sábado, 30 de janeiro de 2016

ARTIGO 15

A IGREJA CORPO "MÍSTICO" DE CRISTO

"Cristo é a Cabeça do Corpo da Igreja" (Colossenses I, 18).

"Ao meditar este ponto da doutrina católica ocorrem-nos logo aquelas palavras do Apóstolo: 'Onde o delito abundou superabundou a graça' (Rom V, 20). Sabemos que Deus constituiu o primeiro progenitor do gênero humano em tão excelsa condição, que com a vida terrena transmitiria aos seus descendentes a vida sobrenatural da graça celeste. Mas depois da triste queda de Adão toda a humana linhagem, infeccionada pela mancha original, perdeu o consórcio da natureza divina (cf 2 Ped I, 4) e todos ficamos sendo filhos de ira (Ef II, 3). Deus, porém, na sua infinita misericórdia 'amou tanto ao mundo que lhe deu seu Filho unigênito' (Jo III, 16); e o Verbo do Eterno Pai, com a mesma divina caridade, revestiu a natureza humana da descendência de Adão, mas inocente e imaculada, para que do novo e celeste Adão dimanasse a graça do Espírito Santo a todos os filhos do primeiro pai; e estes que pelo primeiro pecado tinham sido privados da filiação adotiva de Deus, pelo Verbo encarnado, feitos irmãos segundo a carne do Filho Unigênito de Deus, recebessem o poder de virem a ser filhos de Deus (Cf Jo I, 12).

"E assim Jesus Crucificado não só reparou a justiça do Eterno Pai ofendida, senão que nos mereceu a nós, seus consaguíneos, inefável abundância de graças. Estas graças podia Ele distribuí-las diretamente por si mesmo a todo o gênero Humano. Quis, porém, comunicá-las por meio da Igreja visível, formada por homens, a fim de que por meio dela todos fossem em certo modo seus colaboradores na distribuição dos divinos frutos da Redenção. E assim como o Verbo de Deus, para remir os homens com suas dores e tormentos, quis servir-se da nossa natureza, assim, de modo semelhante, no decurso dos séculos se serve da Igreja para continuar perenemente a obra começada".
"Ora, para definir e descrever esta verdadeira Igreja de Cristo, - que é Santa, Católica, Apostólica Igreja Romana, nada há mais nobre, nem mais excelente, nem mais divino do que o conceito expresso na denominação "Corpo Místico de Jesus Cristo"; conceito que imediatamente resulta de quanto nas Sagradas Escrituras e nos escritos dos Santos Padres frequentemente se ensina".
"Que a Igreja é um corpo, ensinam-nos muitos passos da Sagrada Escritura. 'Cristo, diz o Apóstolo, é a Cabeça do Corpo da Igreja' (Col I, 18). Ora, se a Igreja é um Corpo, deve necessariamente ser um todo sem divisão, segundo  aquela sentença de Paulo: 'Nós, muitos, somos um só corpo em Cristo' (Rom XII, 5). E não só deve ser um todo sem divisão, mas também algo concreto e visível, como afirma Nosso Predecessor de feliz memória Leão XIII, na Encíclica 'Satis Cognitum': 'Por isso mesmo que é um corpo, é a Igreja visível aos olhos'.

"Estão pois longe da verdade revelada os que imaginam a Igreja por forma, que não se pode tocar nem ver, mas é apenas, como dizem, uma coisa 'pneumática' que une entre si com vínculo invisível muitas comunidades cristãs, embora separadas na fé."
"O corpo requer também multiplicidade de membros, que unidos entre si se auxiliem mutuamente. E como no nosso corpo mortal, quando um membro sofre, todos os outros sofrem com ele, e os sãos ajudam os doentes; assim também na Igreja os membros não vivem cada um para si, mas socorrem-se e auxiliam-se uns aos outros, tanto para mútua consolação, como para o crescimento progressivo de todo o Corpo".

"Mais ainda. Como na natureza não basta qualquer aglomerado de membros para formar um corpo, mas é preciso que seja dotado de órgãos ou membros com funções distintas e que estejam unidos em determinada ordem, assim também a Igreja deve chamar-se corpo sobretudo porque resulta de uma boa e apropriada proporção e conjunção de partes e é dotada de membros diversos e unidos entre si. É assim que o Apóstolo descreve a Igreja quando diz: 'como num só Corpo temos muitos membros, e os membros não têm todos a mesma função, assim muitos somos um só Corpo de Cristo, e todos e cada um membros uns dos outros' (Rom XII, 4).

"Não se julgue, porém, que esta bem ordenada e 'orgânica' estrutura do Corpo da Igreja se limita unicamente aos graus da hierarquia; ou, ao contrário, como pretende outra opinião, consta unicamente de carismáticos, isto é, dos fiéis enriquecidos de graças extraordinárias, que nunca hão de faltar na Igreja. É fora de dúvida que todos os que neste Corpo estão investidos de poder sagrado são membros primários e principais, já que são eles que, por instituição do próprio Redentor, perpetuam os ofícios de Cristo Doutor, Rei e Sacerdote. Contudo, os Santos Padres, quando celebram os ministérios, graus, profissões, estados, ordens, deveres deste Corpo Místico, não consideram só os que têm ordens sacras, senão também todos aqueles que, observando os conselhos evangélicos, se dão à vida ativa, ou à contemplativa, ou à mista, segundo o próprio instituto; bem como os que, vivendo no século, se consagram ativamente a obras de misericórdia espirituais ou corporais; e finalmente também os que vivem unidos pelo santo Matrimônio"


"Antes é de notar que, sobretudo nas atuais circunstâncias, os pais e as mães de família, os padrinhos e madrinhas, e notadamente todos os seculares que prestam o seu auxílio à Hierarquia eclesiástica na dilatação do reino de Cristo, ocupam um posto honorífico, embora muitas vezes humilde, na sociedade cristã, e podem muito bem sob a inspiração e com o favor de Deus subir aos vértices da santidade, que por promessa de Jesus Cristo nunca faltará na Igreja" (Todo o artigo compõe-se de excertos da Encíclica do Papa Pio XII "MYSTICI CORPORIS CHRISTI" - 1943). 

LEITURA ESPIRITUAL - Dia 30 de janeiro

Do amor de Deus


  Diz o Apóstolo São João: "Deus é amor, e quem permanece no amor, permanece em Deus e Deus nele" (1 João. IV, 16). 
  Não podemos esquecer, no entanto, que o amor tem seus tempos de prova, com seus momentos de consolação; e esta vida transitória deve ser o contínuo exercício de amor, ou a consumação dum grande sacrifício de amor, cujo prêmio será uma vida eterna ou um amor imutável.
  Todos os caracteres da caridade, enumerados por São Paulo, nos recordam a ideia de sacrifício; e o mesmo amor infinito não pôde manifestar-se plenamente a nós senão por um sacrifício infinito. "Deus amou de tal modo o mundo, que deu por ele seu Filho único" (S. Jo. III, 16).
  E nosso amor para com Deus não pode tão pouco manifestar-se senão por um sacrifício, não igual, o que é impossível, mas semelhante pelo dom de todo o nosso ser ou uma perfeita obediência de nosso espírito, de nosso coração e de nossos sentidos à vontade d'Aquele que tão extremosamente nos amou.
  Então se verifica aquela união inefável que, na sua última hora pedia Jesus Cristo a seu eterno Pai operasse entre Ele e a criatura resgatada. Enquanto a natureza viver ainda em nós, alguma coisa nos separa de Deus e de Jesus, e o amor de Jesus Cristo urge que acabemos o sacrifício e pronunciemos aquela última palavra que o mundo não compreende, mas que regozija o céu: "Tudo está consumado". Quando pronunciarás tu, minha alma, esta palavra decisiva? 
  O amante fiel permanece firme na tentação. Tanto na prosperidade como na adversidade, é sempre igual seu amor para com Jesus. O que ama a Nosso Senhor com amor generoso põe sua glória em Deus e não nos Seus dons.
  Mas, não te julgues perdido, se alguma vez te acontecer sentir, para com Jesus, menos amor do que desejarias. O verdadeiro sinal de virtude sólida e de grande merecimento é combater os movimentos desordenados da alma, e desprezar as sugestões do demônio. Por isso não te perturbem as imaginações que te ocorrem de qualquer espécie que sejam. Conserva teu firme propósito de servir a Deus e vive na intenção reta de Lhe agradar. Está certo que o inimigo antigo, de todos os modos se esforça para sufocar os teus bons desejos e apartar-te dos exercícios devotos: como é honrar os Santos, ter compunção dos pecados, guardar teu coração, formar propósito firme de emenda e progredir na virtude. O demônio sugere-te mil pensamentos maus para te causar enfado e turbação, para te apartar da oração e das santas leituras. Aborrece-lhe a humilde confissão dos pecados, e, se pudesse, faria que deixasses de comungar. Não lhe dês crédito, nem faças caso dele ainda que muitas vezes te arme laços para te seduzir. Diga-lhe, como Jesus, vai-te daqui satanás, retira-te de mim. Antes quero sofrer e morrer que consentir na tua malícia. E não devemos dar mais atenção a ele. Digamos com todo fervor: "Graças e louvores se deem a todo momento ao Santíssimo e diviníssimo Sacramento". E pronto!
  Peleja como valente soldado; e se alguma vez caíres por fraqueza de coração, entra outra vez no combate, ainda mais valoroso que dantes, persuadido de que a graça de Deus te sustentará mais fortemente, sobretudo a graça sacramental da confissão humilde. Guarda-te, porém, muito da vã complacência e soberba. Sirva-te de exemplo e de motivo de humilhares a ruína dessas almas soberbas que loucamente presumem de si. 
  O ramalhete espiritual de hoje será: "Deus amou de tal modo o mundo, que lhe deu o seu Filho único".

