sagradas Escrituras, sobre a ação do Pai e do Filho e do Espírito Santo em nós pela graça.
   a) Pela graça o PAI adota-nos como filhos. Este insigne privilégio brota da nossa incorporação em Cristo; desde o momento em que somos membros de Jesus Cristo e como que um prolongamento, uma extensão da sua pessoa, o Pai envolve-nos com o mesmo olhar paternal que a seu Filho, adota-nos como filhos, ama-nos como Ele o ama, não com um amor igual, mas com um amor semelhante. É o que declara o discípulo amado, São João, que foi de todos o que mais aprofundou os segredos do Mestre: "Vede que amor nos testemunhou o Pai, determinando que sejamos chamados filhos de Deus, e que o sejamos com efeito!" ( 1ª Jo. III, 1). Como vimos na postagem sobre a graça santificante, a nossa adoção não é puramente nominal, mas verdadeira e real, embora distinta da filiação do Verbo Encarnado. Porque somos filhos, somos herdeiros de pleno direito do reino celeste, e co-herdeiros daquele que é nosso irmão primogênito (Rom, VIII, 17).  Em vista disto, Deus manifesta para conosco a dedicação e a ternura de um pai. Mais ainda: de uma mãe: "Poderá a mulher esquecer o seu filho? Não terá compaixão do fruto das suas entranhas? Porém, ainda que ela se esquecesse, eu nunca me esqueceria de ti" (Isaías, XLIX, 15). "Deus amou de tal modo o mundo que lhe deu o seu  Filho unigênito, para que todo o que crê n'Ele não pereça, mas tenha a vida eterna" (S.João, III, 16).
   Poderia Ele dar-nos uma maior prova de amor? Poderemos nós recusar algo Àquele que, para nos salvar e santificar, nos dá o Seu próprio Filho, o Seu Filho unigênito?
   b) O FILHO veio também habitar na nossa alma; chama-nos seus irmãos e trata-nos como amigos íntimos. Ele que é o Filho eterno do Pai, o Verbo gerado desde toda eternidade, em tudo igual ao Pai, trata-nos assim com toda bondade e ternura. Após a Ressurreição, aparece a Madalena, que o seguira até ao Calvário, e, falando-lhe dos discípulos, diz-lhe:"Vai aos meus irmãos e diz-lhes: subo para meu Pai e vosso Pai, para o meu Deus e vosso Deus" (S. João, XX, 17). São Paulo diz: "Porque os que Ele conheceu na sua presciência, também os predestinou para serem conformes à imagem de Seu Filho, para que Ele seja o primogênito entre muitos irmãos" (Rom. VIII, 29). Ele terá, pois, para conosco a ternura, a dedicação que um irmão mais velho consagra aos mais novos; irá ao ponto de se sacrificar por nós, a fim de que, lavados e purificados no seu sangue (Apoc. I, 5), possamos participar de Sua vida e entrar com Ele um dia no reino do Pai.
   Quis ser também nosso amigo. Na última Ceia, declara aos apóstolos e, na pessoa deles, a todos os que acreditarem n'Ele: "Vós sois meus amigos, se fizerdes o que vos mando. Não mais vos chamarei servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas chamo-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai" (S. João, XV, 14 e 15).
   O Filho de Deus deu-nos a maior prova de amor: deu a sua vida por nós. Não há maior amor do que dar a vida pelos amigos" (S. João, XV, 13). E deu-a numa altura em que, pelo pecado, éramos seus inimigos. Se assim foi, o que não fará por nós,agora que fomos reconciliados pela virtude do seu sangue? Ouçamos o que Ele nos diz: "Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir  a minha voz e abrir a porta, entrarei nele, cearei com ele e ele comigo" (Apc. III, 20). Podia, se quisesse, entrar como Senhor. Mas não, espera que lho abramos de boa vontade: não quer forçar a entrada, quer que nós mesmos lha vamos abrir, e só depois entrará como amigo. Santa Teresinha do Menino Jesus dizia com uma candura extraordinária: "Jesus, eu queria amá-lo tanto, amá-lo como nunca foi amado". Em nossas orações, comunhões e visitas ao Santíssimo, procuremos tentar conversar afetuosamente com Jesus, nosso irmão muito amado, com Ele que vem mendigar junto de nós um pouco de amor: "Meu filho, dá-me teu coração" (Prov. XXIII, 26).
   c) O ESPÍRITO SANTO vem habitar em nosso coração a fim de o santificar e adornar com todas as virtudes, produzindo nele a caridade e dando-se a si próprio: "A caridade de Deus é espalhada nos nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi dado" (Rom. V, 5).
   Ao dar-se  ao homem, o Espírito Santo transforma a nossa alma num templo sagrado: "Não sabeis, diz-nos São Paulo, que sois templo de Deus e que o Espírito Santo habita em vós? ... O templo de Deus é santo, e vós sois santos" (1ª Cor. III, 16 e 17). Ele é, com efeito, o Deus de toda a santidade, e, quando vem à nossa alma, esta torna-se um recinto sagrado e onde se compraz em derramar as suas graça com santa profusão.
   Deste modo o Espírito Santo torna-se nosso colaborador no obra da santificação pessoal e ajuda-nos a cultivar a vida sobrenatural que depositou em nós. Por si, o homem nada pode na ordem da graça (S. João, XV,5); mas o Espírito Santo vem suprir a sua fraqueza. Temos necessidade de luz? Eis que Ele desce para nos fazer compreendr e saborear os ensinamentos do Mestre: "O Consolador, o Espírito Samto , que o Pai enviará em meu nome, vos ensinará todas as coisas e vos lembrará tudo o que eu vos disse" S. João, XV, 26). Precisamos de força para pôr em prática as divinas sugestões? O mesmo Espírito "opera em nós o querer e o agir" (Filip. II, 13), isto é, dá-nos a graça de querer e  de pôr em prática as nossas resoluções. Não sabemos orar? "O Espírito Santo vem em auxílio da nossa fraqueza, porque não sabemos o que, segundo as nossas necessidades, devemos pedir; porém, o mesmo Espírito ora por nós com gemidos inefáveis" (Rom, VIII, 26). Ora, as preces feitas sob a ação do Espírito Santo e apoiadas por Ele são forçosamente ouvidas.
   Se se trata de combater as nossas paixões, de vencer as tentações que nos importunam, é Ele ainda que nos dá forças para lhes resistirmos e tirar delas proveito: "Deus, que é fiel, não permitirá que sejais tentados além das vossas forças, mas com a tentação dar-vos-á o poder de lhe resistir" (1ª Cor. X, 13). Quando, cansados de praticar o bem, caímos no desânimo e receamos pela nossa perseverança, Ele virá até nós par sustentar a nossa coragem abalada e dir-nos-á afetuosamente: "Aquele que comiçou em vós a obra da vossa santificação há de aperfeiçoá-la até o dia de Cristo Jesus" (Filip. I, 6).
   Não temos, pois, que temer, desde que ponhamos a nossa confiança nas três pessoas divinas, que vivem e operam em nós expressamente para nos consolar, fortificar e santificar. Nunca estamos sós: temos em nós Aquele que faz a felicidade dos escolhidos! Eis porque, se tivéssemos uma fé viva, poderíamos repetir com a irmã Santa Isabel da Trindade: "Encontrei o céu na terra, porque o céu é Deus, e Deus está na minha alma. No dia que compreendi isto, tudo se esclareceu em mim, e eu quereria dizer este segredo àqueles que amo". Quantas almas foram transformadas, a exemplo desta Carmelita, no dia em que compreenderam, sob a ação do Espírito Santo, que Deus habita nelas! Quantas conheceram então um novo rumo na sua vida, uma ascenção contínua para Deus e para a perfeição, sobretudo se se esforçaram por viver na intimidade com o hóspede divino. E é justamente isto que vamos ensinar na postagem seguinte: OS NOSSOS DEVERES PARA COM O HÓSPEDE DIVINO.
  
