sábado, 30 de abril de 2016

Precisa-se de uma Catarina de Sena

Artigo escrito por Gustavo Corção,  de saudosa memória. 
Extraído do livro "A TEMPO E CONTRA TEMPO".


   ANTEONTEM, dia 30 de abril, [foi escrito em 02 de maio de 1968], a Igreja comemorou mais um aniversário no céu de Catarina Benincasa, nascida em Sena, em 1347, e falecida, aos trinta e três anos de idade, no esplendor da santidade. O Introito da missa resume toda a contrastada vida da terceira dominicana, padroeira da Itália: "Dilexisti justitiam e odisti iniquitatem".

   Sim, foi o amor das coisas do Reino de Deus e o ódio do pecado que polarizaram toda a extraordinária vida do moça pobre, filha de um tintureiro, frágil, iletrada, e todavia capaz de manifestar diante dos homens as grandezas de Deus. [Nota minha: Sua mãe, embora pobre, foi agraciada por Deus, com 24 filhos, e da última Deus tinha desígnios grandiosos para a Santa Igreja]. Até aos vinte e um anos viveu obscuramente na sua casa modesta, servindo uma família enorme e exigente. Sua boa mãe não entendia os sacrifícios e os jejuns que a filha desde cedo se impunha. Com paciência heroica, Catarina suportou e venceu todas as dificuldades familiares e conseguiu viver uma intensa contemplação nos vagares que a casa lhe permitia. 

   Aos vinte e um anos, numa noite de terça-feira de carnaval, fechada em sua cela, Catarina recebeu visitas deveras extraordinárias: apareceu-lhe o Senhor com vestes nupciais, acompanhado de sua Mãe, de São João e São Paulo, e do profeta Davi, com sua harpa. Colocando em seu dedo um anel de ouro, disse-lhe o Senhor: "Eu, teu Criador e teu Salvador, te esposo na Fé que guardarás sem mancha até o dia em que te esposarei no céu".

   Começa então a vida de Catarina, e sua extraordinária influência junto aos dirigentes do mundo. Depois de poucos anos de pregação do pequeno grupo que a acompanhava, Catarina empreendeu a aventura de restaurar o trono de Pedro em Roma. O Papa Gregório XI estava em Avignon, entre seus cortesões que levavam vida escandalosa. Expulso de Roma pelas intrigas que fervilhavam em torno do Vaticano, o Papa se deixara entregar às más influências de parentes e seguidores mundanos. E é nesse meio que a filha do tintureiro vai buscá-lo e vai trazê-lo para Roma quase de rastros.

   Os intrigantes querem obstar de todos os modos a partida do Papa, mas a palavra de Catarina, moça humilde de vinte e quatro anos, soa aos ouvidos do Papa com um acento irresistível: "Ide" , lhe diz ela numa carta, "correi depressa à Esposa que vos espera pálida e moribunda. Restituí-lhe a vida!".

   O Papa embarca com sua corte. Em Gênova, os cardeais querem convencê-lo a voltar para Avignon. O Papa hesita, e declara que quer ouvir Catarina, que voltara a Roma por terra. O Papa sabe que Catarina está em Gênova, mas não consegue de seus seguidores que ela venha a bordo do navio. Para lograr tal encontro, o Papa lança mão de um estratagema de romance policial: disfarça-se, e consegue desembarcar para ter uma entrevista com a alma de fogo que tinha palavras do céu.

   Encontra-se, afinal, com Catarina, que lhe diz como tantas vezes disse ao seu confessor Raimundo Cápua: "Sê homem!" E fala-lhe longamente do palácio de sangue e fogo onde o Rei celebra as bodas de seu Filho. Volta o Papa reanimado, e os cortesões, os maus prelados, os demonii incarnati, como os chamava Catarina, não conseguem mais detê-lo. Dias depois a galera pontifical sobe o Tibre, e o Papa desembarca em meio da multidão delirante.

   Mais tarde, morto Gregório XI e eleito Urbano VI, os demonii incarnati produzem o grande cisma que afligirá a Igreja durante muito tempo, e que prepara a ferida maior da Reforma. Abandonado por seus cardeais, Urbano chama Catarina e diz: "Esta mulher fraca nos envergonha a todos nós!"

   Catarina organiza o combate: suas armas são o jejum, a penitência e a oração. Escreve aos seus discípulos, escreve ao rei de França, escreve à rainha de Nápoles que vacila. A cristandade está dividida entre duas obediências; ninguém mais se entende. Onde está a Igreja? O provérbio clássico tornou-se ambíguo: Ubi Petrus, ibi Ecclesia. Mas onde está Pedro? Seria o caso de dizer: Ubi Caterina, ibi Petrus. 

   É nesse tempo de gravíssimas perturbações na Igreja que Catarina escreve o seu "Diálogo da Divina Providência"... Disse eu, mais de uma vez, que ela escreve, mas seria mais correto dizer que ela dita as cartas que hoje enchem seis volumes, porque ela não sabia escrever. Sim, dita, e dita o Diálogo em êxtase, com palavras que recebe de Deus. Ela sabe que, nos momentos mais aflitivos da Igreja, é preciso ouvir a palavra de Deus, voltar à palavra de Deus, meditar a palavra de Deus. 

   Dias depois, oferecendo a vida pela Igreja, pela Navicella, Catarina morre gritando súplicas de perdão: "- Miserere.... miserere... Tu me chamas, Senhor, e eu vou, eu vou, não por meus méritos, mas por teu sangue. "Ó sangue!"

   Meditando esses e outros passos da vida fecundíssima de Santa Catarina de Sena, tive hoje a ideia de elevar a Deus uma súplica em forma de anúncio de jornal: precisa-se de uma Catarina de Sena. O mundo de hoje está em situação pior do que esteve no trecento.  E creio que não são menos abundantes, em torno do Papa, e pelo mundo todo, nem menos perniciosos hoje, aqueles que a Santa chamava de demonii incarnati. Tudo indica que devemos organizar o combate com as mesmas armas de Deus: a penitência, o sacrifício e a oração. 
2-5-68

NOTA: Creio que não são menos abundantes, na Igreja e pelo mundo todo, nem menos perniciosos hoje, aqueles que a Santa chamava de "demônios encarnados". Tudo indica que devemos organizar a verdadeira resistência,  com as mesmas armas de Deus: a penitência, o sacrifício e a oração.  Deus resiste aos soberbos e só dá a sua graça aos humildes. Santa Catarina de Sena é a concretização viva desta verdade. Toda resistência que vier do orgulho, tem um pai: o demônio, ou o próprio ou incarnado nos orgulhosos e rebeldes. Esta foi a "Resistência" de Lutero, Henrique VIII, Döllinger e "caterva". 

quarta-feira, 27 de abril de 2016

JURAMENTO ANTI-MODERNISTA

  Eu,                  , firmemente abraço e aceito cada e todas as definições  feitas e declaradas pela autoridade inerrante da Igreja, especialmente estas verdades principais que são diretamente opostas aos erros hodiernos. 
  Antes de mais nada eu professo que Deus, a origem e fim de todas as coisas, pode ser conhecido com certeza pela luz natural da razão a partir do mundo criado (Cf. Rom. 1, 20), ou seja, das obras visíveis da criação, como uma causa a partir de seus efeitos, e que, portanto, sua existência também pode ser demonstrada.
  Segundo: eu aceito e reconheço as provas exteriores da revelação, ou seja, os atos divinos e especialmente os milagres e profecias como os sinais mais seguros da origem divina da Religião Cristã e considero estas mesmas provas bem adaptadas à compreensão de todas as eras e de todos os homens, até mesmo os de agora.
  Terceiro: eu acredito com fé igualmente firme que a Igreja, guardiã e mestra da Palavra Revelada, foi instituída pessoalmente pelo Cristo histórico e real quando Ele viveu entre nós, e que a Igreja foi construída sobre Pedro, o Príncipe da hierarquia apostólica, e seus sucessores pela duração dos tempos.
  Quarto: eu sinceramente mantenho que a Doutrina da Fé nos foi transmitida desde os Apóstolos pelos Padres ortodoxos com exatamente o mesmo significado e sempre com o mesmo propósito. Assim sendo, eu rejeito inteiramente a falsa representação herética de que os dogmas evoluem e se modificam de um significado para outro diferente do que a Igreja antes manteve. Condeno também todo erro segundo o qual, no lugar do divino Depósito que foi confiado à Esposa de Cristo para que ela o guardasse, há apenas uma invenção filosófica ou produto de consciência humana que foi gradualmente desenvolvida pelo esforço humano e continuará a se desenvolver indefinidamente.
  Quinto: eu mantenho com certeza e confesso sinceramente que a Fé não é um sentimento cego de religião que se alevanta das profundezas do subconsciente pelo impulso do coração e pela moção da vontade treinada para a moralidade, mas um genuíno assentimento da inteligência com a Verdade recebida oralmente de uma fonte externa. Por este assentimento, devido à autoridade do Deus supremamente verdadeiro, acreditamos ser Verdade o que foi revelado e atestado por um Deus pessoal, nosso Criador e Senhor.
  Além disso, com a devida reverência, eu me submeto e adiro com todo o meu coração às condenações, declarações e todas as proibições contidas na Encíclica Pascendi e no Decreto Lamentabili, especialmente as que dizem respeito ao que é conhecido como a história dos dogmas.
  Também rejeito o erro daqueles que dizem que a Fé mantida pela Igreja pode contradizer a história, e que os dogmas católicos, no sentido em que são agora entendidos, são irreconciliáveis com uma visão mais realista das origens da Religião Cristã.
 Também condeno e rejeito a opinião dos que dizem que um cristão erudito assume uma dupla personalidade - a de um crente e ao mesmo tempo a de um historiador, como se fosse permissível a um historiador manter coisas que contradizem a Fé do crente, ou estabelecer premissas que, desde que não haja negação direta dos dogmas, levariam à conclusão de que os dogmas são falsos ou duvidosos.
  Do mesmo modo, eu rejeito o método de julgar e interpretar a Sagrada Escritura que, afastando-se da Tradição da Igreja, da analogia da Fé e das normas da Sé Apostólica, abraça as falsas representações dos racionalistas e sem prudência ou restrição adota a crítica textual como norma única e suprema.
  Além disso, eu rejeito a opinião dos que mantêm que um professor ensinando ou escrevendo sobre um assunto histórico-teológico deve antes colocar de lado qualquer opinião preconcebida sobre a origem sobrenatural da Tradição católica ou a promessa divina de ajudar a preservar para sempre toda a Verdade Revelada; e que ele deveria então interpretar os escritos dos Padres apenas por princípios científicos, excluindo toda autoridade sagrada, e com a mesma liberdade de julgamento que é comum na investigação de todos os documentos históricos profanos. 
  Finalmente, declaro que sou completamente oposto ao erro dos modernistas, que mantém nada haver de divino na Tradição sagrada; ou, o que é muito pior, dizer que há, mas em sentido panteísta, com o resultado de nada restar a não ser este fato simples - a colocar no mesmo plano com os fatos comuns da história - o fato, precisamente, de que um grupo de homens, por seu próprio trabalho, talento e qualidades continuaram ao longo dos tempos subsequentes uma escola iniciada por Cristo e por Seus Apóstolos.
  Prometo que manterei todos estes artigos fielmente, inteiramente e sinceramente e os guardarei inviolados, sem me desviar em nenhuma maneira por palavras ou por escrito. Isto eu prometo, assim eu juro, para isso Deus me ajude, e os Santos Evangelhos de Deus que agora toco com minha mão. 