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

LEITURA ESPIRITUAL - Dia 29 de janeiro

Dos admiráveis efeitos do divino amor

  A ALMA: Graças vos dou, Pai celestial, Pai de meu Senhor Jesus Cristo, porque houvestes por bem lembrar-Vos de mim, pobre criatura. "Ó Pai de misericórdia e Deus de toda consolação", graças Vos dou porque, apesar de minha indignidade, algumas vezes me recreais com vossa consolação. Sede bendito para todo sempre e glorificado com vosso Filho Unigênito e o Espírito consolador por todos os séculos dos séculos. Ó Senhor Deus, santo objeto de meu amor! Quando entrardes em meu peito, exultará de alegria o meu coração. Sois a minha glória e o júbilo de meu coração; sois a minha esperança e o meu refúgio no dia da tribulação.
  Mas, porque ainda sou fraco no amor e imperfeito na virtude, por isso necessito de que me fortaleçais e consoleis. Vinde, pois, Senhor, muitas vezes à minha alma e instruí-a com santas doutrinas. Livrai-me das paixões más, sarai meu coração de todos os afetos desordenados para que, santo e bem purificado interiormente, seja apto para amar-Vos, forte para sofrer e firme para perseverar no Vosso serviço. 
  Grande coisa é o amor! Por certo que é um bem admirável. Ele sozinho faz leve tudo o que é pesado, e suporta com ânimo sereno todas as inconstâncias da fortuna. Pois leva a carga sem sentir-lhe o peso, e faz doce e saboroso o que há mais amargo. O amor de Jesus é generoso; faz-nos empreender grandes ações e sempre nos excita ao que é mais perfeito. O amor quer estar sempre elevado e não ser detido com coisas baixas. Quer viver livre e isento das afeições mundanas, para que suas aspirações se elevem até a Deus sem obstáculo, e não seja retardado pelos bens terrenos nem abatido pelos males do mundo. Não há no céu nem na terra coisa mais doce, mais forte, mais deliciosa, mais completa nem melhor que o amor a Jesus. O amor nasceu de Deus e não pode descansar senão em Deus, elevando-se acima de todas as criaturas. Quem ama, corre, voa; vive alegre, é livre e nada o embaraça. Por amor a Jesus, dá tudo a todos; e possui tudo em todas as coisas, porque sobre todas descansa no único Sumo Bem, do qual manam e procedem todos os bens. Não olha as dádivas, mas eleva-se acima de todos os bens, até àquele que os liberaliza. O amor muitas vezes não sabe ter medida, mas vai além de todos os limites. Nada lhe pesa, nada lhe custa; empreende mais do que pode; não se desculpa com a impossibilidade, pois crê que tudo lhe é possível e permitido. Por isso pode tudo e põe por obra muitas coisas impossíveis a quem não ama. 
  O amor sempre está vigilante e até no mesmo sono não dorme. Nenhuma fadiga o cansa; nenhum terror o assusta, mas, qual outra ardente chama e cintilante labareda, sobe ao alto e vence todos os obstáculos. Só quem ama é que pode compreender a voz do amor. Grande clamor faz nos ouvidos de Deus aquele ardente afeto de que se acha penetrada a alma quando diz: Meu Deus! meu amor! Sois todo meu e eu todo vosso!
  Dilatai-me no amor para que aprenda a gostar no íntimo de minha alma quão doce é o amar-Vos, viver de vosso amor e nele me abrasar. Possua-me o amor e eleve-me acima de mim mesmo, pelo impulso de seus transportes. Cante eu cânticos de amor; que eu vos siga meu amado Jesus; que desfaleça em vosso louvor a minha alma, alegrando-se pelo amor. Ame-Vos eu mais do que a mim, nem me ame a mim senão por amor de Vós, e em Vós a todos os que verdadeiramente Vos amam como ordena o lei do amor, que de Vós recebe a sua luz.
  O amor é diligente, sincero, pio, alegre, deleitável, forte, sofredor, fiel, prudente, magnânimo, varonil, sem procurar nunca o seu próprio interesse; porque quando alguém procura o seu próprio cômodo, logo perde o amor. O amor é circunspecto, humilde e reto; não é frouxo, nem leviano, nem vaidoso; é temperado, casto, firme quieto e recatado na guarda de todos os sentidos.
  Quem não está disposto a sofrer tudo e a fazer sempre a vontade de seu amabilíssimo Jesus, não merece que lhe chamem amante. É mister que aquele que ama a Jesus, abrace de boa vontade por Ele tudo o que há de mais duro e amargo, e que d'Ele se não aparte ainda quando a adversidade o persiga. 
   O ramalhete de hoje será a sentença de São Paulo: "Quem não amar a Jesus, seja anátema".
   Sejam anátemas os blasfemadores de Jesus Crucificado. 
   "QUIS UT DEUS!"; "DEUS NON IRRIDETUR".


quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

PROFISSÃO DE FÉ DO CONCÍLIO DE TRENTO

  Eu..N.............creio firmemente e confesso tudo o que contém o Simbolo da fé usado pela Santa Igreja Romana, a saber: Creio em um só Deus, Pai Onipotente, [etc. como no post do dia 17/10/12: é o Símbolo de Niceia-Constantinopla, que se reza ou canta nas Missas que têm Credo].
  Aceito e abraço firmemente as tradições apostólicas e eclesiásticas, bem como as demais observâncias e constituições da mesma Igreja. Admito também a Sagrada Escritura naquele sentido em que é interpretada pela Santa Madre Igreja, a quem pertence julgar sobre o verdadeiro sentido e interpretação das Sagradas Escrituras. E jamais aceitá-la-ei e interpretá-la-ei senão conforme o consenso unânime dos Padres.
  Confesso também que são sete os verdadeiros e próprios sacramentos da Nova Lei, instituídos por Nosso Senhor Jesus Cristo, embora nem todos para cada um necessários, porém para a salvação do gênero humano. São eles: Batismo, Confirmação, Eucaristia, Penitência, Extrema-Unção, Ordem e Matrimônio, os quais conferem a graça; mas não sem sacrilégio se fará a reiteração do Batismo, da Confirmação e da Ordem. Da mesma forma aceito e admito os ritos da Igreja Católica recebidos e aprovados para a administração solene de todos os supraditos sacramentos. Abraço e recebo tudo o que foi definido e declarado no Concílio Tridentino sobre o pecado original e a justificação.
  Confesso outrossim que na Missa se oferece a Deus um sacrifício verdadeiro, próprio e propiciatório pelos vivos e defuntos, e que no santo sacramento da Eucaristia estão verdadeira, real e substancialmente o Corpo e o Sangue com a alma e a divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo, operando-se a conversão de toda a substância do pão no corpo, e de toda a substância do vinho no sangue; conversão esta chamada pela Igreja de transubstanciação. Confesso também que sob uma só espécie se recebe o Cristo todo inteiro e como verdadeiro sacramento.
  Sustento sempre que há um purgatório e que as almas aí retidas podem ser socorridas pelos sufrágios dos fiéis; que os Santos, que reinam com Cristo, também devem se invocados; que eles oferecem suas orações por nós, e que suas relíquias devem ser veneradas. Firmemente declaro que se devem ter  e conservar as imagens de Cristo, da sempre Virgem Mãe de Deus, como também as dos outros Santos, e a eles se deve honra e veneração. Sustento que o poder de conceder indulgências foi deixado por Cristo à Igreja, e que o seu uso é muito salutar para os fiéis cristãos.
  Reconheço a Santa Igreja Católica, Apostólica, Romana, como Mestra e Mãe de todas as Igrejas. Prometo e juro prestar verdadeira obediência ao Romano Pontífice, Sucessor de São Pedro, príncipe dos Apóstolos e Vigário de Jesus Cristo.
Pio IV governou a Igreja de 1560-1565
Sucedeu-lhe São Pio V, que, também
como barreira contra a heresia
protestante, codificou e canonizou
a  Santa Missa de Sempre. 
  Da mesma forma aceito e confesso indubitavelmente tudo o mais que foi determinado, definido e declarado pelos sagrados cânones, pelos Concílios Ecumênicos, especialmente pelo santo Concílio Tridentino ( e pelo Concílio Ecumênico do Vaticano I, principalmente no que se refere ao Primado do Romano Pontífice e ao Magistério infalível).Condeno ao mesmo tempo, rejeito e anatematizo as doutrinas contrárias e todas as heresias condenadas, rejeitadas e anatematizadas pela Igreja. Eu mesmo, N......., prometo e juro com o auxílio de Deus conservar e professar íntegra e imaculada até ao fim de minha vida esta verdadeira fé católica, fora da qual não pode haver salvação, e que agora livremente professo. E quanto em mim estiver, cuidarei que seja mantida, ensinada e pregada a meus súditos ou àqueles, cujo cuidado por ofício me foi confiado. Que para isto me ajudem Deus e estes Santos Evangelhos!

  (Da Bula de Pio IV "Iniunctum nobis" de 13 de novembro de 1564). 