  

A GRAÇA SANTIFICANTE - COM EXPLICAÇÃO DO QUADRO


Quadro nº 18 - A graça santificante
  
     EXPLICAÇÃO DO QUADRO: Este quadro nos oferece no alto, à direita, um modelo admirável de fidelidade à graça atual na pessoa de Saulo. Converteu-se, foi perdoado e recebeu a graça santificante, pela gual, de perseguidor da Igreja, tornou-se um santo. São Paulo pôde dizer: "Vivo, mas não sou eu que vivo, é Jesus Cristo que vive em mim".
   Vemos no alto, à esquerda, Nosso Senhor Jesus Cristo sentado à beira do poço de Jacó e dizendo à Samaritana: "Óh! se conhecesses o dom de Deus"! Este dom de Deus que está acima de todos os bens deste mundo, não é outro senão a graça.
   A alma no estado de graça é representada no meio deste quadro por uma virgem revestida da veste da inocência e tendo um lírio na mão; ela olha o céu e traz o Espírito Santo em seu coração, segundo esta palavra de São Paulo: "Não sabeis que sois o templo de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós"? Ela está na luz, porque a graça é luz.
   A alma em estado de pecado mortal é representada em baixo à direita, por uma moça mergulhada nas trevas, revestida de hábitos de luto e acorrentada pelo demônio que reina com autoridade de dono em seu triste coração. Seu semblante respira pavor e tristeza. Está cercada de animais ferozes e de répteis venenosos e repelentes, símbolos que são dos vícios capitais.
   Em baixo, à esquerda, vemos Judas Iscariotes traíndo Jesus com um beijo. Jesus, momentos antes, havia dito que o Iscariotes não estava limpo porque estava com o demônio, portanto sem a graça de Deus. Ali no horto das Oliveiras, Jesus, poucos minutos antes de ser preso, disse: "Esta é a hora do poder das trevas". Nada mais triste do que o pecado mortal: o pecador, de filho de Deus passa a ser escravo do demônio. De herdeiro do Paraíso, passa a ser merecedor do inferno.
    Esta é a explicação do quadro catequético. Vamos dar agora a explicação da DEFINIÇÃO de graça santificante, também chamada habitual.
   Que é graça santificante ou habitual?
   Graça santificante, também chamada graça habitual é um dom de Deus, sobrenatural e gratuito, inerente à nossa alma, conferido pelos méritos de Nosso Senhor Jesus Cristo para fazer-nos justos e filhos adotivos de Deus, participantes de Sua natureza divina, capazes de realizar obras sobrenaturais e meritórias e de nos tornar herdeiros do Paraíso.
   EXPLICAÇÃO DOS TÊRMOS DA DEFINIÇÃO: Santificante: porque torna a alma justa e santa aos olhos de Deus.
   Habitual: porque ela permanece na alma. Por isso é chamada estado de graça. A pessoa só perde a graça cometendo pecado mortal. É chamada também a vida da alma. Mesmo a pessoa estando dormindo, a graça habitual ou santificante permanece na alma. Portanto, é diferente da graça atual que é um auxílio de Deus essencialmente transitório.
   Um dom de Deus: não há nenhuma exigência da parte de nossa natureza. Deus concede a graça santificante às almas por Sua bondade e liberalidade infinitas. Só temos a capacidade de recebê-la; o que os irracionais não têm. Mas esta capacidade chamada obediencial também nos foi dada por Deus. Por isso, também, é chamado um dom gratuito.
   Sobrenatural: é um dom que excede toda natureza criada ou criável e que, portanto, só pode ser comunicada por Deus. Como vamos ver a seguir, a graça santificante é uma participação real, embora limitada e acidental da própria natureza de Deus. E a vida de Deus está acima de toda natureza, por mais perfeitas que sejam, como a natureza humana e a natureza angélica. A graça santificante diviniza a nossa alma; e o homem não tem direito algum ou exigência a sua divinização.
   Inerente à nossa alma: Assim como a vida não é alguma coisa externa adicionada ao corpo, mas é unida intrinsicamente ao corpo assim também a graça não é algo adicionado apenas extrinsicamente à alma mas é uma qualidade permanente que dá a vida a nossa alma.  É vida divina, sobrenatural. Vamos entender isto melhor quando falarmos da justificação.
   Conferido pelos méritos de Nosso Senhor Jesus Cristo: porque Jesus Cristo é a única fonte da graça de tal modo que não se pode separar Jesus Cristo da graça. O homem não se volta para Deus senão por meio do Homem-Deus, único mediador entre Deus e o homem. Unidos a Jesus, participamos da Sua vida divina. Nossa união com Ele mediante a graça é o princípio  e o meio de nossa transformação em Deus. A graça é laço que deve unir cada um de nós ao Nosso Jesus.
   Para fazer-nos justos: quer dizer que Deus faz a justiça aparecer onde ela não estava. Justificação, portanto, é um ato divino pelo qual são remetidos os pecados, original e atuais se for o caso, e que traz os pecadores do estado de culpa ao estado de graça e de justiça. Jesus não cobriu apenas os nossos pecados, mas os lavou inteiramente com o Seu sangue divino. É precisamente o que São João Batista disse de Jesus: "Eis o cordeiro de Deus, eis Aquele que tira os pecados do mundo".
   Para fazer-nos filho adotivos de Deus: Jeus Cristo unindo-nos a ele e nos fazendo participantes da natureza de Deus, nos eleva à diginidade de filhos adotivos de Deus. Mas a adoção feita pelos homens é uma ficção não é uma realidade. Em outras palavras: o pai adotivo transmite o seu nome e os seus bens, porque é uma lei passada no cartório, mas o filho adotivo não recebe dos seus pais adotivos o seu sangue e a sua vida. É como se fosse filho. A graça da adoção divina não é uma ficção; é uma realidade. Não só somos chamados como se fôssemos filhos de Deus, mas somos realmente filhos de Deus. Recebemos pela graça santificante uma participação da própria natureza de Deus. E é uma participação real, embora limitada e acidental da própria vida de Deus. Deus fêz o homem à sua imagem e semelhança. Pela queda o homem perdeu tudo. Mas, Nosso Divino Redentor restituíu-nos tudo de novo. E onde abundou o pecado, superabundou a graça.