                                (São Pio X, Papa).
  

terça-feira, 26 de abril de 2016

DOUTRINA CATÓLICA SOBRE A SALVAÇÃO (término do capítulo)

   36. CONFUSÃO DE IDEIAS.

   Ainda não entramos de cheio na refutação da teoria da salvação só pela fé. Fizemos apenas um resumo da doutrina católica sobre a salvação, para esclarecer certos pontos em que se confundem os nossos adversários que não estão perfeitamente ao par da nossa doutrina. Mas bastou ao leitor ver o texto das Escrituras em que se exige a observância dos mandamentos para conseguir o Céu, não podendo alcançá-lo os que cometem certas faltas graves, bastou ver a insistência com que a Bíblia nos assegura que Deus retribuirá a cada um segundo as suas obras, sem fazer acepção de pessoas, para observar como é inexata a doutrina da que só a fé é que salva e de que as boas obras não influem na salvação. Queremos dizer apenas algumas palavras sobre uma confusão que fazem os protestantes a respeito do perigo de envaidecimento para aqueles que fazem boas obras, sabendo que elas terão a sua recompensa.

   Os protestantes viram um texto de São Paulo (Efésios II-8 e 9) em que o Apóstolo nos ensina que a concessão da graça primeira, ou seja, a passagem do pecador do estado de pecado para o estado de justiça, pela graça santificante se realiza de graça e não em atenção a nossas obras, para que ninguém se glorie. Teremos ocasião de comentar atentamente e de vagar esse texto num capítulo especial que versará sobra a graça primeira. Daí aprenderam de oitiva a dizer que a glória do Céu não se alcança pelas nossas obras mas só pela fé, para que o homem não se orgulhe, não se glorie de ter alcançado a salvação pelo seu esforço. Deus teria querido assim evitar o perigo do orgulho humano, e teria caído noutro perigo muito maior ainda: teria favorecido horrivelmente à corrupção do homem e ao relaxamento no pecado, impondo somente a fé para a salvação e dispensando a observância dos mandamentos e a prática das outras virtudes cristãs, entre as quais avulta a caridade, para a consecução da glória celeste. 

   37. A DOUTRINA CATÓLICA E A PRESUNÇÃO.

   Qualquer um que considere atentamente a doutrina católica, não terá motivo algum para gloriar-se de suas virtudes ou de suas boas obras. E a prova é que a Igreja Católica tem produzido um número imenso de grandes santos que são conhecidos no mundo inteiro, muitos dos quais bem estimados e admirados pelos protestantes, e no entanto, um fenômeno observado em todos eles é que, quanto mais progrediam na virtude e se enriqueciam da graça de Deus, tanto mais baixo conceito faziam de si mesmos. A sua grande virtude fazia com que lamentassem profundamente as mais pequenas imperfeições; e causa admiração como se não julgavam mais do que grandes e desprezíveis pecadores. Seguiam nisto a palavra do Eclesiástico: Quanto maior és, humilha-te em todas as coisas e acharás graça diante de Deus (Eclesiástico III-20).

   Realmente a consideração da doutrina sobre a graça, que há pouco resumimos, leva o homem a reconhecer o seu nada, a sua fraqueza e insuficiência. Se Deus justifica o pecador e o faz seu filho, esta elevação a uma grandeza sobrenatural é feita por pura bondade e misericórdia de Deus. Cada ação boa, cada ato de virtude, cada vitória sobre as tentações precisou, para efetuar-se, do auxílio da graça divina: Sem mim nada podeis fazer (João XV-5). A criancinha que não pode escrever a carta sem a mãezinha a estar ajudando com a mão dela por cima da sua, não pode absolutamente orgulhar-se de ter escrito a carta por seu próprio engenho e esforço. E os erros dados nesta carta, por culpa do pequeno escrevente, a mãezinha depois os corrige - isto é, os pecados, as faltas, as imperfeições que frequentemente cometemos, Deus está sempre de braços abertos para nos perdoar, se nos voltamos para Ele. E o católico tem, mais do que ninguém, uma lembrança viva de seus pecados, pois tem que fazer cuidadoso exame de consciência sobre eles e confessá-los humildemente ao ministro de Deus, a quem foi dado o poder de perdoar e reter os pecados. Nenhuma razão tem, portanto, o católico, para orgulhar-se de suas virtudes, quando as possui: Que tens tu que não recebesses? Se, porém, o recebeste, por que te glorias como se o não tiveras recebido? (1ª Coríntios IV-7). 

   Se, porém, por um ato de irreflexão ou, para melhor dizer, de loucura, conceber um pensamento de presunção, uma queda fatal se dará, porque Deus resiste aos soberbos, e dá sua graça aos humildes (Tiago IV-6). E acontecerá o que aconteceu a São Pedro, que fez as mais brilhantes profissões de fé e que amava a Cristo mais do que os outros Apóstolos, mas por ter consentido num ato de confiança exagerada em si mesmo, teve que chorar, por toda a vida, uma queda desastrosa. Assim aprenderá o homem, à custa dos próprios fracassos, a não confiar em si mesmo. Não há razão, portanto, para Deus deixar de considerar como CONDIÇÃO NECESSÁRIA PARA A SALVAÇÃO  a guarda dos mandamentos, a prática das boas obras, por parte do homem, (que é livre nas suas ações e portanto tem que mostrar um bom uso de sus liberdade), só pelo receio de que o homem se venha a tornar vaidoso.

   Se assim fosse, Ele também deixaria de apontar a FÉ como CONDIÇÃO NECESSÁRIA PARA A SALVAÇÃO, porque a fé é sempre um ato livre, uma cooperação humana, e assim como há o perigo de ensoberbecer-se o homem pelas suas obras, assim também há o de ensoberbecer-se pela fé: Tu pela FÉ estás firmes, pois NÃO TE ENSOBERBEÇAS, MAS TEME (Romanos XI-20).

   38. RECOMPENSA E BENEFÍCIO.

   Por mais estranho que pareça, a glória do Céu, que a Escritura nos mostra como uma RECOMPENSA dada ao homem pelas suas boas obras, é também, em última análise, uma graça, um BENEFÍCIO de Deus.

   Um homem rico e ilustre toma um mísero e desprezível servo e o cumula de favores, espontânea e benignamente, fazendo dele um filho adotivo. Depois disto, começa a fornecer-lhe verba continuamente, para que ele realize alguns trabalhos. Perdoa frequentemente também os erros e fraquezas deste filho, bastando para isto que ele procure sinceramente o seu perdão. E aqueles trabalhos realizados pelo filho com a verba dada pelo próprio pai, este os recompensa larguissimamente, fazendo-o cada vez mais participante de uma imensa herança.
   Pode ser maior a sua benignidade?
   Assim faz Deus conosco, chamando-nos e justificando-nos misericordiosamente quando somos pecadores, perdoando-nos inúmeras vezes na vida, graças aos merecimentos infinitos de Jesus Cristo, fornecendo-nos continuamente o auxílio da sua graça e recompensando com os gozos da vida eterna as nossas obras, que só com a sua graça podiam ser realizadas. Por isto, tinha razão em exclamar o grande Doutor da Graça, Santo Agostinho: "Deus quando coroa nossos merecimentos, não coroa senão seus próprios benefícios".

Que é a Igreja para o Teólogo Modernista?

  É um parto da consciência coletiva, isto é, da coletividade das consciências individuais, que, por virtude da permanência vital, estão todas pendentes do primeiro crente, que para os católicos foi Cristo. 
  Afirmam os modernistas que foi erro das eras passadas pensar-se que a autoridade da Igreja emanou de princípio estranho, isto é, imediatamente de Deus; e por isso, com razão, era ela considerada autocrática. Estas teorias, porém, já não são para os tempos modernos. Assim como a Igreja emanou da coletividade das consciências, a autoridade nasce também da consciência religiosa, e por esta razão fica dependente da mesma; e se faltar a essa dependência, torna-se tirânica. Nos tempos que correm o sentimento de liberdade atingiu o seu pleno desenvolvimento. No estado civil a consciência pública quis um regime popular. Mas a consciência do homem, assim como a vida, é uma só. Se, pois, a autoridade da Igreja não quer suscitar e manter uma intestina guerra nas consciências humanas, há também mister curvar-se a formas DEMOCRÁTICAS. Seria loucura pensar que o vivo sentimento de LIBERDADE, ora dominante, retroceda. Dizem os modernistas que se a Igreja quiser reprimir e enclausurar este sentimento de liberdade, ele transbordará mais impetuoso, destruindo conjuntamente a religião e a Igreja. 

A IGREJA E A SOCIEDADE CIVIL: São as mesmas regras que serviram para a ciência e a fé. Falava-se outrora do temporal sujeito ao espiritual; nas questões mistas, a Igreja intervinha qual senhora e rainha, porque então se tinha a Igreja como instituída  imediatamente por Deus, enquanto autor da ordem sobrenatural. Mas, dizem os modernistas, estas crenças já não são admitidas pela filosofia, nem pela história. Deve, pois, a Igreja separar-se do Estado, e assim também o católico do cidadão. E é por este motivo também que o católico, não se importando com a autoridade, com os desejos, com os conselhos e com as ordens da Igreja, e até mesmo desprezando as suas repreensões, tem direito e dever de fazer o que julgar mais oportuno ao bem da pátria. Querer, sob qualquer pretexto, impor ao cidadão uma norma de proceder, é por parte do poder eclesiástico verdadeiro abuso, que se deve repelir com toda a energia. (Estas heresias já tinham sido condenadas por Pio VI na "Auctorem fidei"). 
  Na coisas temporais a Igreja tem que sujeitar-se ao Estado. Os protestantes liberais caíram em mais um erro que é a religião individual. 
   O que acabamos de explicar, refere-se à autoridade disciplinar. Agora, as afirmações modernistas em relação à autoridade doutrinal e dogmática. Aí são ainda mais graves e perniciosas. Dizem: A sociedade religiosa não pode deveras ser uma, sem unidade de consciência nos seus membros e unidade de fórmula. Daí tiram o conceito de Magistério eclesiástico: Não é mais do que um produto das consciências individuais, e só para cômodo das mesmas consciências lhe é atribuído ofício público. Assim sendo, ele, dependendo dessas consciências, deve inclinar-se a formas DEMOCRÁTICAS. É abuso da autoridade querer impedir a necessária evolução dos dogmas. Protestando embora o seu profundo respeito à autoridade, o católico deve continuar sempre a trabalhar à sua vontade. Em geral, os modernistas admoestam a Igreja de que, sendo o fim do poder eclesiástico todo espiritual, não lhe assenta bem essas exibições de aparato exterior e de magnificência, com que sói comparecer às vistas da multidão. São Pio X, de imediato, refuta tão descabida crítica modernista: "E quando assim o dizem procuram esquecer que a religião, conquanto essencialmente espiritual, não pode restringir-se exclusivamente às coisas do espírito, e que as honras prestadas à autoridade espiritual se referem à pessoa de Cristo que a instituiu. 