LEITURA ESPIRITUAL - Dia 28 de janeiro

Devemos andar na presença de Deus em verdade e humildade

1. JESUS CRISTO

 Filho, anda diante de mim em verdade, e busca-me sempre com simplicidade de coração. A verdade o livrará dos enganos e das murmurações dos maus. A verdade te libertará e nenhum cuidado te dará o que os homens de ti injustamente disserem.

2. A ALMA

  Senhor, eu Vos peço a graça de ser como Vós desejais. A vossa verdade me ensine, me defenda e me conserve em Vós até alcançar a minha salvação. Ela me livre de todos os maus desejos e afetos desordenados, e andarei no vosso serviço em grande paz de coração.

3. JESUS CRISTO

  Eu sou a verdade; eu te ensinarei o que é justo e o que me agrada. Pensa em teus pecados com grande detestação e tristeza e não imagines que és digno de consideração por tuas boas obras. És, na verdade, pecador, sujeito a muitas paixões e preso em seus laços. Mas humilha-te, e serei cheio de misericórdia e bondade para contigo. Certamente a própria experiência já te mostrou que  de ti sempre tendes para o nada; depressa cais, facilmente és vencido e a menor infelicidade te desanima e perturba. Nada tens de que possas gloriar-te; muito, porém, de que te devas humilhar; porque és mais fraco do que podes pensar. 
 Meu filho, não tenhas por grande, precioso, admirável, elevado nem digno de ser estimado e apetecido, senão o que é eterno. Ama, sobre todas as coisas, a verdade eterna, e despreza a tua extrema fraqueza. Nenhuma coisa temas, vituperes e abomines tanto como teus vícios e pecados, os quais devem entristecer-te mais que todas as perdas do mundo. 
  Alguns não andam diante de mim com singeleza; porém, levados de certa curiosidade e arrogância querem saber meus segredos e penetrar os mistérios de Deus, não cuidando de si mesmos, nem de sua salvação. Estes tais muitas vezes caem em grandes tentações e pecados por sua soberba e curiosidade, castigando-os deste modo a minha justiça. 
  Teme os juízos de Deus; Não queiras esquadrinhar as obras do Altíssimo; examina porém tuas iniquidades, o mal que tantas vezes cometeste e o bem que por negligência deixaste de fazer. Alguns me trazem na boca, mas poucos no coração. Mas, para consolo de meu Coração, há também aqueles que, tendo a alma ilustrada e o coração puro, suspiram continuamente pelas coisas eternas, não cuidam dos passatempos terrestres e com repugnância se submetem às necessidades da natureza. Estes compreendem perfeitamente o que o Espírito de Verdade lhes diz no coração. Porque Ele lhes ensina a desprezar as coisas terrenas e amar as celestiais, a esquecer o mundo e desejar o céu de dia e de noite. 
  "Eu sou o Deus onipotente; anda em minha presença e sê perfeito": assim falava o Senhor a Abraão. Mas este preceito se dirige ainda com mais força aos cristãos que contemplaram-Me quando fiz-me Homem, o modelo de toda a perfeição. Por isso eu lhes disse: "Sede perfeitos como vosso Pai celestial é perfeito". Eu disse também: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida". Sou o caminho seguro que leva os homens a Deus, fora do qual só há extravio e perdição. Sou a verdade eterna e visível que falou convosco, fora da qual só há engano e mentira. Sou a vida que vos livrou da morte do pecado e vos anima com minha graça e vos prepara a vida eterna, fora da qual só há trevas e eterno horror! Assim, meu filho, teus pensamentos unidos aos meus, tuas afeições e obras unidas às minhas, divinizam-se; e como a perfeição do Filho é a mesma perfeição do Pai, por vossa união comigo, o Filho, que começa na terra e se consumará no Céu, nos tornamos perfeitos como o Pai é perfeito. Assim se cumpre aquela minha oração: "Pai Santo, conservai todos aqueles que me destes, para que eles sejam unidos como nós o somos! Santifica-os na verdade; eu mesmo me santifico por eles para que eles sejam santificados na verdade" (S. Jo. XVII, 17-19). 

4.A  ALMA

  Ó Jesus! se nada me apartasse de Vós! Alumiai-me, verdade incriada, sustentai-me, fortaleza soberana; alentai-me, vida eterna; guiai-me, sabedoria infinita. Ó Jesus, dai-me vossa graça no tempo e o prêmio de vosso amor na eternidade. Amém!.
   O ramalhete espiritual será: "Anda na minha presença e serás perfeito" e "quem se humilha será exaltado". 

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

LEITURA ESPIRITUAL - Dia 27 de janeiro

Que as palavras de Deus se devem ouvir com humildade

1. JESUS CRISTO

   Ouve, filho, minhas palavras, palavras suavíssimas, que excedem toda a ciência dos filósofos e sábios deste mundo. "Minhas palavras são espírito e vida", e não podem ser avaliadas pela balança do juízo humano. Não se há de usar delas para vão agrado, mas devem ouvir-se em silêncio, e receber-se com toda a humildade e grande afeto.
   
2. A ALMA

   Davi disse: "Bem-aventurado aquele a quem vós instruirdes, Senhor, e a quem ensinardes vossa lei; para que o guardeis dos dias maus e não seja desamparado na terra" (Sl.93, 12 e 13).

3. JESUS CRISTO

   Eu, diz o Senhor, ensinei os profetas desde o princípio, e não cesso ainda de falar a todos; porém muitos são surdos e rebeldes à minha voz. De melhor vontade ouvem mais ao mundo que a Deus, e mais facilmente seguem os apetites da carne, que os preceitos divinos. Promete o mundo coisas temporais e pequenas, e é servido com grande ânsia; eu prometo bens soberanos e eternos, e não acho nos homens senão frouxidão e desprezo. Onde estão os que me servem e me obedecem em tudo com o cuidado com que servem ao mundo e a seus senhores? Empreendem-se grandes viagens para conseguir um pequeno benefício; e apenas se acham alguns que queiram dar um passo para adquirir os bens eternos. Trabalham muito os homens por uma vil recompensa; armam, às vezes, ignominiosos processos sobre um interesse ridículo; e não duvidam sofrer noite e dia mil incômodos por uma coisa vã, ou por uma fraca promessa.
   Mas, ó vergonhosa cegueira! Quando se trata dum bem imutável, duma recompensa infinita, duma honra suprema e duma glória sem fim não há de empregar o homem ao menos uma pequena diligência para conseguir tantas felicidades! Envergonha-te, pois, de ver que haja homens mais ardentes em buscar a perdição, do que tu o que convém à tua salvação. Buscam com mais gosto a vaidade do que tu a verdade. Contudo, algumas vezes os engana sua esperança; porém, minha promessa a ninguém engana, nem deixa frustrado o que em mim confia. Eu lhe darei o que prometi, cumprirei o que lhe disse, com tanto que seja fiel em me amar até ao fim. Eu sou o remunerador de todos os bens e justo examinador de todos os devotos.
   Escreve as minhas palavras em teu coração, e considera-as atentamente; porque te serão muito necessárias no tempo da tentação. O que agora não entendes quando lês, tu o entenderás quando eu te visitar. E de dois modos costumo visitar meus escolhidos: provando-os com alguma cruz, e consolando-os. Dou-lhes cada dia duas lições: repreendo-lhes os vícios, e exorto-os a que progridam mais e mais na virtude.

   O ramalhete de hoje será esta oração: "Ensinai-me, Senhor, a fazer vossa vontade; e ensinai-me a estar em vossa presença digna e humildemente. Amém!"

LEITURA MEDITADA -

 VIRTUDES PARA UMA FAMÍLIA CRISTÃ
"Irmãos: revesti-vos como eleitos de Deus, santos e amados, de entranhas de misericórdia, benignidade, humildade, modéstia e paciência, suportando-vos uns aos outros, e perdoando-vos mutuamente, se alguém tiver queixas contra o outro; assim como o Senhor vos perdoou, perdoai-vos também. Mas sobre tudo isto: tende a caridade que é o vínculo da perfeição; e reine em vossos corações a paz de Cristo, para a qual fostes chamados em um só corpo; e sede agradecidos. Habite em vós abundantemente a palavra de Cristo, em toda a sabedoria, ensinando-vos e admoestando-vos uns aos outros com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando em vossos corações, com a ação da  graça, louvores a Deus. E tudo quanto fizerdes por palavras ou por obra, fazei tudo em nome do Senhor Jesus Cristo, dando graças por Ele a Deus Pai. Mulheres, estai sujeitas a vossos maridos, como convém ao Senhor. Maridos, amai vossas mulheres, e não sejais ásperos para com elas. Filhos, obedecei em tudo a vossos pais, porque isto é agradável ao Senhor. Pais, não provoqueis à indignação os vossos filhos, para que se não tornem pusilânimes" (Colossenses, III, 12-21).