   Participantes de Sua natureza divina: Logo acima, acabamos de explicar um pouco. Vamos continuar a explicação, porque é algo extremamente sublime. Aqui está, pois, toda a verdadeira dignidade do homem. Na verdade, a graça santificante é uma vida nova, não igual , mas semelhante à vida de Deus, o que, segundo o testemunho da Santa Bíblia, supõe uma nova geração ou regeneração: "Quem não renascer por meio da água e do Espírito Santo, não pode entrar no reino de Deus" (S.João, III, 5). Por isso o batismo é chamado o sacramento da regeneração, pois ele faz-nos nascer para a vida da graça, para a vida divina (Tim. III, 5).
   Capazes de realizar obras sobrenaturais e meritórias: isto porque as ações do homem em estado de graça não constituem uma atividade puramente humana, mas uma atividade divinizada. "Os dons mais extraordinários, diz o beato D. Marmion, os talentos mais caros, as empresas mais generosas, as maiores ações, os esforços mais consideráveis, os sofrimentos mais profundos, carecem de todo mérito para a vida eterna, sem a caridade, isto é, sem a amor sobrenatural que nasce da graça santificante como a flor do galho". Devemos observar ainda, que a vida da graça, embora distinta da vida natural, não se lhe sobrepõe simplesmente; penetra-a totalmente, transformando-a, elevando-a e tornando-a deiforme, isto é, semelhante à vida de Deus. Com efeito, ela assimila tudo o que há de bom na nossa natureza  -  educação, hábitos bons adquiridos, etc.--; aperfeiçoa e sobrenaturaliza todos estes elementos, orientando-os para Deus.
   De nos tornar herdeiros do Paraíso: Por tudo o que já dissemos sobre a graça, fica mais fácil compreendermos como a graça, elevando-nos a ordem sobrenatural nesta vida, nos dá a possibilidade de conseguirmos a vida eterna ou o Paraíso na outra. As Sagradas Escrituras nunca separam nossa adoção divina de nosso destino, a herança de Deus e Sua visão face à face no Paraíso. A graça habitual é, no fundo, da mesma natureza que a glória do céu. É, dizem os Santos Padres, um antegozo da felicidade do céu, a aurora da visão beatífica, o botão que já contém a flor, posto que esta só desabroche mais tarde. A graça é semelhante às lâmpadas acesas, escondidas em vasos de barro, que Gedeão deu aos seus trezentos valentes na batalha contra os Madianitas. Quando no silêncio da noite quebrou-se o vaso, o inimigo foi desbaratado e posto em fuga. Assim também nós. Quando nosso corpo, frágil vaso de barro,  se quebrar na noite da morte, brilhará a lâmpada de nossa alma, acendida com os resplendores da graça de Deus. O demônio será derrotado e como os valentes de Gedeão, cantaremos a vitória, que é toda de Deus.
   Por que  dizemos que a participação da vida divina pela graça, é  acidental e não substancial? Resposta: É para  distigui-la da geração do Verbo, que recebe toda a substância do Pai. Também para distingui-la da união hipostática, que é uma união substancial da natureza humana e da natureza divina na única Pessoa do Verbo. Nós, efetivamente, conservamos a nossa personalidade.
   Por se tratar de algo tão sublime e profundo, os Santos Padres lançam mão de comparações para nos fazerem compreender esta divina semelhança:
   1ª - A nossa alma, dizem, é uma imagem viva da Santíssima Trindade, uma espécie de retrato em miniatura, pois que o próprio Espírito Santo se vem imprimir em nós, como um sinete sobre cera branda, e assim nela deixa a sua divina semelhança. Daqui concluem que a alma em estado de graça é  duma beleza arrebatadora, pois que o artista, que nela pinta esta imagem, é infinitamente perfeito, visto ser o próprio Deus.
   2ª - Comparam ainda a nossa alma a esses corpos transparentes que, recebendo a luz do sol, são como penetrados por ele e adquirem um brilho incomparável que em seguida difundem em torno; assim a nossa alma, semelhante a um globo de cristal iluminado pelo sol, recebe a luz divina, resplandece com vivíssimo clarão e o reflete sobre os objetos que a rodeiam.
   3ª - Para mostrarem que a semelhança com Deus não fica à superfície, senão que penetra até o mais íntimo da nossa alma, recorrem à comparação do ferro e do fogo. Assim como, dizem eles, uma barra de ferro, metida em uma fornalha ardente, adquire bem depressa o brilho, o calor e a maleabilidade do fogo, assim a nossa alma, mergulhada na fornalha do amor divino, ali se desembaraça das escórias e ferrugens, tornando-se brilhante, ardente e dócil às inspirações divinas.
   4ª - Querendo exprimir a idéia de que a graça é uma vida nova, comparam-na a um enxerto divino, inserido na árvore silvestre da nossa naturaza, o qual se combina com a nossa alma para nela constituir um princípio vital novo, e, por isso mesmo, uma vida muito superior. Mas, assim como o enxerto não confere à árvore selvagem toda a vida da árvore boa enxertada, senão tão somente uma ou outra das suas propriedades vitais, assim a graça santificante não nos dá toda a natureza de Deus, mas alguma coisa da Sua vida, que constitui para nós uma vida nova; participamos, pois, da vida divina, mas não a possuímos na sua plenitude.
   Para completar, faremos mais alguns esclarecimentos:
   Como se pode adquirir, aumentar ou perder a graça santificante?
   1º - Adquire-se pela primeira vez a graça santificante no batismo. Quando a temos perdido por nossas culpas, recupera-se por meio do sacramento da penitência ou pelo ato de contrição perfeita. Conserva-se observando fielmente a lei de Deus e fugindo do pecado mortal.
   2º - Aumenta-se a graça santificante pela oração, as boas obras, e especialmente a participação dos sacramentos que recebemos com as dividas disposições. Sempre pode crescer mais e mais; é neste sentido que o Espírito Santo falou: "A senda do justo, qual uma luz pura, eleva-se e alumia sempre mais, até chegar ao dia claro e perfeito" (Prov. IV, 18). No Apocalípse diz: "Quem  é justo, justifique-se ainda; quem é santo, santifique-se ainda" (XXII, 11).
   3º - A graça santificante perde-se pelo pecado mortal, e um único basta para nos arrebatar este tesouro e também todo o mérito de nossas boas obras anteriores. Se, porém, a alma culpada recuperar a graça santificante, seus méritos passados tornam a viver; mas as obras feitas no estado de pecado ficam inúteis para o céu.