   A DOUTRINA MODERNISTA DA EVOLUÇÃO NA IGREJA. Têm eles por princípio geral que, numa religião viva, tudo deve ser mutável e mudar-se de fato. Por aqui abrem caminho para uma das suas principais doutrinas, que é a da EVOLUÇÃO.  O dogma, a Igreja, o culto, os livros sagrados a té mesmo a fé, se não forem coisas mortas, devem sujeitar-se às leis da evolução. Dizem ainda os modernistas: A Igreja mostra-se inimiga dos progressos das ciências naturais e teológicas; A verdade não é menos imutável do que o homem, pois que evolui com ele, nele e por ele; Cristo não ensinou um corpo fixo de doutrina aplicável a todos os tempos e a todos os homens; inaugurou em vez certo movimento religioso que se adapta, ou que deve ser adaptado aos diversos tempos e lugares; A Igreja mostra-se incapaz de defender eficazmente a moral evangélica, porque adere obstinadamente a doutrinas imutáveis, que não podem conciliar-se com o progresso moderno; O progresso das ciências exige que se reformem os conceitos da doutrina cristã sobre Deus, a Criação, a Revelação, a Pessoa do Verbo Encarnado e a Redenção; O Catolicismo atual não pode harmonizar-se com a verdadeira ciência a não ser que se transforme num cristianismo sem dogmas, isto é, num protestantismo largo e liberal. 

segunda-feira, 25 de abril de 2016

"QUER AGRADE, QUER DESAGRADE"

  LEITURA ESPIRITUAL - Dia 25 de abril


 São palavras de São Paulo a Timóteo, na segunda Epístola que o Apóstolo escreveu ao seu caríssimo discípulo e bispo. Estão no capítulo 4º. versículo 2º. Estas duas palavras são traduzidas para o português de vários modos, mas que, no fundo têm o mesmo significado. No original grego são empregadas as palavras: eukairos, akairos, que em português significam exatamente: oportunamente, inoportunamente. A melhor tradução italiana da Vulgata de São Jerônimo traz: "a tempo, fuori di tempo."   E a  tradução em francês é: à  temps et à contre-temps. Em português do Brasil temos três traduções mais comuns, que são: "a  tempo e fora de tempo"(como no italiano); "a tempo e contratempo"(como no francês) e "quer agrade, quer desagrade".
   São Paulo, na verdade, exorta o bispo Timóteo que pregue a palavra de Deus, que insista sem desanimar, e sem deixar de pregar por causa do respeito humano, quando estiver diante de pessoas que não gostam de ouvir a verdade, infeccionados que estão por suas paixões. Verdadeiramente, é sempre feito a tempo, oportunamente, aquilo que é pregado utilmente para a eterna salvação do próximo, mesmo que o zelo dos pregadores pareça inoportuno ao homem carnal, que é perturbado por suas paixões. Quanto ao respeito humano São Paulo pouco antes, ou seja, no capítulo I, 8 já havia advertido a Timóteo: "Portanto, não te envergonhes do testemunho de Nosso Senhor...".
   Podemos concluir que a tradução "quer agrade, quer desagrade"  também está correta, porque expressa o que São Paulo realmente queria dizer.
   O grande escritor Gustavo Corção, por quem D. Antônio de Castro Mayer tinha grande estima, escreveu um livro ao qual deu o seguinte titulo: "A TEMPO E CONTRATEMPO". Adverbialmente tomado, contratempo é o mesmo que fora de tempo. Nas orelhas da capa do livro, a Editora Permanência que publicou o dito volume, explica a origem e a razão deste título. Diz assim: Aqui se recolhem alguns artigos de Gustavo Corção, publicados na imprensa diária, sob o calor dos acontecimentos mas com doutrina permanente... O título buscou-o Corção no Apóstolo das Gentes, que, profeta, anunciou quase com detalhes a loucura dos nossos dias: Erit enim tempus... "Tempo virá em que os homens já não suportarão a sã doutrina, e inventarão para si mestres, levados pelo prurido de ouvir; e afastarão seus ouvidos da verdade e os inclinarão às fábulas". Prevenindo dessas coisas o discípulo amado Timóteo e, através dele, na sucessão dos séculos, os outros discípulos, recomenda Paulo que o pregador pregue, opportune, importune, para que a verdade seja posta ao alcance de quem queira contemplá-la e segui-la. É o que tem feito Gustavo Corção, vencendo todas as dificuldades e incompreensões, sacrificando amizades, afrontando calúnias e desfigurações..."
   Já no corpo do livro, antes do primeiro Artigo, lemos toda a passagem de São Paulo: "Quanto a ti, apega-te ao que aprendeste e ao que crês com certeza, sabendo de quem o aprendeste, e ao que, desde a infância, conheces das Sagradas Escrituras, de onde podes haurir sabedoria para a salvação pela fé no Cristo Jesus. Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para ensinar, para repetir, para corrigir e para educar na santidade, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e pronto para obras boas".
   "Eu te adjuro diante de Deus e do Cristo Jesus que deve vir julgar os vivos e os mortos, por sua aparição e por seu reino: prega a palavra, insiste a tempo e contratempo, retoma, censura, exorta, com paciência inteira e zelo de instrução; porque tempo virá em que os homens não suportarão a sã doutrina e, ao sabor de suas paixões, se entregarão a uma multidão de doutrinadores. Com cócegas nos ouvidos, eles os afastarão da verdade para os inclinar às fábulas. Tu, sê sóbrio em todas as coisas, suporta o sofrimento, faz obra de pregador do Evangelho, cumpre até o fim tua tarefa". (2ª Tim. III, 14-17; e IV, 1-5).
  
   Há um outro livro cujo título também foi inspirado nas palavras de São Paulo a Timóteo (2ª Tim. IV, 2); mas este tem por autor não Gustavo Corção mas o então Revmo Pe. Fernando Arêas Rifan. Preferiu a tradução "quer agrade, quer desagrade". Na apresentação do livro, assim escreveram seus amigos e paroquianos: "Como parte das comemorações do jubileu de prata sacerdotal do Revmo. Pe. Fernando Arêas Rifan, ocorreu-nos a feliz ideia de reunirmos em um livro uma coletânea de vários artigos por ele escritos e publicados, em diferentes épocas, em diversos órgãos da imprensa. Os artigos que selecionamos versam sobre assuntos variados, mas sempre com uma equilibrada visão católica, conforme a Igreja sempre orientou os seus fiéis.
                                  'Quer agrade, quer desagrade!"
   Certamente este livro não agradará a todos. Nem é sua pretensão. Bom sinal! O próprio Jesus não conseguiu a unanimidade do beneplácito popular. São Paulo, autor da frase, título deste livro, exclamava: "Se alguém vos anunciar um Evangelho diferente daquele que recebestes, seja anátema. Porque, em suma, é a aprovação dos homens que eu procuro, ou a de Deus? Porventura é aos homens que eu pretendo agradar? Se agradasse ainda aos homens, não seria servo de Cristo" (Gal. I, 9 e 10). Mas todos admirarão a sinceridade e a clareza de posições do autor, que preferiu o "sim sim não não" do Evangelho à conivência com o erro e à cumplicidade na "autodemolição da Igreja" com pretensões a aplausos e reconhecimentos oficiais. Como pitorescamente comentou um jornalista da "esquerda": "Pe. Fernando é um inimigo em quem se pode confiar!", reconhecendo, apesar de divergir dele, a lisura e lealdade do seu posicionamento.
   Na orelha deste excelente livro vemos a foto do Revmo. Padre Fernando A. Rifan e logo abaixo podemos ler estas sábias palavras: "PESSOAS DE BOM SENSO, UNI-VOS!
A crise atual, muito mais do que econômica e social, é sobretudo moral e religiosa. É crise de bom senso. São raras hoje as pessoas de senso comum, de senso crítico, enfim, do bom senso. E quem ainda o tem é taxado , pejorativamente, de moralista, radical, direitista, conservador, retrógrado, tradicionalista, etc. E, por medo de receber tais adjetivos, muita gente capitula e adere à maioria.
Os artigos do Pe. Fernando Arêas Rifan, que ora publicamos, além de um convite à reflexão, é uma convocação a todas as pessoas de bom senso à responsabilidade e ao empenho na luta pelas causas sadias e por uma sociedade melhor."
   E, a exemplo de Gustavo Corção, antes do primeiro artigo, o então Revmo. Pe. Fernando Arêas Rifan, traz as palavras de São Paulo, palavras que inspiraram o título do seu livro: "Prega a palavra, insiste
 Quer Agrade
Quer Desagrade,
repreende, adverte, exorta com toda a paciência e doutrina. Porque virá tempo em que os homens não suportarão a sã doutrina, mas multiplicarão para si mestres conforme os seus desejos, levados pela curiosidade de ouvir. E afastarão os seus ouvidos da verdade para os abrirem às fábulas..."

                                                              São Paulo, apóstolo
                                                                        (II Tim 4, 2-4)
  
Caríssimos leitores, recomendo a leitura destes excelentes livros, quer agrade quer desagrade, a tempo e contratempo.

domingo, 24 de abril de 2016

DA JUSTIÇA E DA MISERICÓRDIA DE DEUS

LEITURA ESPIRITUAL - Dia 24 de abril

"O Senhor é justo e ele ama a justiça" (Salmo X, 8)
"A misericórdia e a verdade (=justiça) se encontraram; a justiça e paz (=misericórdia) se oscularam" (Salmo LXXXIV, 11).
"O Senhor é misericordioso e compassivo" (Salmo CX, 4) e "O Senhor é compassivo e misericordioso, paciente e de muita misericórdia" (Salmo CII, 8).
"Todos os caminhos do Senhor são misericórdia e verdade (=justiça)"  (Salmo XXIV, 10).

Santo Tomás de Aquino na Suma Teológica, 1ª Parte, q. XXI fala sobre a Justiça e a Misericórdia de Deus, em quatro artigos e prova:  1º   Que em Deus há justiça; 2º - Que a sua justiça pode se chamar verdade; 3º - Que em Deus há misericórdia; 4º - Que em todas as obras de Deus há justiça e misericórdia.

Resumirei num só artigo estas teses que o Doutor Angélico prova respectivamente com os textos das Sagradas Escrituras acima enunciados.

!º - DEUS É JUSTO: "O Senhor é justo e Ele ama a justiça". Há dupla espécie de justiça. Uma que consiste no mútuo dar e receber; p. ex. a que existe na compra e venda e em tratos e trocas semelhantes. É a justiça chamada comutativa. Esta não existe em Deus segundo aquilo que diz São Paulo: "Quem lhe deu alguma coisa primeiro, para que tenha de receber em troca" (Romanos XI, 35). A outra justiça é chamada distributiva. É aquela pela qual um governante ou administrador dá segundo à dignidade de cada um. Ora, assim como a ordem devida, na família ou em qualquer multidão governada, demonstra a justiça do governador, assim também a ordem do universo manifesta, tanto nos seres naturais, como nos dotados de vontade, a justiça de Deus. Assim diz São Dionísio: "Devemos ver a verdadeira justiça de Deus no distribuir ele a todos os seres segundo o que convém à dignidade da cada um, e no conservar cada natureza na sua ordem própria e virtude". Deus só pode querer aquilo que está na razão da sua sabedoria; e esta é como a lei da justiça, pela qual a sua vontade é reta e justa. Por onde, o que faz por sua vontade, justamente o faz; assim como nós fazemos justamente o que fazemos de acordo com a lei; nós, porém, pela lei de um superior, ao passo que Deus, pela sua própria lei. Diz Santo Anselmo: "Deus é justo punindo os maus, por isso lhes convir ao que eles merecem; mas também Deus é justo perdoando-lhes, por convir isso a sua bondade.  A justiça é da essência de Deus. E o que é da essência de Deus também pode ser princípio de ação.