Nestas exortações de S. Paulo temos os elementos indispensáveis para a felicidade das nossas famílias. Assim, o Apóstolo,  às opiniões do modernismo, destruidor dos mais sagrados vínculos, opõe os preceitos e virtudes criadores de uma felicidade e de uma paz ainda possíveis neste mundo. Aí está o segredo da paz familiar. Nosso Senhor Jesus Cristo afirmou que os filhos das trevas são mais prudentes nos seus negócios que os filhos da luz nos seus. Só para dar dois exemplos: O comerciante, aos clientes oferece prontamente suas mercadorias, ocultando a sua irritação quando as desprezam e sem ofender-se quando as recusam. Que "misericórdia"; que "paciência"; que "benignidade"; que 'humildade"; que "perdão das ofensas"; que "que sorrisos de amabilidade!". O político, a todos acolhe com amabilidade, tolerante com quem o importuna e prestimoso com quem lhe pede auxílio.  O comerciante faz tudo isto como se fosse um santo, mas não: é só para ganhar dinheiro. (Não quero com isto negar que há comerciante santo também). O político parece praticar virtudes heroicas, mas, na verdade, pensa só em conseguir votos, e consequentemente: honra e sobretudo, dinheiro. (Também aqui não pretendo negar que possa existir político santo: é difícil, mas para Deus nada é impossível).
Mas, caríssimos, qual destes motivos compara-se ao grande bem na paz familiar? Dádiva do céu, ela transforma o lar em um vestíbulo do paraíso, as agruras da vida em oásis de bênçãos. A paciência, a humildade, a benignidade, a misericórdia, ensinam aos cônjuges  a arte de se suportarem uns aos outros. Sigam os cônjuges os conselhos de São Paulo supracitados, e as divergências que pareciam separá-los virão a soldar ainda mais o vínculo matrimonial. Saibam os cônjuges perdoar-se mutuamente. Enquanto um momento de silêncio restituirá a bonança; um revide protrairá a tempestade por longos dias e semanas inteiras. Tal como Jesus generosamente perdoou nossos graves crimes, perdoem-se os esposos, com igual generosidade, as discrepâncias de temperamento e de caráter.

A caridade é o liame destinado a unir os fiéis entre si e com Deus. Nesta união consiste toda a perfeição cristã. O amor da paz deveria inspirar todos os sentimentos dos esposos como convém a membros de um só corpo. O lar verdadeiramente cristão deveria estar sempre agradecido a Deus pelos favores d'Ele recebidos. Os ensinamentos e máximas de Nosso Senhor Jesus deveriam ser a bússola em toda a sua conduta e empreendimentos. De um lar cristão são banidas e execradas as máximas do mundo.  "Exortai-vos uns aos outros por meio de salmos, hinos e cânticos espirituais", insiste o Apóstolo, assim apontando-nos na oração a maior garantia de paz para o lar. A oração é ao mesmo tempo, fonte de onde haurimos as energias necessárias para os momentos trágicos que não faltam na existência de cada indivíduo, como não faltam na vida de toda família. Repudiando os maus conselhos de um mundo colocado no Maligno, busquem os esposos na Santa Religião e no seu Deus o conforto que anima, e da prece fervorosa de um coração que sofre sairá a arma vitoriosa que tudo suporta. "Onde quer que dois ou três se acharem reunidos em meu nome - diz Jesus Cristo - estarei eu no meio deles" (S. Mateus XVIII, 20). Na verdade, nunca um lar se sente mais unido como quando todos os componentes se voltam para Deus repetindo todos a mesma prece divina: "Pai Nosso que estais no céu". O lar, porém, que ignora a oração encaminha-se para o desmoronamento, enquanto o lar que ora, que reza todos dias o Santo Terço, sela com o nome de Deus e a intercessão de Sua Mãe Santíssima, a sua união e garante a sua felicidade. Seguindo, pois, os conselhos do Apóstolo São Paulo, não será difícil aos nossos lares realizar aquela felicidade que fará das famílias cristãs outros tantos vestíbulos do céu.


Para terminar, lembremos algo sobre a MISERICÓRDIA. O Rei Davi era um homem santo. A própria Bíblia mostra-o para os outros reis, como um modelo de fidelidade a Deus. Mas, num momento de ociosidade e fraqueza cometeu o gravíssimo pecado de adultério e, em consequência o homicídio, outro pecado muito grave. Deus, através do profeta Natan, abriu-lhe os olhos e tocado de sincero arrependimento exclamou: "Pequei".  Davi chorou a vida toda estes seus graves pecados. Não perdia oportunidade de fazer penitência e escreveu o Salmo 50, Miserere. Eis apenas alguns versículos deste belíssimo salmo de penitência: "Tem piedade de mim, ó Deus, segundo a tua misericórdia; segundo a multidão das tuas clemências, apaga a minha iniquidade" (vers. 1-3); "O meu sacrifício, ó Deus, é um espírito contrito, não desprezarás, ó Deus, um coração contrito e humilhado" (vers. 19). 

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

LEITURA ESPIRITUAL - Dia 26 de janeiro

Como a verdade fala dentro da alma sem ruído de palavras

1. A  ALMA

"Falai, Senhor, porque vosso servo ouve".
"Eu sou vosso servo, dai-me entendimento para que aprenda as vossas verdades".
"Inclinai meu coração às palavras de vossa boca; desçam elas sobre mim como o orvalho" (Deut. 32, 2).
Diziam noutro tempo os filhos de Israel a Moisés: "Fala-nos tu, e ouviremos; não nos fale o Senhor, para que não suceda que morramos" (Êx. 20, 19).
Não assim, Senhor, não assim vos rogo, antes como o profeta Samuel, com humilde desejo, vos suplico: "Falai, Senhor, porque vosso servo ouve" (Sam. 3, 9).
Não me fale Moisés; nem algum dos profetas; falai-me Vós, Senhor Deus, inspirador e alumiador de todos os profetas; pois Vós só sem eles me podeis ensinar perfeitamente; e eles sem Vós de nada me servem. 
Eles podem muito bem proferir palavras; mas não podem dar a graça e o espírito. Sua linguagem é sublime; mas, quando Vós calais, não abrasa o coração. Eles expõem a letra; mas Vós explicais o sentido. Propõem mistérios; mas Vós dais a inteligência para os penetrar. Publicam vossos mandamentos; porém Vós nos ajudais a cumpri-los. Mostram o caminho; porém Vós dais ânimo para trilha-lo. Eles obram sobre os sentidos; mas Vós dais a fecundidade. Eles abrandam com palavras, porém Vós fazeis que o ouvido as perceba.
Não me fale, pois, Moisés, senão Vós, Senhor Deus meu, eterna Verdade, para que por desgraça não morra, e não produza fruto algum, se for ensinado de fora e não abrasado por dentro. Para que não me sirva de condenação vossa palavra ouvida e não praticada, conhecida e não amada, crida e não observada. "Falai, pois, Senhor, porque vosso servo ouve, já que tendes palavras de vida eterna".
Falai-me para dar alguma consolação à minha alma; para ensinar-me a emendar a minha vida; falai-me para louvor, glória e honra eterna de vosso Nome. 

REFLEXÕES


Há uma voz que nos fala interiormente e como no fundo da alma, quando, fechando os ouvidos às vozes das criaturas, a Deus só queremos ouvir e O achamos com todo o ardor de nossos desejos. Longe dos homens, esta voz é quem arrebatava os Paulos, os Antônios, os Pacômios, e lhes revelava, sem obscuridade, os segredos da ciência divina. Esta voz é quem instrui os santos, os inflama, os consola e os embriaga , por assim dizer, de sua celestial doçura. 
Moisés e os profetas estavam encobertos para os discípulos de Emaús: aparece Jesus e à sua voz dissipam-se as sombras que obscureciam seu entendimento; experimentam um sentimento desconhecido, de tal modo que diziam uns aos outros: "Não estava nosso coração todo abrasado dentro em nós, quando Ele nos falava no caminho e nos declarava as Escrituras?" (S. Luc. 24, 32).
E nós pobres infelizes, que o tumulto do mundo trás ainda distraídos, que faremos?
Não queremos nós também ouvir a Jesus? Como os dois discípulos estamos em viagem; caminhamos para a eternidade. Jesus, por seu amor, se aproxima de nós; e de certo modo se faz nosso companheiro de caminho; porém, achando-nos tão pouco atentos, retira-se, e nós caminhamos sós. Medonho abandono! Dizia Santo Agostinho: "Temo que Jesus passe e não volte". Apressemo-nos com toda a nossa alma: "Senhor, ficai conosco, porque se faz tarde e já vem chegando a noite".
Ramalhete espiritual: "Não estava nosso coração todo abrasado dentro de nós, quando Ele (Jesus) nos falava no caminho e nos explicava as Escrituras?"

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

LEITURA ESPIRITUAL - Dia 25 do mês

Da conversação interior de Cristo com a alma fiel

  1. A ALMA
  "Ouvirei o que o Senhor Deus me disser" (Salmo 84, 8).
  Bem-aventurada a alma que ouve falar-lhe o Senhor e de sua boca recebe palavras de consolação!
 Bem-aventurados os ouvidos que recebem as sublimes inspirações divinas e se fazem surdos às murmurações do mundo!
  Venturosos mil vezes os ouvidos que escutam, não a voz que soa de fora, mas a verdade que ensina de dentro!
  Ditosos os olhos que, fechando-se às coisas exteriores, estão abertos para as interiores. 
  Bem-aventurados os que penetram as coisas interiores, e tratam, com exercícios contínuos de piedade, de preparar-se cada dia mais e mais para receber os segredos celestiais!
  Felizes os que se alegram de entregar-se a Deus e se desembaraçam de todos os impedimentos do mundo!
  Ó minha alma! Considera bem tudo isto, fecha as portas de teus sentidos, para que possas ouvir o que o Senhor teu Deus se digna ensinar-te.