   CONCLUSÃO PRÁTICA

   Devemos ter horror ao pecado mortal e também ao pecado venial que termina levando a alma a cair no mortal. Devemos empregar todos os meios para vivermos sempre no estado de graça. Este deve ser o estado normal de um cristão. Devemos, outrossim, trabalharmos sempre para crescermos mais e mais na graça de Deus. Jesus disse que estivéssemos sempre preparados e que trabalhássemos enquanto é dia.
   Há, no entanto, uma reflexão com que não podemos deixar de tremer: é esta palavra das Sagradas Escrituras: "Ninguém sabe se é digno de amor ou de ódio" (Eclesiastes, IX, 1). A Santa Madre Igreja, porém, nos dá a resposta: Ninguém pode, realmente, estar certo, com a certeza da fé, de que se acha justificado. (Conc. de Trento contra os Protestantes). Os teólogos concordam, no entanto, que podemos ter certeza moral de que se possui o estado de graça. Os sinais que nos dão esta certeza são: o sincero amor de Deus, o fervor na oração, o propósito firme de evitar o pecado, o desprezo dos bens deste mundo, a prática da mortificação e, sobretudo, o testemunho da consciência. Todas estas coisas reclamam a presença da caridade e da graça habitual. Nosso Senhor Jesus Cristo dá-nos uma palavra consoladora: "Quem me ama, guarda os meus mandamentos; meu Pai também o amará, nós viremos a ele e faremos nele morada" (S.Jo. XIV, 23). E o apóstolo da caridade, São João, completa esta certeza moral dizendo: "Se o nosso coração não censurar nada, podemos ter plena confiança em Deus". E o apóstolo São Pedro, primeiro papa, diz; "Aplicando todo o cuidado, juntai à vossa fé a virtude, à virtude a ciência, à ciência a temperança, à temperança a paciência, à paciência a piedade, à piedade a caridade... Quem não tem estas coisas é cego e anda às apalpadelas, e esquece-se de que foi purificado dos seus pecados antigos. Portanto, irmãos, ponde cada vez maior cuidado em tornardes certa a vossa vocação e eleição por meio das boas obras, porque, fazendo isto, não pecareis jamais. Deste modo vos será dada largamente a entrada no Reino eterno de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo"(2ªS. Pedro, I, 5-11).
   Há ainda uma outra maravilha da graça santificante: o justo passa a ser Templo da Santíssima Trindade. Mas isto será explanado numa próxima postagem com o título: A SANTÍSSIMA TRINDADE NA ALMA.
  
  
  
  

sábado, 21 de maio de 2016

OS SACERDOTES DE CRISTO

   Quis o Divino Redentor que a vida sacerdotal, iniciada por Ele no seu corpo mortal com as suas orações e o Seu Sacrifício, se não interrompesse, no decorrer dos séculos, no seu Corpo Místico, que é a Igreja; e, portanto, instituiu um sacerdócio visível para oferecer em toda parte a oblação pura (Malaquias, I, 11), para que, do Oriente ao Ocidente, os homens libertos do pecado servissem a Deus por dever de consciência, espontâneamente e de boa vontade. 
   Contra os erros protestantes definiu o Concílio de Trento: "se alguém disser que com estas palavras: "Fazei isto em memória de mim", Jesus Cristo não instituíu seus Apóstolos sacerdotes e não ordenou que eles, como os demais sacerdotes, ofercessem seu Corpo e Seu Sangrue - seja anátema. Portanto, segundo a fé católica, somente o que foi  ungido com o Sacramento da Ordem consagra a eucaristia. Este sacerdócio não se transmite nem por herança, nem por descendência carnal, não provém de comunidade cristã, nem da delegação popular. Vem de Deus e é pois, sobrenatural. É conferido pelo sacramento da Ordem. Quando o homem chamado por Deus foi ungido sacerdote, disse-lhe o Bispo: "Recebe o poder de oferecer o Sacrifício a Deus e de celebrar a Missa, tanto para os vivos como para os defuntos, em nome do Senhor".
   Ministro da Igreja, o sacerdote recolhe as homenagens de adoração, ação de graças, desagravo e prece do Corpo Místico. Ao Sacrifício do Esposo une o Sacrifício da Esposa. E, por isso que consagra na pessoa de Cristo e oferece em nome da Igreja, a sua ação nunca privada, e malgrado a sua indignidade pessoal, a Missa conserva pleno valor.
   A mediação única de Jesus Cristo se prolonga na terra, através dos tempos, justamente pelo ministério dos sacerdotes. O padre oferece a Deus em nome dos fiéis, sobre o altar, o sacrifício eucarístico; do altar distribui ao povo a Vítima sagrada, o pão da vida, e, com ele, todos os dons e todas as graças.
   O Altar é, na terra, o centro da religião de Jesus, como o Calvário é o remate e a culminação da Sua vida. Todos os mistérios da existência terrestre de Jesus convergem para a imolação da Cruz; todos os estados de Sua  vida  gloriosa aí vão haurir o seu esplendor.
   É por isso que a Igreja não comemora nem celebra mistério algum de Jesus sem oferecer o Santo Sacrifício da Missa. Afinal, todo culto público organizado pela Igreja gravita em torno do altar. Seja, pois, qual for o mistério de Jesus que celebremos, não podemos participar nele de modo mais perfeito nem prepararmos melhor para dele colhermos os frutos, do que participando com fé e amor do Sacrifício da Missa, e unindo-nos, pela Comunhão, à Vítima Divina por nós imolada sobre o altar.

EXEMPLO
   Nos primeiros decênios do século XV, piratas de terra e de mar haviam invadido a Groelândia, passando a fio de espada uma parte da população cristã, reduzindo o resto à escravidão. Todas as igrejas tinham sido arrasadas até ao solo, e todos os sacerdotes mortos.
   Muitas vezes os pobres Groelandeses tinham recorrido a Roma, onde era Papa Inocêncio VIII, mas inutilmente. O mar em toda a volta da sua inóspita praia gelara, de modo que, havia oitenta anos, nehuma nau estrangeira ali tinha podido aproar. Privados de bispos e de sacerdotes, muitos já haviam esquecido a fé de seus pais, retornando aos vícios do paganismo.
   Só poucos tinham sabido conservar-se fiéis à religião. Esses tinham achado um corporal, aquele sobre o qual repousara o Corpo do Senhor na última Missa celebrada pelo último padre groelandês. Todo ano eles o expunham à veneração pública: em torno dele os velhos, tremendo e chorando, rezavam; em torno dele as mães conduziam seus filhos para aprenderem a conhecer a Jesus. Em torne dele todos se comprimiam como famintos en torno de uma branca mesa sobre a qual não tinha ficado mais do que o perfume da comida. E exclamavam: "Senhor! envia-nos depressa o sacerdote que consagre, dá-nos ainda, uma vez ao menos, a Tua Carne a comer e Teu Sangue a beber, do contrário também nós perderemos a fé e morreremos como pagãos". (L. PASTOR, História dos Papas, vol. III, págs. 448 e 449).