2º - A JUSTIÇA DE DEUS É VERDADE: "A misericórdia e a verdade se encontraram". Explica Santo Tomás que aqui VERDADE é tomada na acepção de JUSTIÇA. Verdade é a adequação da inteligência com o objeto. Ora, o intelecto que é causa do objeto é dele a regra e a medida; dá-se, porém, o inverso com o intelecto, que tira das coisas a sua ciência. Portanto quando as coisas são a medida e a regra do intelecto, a verdade consiste na adequação deste com aquelas, e tal é o nosso caso. Assim, a nossa opinião e o nosso conhecimento são verdadeiros ou falsos conforme exprimem o que a coisa é ou que não é. Mas, quando o intelecto é a regra ou a medida das coisas(como em Deus), a verdade consiste na adequação delas com o intelecto. Deus é a própria verdade; daí dá a cada um o que realmente lhe é adequado, isto é, o que corresponde à verdade.  Por onde a justiça de Deus, que constitui a ordem das coisas, conforme à ideia da sua sabedoria, que lhes serve de lei, chama-se convenientemente VERDADE. Resumo ainda mais com uma palavra da Bíblia: "Todas as obras de Deus são perfeitas e cheios de equidade os seus caminhos. Deus é fiel, e sem nenhuma iniquidade; Ele é justo e reto" (Deut. XXXII, 4). Deus é a própria Bondade e, por outro lado, é onisciente, perscruta os corações e os rins: donde premia ou castiga segundo a verdade, a equidade. Em Deus, pois, justiça é verdade. Nos homens, nem sempre e muitas das vezes a justiça humana é injusta (se assim me permitam a contradição nos termos). É como teia de aranha: pega os pequenos insetos e deixa passar os besouros. (Vê-se com facilidade que estas últimas palavras são minhas e não do Doutor Angélico).

3º - EM DEUS HÁ MISERICÓRDIA: "O Senhor é misericordioso e compassivo". A misericórdia máxima devemos atribuí-la a Deus; mas, quanto ao efeito e não, quanto ao afeto da paixão, porque em Deus não há paixão. Para entender isso melhor é mister considerar que misericordioso é quem possui coração cheio de comiseração, por assim  dizer, por contristar-se com a miséria de outrem, como se fora própria e esforçar-se por afastá-la como se esforçaria por afastar a sua própria. Tal é o efeito da misericórdia. Ora, Deus não pode ficar triste. Mas, sendo a própria bondade e onipotente, pode afastar a miséria, entendendo por miséria qualquer defeito. Pois, defeitos não se eliminam senão pela perfeição de alguma bondade. Ora, Deus é a origem primeira da bondade. Devemos porém ponderar que comunicar perfeições à coisas pertence tanto à bondade divina, como à justiça, à liberalidade e à misericórdia, mas segundo razões diversas. Assim, a comunicação das perfeições, considerada absolutamente, pertence à bondade, Pela justiça, Deus comunica perfeições proporcionadas à coisas. Pela liberalidade Deus dá perfeições, não visando a sua utilidade, mas só por mera bondade. Finalmente, pela misericórdia, as perfeições dadas à coisas por Deus eliminam-lhes todos os defeitos.

Deus age misericordiosamente, quando faz alguma coisa, não em contradição com a justiça, mas, além dela. Assim quem desse duzentos reais ao credor, ao qual só deve cem, não pecaria contra a justiça, mas agiria misericordiosamente. O mesmo se daria com quem perdoasse a injúria, que lhe foi feita. Devemos concluir que, longe de suprimir a justiça, a misericórdia é a plenitude dela. Donde dizer a Sagrada Escritura: "A misericórdia triunfa sobre o juízo" (S Tiago II, 13).

4º - HÁ JUSTIÇA E MISERICÓRDIA EM TODAS AS OBRAS DE DEUS:  "Todos os caminhos do Senhor são misericórdia e verdade (=justiça). Necessariamente descobrimos, em qualquer obra de Deus, a misericórdia e a verdade(=justiça); se tomarmos misericórdia no sentido de remoção de qualquer defeito. embora nem todo defeito possa chamar-se miséria, propriamente dita, mas somente o defeito da natureza racional, que é capaz de felicidade; pois a esta se opõe a miséria.

E a razão dessa necessidade é a seguinte. Sendo o débito pago pela divina justiça um débito para com Deus ou para com alguma criatura, nem um nem outro podem faltar em qualquer obra divina. Pois, Deus nada pode fazer que não convenha à sua Sabedoria e à sua Bondade; e, nesse sentido, dizemos que algo lhe é devido. Semelhantemente, tudo quanto faz nas criaturas, o faz em ordem e proporção convenientes, e nisso consiste a essência da justiça. E, portanto, é necessário haja justiça em todas as obras divinas.

Mas a obra da divina justiça sempre pressupõe a da misericórdia e nesta se funda. Pois, nada é devido a uma criatura, senão em virtude dum fundamento preexistente ou previsto; o que, por sua vez pressupõe um fundamento anterior. Ora, não sendo possível ir até o infinito, é necessário chegar a algum que só dependa da bondade da divina vontade, que é o fim último. Assim, se dissermos, que ter mãos é devido ao homem, em virtude da alma racional, por seu lado, ter alma racional, é necessário para que exista o homem e este existe pela bondade divina. E assim a misericórdia se manifesta radicalmente em todas as obras de Deus. E a sua virtude se conserva em tudo o que lhe é posterior, e mesmo aí obra mais veementemente, pois a causa primária mais veementemente influi, que a segunda. Por isso, Deus, pela abundância da sua bondade, dispensa o devido a uma criatura mais largamente do que o exigiriam as proporções dela. Porque, para conservar a ordem da justiça, bastaria menos do que o conferido pela divina bondade, excedente a toda a proporção da criatura. 

sábado, 23 de abril de 2016

O ZELO PELAS ALMAS


LEITURA ESPIRITUAL - Dia 23 de abril


  "À medida que o amor de Deus vai tomando posse dos nossos corações, faz nascer e alimenta neles um amor cada vez maior para com o próximo, amor que, sendo sobrenatural, tende acima de tudo ao bem sobrenatural dos nossos semelhantes e converte-se em zelo pela salvação das almas.
   Se amamos pouco a Deus, também amaremos pouco as almas e, vice-versa, se o nosso zelo pelas almas é fraco, também o é o nosso amor a Deus. Efetivamente, como seria possível amar muito a Deus sem amar muito os que são Seus filhos, os que são objeto do Seu amor, dos Seus cuidados, do Seu zelo? As almas são, por assim dizer, o tesouro de Deus. Ele criou-as à Sua imagem e semelhança por um ato de amor, remiu-as com o Sangue do Seu Unigênito por um ato de amor ainda maior. "Deus amou de tal modo o mundo, que lhe deu o seu Filho Unigênito, para que todo o que crê nele não pereça, mas tenha a vida eterna" ( Jo. III, 16 ). Quem penetrou o mistério do amor de Deus aos homens, não pode permanecer indiferente pela sua sorte: à luz da fé compreendeu que tudo quanto Deus opera no mundo é para seu bem, para sua felicidade eterna e quer de algum modo participar nesta ação, sabendo que não pode fazer coisa mais agradável a Deus do que prestar a sua humilde colaboração na salvação dos que Lhe são caros. Foi sempre este o desejo ardente dos santos, desejo que os impeliu a realizar heroísmos de generosidade, ainda que fosse para o bem de uma só alma. "Esta - escreve Santa Teresa d'Ávila- é a inclinação que o Senhor me deu. Parece-me que Ele aprecia mais uma só alma que Lhe ganhemos com as nossas indústrias e orações mediante a Sua misericórdia, do que todos os serviços que Lhe possamos fazer" ( Fd. 1, 7 ).
   É verdade que o fim primordial da ação de Deus é a Sua glória, mas Ele, infinitamente bom, gosta de a procurar particularmente através da salvação  e felicidade das Suas criaturas. De fato nada exalta tanto a Sua bondade, o Seu amor, a Sua misericórdia, como a obra salvífica em favor dos homens. Por isso, amar a Deus e a Sua glória significa amar as almas, significa trabalhar e sacrificar-se pela sua salvação.
   O zelo pelas almas nasce da caridade, da contemplação de Jesus crucificado: as Suas chagas, o Seu Sangue, os sofrimentos dilacerantes da Sua agonia, dizem-nos como valem as almas na presença de Deus e como Ele as ama. Este amor, porém, não é correspondido e parece que os homens ingratos querem fugir cada vez mais à Sua ação. É  o triste espetáculo de todos os tempos que ainda hoje se repete, como se quisessem insultar Jesus e renovar a Sua Paixão. "Todo mundo está em chamas: os ímpios querem, por assim dizer, voltar a sentenciar a Cristo, pois levantam contra Ele mil falsos testemunhos e querem deitar por terra a Sua Igreja". Se Teresa d'Ávila ( Caminho 1, 5 ) podia afirmar isto do seu século atormentado pelo protestantismo, com muito maior razão podemos afirmá-lo nós do nosso, em que a luta contra Deus e contra a Igreja aumentou desmedidamente e alastra por todo o mundo. Felizes de nós se pudéssemos também repetir com a Santa: "Despedaça-me o coração a perda de tantas almas. Quisera não ver perder-se mais nenhuma... Mil vidas sacrificaria eu para salvar uma só alma das muitas que se perdem" ( ib. 4 e 2 ). Mas não se trata só de formular desejos; é preciso agir, é preciso trabalhar e sofrer pela salvação dos irmãos.
   São João Crisóstomo afirma que "nada há de mais frio do que um cristão que não se preocupa com a salvação dos  outros". Esta frieza  é consequência de uma caridade muito frouxa; acendamos, reavivemos a caridade e acender-se-á em nós o zelo pela salvação das almas. Então o nosso apostolado deixará de ser um dever imposto do exterior  que devamos  cumprir    necessariamente por obrigação do nosso estado, para se tornar uma exigência do amor, uma chama que se inflama espontaneamente no fogo interior da caridade.
   Dar-se à vida interior não significa fechar-se numa torre de marfim para gozar tranquilamente as consolações divinas, desinteressando-se do bem alheio, mas significa concentrar todas as energias na busca de Deus, no trabalho da santificação pessoal para agradar a Deus e adquirir um poder de ação e intercessão capaz de obter a salvação de muitas almas". ( Extraído do Livro "Intimidade Divina" de autoria do P. Gabriel de Sta. M. Madalena, O.C.D. ).
      Vamos completar este artigo com alguns excertos do livro "Tratado do Amor de Deus" de autoria de São Francisco de Salles.
   "Não há dúvida, meu caro Teótimo, de que Moisés, Fineas, Elias, Matatias, e muitos servos de Deus se serviram da cólera, para exercerem o zelo em muitas ocasiões assinaladas.
   Convém, porém, notar que eram pessoas com a capacidade suficiente para bem manejarem as paixões e dominarem a cólera.
   São Dionísio, falando a Demófilo que pretendia chamar zelo à fúria e raiva que o dominavam, disse-lhe: "Quem quiser corrigir os outros deve, em primeiro lugar, empregar o máximo cuidado,  de impedir que a cólera exceda a razão do império e domínio que Deus deu à alma, e provoque revolta, sedição ou confusão em nós mesmos. E por isso nunca podemos aprovar vossos ímpetos de zelo indiscreto, ainda que mil vezes aponteis o exemplo de Fineas e Elias, porque tais palavras não agradaram a Jesus Cristo, quando lhe foram dirigidas pelos Discípulos, que não tinham ainda participado do seu doce e benigno espírito".
   Quando Fineas, continua São Francisco de Salles, viu aquele desgraçado Israelita ofender a Deus com uma Moabita, matou-os ambos; Elias predissera a morte de Ocozias, que, indignado com a profecia, enviou dois capitães, um depois do outro, com cinquenta soldados para o prender; o homem de Deus fez descer o fogo do céu, que os fulminou.
   Ora um dia Nosso Senhor, passando na Samaria, mandou a uma cidade pedir hospedagem, mas os habitantes, ao saberem que Nosso Senhor era Judeu de nação e ia para Jerusalém, recusaram-lha.
   À vista desta recusa, São João e São Tiago, disseram a Jesus: Quereis, Senhor, que façamos descer sobre eles fogo que os devore? Mas Nosso Senhor, voltando-se para eles, repreendeu-os com estas palavras: Vós não compreendeis de que espírito sois; o Filho do Homem não veio para perder as almas, veio para as salvar ( Luc. IX, 52-56. ).
   Ora, é isto que quer dizer São Dionísio a Demófilo quando este alegava em sua defesa o exemplo de Fineas e de Elias. São João e São Tiago queriam imitar a Elias, fazendo descer o fogo do céu  sobre os homens, mas Nosso Senhor repreendeu-os e fez-lhes perceber que o Seu zelo, era doce, bondoso e afável e que empregava a cólera rarissimamente só quando não houvesse esperança alguma de tirar resultado doutra sorte.
   Aqueles grandes santos eram inspirados imediatamente por Deus e conseguiam por isso empregar a cólera sem perigo. O mesmo Espírito que os incitava, segurava também as rédeas da sua justa cólera, para que esta não excedesse os limites que lhe fixava.
   Porque São Paulo uma vez chamou aos Gálatas de insensatos; porque descobriu aos de Cândia as suas depravadas inclinações; porque resistiu de frente ao glorioso São Pedro, seu superior, segue-se daí que nos seja lícito injuriar os pecadores, difamar as nações, desautorizar e censurar os nossos superiores e prelados? Não, porque nós não somos S. Paulos, para sabermos fazer essas coisas com cabimento.
   Porém os espíritos avinagrados, descontentes, presumidos e maldizentes, servindo apenas as inclinações, humores, aversões e temeridades próprias, querem encobrir a sua injustiça com a capa de zelo e deixam-se, sob o nome deste fogo sagrado, devorar pelas próprias paixões.
   O verdadeiro zelo é filho da caridade, porque reside no ardor; como ela é paciente, benigno, imperturbável; não quer debates, não tem ódios, nem invejas, e compraz-se na verdade.
( Confira: Tratado do Amor de Deus, de S. Francisco de Salles, livro X, capítulo XVI ).