  2. JESUS CRISTO  
  "Eu sou tua salvação", tua vida. Conserva-te ao pé de mim e acharás paz. Deixa todas as coisas transitórias; busca as eternas.
  Que são todas as coisas temporais senão seduções enganosas? E de que te servirão todas as criaturas se te abandonar teu Criador?
  Renuncia pois a tudo, faze-te fiel e grata a teu Criador, para que possas alcançar a verdadeira bem-aventurança. 

REFLEXÕES

  Ouçamos a Sabedoria incriada: "Minhas delícias, diz Ela, são estar com os filhos dos homens" (Prov. 7, 3)
   Mas a maior parte dos homens não entende sua linguagem, ou teme entendê-la; aparta-se dela para conversar com as criaturas. "Ela veio ao mundo e o mundo não a recebeu" (S. Jo. 1, 10).
   Eis aqui porque o Apóstolo nos proíbe "amar o mundo, porque ele pertence todo ao espírito maligno" (1 S. Jo. 11, 15 e 19).
   Se queremos pois chamar sobre nós o espírito de Deus, aquele espírito cuja "unção nos ensina todas as coisas", separemo-nos do mundo; renunciemos a suas máxima, seus prazeres, suas reuniões tumultuosas. Jesus não se acha senão no silêncio do retiro: "Conduzirei a alma à um lugar retirado do barulho, e ali lhe falarei ao coração" (Cf. Oseias, 2, 14). 
  Quem poderá descrever as delícias daquela celestial conversação? Quem uma vez delas provou não pode mais suportar as conversações dos homens. Ó Jesus! Falai a meu coração, daqui em diante só vossa voz quero escutar, no silêncio das criaturas; a Vós só ouvirei, meu divino Mestre; seja vossa santa palavra meu encanto no mundo e minha esperança para a eternidade.
   Ramalhete espiritual: "Falai, Senhor, que vosso servo escuta". 
  

domingo, 24 de janeiro de 2016

LEITURA ESPIRITUAL - Dia 24 de janeiro

Do caminho real da Santa Cruz

 Na cruz está a salvação e a vida, na cruz a proteção contra nossos inimigos. Da cruz manam as suavidades celestiais; na cruz está a fortaleza da alma, a alegria do coração, o compêndio da virtude, a perfeição da santidade. Na há salvação da alma, nem esperança da vida eterna, senão na cruz. Toma, pois, a tua cruz, segue a Jesus e chegarás à vida eterna. Nosso Senhor foi adiante, levando às costas a sua cruz; e nela morreu por ti, para que tu leves também a tua, e nela desejes morrer. "Porque se morreres com Jesus, também com Ele viverás"; e se fores seu companheiro nos trabalhos, o serás também na glória. 
 Verdadeiramente, todo o negócio de nossa salvação consiste em amar a cruz, e em morrer nela. Nem há outro caminho para a vida e para a verdadeira paz do coração, senão o da santa cruz e da mortificação contínua. Vai onde quiseres, indaga quanto quiseres, não acharás caminho mais excelente para te elevares, nem mais seguro para te abateres, sem perigo de cair, que o da santa cruz. Dispõe e ordena todas as coisas conforme teu querer e parecer, e acharás que sempre hás de padecer alguma coisa, ou por força ou por vontade; assim não estarás nunca isento da cruz; porque ou sentirás dores no corpo, ou padecerás tribulações no espírito. Ora serás provado por Deus tirando-vos as suas consolações, ora serás perseguido do próximo; e o que mais é, muitas vezes serás pesado a ti mesmo. Para qualquer parte que vás não podes fugir da cruz, porque para onde quer que fores, levas a ti mesmo, e sempre acharás a ti mesmo. É necessário, pois, que sempre tenhas paciência, se queres paz interior, e merecer a coroa eterna. 
 Se de boa vontade levares a cruz, ela te levará, e te guiará ao termo tão desejado, onde cessarás de sofrer, mas não será neste mundo. Se de má vontade a levares, aumentar-lhe-ás o peso, e mais carregado irás: pois em todo o caso forçoso é que a leves. Se te eximires duma cruz, acharás certamente outra e por ventura mais pesada.
 Nosso Senhor Jesus Cristo disse de si: "Convinha que o Cristo sofresse, que ressuscitasse dos mortos, e assim entrasse em sua glória" (S. Luc. XXIV, 26). Como pois buscas tu outro caminho para entrar no céu que não seja o caminho real da santa cruz? 
 Toda a vida de Jesus Cristo foi cruz e martírio; e tu queres que a tua seja descanso e só alegria?
 Quando, porém, de bom grado alguém se sujeita à cruz, todo o peso da tribulação se converte em confiança em Deus que pode consolá-lo. E quanto mais se debilita a carne pela aflição, tanto mais se fortalece o espírito pela graça interior. Não é isto força humana, senão graça de Jesus Cristo, que tão poderosamente obra tão grandes coisas na carne frágil, fazendo-lhe que ame e sofra com afeto intenso aqueles mesmos males a que naturalmente tem horror e aversão.
 Quando chegares ao estado em que a aflição te seja suave e gostosa por amor de Jesus, dá-te então por feliz, porque achaste o paraíso na terra. Mas enquanto o padecer ter for molesto e buscares evitá-lo, crê que te vai mal; e onde quer que fores, contigo irá a tribulação. Ainda quando fosses arrebatado como São Paulo , ao terceiro céu, nem por isso estarias isento de padecer: "Eu lhe mostrarei, diz Jesus referindo-se a Paulo, quanto convém que ele sofra por meu nome" (At. IX,16). 
 "Aqueles que querem viver piedosamente com Jesus Cristo, terão que sofrer perseguições". Não deverias com razão padecer males, por amor de Jesus Cristo, quando todos padecem males incomparavelmente maiores por amor do mundo? 
 Quanto mais cada um morre para si mesmo, tanto mais começa a viver para Deus. Só é capaz de contemplar as coisas celestiais, o que se resolve a sofrer adversidades por Cristo! 
 Se houvera um estado mais favorável à salvação dos homens que o da cruz, Jesus Cristo sem dúvida no-lo teria ensinado de palavra e com o exemplo. Pois manifestamente exorta a seus discípulos, e a todos que desejam segui-lo, a que levem a sua cruz, dizendo: "Se alguém quiser vir após de mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me" ( S. Mat. XVI, 24).
 Meditando nestas verdades o nosso ramalhete espiritual será: "É mister passar por muitas tribulações para entrar no reino de Deus" (At. XIV, 21). 

sábado, 23 de janeiro de 2016

LEITURA ESPIRITUAL - Dia 23 de janeiro

Quão poucos são os que amam a Cruz de Jesus Cristo

 Jesus Cristo tem agora muitos que amam o seu reino celestial, mas poucos que levam a sua cruz. Muitos desejam suas consolações e mui poucos aceitam de bom grado as tribulações, por amor a Jesus. Muitos seguem a Jesus até ao partir do pão, poucos, porém, até ao beber do cálice da sua Paixão. Muitos admiram seus milagres, mas poucos abraçam a ignomínia da cruz. Muitos amam a Jesus quando não há adversidade. 
 Aqueles, porém, que amam a Jesus por amor de Jesus e não por amor da sua própria consolação, tanto O louvam em toda a tribulação e angústia de coração, como nas mais doces consolações. E ainda que Jesus nunca mais lhes quisesse dar consolação, sempre O louvariam e Lhe dariam ações de graças. 
 Oh! quanto é poderoso o amor de Jesus, quanto é puro e sem mistura de interesse ou de amor próprio! Não são porventura mercenários os que sempre buscam consolações? Não se amam a si mesmos mais que a Cristo os que de contínuo pensam em seus proveitos e comodidades? Onde se achará algum homem que queira servir a Deus, de graça? 
 Ainda entre as pessoas espirituais raramente se encontra uma que viva inteiramente desapegada de tudo. "Pérola preciosa que é necessário buscar até às extremidades da terra" (Prov. XXXI, 10). Mas quando o homem chegar a este ponto, então, poderá chamar-se verdadeiro pobre de espírito e desapegado de tudo.Ninguém, todavia, é mais rico, ninguém mais poderoso, ninguém mais livre que aquele que sabe deixar-se a si mesmo e a todas as coisas, e pôr-se no último lugar.
 Devemos, portanto, amar a Deus por Deus mesmo e não por causa da alegria que experimentamos em o servir: porque, se nos retirasse as suas consolações, que viria a ser esse amor mercenário? Quem se busca ainda em alguma coisa, não sabe amar. Deus quer que o sirvamos  como filhos Seus, que, na verdade o somos. Mas sabemos que, justamente por ser pai boníssimo, não só promete-nos recompensa, mas também não nos proíbe pensar nela. O que Deus não aceita é que O sirvamos como escravos mercenários, unicamente quando tudo nos sorri, e O abandonamos quando nos advém a adversidade. 
 Vê o teu modelo, contempla Jesus; não se buscou nunca a si mesmo: "Não procuro a minha satisfação". S. Paulo diz: "Cristo não agradou a si mesmo" (Rom. XV, 3). Nosso Senhor sacrificou tudo por ti, sossego, vida, até sua vontade: "Não se faça como eu quero, dizia a seu Pai, mas como Vós quereis" (S. Mat. XXVI, 3). Sofreu tudo com paciência e resignação, até o suplício da cruz, até o desamparo de seu Pai.
 Entremos, a seu exemplo, no espírito de sacrifício; e, separados de hoje em diante de todo o interesse próprio, aceitemos com igual serenidade os bens e os males, as penas e as alegrias, de sorte que, não tendo outros pensamentos, nem outros desejos senão os de Jesus, sejamos consumados com Ele naquela união perfeita "que depois de deixar este mundo, Ele pedia por nós a seu Pai, como o último e o maior de seus dons" (S. Jo. XVII, 23). 
 O nosso ramalhete espiritual serão estas palavras de São Paulo: "Eu vivo, mas não sou eu que vivo, é Jesus que vive em mim"; "À medida que crescem em nós os sofrimentos de Cristo, cresce também por Cristo a nossa consolação". 