sexta-feira, 20 de maio de 2016

HANS-KUNG QUER MODIFICAR O DOGMA DA INFALIBILIDADE

A - A HISTÓRIA DO CONCÍLIO VATICANO I

   Ano 1869 - 1870 inacabado. É o vigésimo Concílio Ecumênico da Igreja. Concílio Ecumênico é a reunião de todos, ou de uma grande parte dos Bispos da Igreja Católica, aos quais convoca e preside pessoalmente ou por delegação, o mesmo Sumo Pontífice. Ecumênico aqui quer dizer: de toda a Igreja.
   Quem convocou este Concílio foi o Papa Pio IX, hoje beato. (1846-1878). Chamava-se João Maria Mastai Ferretti. Foi um homem totalmente extraordinário. Não só foi extraordinária a duração de seu pontificado - trinta e um anos - mas também as consequências que este teve para a História da Igreja. Nunca houve um papa que fora tão querido dos católicos do mundo inteiro e tão respeitado pelos não católicos. É o papa da época de São João Bosco. Morreu dez anos antes de São João Bosco. E eis o que diz dele este grande santo: "Pela firmeza de sua fé, por sua caridade, por sua benevolência, por seus conselhos e por sua mansidão, tinha-se tornado a delícia do mundo inteiro e dos corações. Os próprios não católicos o consideravam qual amigo, pai, irmão e benfeitor... "Prova disto, continua São João Bosco, "a 6 de julho de 1871 completava-se o 25º aniversário de seu pontificado. Comoveu-se o mundo e todas as partes se prepararam de mil e diferentes modos para atestar ao Pontífice sua alegria e sua veneração... Deste a mais humilde aldeia até a mais ilustre cidade, os próprios protestantes, hereges e o Grão Sultão, todos compartilharam daquele grande dia. Os transportes de alegria dos católicos pela ocorrência do 25º ano de seu pontificado renovaram-se ao festejarem o 50º ano da celebração de sua primeira missa. O do seu jubileu episcopal, porém, excedeu a todos os demais acontecimentos da História Eclesiástica, e a tudo o que é possível legar à posteridade. Basta dizer que no ano de 1877, fiéis cristãos de toda idade e condições, partiam das mais longínquas regiões da terra para irem venerar ao chefe da Igreja e levar a seus pés quanto possuíam de mais precioso em trabalho da arte, em ouro, em prata ou em trabalhos científicos" (Hist. Ecl. de S. João Bosco). Foi um papa sobretudo missionário. "As Missões estrangeiras, diz São João Bosco, formaram um dos maiores objetos de seu paternal zelo".
   Pio IX foi ainda o papa que condenou os erros do Naturalismo e do Liberalismo com a Encíclica Dogmática "Quanta Cura" e o célebre "Syllabus" que, segundo vários abalizados teólogos, também é um documento dogmático. Foi Pio IX que definiu o dogma da Imaculada Conceição da Santíssima Virgem Maria, Mãe de Deus. É o papa, como já foi dito, que convocou e presidiu o Concílio Vaticano I e nele definiu o dogma da Infalibilidade Pontifícia. Depois destes parênteses para falarmos um pouco sobre o papa Pio IX, vamos agora fazer um resumo da história do Concílio Vaticano I.
   A História deste Concílio está intimamente ligada com a história do século XIX e de seus erros. Na Constituição "DEI FILIUS" deste Concílio Vaticano I, caíram feridos de morte os erros do Racionalismo e do Ateísmo. Na Contituição "PASTOR AETERNUS" ficaram sepultadas as idéias galicanas. (Depois vamos ver o que significa GALICANISMO).

OS ANTECEDENTES DO CONCÍLIO VATICANO I

   Quatro anos antes do Concílio (em 1865) o papa Pio IX já nomeara cinco comissões de cardeais de sua maior confiança para preparar o Concílio. Enviou a trinta e cinco cardeais dos mais conspícuos e sábios da Igreja latina seu desejo de que expusessem sua opinião sobre os temas que no Concílio se haviam de ventilar e pediu que enviassem suas respostas às comissões dos cardeais. Fez o mesmo com os bispos do rito oriental. E, por prudência, os trabalhos foram feitos em segredo.
   Pio IX, aproveitando da estima que gozava até junto aos não católicos (hereges = os protestantes e os ortodoxos cismáticos) com espírito missionário e não por falso ecumenismo, convidou-os para estarem presentes no Concílio. Declarou que seria um tempo de graças e de bênçãos para eles. Tanto os protestantes como os ortodoxos cismáticos não aceitam a Infalibilidade Pontifícia. Por isso eu disse "não por falso ecumenismo," porque o próprio Pio IX  em julho de 1871 vai dizer aos Peregrinos de Nevers "... sem dúvida, deve-se praticar a caridade, fazer o possível para atrair os extraviados; entretanto, não é necessário por causa disto compartilhar com suas opiniões".
   Quando, se Deus quiser, escrevermos sobre o Concílio Vaticano II, veremos, também baseados nas palavras do papa (no caso Paulo VI), que foi bem diferente o espírito com que foram convidados os protestantes para estarem no Concílio Vaticano II e na Comissão para elaboração do "Novus Ordo Missae".
   Diz o célebre historiador eclesiástico Llorca: "O convite do papa Pio IX aos protestantes e ortodoxos cismáticos caiu no vazio", isto é, ninguém aceitou, ninguém compareceu. Se soubessem (como aconteceu no Concílio Vaticano II e na Comissão do Novus Ordo Missae) que lá ouviriam e leriam coisas ambíquas que poderiam interpretar a seu favor, certamente teriam ido, e depois teriam aceito uma foto ao lado de Pio IX, com sorrisos de satisfação e teriam elogiado os trabalhos do Concilio e de sua Comissão talvez mais do que o fizeram os próprios católicos. É preciso que todos saibam que foram os próprios protestantes que iniciaram o movimento ecumênico no começo do século passado.
   Bom! Depois de mais estes parênteses, continuemos. Diz Llorca que certo dia, um dos familiares de Pio IX se queixava das dificuldades contra a celebração do Concílio. O Papa tranqüilo respondeu: "Todos os concílios passam por três fases: a do diabo, a dos homens e a de Deus; agora estamos na fase do diabo; não são de se estranhar as dificuldades". Efetivamente a fase do demônio no furor dos inimigos da Igreja antes do concílio e mesmo durante o concílio; a fase dos homens nas disputas demasiado acres dos teólogos e "Padres" no Concílio e fora dele. A fase de Deus resplandece em suas definições dogmáticas e na aceitação pacífica delas".
   Como já dissemos anteriormente, o Concílio Vaticano I condenou os erros do Racionalismo, do ateísmo e as idéias galicanas. Na ordem política, Pio IX sofreu a perseguição brutal de um tal Bismark na Alemanha e um tal Cavour na Itália. Pio IX foi perseguido pelas armas por Garibaldi que invadiu os Estados Pontifícios, e o Santo Padre teve que fugir para Gaeta.
   Na ordem social: o Socialismo de Luis Blanc e o Anarquismo de Proudhon (este dizia: "A propriedade é um roubo").
   Na ordem intelectual religiosa, um homem fizera muito mal às almas: um tal de Renan que escreveu a "Vida de Jesus". (1863). Este homem, padre apóstata, foi o símbolo do racionalismo ímpio. Na época de Pio IX ( que nascera em 1792 e morreu em 1878; governou a Igreja de 1846 a 1878), os católicos estavam divididos em dois grupos: os ultramontanos que condenavam todas as tendências modernas da sociedade; e os católicos liberais (como Montalembert) que pretendiam acomodar-se às exigências modernas. E o Papa Pio IX com a Encíclica "Quanta Cura" e o "Syllabus" deu razão aos ultramontanos. Entre os ultramontanos se destacou um leigo de grande firmeza na fé e um jornalista vigoroso: chamava-se Louis Veuillot ( pronuncia-se Luí Veiô).
   Sobre a situação religiosa da época diz São João Bosco: "As doutrinas errôneas destes últimos tempos, os chamados filósofos modernos, as diferentes formas de sociedades secretas, a maçonaria, o socialismo, os livres-pensadores, os espiritistas e outras seitas semelhantes se apoderaram de tal sorte do coração e da mente dos homens que o romano Pontífice Pio IX julgou necessária a convocação de um Concílio Ecumênico.