sexta-feira, 22 de abril de 2016

CELIBATO SACERDOTAL - PAPA PAULO VI - ( I )

Respondidas as perguntas sobre a Santa Missa, responderei as perguntas que me foram feitas sobre o CELIBATO SACERDOTAL. Esta questão foi muito agitada no Concílio Vaticano II. Seria um dos pontos do "aggiornamento"  e também do Ecumenismo que seria facilitado pela supressão do celibato sacerdotal. Sendo a Igreja divina, o Papa Paulo VI prometeu aos Padres do Concílio que ele mesmo iria imprimir uma nova glória e um novo vigor ao celibato sacerdotal. Para tanto, o Santo Padre escreveu uma carta a Sua Ema. o Card. E. Tisserant, carta esta que foi lida na Congr. Geral 146 de 11 de outubro. Cortava assim pela raiz a fermentação deletéria dos progressistas que tencionavam acabar com o celibato sacerdotal.  
   O Papa Paulo VI, cumprindo a sua promessa, dois anos após o término do Concílio escrivia a Encíclica "Celibato Sacerdotal" (junho de 1967). Desta encíclica extrairei, se Deus quiser, as respostas às perguntas que me fizeram sobre o celibato sacerdotal.
                                                    SIGNIFICADO CRISTOLÓGICO DO CELIBATO
   "O sacerdócio cristão, que é novo, só pode ser compreendido à luz da novidade de Cristo, Pontífice máximo, e Sacerdote eterno, que instituiu o sacerdócio ministerial como participação do Seu Sacerdócio Único. Portanto o ministro de Cristo e administrador dos mistérios de Deus (1 Cor. IV, 1), encontra também n'Ele o modelo direto e o ideal supremo (cf. 1Cor. 11, 1). O Senhor Jesus Cristo, Unigênito de Deus, enviado ao mundo pelo Pai, fez-se homem para que a humanidade sujeita ao pecado e à morte, fosse regenerada e, por meio dum nascimento novo (S. Jo. III, 5; Ti. III, 5), entrasse no reino dos céus. Consagrando-se inteiramente à vontade do Pai (S. Jo. IV, 34; XVII, 4), Jesus realizou, por meio do seu ministério pascal, esta nova criação (2 Cor. V, 17; Gál. VI, 15), introduzindo no tempo e no mundo uma forma de vida, sublime e divina, que transforma a condição terrena da humanidade (Cf. Gál. III, 28).
   "O matrimônio que , por vontade de Deus, continua a obra da primeira criação (Gên. II, 18), ao ser integrado no desígnio total da salvação, adquire novo significado e valor. Na verdade, Jesus, restituiu-lhe a dignidade primitiva (S. Mat. XIX, 3-8), honrou-o (Cf. S. Jo. II, 1-11) e elevou-o à dignidade de sacramento e de sinal misterioso da sua união com a Igreja (Ef. V, 32). Assim, os conjuges cristãos - no exercício do amor mútuo e no cumprimento dos próprios deveres, e tendo aquela santidade que lhes é própria - caminham juntos à pátria celeste. Mas Cristo, Mediador dum Testamento mais excelente (Hebr. VIII, 6), abriu támbém novo caminho, em que a criatura humana, unindo-se total e diretamente ao Senhor e preocupada apenas com Ele e com as coisas que Lhe dizem respeito (1 Cor. VII, 33-35), manifesta de maneira mais clara e completa a realidade profundamente inovadora do Novo Testamento".
   "A correspondência à vocação divina é resposta de amor à caridade para conosco que Jesus Cristo mostrou de maneira sublime (S. Jo. XV, 13; III, 16); é resposta coberta de mistério no amor particular pelas almas a quem Ele fez sentir os apelos mais instantes (cf. Marc. X, 21). A graça multiplica, com força divina, as exigências do amor; este, quando autêntico, é total, exclusivo, estável e perene, é estímulo irresistível que leva a todos os heroísmos. Por isso, a escolha do celibato consagrado foi sempre considerada pela Igreja "como sinal e estímulo da caridade": sinal de amor sem reservas, estímulo de caridade que a todos abraça. Numa vida de entrega tão inteira, feita pelos motivos que expusemos, quem poderá reconhecer sinais de pobreza espiritual ou de egoísmo, sendo ela, e devendo ser, pelo contrário, exemplo raro e excepcionalmente expressivo duma vida impulsionada e fortalecida pelo amor, no qual o homem exprime a grandeza que é exclusivamente sua? Quem poderá duvidar da plenitude moral e espiritual duma vida, assim consagrada não a qualquer ideal por mais nobre que seja, mas a Cristo, e à Sua obra em favor duma humanidade nova, em todos os lugares e em todos os tempos?
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O CELIBATO SACERDOTAL - PAPA PAULO VI - ( II )

SIGNIFICADO ECLESIOLÓGICO DO CELIBATO

   "Preso por Cristo Jesus" (Fil. III, 12) até ao abandono total de si mesmo a Ele, o sacerdote configura-se mais perfeitamente a Cristo, também no amor com que o Eterno Sacerdote amou a Igreja  Seu Corpo, oferecendo-se inteiramente por ela, para a tornar Esposa sua, gloriosa, santa e imaculada (cf. Ef. V, 25-27). A virgindade consagrada dos sacerdotes manifesta, de fato, o amor virginal de Cristo para com a Igreja e a fecundidade virginal e sobrenatural desta união em que os filhos de Deus não são gerados pela carne e pelo sangue (S. Jo. I, 13).
   O sacerdote, dedicando-se ao serviço do Senhor Jesus e do Seu Corpo Místico, em plena liberdade, facilitada pela sua oferta total, realiza, de modo mais completo, a unidade e a harmonia da vida sacerdotal; torna-se mais capaz de ouvir a Palavra de Deus e de se entregar à oração. Na verdade a palavra de Deus, conservada pela Igreja, deixa na alma do sacerdote, que diariamente a medita, vive, e anuncia, os ecos mais vibrantes e mais profundos.
   Deste modo, como Cristo, aplicado total e exclusivamente às coisas de Deus e da Igreja (cf. S. Luc. II, 49; 1 Cor.VII, 32) , o ministro do Senhor, à imitação do Sumo Sacerdote sempre vivo na presença de Deus a interceder por nós (Hebr. IX, 24 e VII, 25), encontra na recitação devota e atenta do Ofício Divino (Breviário) - na qual empresta a sua voz à Igreja que ora em união com o Seu Esposo - alegria e impulso incessantes e sente necessidade de ser mais assíduo na oração, dever eminentemente sacerdotal( Atos, VI, 2).
   E tudo o mais quanto forma a vida do sacerdote, adquire maior plenitude de significado e de eficácia santificadora. Com efeito, o seu compromisso especial de santificação encontra novos incentivos no ministério da graça e no da Eucaristia, em que está encerrado todo o bem da Igreja: operando em nome de Cristo, o sacerdote une-se mais intimamente à oferta, colocando sobre o altar a sua vida inteira, marcada com sinais de holocausto.
  Quantas considerações poderíamos acrescentar ainda sobre o aumento de capacidade, de serviço, de amor e sacrifício! Cristo disse de si mesmo: "Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica só; mas, se morrer, dará muito fruto". (S. Jo. XII, 24); e o Apóstolo São Paulo não hesitava em expor-se à morte de todos os dias, para possuir nos seus fiéis a glória em Cristo Jesus (1Cor. XV, 31). Assim o sacerdote, na morte cotidiana de toda a sua pessoa, na renúncia ao amor legítimo a uma família própria, por amor de Jesus e do Seu Reino, encontrará a glória duma vida em Cristo pleníssima e fecunda, porque, como Ele e n'Ele, ama e se entrega a todos os filhos de Deus.
   Na comunidade dos fiéis confiados aos seus cuidados, o sacerdote é Cristo presente; daqui a suma conveniência de que ele reproduza em tudo a imagem de Cristo e lhe siga o exemplo, tanto na vida íntima como na vida do próprio ministério. Para os seus filhos em Cristo, é o sacerdote sinal e penhor das realidades sublimes e novas do reino de Deus, das quais é distribuidor, possuindo-as em si no grau mais perfeito e alimentando a fé e a esperança de todos os cristãos, que, como tais, são obrigados à observância da castidade segundo o próprio estado.
   A consagração a Cristo, em virtude dum título novo e excelso como é o celibato, concede, além disso, ao sacerdote, mesmo no campo prático como é evidente, a máxima eficiência e a melhor aptidão psicológica e afetiva para o exercício contínuo daquela caridade perfeita que lhe permitirá, de maneira mais ampla e concreta, dar-se todo para o bem de todos (2 Cor. XII, 15), e garante-lhe, como é óbvio, maior liberdade e disponibilidade no ministério pastoral, na sua ativa e amorosa presença no mundo, ao qual Jesus Cristo o enviou (S. Jo. XVII, 18), a fim de que ele pague inteiramente a todos os filhos de Deus a dívida que tem para com eles (Rom. I, 14). 

CUIDADO COM OS MODERNISTAS!!!