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

LEITURA ESPIRITUAL - Dia 22 de janeiro

Da graça das consolações espirituais 

  Talvez fosse mais acertado dizer: As consolações espirituais da graça. Porque, na verdade, nunca haverá consolação se não houver graça. Por outro lado pode acontecer que a alma passe por provações e então, embora esteja em graça, não sente as consolações da mesma. 
  As consolações espirituais excedem todos os prazeres do mundo e os deleites da carne. Porque todas as delícias do mundo ou são torpes ou vãs; e só as espirituais são alegres e honestas, geradas pelas virtudes e infundidas por Deus nos corações puros. Mas ninguém pode conseguir  gozar continuamente destas consolações divinas à medida de seu desejo; porque breve é o tempo em que não há tentação. E a tentação é sempre um sofrimento; e tanto maior quanto maior é o nosso amor a Deus, Nosso Senhor. 
  Um grande obstáculo às consolações celestes é a falsa liberdade da alma, e a presunçosa confiança em si mesmo. 
   Deus faz tudo para nosso bem! Deus faz bem ao homem dando-lhe a graça da consolação; o homem faz mal não atribuindo tudo a Deus e não lhe dando graças. E se não nos achamos enriquecidos dos dons da graça, é porque somos ingratos a seu Autor; não lhos atribuímos como à fonte de todo o bem. Porque nunca recusa Deus a graça da consolação a quem é dignamente agradecido; e nega de ordinário ao soberbo o que costuma dar ao humilde.
  As consolações espirituais não são para tirar a compunção; nem para fazer a alma cair em desvanecimento. Infelizmente, nossa miséria pode desviar deste modo o que Deus nos deu só para nos ajudar a progredir na vida espiritual. Por esta razão muitas vezes Deus retira as consolações. Assim o homem instruído pela graça da consolação e castigado com tê-la perdido, não ousará atribuir-se a si bem algum; antes se confessará pobre e sem merecimento. Compreenderá que as consolações são graças de Deus para ajudá-lo, porque é de si muito fraco. 
  Os maiores santos diante de Deus são os mais pequenos a seus próprios olhos; e quanto mais consolações têm, tanto mais humildes são no seu conceito. Como estão cheios da verdade, e glória celeste, não se desvanecem com as graças das consolações. Fundados e fortalecidos em Deus, de nenhum modo podem ser soberbos. Referindo a Deus todo o bem que receberam, não buscam a glória dos homens, e só querem a que vem de Deus: seu único fim , seu desejo constante, é que Deus seja louvado acima de todas as coisas. 
  Se considerardes a dignidade de quem dá, nenhum dom te parecerá pequeno ou desprezível. Nunca é pouco o que dá um Deus soberano e o melhor dos pais. E ainda que nos dê pena os seus castigos, Lho devemos agradecer, porque sempre é para nossa salvação tudo o que faz ou permite que nos aconteça. Se dá consolações espirituais é para nosso bem; se no-las retira é também para o nosso aproveitamento espiritual. Se queres conservar a graça das consolações de Deus, sê grato quando a recebes, e paciente quando a perdes.
   Diz São Paulo: "Que tens tu que não recebeste? E se o recebeste, por que te glorias como se não o receberas?" Na verdade, não podemos por nós mesmos ter um bom pensamento sequer. Toda nossa capacidade para o bem vem de Deus. 
   Que não devemos nós a esse Deus de bondade, e que Lhe devemos por tantos benefícios? Mas, Ele pede nosso coração: "Filho, dá-me teu coração!". Ah! em nossa indigência outra coisa não temos a oferecer-Lhe senão nosso coração, e é tudo o que Ele pede da sua pobre criatura. Pertença-Lhe pois, este coração, sem reserva nem partilha; não queira ele e não busque senão a Deus, não viva senão de seu amor; e comece assim na terra aquela união inefável que virá a ser a nossa eterna felicidade. 
  Ó meu Jesus, Vos entrego, o meu coração, pois tendes amor para me amparar se estou perdido, para me abrasar se estou frio, para me purificar se estou manchado e para me unir à Vós, para sempre, ainda que tivesse andado até agora apartado de Vós. Renuncio daqui para sempre a todo o outro amor. Fazei Vós, Senhor, que todo o apego desordenado me enfastie e aborreça, e não procure senão o vosso amor, porque a Vós só deseja agora a minha alma, e deseja amar-Vos para sempre. A minha consolação é contentar a Vós!
  O ramalhete espiritual de hoje serão as palavras de São João da Cruz: "Procurar o Deus das consolações, e não as consolações de Deus". 

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

LEITURA ESPIRITUAL - Dia 21 de janeiro

Da privação de toda a consolação
  
   Grandíssima coisa é em nada buscar-se a si mesmo nem olhar seu próprio merecimento. De bom grado recebemos as consolações humanas, mas com dificuldade se despoja o homem de si mesmo. 
   Quem ama deveras a Nosso Senhor Jesus Cristo, não O procura por causa das consolações espirituais; procura o Deus das consolações e não as consolações de Deus. Só deseja sofrer por Cristo duros trabalhos.
   O ilustre mártir São Lourenço venceu o mundo pisando aso pés o amor das criaturas e até a afeição que tinha a São Xisto, sumo Sacerdote do Senhor, a quem ele muito amava. Por amor de Jesus sofreu com paciência que o separassem deste seu Pai espiritual. 
   Não te aflijas, se acontecer que algum amigo te deixe, pois sabes que um dia nos apartaremos uns dos outros.
   Quando Deus te der alguma consolação espiritual, recebe-a agradecido, reconhecendo que é dom de Deus e não merecimento teu. Com ela não te desvaneças nem te alegres em excesso, nem presumas vãmente de ti, mas humilha-te pelo dom recebido, e sê mais acautelado e timorato em todas as tuas obras: porque passará aquela hora de alegria e virá a tentação. A tentação é um sofrimento, mas temos que ter paciência. Assim, quando te for tirada a consolação, não desespere logo, mas espera com humildade e paciência que volte essa alegria celeste: porque poderoso é Deus para a dar de novo e ainda maior que a precedente. Isto não é novo nem estranho para os que têm experiência dos caminhos do Senhor. Os grandes santos e os antigos profetas experimentaram muitas vezes esta alternativa de paz e de perturbação; de tranquilidade e de tentações. Um deles (Davi), sentindo a presença da graça, exclamava: "Disse na minha abundância: não serei abalado jamais!" Porém, vendo que a consolação da graça  se ausentava dele, acrescentava: "Apartaste de mim o Vosso rosto, e logo fui conturbado" (Ps., XXIX,7,8). Mas o profeta Davi nesta perturbação, porém, não desespera, antes com maior instância roga ao Senhor, dizendo: "A Vós, Senhor, clamarei, e a meu Deus invocarei" (Ib. 9). Por fim alcança o fruto de sua oração, e dá testemunho de ter sido ouvido, dizendo: "Ouviu-me o Senhor e teve compaixão de mim; o Senhor declarou-se meu protetor" (Ib. II). Mas em que? "Convertestes, diz, meu pranto em gozo e cercastes-me de alegria" (Ib. 12).
   Em que posso eu esperar, ou em que devo pôr minha confiança senão na infinita misericórdia de meu Deus e na esperança da graça celestial? Porque, ainda que esteja cercado de homens bons, de amigos fiéis; ainda que leia santos livros e formosos tratados; ainda que ouça doces hinos e suaves cânticos; tudo isto pouco me aproveita, e tem pouco sabor, quando sou desamparado da consolação e entregue à minha própria pobreza. Não acho então melhor remédio que a paciência, a renúncia de mim mesmo e a resignação na vontade de Deus. Ele deu-me consolação, Ele ma tirou, o que foi do agrado de Deus foi feito, seja sempre bendito o seu Santo Nome. 
   Não encontrei nunca homem tão religioso e devoto que alguma vez se não visse privado da consolação divina, ou não sentisse diminuição de fervor. Nenhum santo foi tão altamente arrebatado e da luz divina esclarecido, que antes ou depois não fosse tentado. 
   Não é, pois, digno da alta contemplação de Deus quem por Ele não sofreu alguma tribulação. A tentação anuncia, de ordinário, a consolação que deve seguir-se; porque aos provados na tentação é prometida a consolação celestial. "Ao que vencer, diz o Senhor, darei a comer o fruto da árvore da vida" (Apoc. II, 7). 
   Deus dá a consolação para que o homem tenha mais força para suportar as adversidades. Permite, porém, depois que a tentação o combata para que não se desvaneça no tempo da prosperidade. 
   O demônio não dorme, nem a carne ainda está morta: por isso não cesses de te armar para a batalha. À direita e à esquerda estão inimigos, que nunca descansam. Nossa vida sobre a terra é uma luta renhida e diuturna. A Pátria do repouso eterno é o Céu. Agora, na terra, temos tréguas mas não férias, em se tratando da vida espiritual. 
  Minha alma, quando por todos os lados te sentires atraiçoada na terra, eleva-te ao Céu, porque Deus não está longe dos aflitos; talvez não vejamos suas pegadas no deserto de nossa vida, mas é porque Ele nos leva nos seus braços. Na verdade as pegadas são d'Ele e não nossas. A verdadeira doutrina lança raízes em nossas lágrimas e dá frutos de virtude para a vida eterna. 
   O ramalhete espiritual será o propósito de São Paulo: "Gloriar-me-ei em minhas enfermidades para que habite em mim a força de Jesus Cristo"(2Cor. XII, 9). 