  Já vimos que Pio IX começou a preparar o concílio há quatro anos antes, constituindo para isso uma comissão de cardeais de sua maior confiança. Por prudência foi tudo feito em segredo. Mas quando foi revelada a intenção do papa em convocar um Concílio Ecumênico e sobretudo quando ficou-se sabendo que neste concílio deveria ser definido solenemente o dogma da Infalibilidade do Sumo Pontífice, então começaram já as disputas. (Era a fase do demônio). Muita divisão! Mas Pio IX não desistiu e disse que confiava na proteção de Maria Santíssima. Apareceram três grupos: 1º - OS ANTI-INFALIBILISTAS, cujo chefe foi o padre Döllinger, sábio historiador da Igreja, teólogo e professor de História da Igreja. Infelizmente não se converteu, morreu herege e fundou a seita dos "Velhos Católicos".
   2º grupo: OS ANTI-OPORTUNISTAS: Admitiam a Infalibilidade do papa (a verdade) mas achavam que não era oportuno na época, defini-la como dogma. O chefe foi o bispo de Orléans Mons. Dupanloup e também Montalembert. Todos os anti-infalibilistas e os anti-oportunistas apresentavam como objeção os casos dos papas Libério e Honório I, sobretudo este último.
   3º grupo: OS INFALIBILISTAS: os que eram do lado do papa. Os chefes foram vários, mas vamos citar apenas alguns. Entre os bispos: D. Dechamps, bispo de Malinas; o cardeal Manning de Westminster. Entre os leigos sobressai o grande Louis Veuillot, que, como já dissemos, era um homem de fé viva e firme, de um amor ardente a Nosso Senhor Jesus Cristo e à Sua Santa Madre Igreja. Seu jornal chamava-se: "L'Universe", nele Veuillot combateu o célebre bispo de Orléans Mons. Dupanloup que era liberal e escrevia no jornal "Le Français". Louis Veuillot combateu também um dos chefes do "Catolicismo Liberal", o conde e Montalembert (+ 1870). Este escrevia no jornal "L'Avenir" juntamente com Lamennais (Este era padre, apostatou-se e morreu sem se retratar). Como defendia a "Liberdade Religiosa" e não se retratou, foi excomungado pelo Papa Gregório XVI. Um dos seus livros: "Ensaio sobre a indiferença em matéria de Religião". Vejam uma das suas frases: "Todos os amigos da Religião precisam compreender que ela necessita somente de uma coisa: da liberdade". 
   O bispo D. Dupanloup, uma vez definido o dogma da infalibilidade do papa, aceitou-o plenamente. Montalembert morreu antes da definição do dogma, mas deixou preparado um escrito em que declarava morrer como filho obediente de Igreja, admitindo desde já todas as suas definições. 

REALIZAÇÃO DO CONCÍLIO VATICANO I

   Deveriam os bispos reunirem-se na Basílica de São Pedro do Vaticano e por isso chamou-se Primeiro Concílio do Vaticano ou Concílio Vaticano I. Inaugurou-se no dia 08 de dezembro de 1869 - Festa da Imaculada Conceição - achando-se presentes cerca de 770 pessoas entre bispos (como Santo Antônio Maria Claret), cardeais, abades (como D. Guerénger), gerais de Ordens Religiosas e insignes teólogos. Mais de três quartos dos que tinham direito a votos na Igreja. Neste Concílio só houve quatro sessões. O Concílio tinha 52 assuntos para serem tratados, mas não foi possível porque o papa foi obrigado a suspendê-lo por causa da guerra chamada franco-prussiana. E Roma também foi invadida. Portanto, este Concílio ficou inacabado. 
   NOTA: Acho necessário explicar alguns termos técnicos: "PADRES" do Concilio: Este termo é colocado entre aspas para significar os bispos, cardeais e outros que têm voz deliberativa, isto é, aqueles que podem votar. "PERITOS" do Concílio: são os teólogos que dão assistência aos "Padres". "OBSERVADORES"do Concilio: são os que não têm direito a voto e nem o direito de dar assistência aos "Padres". São geralmente autoridades católicas ( ou não, isto é, podem ser hereges: protestantes e ortodoxos cismáticos). Mas o termo "Observadores" também é técnico, ou seja, podem também falar apresentando suas sugestões. No Concílio Vaticano I, como vimos, não compareceram. Já no Concílio Vaticano II, não só compareceram, mas fizeram suas sugestões, como a História o comprova. Aliás, foram convidados justamente para falarem, já que a meta primordial do Concílio Vaticano II foi o diálogo ecumênico. Os Encontros de Assis são um prolongamento. (Fim da NOTA).
   A história da definição do dogma da Infalibilidade Pontifícia.
   Um esquema já retocado, foi apresentado a reunião ferial dos "Padres" do Concílio no dia 13 de julho de 1870. Dos 601 "Padres" votaram "SIM" (em latim= PLACET) 451; votaram "NÃO" (em latim ="NON PLACET) 88; e votaram "SIM" mas com correções (em latim= "PLACET JUXTA MODUM") 62 "Padres".
   Assim ficou preparado o decreto para a sessão pública solene, que seria no domingo seguinte; mas estourou a guerra franco-prussiana e os "Padres" anteciparam a sessão solene para o dia 18 de julho. Dos que se opunham, chefiados pelo bispo D. Dupanloup, 55 preferiram se retirar, do que votar "não" diante do papa. Como havia permissão para sair do Concílio por causa da guerra, aproveitaram e saíram.
   Então no dia 18 de julho de 1870 à 9 horas começou a sessão. No momento em que os "Padres" estavam dando os votos, estalou uma terrível tempestade, com trovões e relâmpagos, que durou duas horas e meia. Assistiam a sessão 535 "Padres". Só dois votaram "não" ou "non placet". Mas depois estes dois aceitaram docilmente.
   Ao sancionar Pio IX com sua suprema autoridade a constituição apostólica, contam que, passada a tempestade, um raio de sol penetrou pelas janelas e iluminou o rosto de Pio IX. No dia seguinte, por causa da guerra, o papa suspendeu o Concílio. O raio de sol penetrando na Basílica de São Pedro foi simbólico. Depois de tantas tempestades, de discussões apaixonadas, brilhou o sol da verdade e todos foram se acalmando. A definição tal como foi proclamada, dissipou muitas trevas, deu a chave da explicação de muitos fatos históricos (como dos papas Libério e Honório I) e houve por todas as partes o aplauso dos bispos e dos fiéis. Os que achavam que não era oportuna a definição do dogma da Infalibilidade - como D. Dupanloup, mais 54 bispos que saíram antes - se apressaram a escrever ao papa dando total adesão ao dogma e reconheceram que sua definição foi mais que oportuna, porque definindo os limites da Infalibilidade, resolveram-se as objeções sobretudo no caso do papa Honório I.
   Como já dissemos, o único caso triste foi do do Padre Döllinger ( que nem quis participar do Concílio) que não aceitou o dogma da Infalibilidade e portanto caiu na heresia e terminou fundando uma seita que se chamou "Os Velhos Católicos". Infelizmente este padre apóstata, herege e cismático morreu excomungado.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Rudolph Archibald Mndaweni relatou sua conversão