   Entre as muitas obras extraordinárias do Pontificado de São Pio X, sem dúvida, enumera-se a condenação do Modernismo. Eis algumas advertências de São Pio X atinentes aos modernistas: ... "com artifícios de todo astuciosos, se esforçam por tornar inútil a virtude vivificante da Igreja e arruinar pelos alicerces, se dado lhes fosse, o mesmo reino de Jesus Cristo"; ..."o que é muito para sentir e recear, eles se ocultam no próprio seio da Igreja, tornando-se assim tanto mais nocivos quanto menos percebidos"; ..."embebidos das teorias envenenadas dos inimigos da Igreja, gabam-se de reformadores da mesma Igreja"; ..."se atiram sobre tudo o que há de mais santo na obra de Cristo"; ..."não se afastará da verdade quem os tiver como os mais perigosos inimigos da Igreja"; "o modernismo é a síntese de todas as heresias" ..."dirigem seu machado sobre as próprias raízes da Igreja, que são a Fé e suas fibras mais vitais"; ..."não poupam nada da verdade católica; não há nenhuma verdade que não procuram contaminar"; ..."não há quem os vença em manhas e astúcias"; ..."são ousados como ninguém, de uma operosidade incansável, uma assídua e vigorosa aplicação a todo ramo de estudos e, o mais das vezes, (têm) a fama de uma vida austera, coisas muito próprias para enganar"; ..."são formados numa escola de desprezo a toda autoridade e a todo freio"; ..."persuadem-se de que é amor da verdade o que não passa de soberba e obstinação"; (Devemos observar que os modernistas são contra toda autoridade contrária a eles como era o caso no tempo de São Pio X). ... "segundo eles os dogmas não só podem, mas devem evoluir e mudar-se"; ..."balofos nas vaidades da ciência, deliram a ponto de perverter o conceito de verdade"; ..."por desenfreada mania de novidades, não procuram a verdade onde com segurança se acha; e desprezando as santas e apostólicas tradições, apegam-se a doutrinas ocas, frívolas, incertas, reprovadas pela Igreja". Erros modernistas: ..."Visto que a religião não é senão uma forma da vida, a sua explicação se deve achar na própria  vida do homem. Daqui procede o princípio da imanência religiosa"..."a fé se deve fundar em um sentimento, nascido da necessidade da divindade... "É  precisamente a este sentimento que os modernistas dão o nome de fé, e colocam-no como o princípio de religião"; ..."chega-se até a afirmar que a nossa santíssima religião, no homem Jesus Cristo assim como em nós, é fruto inteiramente espontânea da natureza"; "o homem religioso  deve pensar a sua fé"; ..."no sentimento religioso reconhece-se uma espécie de intuição do coração" ... os modernistas concedem, uns confusa e outros manifestamente, que todas as religiões são verdadeiras"; ..."o viver para os modernistas é prova de verdade; e a razão disto é que verdade e vida para eles são uma e mesma coisa. E daqui mais uma vez se conclui que todas as religiões existentes são verdadeiras, do contrário já não existiriam". (Não conhecem a parábola do joio!!!). ..."nos seus livros muitas coisas se encontram que são aceitas pelos católicos; mas, ao virar a página, outras coisas são vistas que pareceriam ditadas por um racionalista. Escrevendo, pois, a história, nenhuma menção fazem da divindade de Cristo; ao passo que, pregando nas igrejas, com firmeza a professam"; ..."ostentam certo desprezo das doutrinas católicas, dos Santos Padres, dos concílios ecumênicos, do magistério eclesiástico; e se forem por isto repreendidos, queixam-se de que se lhes tolhe a liberdade"; ... "posta de parte a velha teologia, empenham-se por divulgar uma nova, toda amoldada aos desvarios dos filósofos"; ... "Deus é imanente no homem"; ... dizem que não se pode crer que a Igreja e os sacramentos foram instituídos pelo próprio Cristo"; "dizem que os Sacramentos foram só instituídos para nutrirem a fé"; ..."Deus está dentro de nós e agitados por ele nós nos inflamamos. Deste modo é que se deve explicar a origem da inspiração dos livros sagrados". ...a Igreja é um parto da consciência coletiva"; ..."dizem que quando a Igreja condena erros, não pode de maneira nenhuma exigir que os fiéis aceitem seus juízos com assentimento interno"; ...dizem que a interpretação dada pela Igreja aos Livros Sagrados da Bíblia, conquanto não se deva desprezar, está, no entanto, sujeita a mais apurado juízo e à correção dos exegetas"; ... "ensinam que, pelas sentenças eclesiásticas fulminadas contra a exegese livre e mais adiantada, pode se concluir que a fé proposta pela Igreja está em contradição com a história e que os dogmas católicos não podem realmente harmonizar-se com as verdadeiras origens da religião cristã"; ... "afirmam os modernistas que o Magistério da Igreja não pode determinar o sentido genuíno das Sagradas Escrituras, nem mesmo por meio de definições dogmáticas"; ... "dizem que a inspiração divina não se estende a toda a Sagrada Escritura a ponto de preservar de todo erro todas e cada uma de suas partes"; ... "afirmam que em diversas narrações, os Evangelistas referiram não tanto o que era verdade, quanto o que, embora falso, julgaram ser mais proveitoso a seus leitores"; ... dizem os modernistas que os exegetas heterodoxos (= hereges) interpretaram o verdadeiro sentido das Escrituras com mais fidelidade do que os exegetas católicos"; ...os modernistas ensinam que os dogmas, que a Igreja dá como revelados, não são verdades caídas do céu; são uma certa interpretação de fatos religiosos, que o espírito humano conseguiu alcançar à custa de trabalhosos esforços"; ... "ensinam que os dogmas da fé devem ser considerados somente segundo o sentido prático, isto é, como norma de proceder e não como norma de crer"; ... "dizem que a constituição orgânica da Igreja não é imutável: a sociedade cristã assim como a sociedade humana está sujeita à perpétua evolução"; ... ensinam que a verdade deve mudar com os tempos como o homem, pois que evolui com ele, nele e por ele"; ... "ensinam os modernistas que Cristo não ensinou um corpo fixo de doutrina aplicável a todos os tempos e a todos os homens; mas sim inaugurou certo movimento religioso que se adapta, ou que deve ser adaptado aos diversos tempos e lugares"; ... "dizem que a Igreja mostra-se incapaz de defender eficazmente a moral evangélica, porque adere obstinadamente a doutrinas imutáveis, que não podem conciliar-se com o progresso moderno"; ... ensinam também que o progresso das ciências exige que se reformem os conceitos da doutrina cristã sobre Deus, a Criação, a Revelação, a Pessoa do Verbo Encarnado e a Redenção"... "ensinam ainda os modernistas que o regime que deve governar a Igreja é o popular ou democrático" ... "por isso, dizem os modernistas, que o povo tem a liberdade de determinar o que achar melhor no seu tempo"; ... e dizem que "seria loucura da parte da Igreja crer que o vivo sentimento de liberdade, ora dominante, retroceda. Reprimindo-o e enclausurando-o, ele transbordará mais impetuoso, destruindo conjuntamente a religião e a Igreja"; ... "falava-se antigamente do temporal sujeito ao espiritual; falava-se de questões mistas, em que a Igreja intervinha como senhora e rainha, porque então se tinha a Igreja como instituída imediatamente por Deus, enquanto autor da ordem sobrenatural. Mas estas crenças, dizem os modernistas, já não são admitidas pela filosofia, nem pela história. Deve, portanto, a Igreja separar-se do Estado, e assim também o católico do cidadão,... e  o católico tem o direito e dever de fazer o que julgar mais oportuno ao bem da pátria, sem levar em conta os ensinamentos e ordens da Igreja"; ... "têm os modernistas por princípio geral, que, numa religião viva, tudo deve ser mutável e deve de fato mudar-se: tudo: o dogma, a Igreja, o culto, os livros sagrados, e até mesmo a fé, se não forem coisas mortas, devem sujeitar-se às leis da evolução. Diz S. Pio X que os modernistas, ao aplicar esta lei da evolução, começam pela fé"; ... quanto a evolução do culto, dizem que o principal estímulo de evolução é a necessidade de se adaptar aos costumes e tradições dos povos". Dizem os modernistas que, para conseguir isto, é necessário resistir uma força conservadora que é a Tradição; e em luta contra esta força conservadora, é preciso promover uma força progressiva que é o progresso; e, assim, se deve introduzir na Igreja o laicato, que é fator de progresso"; ... "afirmam que as consciências individuais, ou pelo menos algumas delas, fazem pressão sobre a autoridade, obrigando-a a capitular e pactuar"; diz São Pio X que "os modernistas consideram isto um dever sagrado"; ... "lamentam que as autoridades (naquele tempo) não lhes prestem ouvidos, porque isto será causa de atraso ao progresso dos espíritos, mas asseveram que há de vir a hora de se romperem as barreiras, porque as leis da evolução poderão ser refreadas, porém nunca poderão ser quebradas"; ... E São Pio X cita o Papa Pio IX : "Estes inimigos da Revelação divina, que exaltam com os maiores louvores o progresso humano, desejariam com temerário e sacrílego atrevimento, introduzi-lo na Religião Católica, como se a mesma não fosse obra de Deus, mas obra dos homens, ou algum sistema filosófico que se possa aperfeiçoar por meios humanos" (Enc. "Qui pluribus" de 9 de novembro de 1846). Os modernistas, continua São Pio X, querem a inovação da filosofia, particularmente nos Seminários, de tal modo que acabem com a filosofia escolástica";  ... "e seja ensinada aos jovens a filosofia moderna"; "quanto ao culto, dizem que se devem diminuir as devoções externas e proibir que aumentem"; ... "dizem que as Congregações Romanas devem ser transformadas; e antes de todas as do Santo Ofício e do Índice.(Esta última era para condenar os livros maus). Em Moral estão pelo Americanismo, dizendo que as virtudes ativas devem antepor-se às passivas. Querem que se acabe a suntuosidade do culto"; ... "E finalmente não falta entre eles(=os modernistas) quem, obedecendo muito de boa mente aos acenos dos seus mestres protestantes, até deseje ver suprimido do sacerdócio o sacro celibato" - E São Pio X conclui: "Que restará, pois, de intacto na Igreja, que não deva por eles ou segundo seus princípios ser reformado?
  Gostaria de acrescentar aqui as palavras do Professor Sr. Roberto de Mattei: "Para eles (os progressistas) o modo com que se fala e se age é doutrina que se faz praxe. A reforma litúrgica (post-conciliar) acrescentou, portanto, uma nova "lex orandi" que comportava uma nova "lex credendi".
     Oh! São Pio X! realmente não ficou nada intacto!!! Se a Igreja não fosse divina já estaria destruída pelos fundamentos! Mas também, por isto mesmo, o sair desta crise sem precedentes, será uma das maiores provas desta mesma divindade da Igreja.  Podemos comparar esta crise a uma eclipse solar total ou quase. Mas temos certeza inabalável pela fé que, como toda eclipse, esta crise passará.
  Uma vez São Pio se bilocando, foi visto rezando diante do corpo de São Pio X na Basílica de São Pedro em Roma. Que estaria ele pedindo?! Podemos conjecturar... 
   São Pio X, rogai por nós! São Pio, rogai por nós!
 