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

LEITURA ESPIRITUAL - Dia 20 de janeiro

Da alegria da boa consciência e do amor a Jesus

   A glória do homem virtuoso é o bom testemunho de sua consciência. Tem pois boa consciência , e sempre terás alegria. A má consciência, ao contrário, está sempre inquieta e assustada. 
   Os maus nunca têm alegria verdadeira, nem sentem paz interior; porque disse o Senhor: "Não há paz para o ímpio" (Is.,57, ). E se disserem: Vivemos em sossego, nenhum mal nos acontece; quem se atreverá a ofender-nos? Não lhes dês crédito, porque de repente se levantará contra eles a ira de Deus, e se reduzirão a nada suas obras, e perecerão seus pensamentos. 
   Não é dificultoso ao que ama gloriar-se na tribulação; porque gloriar-se desta sorte é gloriar-se na Cruz do Senhor. 
   A glória do mundo anda sempre acompanhada de tristeza. A glória dos bons está na sua consciência, e não na boca dos homens. 
   A alegria dos justos é de Deus e em Deus, e a sua alegria vem da verdade. 
  Quem deseja a verdadeira e eterna glória não faz caso da glória temporal. E quem busca a glória temporal, sinal é que não ama a celestial. 
  Não és mais santo porque te louvam, nem mais ruim porque te vituperam.
  Os homens vêem o rosto e Deus vê o coração. O homem considera as obras e Deus pesa as intenções. 
  Obrar sempre bem e ter-se em pouca conta, é o indício duma alma humilde. 
   Não querer consolação de criatura alguma, é sinal de grande pureza e de cordial confiança.
   Os prazeres distraem, as paixões embriagam por um momento; mas, passado este momento, que fica? E ainda enquanto ele dura, quantos dissabores! Quantas amarguras! Pelo contrário, poderás figurar-te uma felicidade comparável à que acompanha a inocência? Poderás imaginar coisa alguma que, desde a terra se pareça mais com o céu, que o estado duma alma desapegada do mundo, e sossegada debaixo da mão de Deus, que ela já possui pela esperança e pelo amor? 
   Bem-aventurado o que conhece o que é amar a Jesus e desprezar-se a si mesmo por amor de Jesus!
   O amor da criatura é enganoso e mutável, o amor de Jesus é fiel e constante. Ama e tem por amigo a Jesus que não te faltará quando todos te desampararem, nem te deixará perecer quando chegar o fim da vida. De todos te hás de separar um dia, quer queiras quer não.
   Na vida e na morte está sempre com Jesus; entrega-te à fidelidade deste Senhor, que só ele te pode socorrer, quando todos te faltarem. A experiência te mostrará que toda a afeição que não puseres em Jesus, mas nos homens, é perdida. Não confies nem te firmes na verde cana que o vento agita: "porque toda a carne é como a erva, e sua glória passa como a flor dos campos" (Is., 40, 6).
   Muitas vezes serás enganado se julgares os homens só pelo que mostram exteriormente. Em vez das vantagens que neles buscas, não acharás quase sempre senão desgosto e dano. Busca a Jesus em todas as coisas, e sempre acharás Jesus. Se te buscares a ti mesmo, também te acharás, mas para tua ruína. Porque o homem que não busca a Jesus, é mais nocivo a si mesmo que todos os seus inimigos e o mundo inteiro.
   Queremos amar e ser amados; e apartamo-nos da fonte do verdadeiro amor, do amor infinito.
   Entendemos emfim quão insensatos somos em nos afeiçoarmos ao que é frágil e perecedouro, e quão vãs são essas amizades mundanas, que se esvanecem com o anos, mudam com os interesses e às vezes degeneram em ódios e malquerenças!
   Caríssimos, amemos a Jesus com todas as veras de nossa alma, só a Ele demos nosso coração; amemo-Lo como Ele nos ama e quer ser amado. "A medida para amar a Jesus, dizia São Bernardo, é amá-lo sem medida".Infeliz o que prefere outra coisa fora de Jesus! Seus desejos levam-no pelo caminho da perdição!...
   Na verdade, quando Jesus está presente, tudo é bom e nada parece dificultoso; mas quando Jesus é expulso, tudo enfada e cansa. Quando Jesus não fala interiormente, nenhuma consolação tem valor; mas se Jesus fala uma só palavra, grande gozo se sente. Quão seco e duro se mostra aquele que está sem Jesus.
   ESTAR COM JESUS É UM DOCE PARAÍSO; ESTAR SEM JESUS É TERRÍVEL INFERNO!
  Se Jesus estiver contigo, nenhum inimigo te poderá ofender. Quem acha a Jesus acha um tesouro precioso, ou antes, um bem acima de todo o bem. E quem perde a Jesus perde muitíssimo, e mais do que se perdera todo o mundo. Pobríssimo é o que vive sem Jesus, e riquíssimo o que está bem com Jesus.
  Sê humilde e pacífico, e contigo estará Jesus; sê devoto e sossegado, e permanecerá contigo Jesus. Depressa apartarás de ti a Jesus e perderás sua graça, se afeiçoares às coisas exteriores.
   Sem amigo não viverás ditoso, e se não for Jesus teu especialíssimo amigo, estarás mui triste e desamparado. Logo, loucamente obras se em algum outro confias e te alegras. Antes ter o mundo todo por contrário, que ofender a Jesus. Sobre todos os teus amigos seja pois Jesus singularmente amado. E teus verdadeiros amigos são somente aqueles que amam singularmente a Jesus. Ama, pois, a todos por amor de Jesus, e a Jesus por si mesmo. Só Jesus deve ser amado singularmente; porque só Ele é verdadeiro e fidelíssimo, mais que todos os amigos. Por amor a Jesus e em Jesus deves amar amigos e inimigos, e rogar-Lhe por todos para que O conheçam e amem.
   Nunca desejes ser louvado nem amado singularmente, porque isso só pertence a Deus, que não tem igual. Nem queiras que alguém se ocupe de ti em seu coração, nem tu te ocupes do amor de alguém, mas só reine Jesus em teu coração e no de todos os homens virtuosos. AMOR! só merece este nome o amor que for fundado no amor a Jesus.
  É mister despojares-te de tudo e ofereceres a Deus um coração puro se queres descansar e ver quão suave é o Senhor. E, na verdade, nunca isto conseguirás, se não fores prevenido e ajudado de sua graça; de modo que, deixado tudo o mais, com Ele só estejas unido. Pois, quando vem a graça de Deus ao homem, então pode tudo.
   Vinde, ó meu Jesus dulcíssimo, vinde quebrar os últimos laços que me prendem ainda às criaturas e retardam o feliz momento em que só para Vós viverei. Permiti, Senhor, que esquecendo-me de mim mesmo, não veja nem deseje senão a Vós só, e descanse em vosso peito como o discípulo amado, nessa paz deliciosa que o mundo não dá, que nem ainda pode compreender, mas também que suas tempestades não podem perturbar.
   O ramalhete espiritual de hoje não poderia ser outro: "Estar com Jesus é doce Paraíso; estar sem Jesus é terrível inferno." 
   