   NB: Rudolph A. Mndaweni era da África. Era escritor. Escreveu um livro excelente: "AS CARACTERÍSTICAS DA VERDADEIRA IGREJA". Foi professor e catequista, e, em poucos anos, converteu 160 protestantes. Seu grande argumento era: "Não igrejas, mas a Igreja". Narrando sua conversão, eis um excerto de seus escritos:
   "Embora não escreva uma autobiografia, há certos fatores em minha vida que não posso silenciar no relato de minha conversão.
   Nascido no protestantismo, correspondiam meus conhecimentos de Deus e seus mandamentos aos de um protestante. Antes de freqüentar, com 17 anos, o ginásio, ignorava até a existência de outras sociedades religiosas. Desejava, então, tornar-me pregador e não pouco orei nesta intenção.
   Já pedira matrícula num ginásio protestante quando mudei de ideia e passei a freqüentar um ginásio católico juntamente com um amigo meu que não se pudera matricular no protestante. Neste colégio, pela primeira vez entrei em contato com o catolicismo.
   Rejeitei, de antemão, a fé e os costumes católicos. Como todos os homens eivados de preconceitos, acusava os católicos de certas coisas completamente destituídas de base. Sim, devo confessar que, durante os primeiros anos de ginásio, minha atitude era propriamente anti-católica. Sem dúvida era isso, como observei mais tarde, conseqüência de minha ignorância.
   Pouco a pouco me familiarizei com os costumes relativos ao culto divino católico. Alarguei também, com o tempo, meus conhecimentos sobre a reforma e suas conseqüências lamentáveis. Não pouco me inquietava a pergunta: - "Por que tantas seitas se separam da Igreja católica?" Procurei de diversos modos, obter a elucidação deste problema. Por outro lado, consolava-me o pensamento de que as outras igrejas, embora separadas da primeira, podiam igualmente ser igrejas de Cristo. Mas em vez de me deixarem com este consolo, os demais estudantes, não raro, me diziam palavras desanimadoras acerca do protestantismo.
   À lembrança das numerosas Igrejas espalhadas pelo mundo que, todas, pretendiam ser a verdadeira Igreja de Cristo, fui dominado de uma tremenda confusão espiritual. Em conseqüência da minha convicção da prioridade da Igreja Católica começou a diminuir minha fé na Igreja protestante como instituição sobrenatural de salvação. Não me persuadia da necessidade de tamanha multiplicidade de Igrejas, - e isso me levou a estudar mais a fundo a doutrina católica, tanto que, em breve, era mais católico que protestante.
   Convenci-me inteiramente de que Jesus Cristo não queria ser venerado de modos tão diversos. Dizendo a São Pedro: - "Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja" - não falou de "Igrejas", e sim de uma Igreja.
   Comuniquei minha intenção de me tornar católico aos diretores do colégio, embora nutrisse dúvidas sobre se poderia prosseguir no caminho encetado, porquanto muita coisa ainda me parecia obscura. Fosse como fosse não podia continuar protestante. Após profundo estudo da fé católica cheguei mesmo a sentir aversão aos hábitos protestantes. Isso era tanto mais notável quanto, anteriormente, em discussões com estudantes católicos, quase passara a empregar violência quando meus argumentos resultavam falhos; talvez porque preferisse ser vencedor a vencido. Decorridos três anos, abandonei o ginásio, resolvido firmemente a me tornar católico.
   Entrei em contato com diversos protestantes persuadidos e talvez demasiadamente zelosos que me acossaram de todas as maneiras; mas passei pela prova e permaneci no meu propósito. Felizmente, meus pais deixaram-me toda liberdade. Diversos condiscípulos seguiram meu exemplo. Eu era o primeiro da grande missão protestante que se tornou católico. Sendo ainda catecúmeno, não me era nada fácil professar a fé católica em meio a adversários fortes e argutos; não obstante, fiz tudo para continuar fiel à minha nova religião. Durante todo este tempo rezei fervorosamente ao Senhor para que me mostrasse o caminho em que Lhe deveria servir e, caso fosse a Igreja Católica a verdadeira, que me desse coragem de suportar heroicamente os aborrecimentos que talvez seguissem à minha conversão, como de fato seguiram. Todo o mal que se dizia contra a minha nova religião, tornava-se-me um estímulo para defendê-la com ardor e bons resultados.
   Um ano depois de terminado o estudo consegui emprego como auxiliar de escritório num lugar distante três milhas da missão católica, emprego oportuno que me aproximava cada vez mais da possibilidade imediata de minha conversão. Não coube em mim de satisfação quando, antes de passar um ano, me veio a oferta de lecionar naquela missão, dos Padres Beneditinos. Novamente se confirmaram minhas convicções anteriores. Aprofundei-me no estudo e tomei aulas de religião.
   Para sempre me serão inesquecíveis os belos dias em que recebi os santos sacramentos da Igreja e Deus me desembaraçou do véu de minha ignorância. Confessei-me, pela primeira vez, em 16 de abril de 1927. Recebi a primeira comunhão a 24 de abril e a crisma a 5 de junho do mesmo ano. Impossível me é descrever a alegria experimentada naqueles dias singulares.
   Desde então sinto ter recebido, realmente, uma vida nova e superior. Entraram em minha alma tranqüilidade e contentamento. Recentemente convertido, era tamanho meu entusiasmo que nada de mais belo podia imaginar do que trabalhar, como católico, por Deus. O conhecimento da infalibilidade, legitimidade e santidade da Igreja confere à minha vida uma sagração superior, um sentido profundo para todo o resto da vida.
   Sou, agora, professor e catequista, cargo esse que já desempenho há bom número de anos. Aqui cheguei como pequeno pioneiro de Cristo e meus trabalhos foram bem sucedidos, graças a Deus. Cá, a princípio, não havia um só católico; entretanto, uma comunidade florescente já se formou justificando as melhores esperanças.

terça-feira, 17 de maio de 2016

DOUTRINA CATÓLICA SOBRE A SALVAÇÃO: O Sacramento da Penitência



Leitura espiritual meditada 





   31. A SEGUNDA TÁBUA DE SALVAÇÃO DEPOIS DO BATISMO.

Símbolo da alma na
Graça Santificante
Símbolo da alma no pecado
mortal
   O pior é que às vezes não só atrapalhamos a ação da graça com a nossa fraqueza, mas nos afastamos de Deus e pelo pecado mortal perdemos em nossa alma a graça santificante recebida no Batismo. E o Batismo só se recebe uma vez.
   Temos então o Sacramento da Penitência que foi instituído por Nosso Senhor Jesus Cristo, quando disse aos seus Apóstolos: Recebei o Espírito Santo; aos que vós perdoardes os pecados, ser-lhes-ão eles perdoados; e aos que vós os retiverdes, ser-lhes-ão eles retidos (João XX-22 e 23). Assim o dispôs Cristo, nosso Redentor. A absolvição sacramental, porém, só é válida, quando o penitente está verdadeiramente arrependido de seus pecados, com firme propósito de emenda.