CELIBATO SACERDOTAL - PAPA PAULO VI - ( III )

SIGNIFICADO ESCATOLÓGICO DO CELIBATO SACERDOTAL

   "O reino de Deus, que não é deste mundo (S. Jo. XVIII, 36), está nele presente em mistério e atingirá a sua perfeição com a vinda gloriosa do Senhor Jesus. A Igreja constitui aqui na terra, o germe e o início deste reino; e, ao passo que vai crescendo lenta mas seguramente, aspira pelo reino perfeito e ambiciona, com todas as forças, unir-se com o Seu Rei na Glória.
   O povo de Deus peregrino encontra-se, na história, a caminho da sua verdadeira pátria (Filp. III, 20), onde se manifestará em plenitude a filiação divina dos remidos (1 Jo. III, 2) e onde brilhará definitivamente a beleza transfigurada da Esposa do Cordeiro Divino.
   O nosso Senhor e Mestre disse que "na ressurreição... nem os homens terão mulheres, nem as mulheres maridos, mas serão como anjos de Deus no céu" (S. Mat. XXII, 30). No mundo do homem, tão absorvido nos cuidados terrenos e dominado bastante vezes pelos desejos da carne (cf. 1 Jo. II, 16), o precioso dom divino da continência perfeita, por amor do reino dos céus, constitui exatamente um sinal particular dos bens celestes", anuncia a presença na terra dos últimos tempos da salvação (cf. 1 Cor. VII, 29-31) com o advento dum mundo novo, e antecipa, de alguma maneira, a consumação do reino, afirmando os valores supremos do mesmo, que um dia hão de brilhar em todos os filhos de Deus. É, por isso, testemunho da tensão necessária do Povo de Deus orientada para a meta última da peregrinação terrestre e é incitamento para todos erguerem o olhar às coisas do alto, onde o Senhor está sentado à direita do Pai e onde a nossa vida está escondida com Cristo em Deus, até se manifestar na glória (Co. III, 1-4).
    Muitos com a  melhor das intenções, acham que, com a extinção do Celibato Sacerdotal, aumentaria o número dos padres. A este respeito diz o Papa Paulo VI: "Nosso Senhor Jesus Cristo não temeu confiar a um punhado de homens, que todos teríamos julgado insuficientes tanto em número como em qualidade, o encargo imenso da evangelização do mundo até então conhecido; e ordenou a essa "pequena grei" que não tivesse receio (S. Luc. XII, 32), porque alcançaria com Ele e por Ele, a vitória sobre o mundo (S. Jo. XVI, 33) graças a constante assistência que lhe daria (S. Mat. XXVIII, 20). Advertiu-nos também Jesus de que o Reino de Deus possui uma força íntima e secreta, que o faz crescer e chegar a messe sem que o homem saiba como (S. Marc. IV, 26- 29). Essa messe do Reino de Deus é grande, e os operários ainda são poucos, como ao princípio; ou por outra, nunca chegaram a ser tão numerosos, que se pudessem dizer suficientes segundo os cálculos humanos. Mas o Senhor do Reino exige que se reze, para que o Dono da Messe mande operários para o seu campo (S. Mat. IX, 37-38). Os planos e a prudência dos homens não podem sobrepor-se à misteriosa sabedoria daquele que, na história da salvação, desafiou a sabedoria e o poder do homem com a sua insensatez e fraqueza ( 1 Cor. I, 20- 31).
   Gostoria de terminar este assunto com uma belíssima citação que o papa Paulo VI faz do Beato João XXXIII: "Amargura-nos saber ... que alguns fantasiam sobre o desejo ou a conveniência, que haveria para a Igreja Católica, em renunciar ao que por tantos séculos foi e continua a ser uma das mais nobres e mais puras glórias do sacerdócio. A lei do celibato eclesiástico, com o empenho de fazê-la prevalecer, continua a evocar as batalhas dos tempos heróicos, quando a Igreja teve que lutar e venceu, evoca o triunfo do seu trinômio glorioso, que será sempre emblema de vitória: IGREJA DE CRISTO - LIVRE, CASTA E CATÓLICA".

"QUEM SE APROXIMA DO SACERDÓCIO, DEVE SER PURO COMO SE ESTIVESSE NO CÉU".  (S. João Crisóstomo).

ALGUNS PROJETOS MAÇÔNICOS

   Uma das maiores autoridades da Maçonaria italiana, o Píccolo Tigre, exclamava: "Conspiremos contra Roma; e para isto sirvamo-nos de todos os incidentes, aproveitemos todas as eventualidades". (Padre Teófilo Dutra - As Seitas Secretas - 1931).

  De uma prancha da Loja "Auxílio à Virtude" de São Fidélis, RJ.: "Propugnar pela aplicação no Brasil de uma lei idêntica à do MÉXICO, mandando expulsar as Congregações religiosas, pelo menos proibindo-lhes o ensino". (O Nordeste, de Fortaleza). 

  O Jornal do Recife, órgão da Maçonaria, na edição de 18 de Setembro de 1897, lançou esta pergunta: "O que adianta, que utilidade tem a Missa?" "A Missa é uma mentira convencional como outra qualquer". Ainda do mesmo jornal: "O celibato clerical é um absurdo! o voto da castidade, uma blasfêmia!... (Livro "Um Cristão Católico" - Recife - 1898).

  O plano diabólico da Alta Venda foi claramente revelado na carta de Vindice a Nubius ( 9 de Agosto de 1838: "Não se deve individualizar o crime; devemos generalizá-lo para crescer até as proporções do patriotismo e do ódio contra a Igreja. Um golpe de punhal não significa nada, não produz nada... O catolicismo não teme mais que a monarquia um punhal afiado; mas essas duas bases na ordem social podem cair pela corrupção; por isto não cessemos de corromper. Tertuliano dizia com razão que o sangue dos mártires produzia cristãos. Foi decidido em nossos conselhos que não queremos mais cristãos; por isto não façamos mártires, mas popularizemos o vício nas multidões. Respirem os povos o vício pelos cinco sentidos, e dele se saturem. Esta terra está sempre disposta a receber ensinamentos lúbricos. Fazei corações viciosos e não tereis mais católicos. Apartai o padre do trabalho, do altar e da virtude, procurando com destreza que ele ocupe em outras coisas os seus pensamentos e o seu tempo. Tornai-o ocioso, glutão e patriota, e assim ele se fará ambicioso, intrigante e perverso... O que devemos empreender é a corrupção em massa, a corrupção do povo pelo clero e do clero por nós, a corrupção pela qual levaremos um dia a Igreja à sepultura. Ouvi ultimamente um dos nossos amigos rir filosoficamente dos nossos projetos e dizer: "Para abater o Catolicismo, é preciso começar por suprimir a mulher!" É verdade, mas desde que não podemos suprimir a mulher, corrompamo-la com a Igreja. Corruptio optimi pessima. O fim é bastante belo para tentar homens como nós... O melhor punhal para ferir a Igreja no coração é a corrupção" ( Padre Teófilo Dutra, "As Seitas Secretas" 213,2114, 219; Léon de Poncins - La F.'. M.'. Paris, 1936, pg 134-126). 

  Um aviso da Alta Venda: "Lançai vossas redes como Simão Bar-Jona; lançai no fundo das sacristias, dos seminários e dos conventos... e se andais com prudência nós vos prometemos uma pesca mais miraculosa que a sua". "Apartai o padre da sacristia, do altar, da oração, da virtude..." (De Nubius, chefe da Alta Venda; Padre T. D. o. cit. pg. 218, 219). 

D. Vital, Bispo de Olinda. Como bispo, na
sua vida privada, continuou fiel discípulo
de S. Francisco de Assis, não dispensando
cilício e um cinto de ferro, contentando-se
com poucas horas de sono sobre uma
rude esteira para mais detidamente
entregar-se à oração e profunda
meditação na capela do Palácio
episcopal.
Rezemos pela sua canonização. 
   D. Vital, (sagrado bispo em 1872) o grande batalhador contra a Maçonaria, escreveu uma carta circular contra a imprensa ímpia para desmascarar esta seita tenebrosa. Por despeito a imprensa maçônica publicou os nomes dos cônegos, padres, religiosos e irmandades que pertenciam a Maçonaria. D. Vital escreveu várias cartas pastorais para alertar seus diocesanos contra as maquinações da maçonaria. Chama a atenção do seu rebanho contra a "ímpia sociedade", a "seita inimiga figadal do Catolicismo", a "seita tenebrosa" que propala as mais pestilentas aberrações e calúnias conta a Igreja, contra sue augusto Vigário e contra os bispos. Cabe, sem dúvida, a D. Vital o mérito de ter engajado a luta em toda a sua extensão, de ter procedido à purificação da Igreja em todos os seus membros, de ter sustentado o ataque rijo em toda a linha. D. Vital desmascarou a falsidade e desfaçatez da maçonaria, que após assacar, dizia o grande Bispo, tantas e tamanhas diatribes contra a esposa imaculada do Espírito Santo, ainda pretende, caso a Igreja tente alertar suas ovelhas, assumir um papel de vítima inocente, que chora a "prepotência, o absolutismo, o despotismo e fanatismo episcopal", querendo forçar com isto ao silêncio os Pastores imprudentes e temerários. Dizia ainda D. Vital: "Não; na misericórdia divina esperamos que jamais deixaremos de advogar a causa da Santa Igreja de Jesus Cristo". "Apesar de toda a permissão de nossas leis e do que acaba de definir o Governo Imperial, não posso deixar de considerar a Maçonaria como uma sociedade essencialmente contrária à religião católica, de tal modo que católico maçom é católico muçulmano, católico protestante, católico judeu".  D. Vital escreveu uma outra carta pastoral intitulada "A Maçonaria e os Jesuítas". Aí ele indica que o meio principal de ação da Maçonaria é o ataque ao Papado, fazendo-lhe ruir tanto seu poder espiritual como o material, o ataque à nações católicas, aos bispos, aos padres, às ordens religiosas... pelo ridículo, pela mentira, pela maledicência, pela calúnia, pela hipocrisia, pelo perjúrio, pelo sacrilégio... pela imprensa que é o grande canal, diz D. Vital, por onde se escoam no seio da sociedade todas as imundícies da maçonaria. Nela se usa de dupla conspiração: da conspiração da gritaria quando se trata de atribuir à Igreja algum fato horroroso e da conspiração do silêncio quando lhe convém calar sobre algum acontecimento favorável ao Catolicismo... nos jornais, livros, brochuras, impressos de toda a espécie... pela poesia, história, literatura, romance, folhetim... Diz ainda que os maçons têm muito a peito na sedução da mocidade, da mulher. Tem como arma diabólica lançar a desunião e a discórdia nos arraiais católicos, tanto entre os leigos, como entre os eclesiásticos e até por entre as fileiras do mesmo Episcopado. 

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Aberrações ensinadas pelo ISPAC em Belo Horizonte

OBSERVAÇÃO: Trata-se, mais uma vez, de um artigo do saudoso erudito Gustavo Corção, artigo este extraído do livro A TEMPO E CONTRA TEMPO, escrito em 8-6-1968.
   Talvez alguém ou até muitos perguntem o porquê da transcrição de assuntos tão antigos! É porque a História é mestra da vida. 
   Li em 23-06-2015 um artigo no conceituado site "FRATRES IN UNUM": A CNBB decrépita e a Juventude da Fé Católica" e li também em (05/03/2016) "CNBB PROFÉTICA.   Fiz do primeiro artigo  um comentário onde afirmo que, com poucas exceções, são os bispos no mundo todo que estão tirando o fé do povo. Pois bem, disse que no decurso de uns longos 50 anos, venho acompanhando a derrocada da fé, crise esta perpetrada por aqueles mesmos que deveriam ser os guardas da mesma fé. . É a autodemolição. Mas ainda em 1968, pelo menos no Brasil, bispos esquerdistas e progressistas eram minoria. Se Corção fosse vivo hoje teria a nímia facilidade em provar o contrário: os bons bispos constituem minoria inexpressiva (não só numérica como ativamente). 
   Pelo artigo de Gustavo Corção podemos averiguar que o mau fermento do esquerdismo e progressismo, logo após o Concílio Vaticano II, já levedava a massa da crise atual. Eis o artigo:


"O EPISCOPADO brasileiro conta com muitos bispos sábios e veneráveis. Posso até afiançar, e poderia provar, que é uma pequena minoria a famosa ala de bispos esquerdistas ou progressistas, que se inculcam como interessados pela melhoria de condições sociais, e que insinuam que todos os que deles descordam só o fazem para defender o status quo e para impedir as ditas melhorias sociais do Brasil. Torno a dizer: graças a Deus constitui minoria (e só não digo inexpressiva minoria porque esses poucos são excessivamente expressivos) a parte do episcopado que mais se interessa pela promoção de suas ideias do que pelo zelo da boa doutrina.
A grande parte do episcopado continua, digo melhor, permanece onde o Cristo Jesus recomendou que permanecesse (Jo. XV). Mas depois desta sincera e consoladora declaração, não vejo como explicar e como ocultar a inquietação diante do que se faz atualmente no Brasil sob o olhar aprovador da Conferência Nacional dos Bispos e, portanto, sob a mesma aprovação dos bispos que não são modernistas e transviados.
Como exemplo dou abaixo duas transcrições do que se ensina no ISPAC  de Belo Horizonte. em cursos para formação de catequistas, começando em 2 de março, foram abordados vários assuntos, e distribuídas as apostilas respectivas. A que tenho diante dos olhos refere-se ao tema "secularização" e constitui uma das novidades da onda de apostasia que corre o mundo.