   A impossibilidade de achar um sacerdote não acarreta impossibilidade de salvação, pois assim como o batismo de água pode ser suprido pelo batismo de desejo, assim também e em virtude do mesmo texto do Evangelho (João XX-23), a confissão sacramental pode ser suprida pelo Ato de Contrição Perfeita, ou seja, o arrependimento baseado não no temor da pena, mas no puro amor de Deus, a quem se ofendeu pelo pecado e com o voto de confessar os pecados quanto antes, submetendo-os assim ao poder das chaves. 

   32. PURIFICAÇÃO REAL E INTERNA.

   A remissão dos pecados sempre se verifica por meio de uma purificação real e interna. Se a Sagrada Escritura, referindo-se ao perdão que de Deus recebemos fala às vezes em não-imputação dos pecados : Bem-aventurado o homem a quem o Senhor não imputou pecado (Salmo XXXI-2), é claro que os pecados não são imputados, simplesmente porque DESAPARECEM; SÃO DESTRUÍDOS: Eu sou, eu mesmo sou o que APAGO as tuas iniquidades por amor de mim (Isaías XLIII-25). Tem piedade de mim, ó Deus... e segundo as muitas mostras da tua clemência, APAGA  a minha maldade (Salmo L-3). Quanto dista o Oriente do Ocidente, tanto Ele tem APARTADO de nós as nossas maldades (Salmo CII-12). Cristo foi uma só vez imolado para ESGOTAR os pecados de muitos (Hebreus IX-28). Considerai-vos que estais certamente MORTOS ao pecado, porém vivos para Deus em Nosso Senhor Jesus Cristo (Romanos VI-11).

   O desaparecimento dos pecados leva à santificação interior: E tais haveis sido alguns; mas haveis sido LAVADOS, mas haveis sido SANTIFICADOS, mas haveis sido JUSTIFICADOS em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo e pelo Espírito do nosso Deus (1ª Coríntios VI-11). Noutro tempo éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor... Cristo amou a Igreja e por ela se entregou a si mesmo, para a SANTIFICAR, purificando-a no batismo da água pela palavra da vida, para a apresentar a si mesmo Igreja gloriosa, SEM MÁCULA NEM RUGA, nem outro algum defeito semelhante, mas SANTA E IMACULADA (Efésios V-8; 25 a 27). 

segunda-feira, 16 de maio de 2016

A VERDADE É IMUTÁVEL

LEITURA ESPIRITUAL


"Jesus Cristo é sempre o mesmo ontem e hoje; e ele o será também por todos os séculos. Não vos deixeis levar por doutrinas várias e estranhas" (Hebreus XIII, 8 e 9).

Passará o céu e a terra, mas a verdade do Senhor permanecerá eternamente (Mt XXIV, 35). As palavras dos Pitagóricos, disse-o o mestre, não era entre eles senão a expressão de uma idolatria insensata, pois não há homem que não se engane; mas aplicada a Nosso Senhor Jesus Cristo, deve ser um primeiro princípio, um axioma sagrado para todo católico.

Jesus Cristo é eterno. N'Ele creram os justos de todos os séculos passados; n'Ele creem os seus apóstolos; cremos também nós n'Ele e todos os fiéis que vivem nos dias de hoje e n'Ele crerão todos os séculos futuros até ao fim do mundo. Sendo Deus é eterno, é imutável. Ele é o único Messias e depois d'Ele não devemos esperar nenhum outro.

O Apóstolo, com as palavras acima enunciadas, quis estabelecer a eternidade do Verbo Divino. E o próprio São Paulo tira a conclusão lógica, ou seja, que nossa fé deve ser também imutável, e os verdadeiros cristãos não devem ir atrás daqueles que lhes prometem um outro Cristo, um outro Messias. Sendo Jesus o Filho de Deus Vivo, só Ele tem palavras de vida eterna. Sua doutrina é perfeita; sua Igreja é uma só, como uma só é a verdade.

São Paulo combate aqui as seitas, nascidas de homens pecadores, mortais, mutáveis. As doutrinas das seitas são várias e consequentemente estranhas à única verdadeira que é a de Jesus Cristo. "Deus é a única verdade, escreveu Luiz Veuillot, a Igreja Católica é a única Igreja de Deus".

Jesus Cristo é a Verdade absoluta como Verbo de Deus e é ainda para nós a Verdade revelada, a luz da fé. Ele é assim o nosso Mestre por excelência: "Vós só tendes um mestre que é Cristo" (Mt XXIII, 10). Que os outros escolham, se quiserem, "mestres que deleitam os ouvidos e se desviam da verdade para se entregarem a fábulas" (II Tim., IV, 3 e 4).  Quanto a nós, pela graça de Deus, iremos Àquele que tem palavras de vida eterna, aquele que veio a este mundo para dar testemunho da verdade. Iremos a Ele com toda a nossa alma, com a dupla luz da razão e da fé. Diz Lacordaire: "Movemo-nos em duas esferas: a da natureza e a da graça; mas tanto uma como outra têm o Verbo, Filho de Deus, por autor e por guia. Eis porque a Igreja, infalivelmente assistida pelo Espírito que a instituiu, nunca abdicou na defesa da razão; teve-a sempre como uma parte da sua herança..."

Jesus Cristo, o Filho de Deus, desceu do céu à terra para constituir uma sociedade que pudesse "aparecer diante d'Ele gloriosa, sem mancha nem ruga, santa e imaculada" (Ef. V, 27).  E o divino Mestre quer nos levar até a Jerusalém celeste e diz que Ele mesmo é o Caminho, a Verdade e a Vida. Jesus Cristo é o Caminho que devemos seguir para  chegarmos ao Pai; a Verdade em que devemos acreditar, a Vida que almejamos conseguir. Aquele que estiver unido a Ele tem tudo: tem o Pai e vê o Pai, não com os olhos físicos, mas com os olhos do espírito. A união com o Pai é o próprio ser de Jesus; dela depende a sua vida humana; a sua doutrina é luz daquele foco; os seus milagres, manifestações do poder divino.

Segundo o pensamento do Beato Mons. Ollier, tenhamos habitualmente Jesus diante dos olhos, no coração e nas mãos.Tenhamos Jesus diante dos olhos: contemplando-O como o modelo mais completo de todas as virtudes que devemos praticar. Tenhamos Jesus no coração: quer dizer, supliquemos ao Espírito Santo, que animava a alma humana do Salvador e que é ainda hoje a alma do seu corpo místico, que venha até nós para nos tornar semelhantes a Jesus Cristo. Tenhamos Jesus nas mãos: isto é, roguemos-Lhe que faça com que a sua vontade se cumpra em nós, que, "como bons membros, devemos obedecer à cabeça, e cujos impulsos só devem vir de Jesus Cristo, o qual, enchendo a nossa alma do seu Espírito, da sua virtude e da sua força, deve operar em nós e por nós tudo quanto deseja".

Com São Paulo, digamos de todo o coração: "A minha vida é Jesus". Amém!