Eis as duas passagens que colhemos entre outras equivalentes, e que transcrevemos, pedindo ao leitor desculpas pelo mau português que não é nosso:

   "DESPEDIDA DO CRISTIANISMO TRADICIONAL - Notamos, em nossos dias, uma deseclesialização;  cada vez mais a gente fica por fora da Igreja com suas práticas tradicionais. Uns porque não concordam com o cristianismo em sua forma tradicional. Esta é por demais estranha ao mundo de hoje. Outros são mais indiferentes: não apenas o cristianismo tradicional está ultrapassado mas também a religião como tal (pois pertence a uma forma de cultura anterior). Mais outros dizem: sei que creio, mas sei também que a fé se torna discutível. Vamos procurar! Parece que a última posição é a mais comum: procurar uma resposta, uma nova forma de cristianismo. Isto é um sinal feliz. Pois enquanto há procura há também esperança. Os melhores livros atuais não são aqueles que já têm a resposta pronta, mas os que partem da realidade e sua problemática e tentam descobrir de que é que se trata afinal. As respostas antigas não satisfazem, pelo menos não na forma tradicional. Novas respostas ainda não há. Estamos numa fase de transição. Em tudo isto trata-se, em primeiro lugar, de cristianismo tradicional. Acabou. Existem várias opiniões a respeito deste fenômeno... A expressão "Deus morreu, nós o matamos", não é nova. Já a encontramos na obra de Nietzsche... A expressão "Deus morreu" pode significar: rejeitar a imagem tradicional de Deus, feita à imagem do homem, projetada a partir da incapacidade de dominar o mundo e a natureza; pode ser rejeitar o cristianismo tradicional, de um cristianismo estranho à vivência atual do mundo; pode ser também aceitar uma atitude ateísta na qual o homem se responsabiliza pelo mundo... e este modo de pensar é a tentativa de refletir sobre a fé, não na maneira de adaptação, mas na base da ruptura total com a tradição, para fundar a vida cristã, mas salvando a plena responsabilidade intramundana pelo mundo, pela história. Nestas tentativas nem tudo mostra madureza de pensamento. Há também disparates. Aliás, nem todos esses teólogos concordam entre si. Combatem-se mutuamente. Mas em todo o caso trata-se de uma séria tentativa, geralmente de jovens (está dito tudo!!) para situar o cristianismo no futuro próximo". 

   Agora eu. Torno a pedir desculpas ao leitor pelo mau português e pelo bestialógico. Feitos esses descontos, o que sobra é simplesmente o seguinte: o ISPAC, Instituto Superior de Pastoral Catequética, em Belo Horizonte, como aliás no Rio e em outros pontos do país, está ensinando os caminhos da apostasia, da blasfêmia, da negação de Deus, da recusa do cristianismo, a umas pobres freiras apatetadas, ou a uns jovens inebriados pelo incenso com que são adorados. Bem sei que esses professores são, antes de tudo, uns pobres idiotas que talvez não saibam o que fazem.

   O movimento modernista que aflige a Igreja e perde as almas se compõe, como é regra nestes casos, de uma pequena parte de perversos e uma multidão de idiotas. Seja como for, o resultado bruto é uma monstruosidade que me leva a clamar, a gritar, aos ouvidos dos bispo do Brasil.

   Onde estais? Como podeis admitir que tais coisas se ensinem com o apoio, as bênçãos e as verbas da Conferência Nacional dos Bispos? Como entender que os descendentes dos apóstolos se tenham tornado tão insensíveis à Sagrada Doutrina que tem por assinatura o preciosíssimo sangue de nosso Salvador? Onde está a Fé de nossos Bispos? Onde a autoridade? Onde o amor pela Igreja? Onde a devoção pelas palavras de vida?

   O pobre imbecil que ditou as palavras acima transcritas acaba de descobrir que a tradição católica é a da partida para novas procuras, porque onde há procura há esperança. De onde eu concluo que, na doutrina desse frade franciscano de Divinópolis, só há esperança onde faltar a fé.

   Veja bem o leitor: nenhum de nós ignora que a vida seja uma procura perpétua, um esforço contínuo. Todos nós procuramos os caminhos para melhor servir à vontade de Deus. Às vezes entendemos mal a irrepreensível Providência. Nenhum de nós se gaba de ter chegado a uma forma, a um padrão de vida satisfatório. Mas o que esse frade apóstata nos diz é que o própria palavra de Deus não é de Deus. Estivemos iludidos até aqui. Foi falso o ensinamento da Igreja durante vinte séculos. Sim, durante vinte séculos a Igreja ensinou a um povo boboca uma história parecida com a do Papai Noel, que traz brinquedos no noite de 24 de dezembro. Agora, depois do Concílio, abrimos os olhos, descobrimos os pêlos do corpo, somos adultos, e podemos tranquilamente deitar pela janela os algodões e os cetins da fantasia do pobre Papai Noel.

   Há ainda uns bobos que creem, mas o ISPAC está atento e pronto para soerguer do chão da crença elementar esses pobres retardatários...

   Detenho-me aqui exausto, sem saber continuar este artigo. Provavelmente hão de achar que sou eu quem está fazendo o escândalo dentro da Igreja. 

                                                                                            8-6-68 

A "Nova Igreja" prega contra a família

   Extraído do livro "A TEMPO E CONTRATEMPO" de autoria do saudoso Gustavo Corção.
   Artigo escrito em 20 de abril de 1968.



    EM meu último artigo referi-me a um livro publicado pelo ISPAC (Instituto Superior de Pastoral Catequética) intitulado Os Jovens e a Fé, e disse que esse livro cuidava de tudo, até do fogo-fátuo dos cemitérios, mas omitia uma Coisa muito importante. Deixei o suspense. O que é, o que é que os novos padres, que se dizem especialistas em jovens, esquecem de mencionar, e quando mencionam é para agredir? Hoje trago a resposta: é simplesmente a FAMÍLIA.

   Sim, senhores, neste livro de duzentas páginas não há um só tópico para tentar, ao menos timidamente, um ajustamento do moço dentro da família em que nasceu, e uma preparação para a família que venha a fundar. Todos nós sabemos o papel de destaque que a família tem nas preocupações e nos ensinamentos da Igreja. Durante dois mil anos todos nós católicos ensinamos que a Família é a célula da sociedade, o seminário onde se preparam os homens para a Cidade ou para a Igreja. Hoje se diz que os jovens devem "fazer opções livres" sem se "deixarem enquadrar".

   Sim, a doutrina clássica, que qualquer homem do povo conhece e respeita, não é mais conhecida e respeitada pelos pregadores da "Nova Igreja". Em todo livro editado pelo ISPAC o jovem é visto no espaço, sem raízes, ou então é convidado a enquadrar-se nos grupos de segregação etária, onde o moço fica privado das ricas experiências do mundo e da vida, e de certo modo fixado na imaturidade.

   Poucas são, nesse livro, as referências aos pais, e essas mesmas em termos de conflito, como se houvesse um essencial antagonismo entre as gerações. Da Família, como instituição, não encontrei uma linha. E é contra esse desserviço prestado aos moços, à sociedade e à Igreja que eu clamo.

   Domingo passado, no sermão, um padre de Botafogo me fulminou, me arrasou, me achatou, por estar eu "combatendo os padres que cuidam dos jovens". Não é verdade. Eu não combato os padres que zelam pelos jovens, combato sim, e combaterei enquanto persistir o fenômeno, e enquanto os dedos tiverem força para calcar as teclas da máquina, o novo padre que entra no mimetismo dos jovens, com mentalidade de adolescente, para ajudar o mundo a desagregar a Família.

   Vimos há dias alguns eclesiásticos excitados tomarem parte nas desordens feitas por estudantes visivelmente teleguiados pelos comunistas, que nem se deram ao trabalho de disfarçar tal comando. Essa atitude foi imprudente e nociva a todos os altos valores que deviam prezar. Ouso entretanto dizer que mal maior fazem os que pregam contra a instituição familiar. O veneno corrosivo que espalham é muito mais grave do que a desordem social, porque atinge as almas nos mais profundos afetos. E, no entanto, por incrível que pareça, aí está o fenômeno: padres, organizações eclesiásticas, a serviço da desagregação da Família. 

   O livro editado pelo ISPAC é antes de tudo bobo. Tem frases assim: "Hoje o homem é capaz de conduzir a história, ao passo que ontem a história o conduzia (pág. 99), à qual, sem hesitar, eu daria o prêmio Nobel da estupidez do ano. Adiante, na página 121, encontramos o sucedâneo da família no capítulo intitulado A PROGRESSIVA SOCIALIZAÇÃO DOS JOVENS. Que quererá dizer isto? O autor responde: "Damos a entender por socialização que os jovens abandonem, cada vez mais, os traços próprios de sua individualidade, e o individualismo de seu impulso, em benefício de um nivelamento e de uma ação no grupo e pelo grupo".

   Não discuto hoje a imbecilidade desta frase escrita em mau francês e traduzida em português ainda pior. Obstino-me na reclamação: e a Família? E a mãe? E o pai? E a casa, os irmãos, as paredes, o chão em que nasceram, o teto que os protege?

   Tempos atrás apareceu no Rio um dominicano francês que escreveu um artigo contra a família, instituição burguesa. Foi muito festejado pelos espertinhos da UNE que nesse tempo tiravam milhões das tetas da Entidade Máxima. Escrevi eu um artigo contra o dominicano que supunha ser um idiota isolado. Hoje tornou-se legião esse tipo de frade ou de padre, e tornou-se trivial o sermão contra o Quarto Mandamento de Deus. Ouvi eu mais de dez. Um jovem padre excitado ensinava do púlpito: "Os jovens têm de fazer suas experiências próprias, e digo ainda que doa nos sacrossantos ouvidos dos adultos".

   Outro, ainda mais excitado, num sermão de domingo publicou um conflito caseiro onde evidentemente o jovem tinha toda a razão e mais alguma. E acrescentava esta nota pitoresca: "Ontem o pai veio me procurar, um pai com cara de palhaço". Perto daqui, no Largo do Machado, havia uma missa especial para jovens. Quem acaso entrasse na igreja para rezar, era convidado a se retirar. Dizia o padre, ao microfone, que uma pessoa de idade imprópria estava presente e era convidada a retirar-se.

   Numa reunião de jovens, quando apareceu a mãe de um dos garotos, com vontade de ver como era a dita reunião, o padre, irritado, disse à senhora que não havia ali lugar para espiões. Tudo isto parece mentira, mas infelizmente o que pareceria monstruosa mentira anos atrás tornou-se verdade hoje.

   Todos nós sabemos que os moços estão hoje vivendo uma situação dramática, justamente por causa da desagregação familiar. Ora, o que dói a mais não poder é ver um dos nossos a trabalhar com tanto entusiasmo na mesma direção da desagregação familiar. Não pararei, ainda que em todos os bairros e em todos os domingos me injuriem os padres da bossa revolucionária.

   Em nome da verdade exijo que digam publicamente que não é o zelo pelos jovens que eu combato, e sim a demagogia, a exaltação cheia de equívocos, e sobretudo a atividade desagregadora da família.


   Nota: Vemos pelo presente artigo que eclesiásticos já vêm semeando os ventos comunistas da destruição da Família, já há muito tempo.  Mas o que dói a mais não poder é constatar que a tempestade desta destruição está levantada por gente dos altos escalões eclesiásticos.