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

LEITURA ESPIRITUAL Dia 19 de janeiro

Da pureza e simplicidade do coração


A criança, pela sua pureza e simplicidade, é realmente
"um anjinho"
 Quando Jesus Cristo, Nosso Divino Mestre, quis propor um modelo a seus discípulos, escolheu-o porventura entre os homens sábios e poderosos? Não: "chamou um menino, pô-lo no meio deles e disse-lhes: em verdade vos digo, se vos não converterdes e vos não fizerdes como meninos, não entrareis no reino dos Céus"(S. Mat. XVIII, 2-3).
  Na verdade, podemos dizer que a pureza e a simplicidades são duas asas de águia para voarmos acima das coisas terrenas e, consequentemente para, mais segura e facilmente, chegarmos ao Céu. 
  O que nos estraga é o nosso orgulho: confiamos demasiado em nós mesmos; não percebemos que falta-nos a luz da pureza e simplicidade; ficamos cegos, e pior: nos desculpamos. Pelo orgulho tornamo-nos complicados, cheios de subterfúgios, de ambiguidades e duplicidade. Às vezes, move-nos a paixão e cuidamos que é o zelo. Repreendemos nos outros as faltas pequenas e desculpamos as nossas, posto que mais graves. Mui depressa sentimos e nos magoamos com o que sofremos dos outros; mas não advertimos quanto os outros nos sofrem a nós. 
  Como nos são necessárias as duas virtudes que encantam o próprio Jesus: a pureza e a simplicidade!
  Os que almejam a santidade devem ter o cuidado de falar pouco ou nada de si mesmos e das suas ações.   
  O Apóstolo São Paulo exclamava: "Quem me livrará deste corpo de morte?" (Rom. VII, 24). Só a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, graça esta que devemos pedir sempre. Que acharemos nós depois, se formos fiéis? A Deus, unicamente a Deus e n'Ele todas as coisas, toda a consolação, todo o bem. 
  A alma que deveras ama a Deus, despreza tudo o que não é de Deus, e, então tem paz, alegria e simplicidade. A procura de nós mesmos e das coisas do mundo é que nos impede a posse da simplicidade.
 Depois desta introdução falemos agora mais diretamente sobre estas virtudes: 
 A simplicidade há de estar na intenção, e a pureza no afeto.
 A simplicidade busca a Deus; a pureza o abraça e nele se compraz.
 Nenhuma boa obra te impedirá de voar, se interiormente estiveres livre de todo o afeto desordenado.
 Se não quiseres senão o que Deus quer e o que é útil ao próximo, gozarás da liberdade interior. 
 Sendo o teu coração reto, tens em qualquer criatura um espelho de vida e um livro de santa doutrina. Pois não há criatura tão pequena  que não represente a bondade de Deus. 
  Se fosses bom e puro no interior, logo verias e entenderias bem todas as coisas sem impedimento. O coração limpo penetra o céu.
  Cada um julga das coisas exteriores, segundo suas disposições interiores. 
  Se há gosto no mundo, só o homem de coração puro goza dele. 
  E se em algum lugar há tribulação e angústia, a má consciência o sente. 
  Assim como o ferro colocado no fogo perde a ferrugem e fica todo em brasa, assim o homem que inteiramente se converte a Deus, se desentorpece e se muda em novo homem. 
  A pessoa que é simples e pura crê, ama e obra sem pensar em si mesma, pelo primeiro movimento do coração: e eis o que agrada a Deus! Jesus quer ver em nós uma vontade reta, uma intenção pura e um amor inocente. "Quem quiser me seguir, disse Jesus, abnegue-se a sim mesmo, tome todos os dias a sua cruz, e siga-me". 
   Dai-me, Deus meu, a simplicidade das almas puras, para que minha boca possa dignamente cantar os vossos louvores e anunciar a vossa grandeza. "Louva, minha alma, o Senhor, e todas as minhas entranhas bendigam o seu nome santo. Louva, minha alma, o Senhor, e não te esqueças de nenhum de seus benefícios. Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao Vosso nome dai glória" (Salmo CII, 1,2; CXII, 9). 
  Nosso ramalhete espiritual será a bem-aventurança proclamada por Jesus: "Bem-aventurados os puros de coração porque verão a Deus". 

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

LEITURA ESPIRITUAL - Dia 18 de janeiro

Humildade, bondade, paz


  Quando alguém se humilha por seus defeitos, abranda facilmente os outros, e sem dificuldade satisfaz aos que estão irados contra ele.
  Deus defende e livra o humilde; ama-o e dá-lhe consolação, inclina-se para ele, concede-lhe graça, e, depois de seu abatimento, o eleva a grande honra.   
  O humilde, recebida a afronta , fica em paz, porque tem sua confiança em Deus e não no mundo.
  Não cuides que tens progredido na vida espiritual, se te não avalias por inferior a todos.
  Não te preocupes com o que os outros dizem ou pensam de ti. Não são eles que te hão de julgar. Se te acusam sem razão, Aquele que vê o fundo das consciências já te justificou. Se te lançam em rosto faltas reais, não és porventura feliz de sofrer uma mortificação saudável? A humildade nos deixa sempre tranquilos; o que nos pode perturbar é o orgulho. 
   Quem é humilde, também é bondoso, porque não se irrita, não se comove, ainda quando a paixão do próximo o condenar injustamente. Penetrado do sentimento de sua miséria, nunca o humilham tanto quanto ele mesmo se humilha em seu coração.
  Queres que nada altere o sossego de tua alma? Abandona-te a Deus em todas as coisas, e nos trabalhos, nas adversidades e nos contratempos da vida, dize com Jesus Cristo: "Sim, meu Pai, porque essa é vossa vontade" (S. Luc. X, 21). "Bom me foi o ter sido humilhado; possa assim aprender vossos preceitos" (Sl. 118, 71).
  Procura a paz primeiro para ti e depois poderás procurá-la para os outros.
  O homem pacífico é mais útil que o muito douto. Quem, porém, se deixa dominar pelo orgulho, quanto mais douto, mais sem caridade para com o próximo. Começa achando que os outros são ignorantes. Até o bem ele converte em mal, e crê o mal com facilidade. 
  Pelo contrário, o homem humilde e pacífico julga tudo pela melhor parte. Se tem muitas razões para julgar mal e uma apenas para julgar bem, ele escolhe esta última hipótese. 
  Quem está em boa paz, de ninguém suspeita mal; mas quem vive descontente e inquieto, com diversas suspeitas se atormenta; nem vive em sossego, nem deixa sossegar os outros.
  Tem pois principalmente zelo de ti e depois o terás justamente de teu próximo. Mais justo fora que te acusasses a ti e desculpasses a teu irmão. Suporta com paciência os defeitos do próximo, se queres que eles  suportem os teus. Olha quão longe estás ainda da verdadeira caridade e da humildade, que não sabe irar-se senão contra si.
  Não é ação de avultado merecimento viver em paz com os bons e mansos. Isto a todos naturalmente agrada, e cada um de boa vontade tem paz e ama os que concordam com ele. 
   Porém, viver em paz com os ásperos, perversos e de má índole, ou com aqueles que nos contrariam e combatem, é grande graça e ação varonil e louvável.
   Alguns há que têm paz consigo e com os outros. Outros há que nem a tem consigo, nem a deixam ter aos demais: molestos para os outros, ainda o são mais para si mesmos. E há outros que têm paz consigo, e trabalham por dá-la aos outros. Pois toda a nossa paz nesta miserável vida consiste mais no sofrimento humilde, que em deixar de sentir contrariedades. Por isso, quem melhor souber padecer, maior paz terá. Este tal é vencedor de si mesmo, senhor do mundo, amigo de Jesus Cristo e herdeiro do Céu. 
   Bem-aventurados os pacíficos, porque eles serão chamados filhos de Deus" (S. Mat. V, 9). Entende bem a grandeza deste nome e a instrução profunda que ele encerra. A paz é a ordem perfeita; e a perturbação, as dissenções, as discórdias, a guerra, não entram no mundo senão pela violação da ordem ou pelo pecado. Assim não há paz onde reina o pecado; não tem paz um homem cujos pensamentos, afeições, vontades, não são em tudo conformes à ordem ou à verdade e vontade de Deus; e todo aquele que quebranta esta lei, recebe logo o castigo de seu crime. Um mal desconhecido se apodera dele; não sei que força desordenada o arrasta para um e outro lado, e em parte nenhuma acha descanso; como Caim, depois do seu crime de tudo tem medo. 
   A paz pertence aos filhos de Deus: gozam dela em si mesmos e a difundem entre os outros; corre ela, por assim dizer, de seu coração, como esses rios que regavam a venturosa morada dos nossos primeiros pais, no tempo de sua inocência. Acompanha o homem na vida, sustenta-o na enfermidade, e até na última hora será sua herança; porque "o reino de Deus é justiça e paz" (Rom. XIV, 17). Filhos de Deus, "entrai no reino que vos está preparado desde o princípio do mundo" (S Mat. XXV, 34).
   Dai-me, Deus meu, aquela paz que o mundo não pode dar, paz de espírito e de coração, para que, praticando com sossego a vossa Lei, possa ir gozar um dia do eterno descanso.
   O ramalhete espiritual de hoje será a bem-aventurança pregada por Nosso Senhor Jesus Cristo: "Bem-aventurados os pacíficos porque serão chamados filhos de Deus" (S. Mat. V, 9)
  
  

domingo, 17 de janeiro de 2016

LEITURA ESPIRITUAL - Dia 17 do mês

Da conversão interior

  "Se alguém me ama, disse Jesus, guardará a minha palavra, meu Pai o amará, nós viremos a ele e faremos nele morada" (S. Jo. 14, 23). "O reino de Deus está dentro em vós", diz também Nosso Senhor. A conversão, em última análise, consiste em deixar o pecado voltando-se para Deus. Estando na graça de Deus, é certo que Deus habita em nós. Temos o céu conosco, temos a paz de Jesus, temos tudo. Se o pecador, portanto, se converter a Deus de todo o coração e deixar as coisas enganadoras e efêmeras deste mundo, achará descanso. Estar com Jesus é um doce paraíso. 
  Aprende, pois, a desprezar as coisas exteriores e dar-te às interiores, e verás como vem a ti o reino de Deus, que é paz e alegria no Espírito Santo. Este reino nunca é dado aos ímpios. (Cf. Rom. XIV, 17). Mas Jesus põe suas delícias em morar na alma do justo. Com ela fala amigavelmente como falava a Moisés. Como é agradável a conversação com Jesus! É alívio nas penas, é paz e união inefável!. Eia, pois, alma fiel, prepara teu coração a este Esposo, para que Ele se digne de vir a ti e habitar contigo. Dá, pois, entrada a Jesus Cristo em tua alma e não consintas que outrem entre nela. Possuindo a Nosso Senhor Jesus Cristo estarás rico e de nada mais necessitas. Os homens mudam-se depressa e faltam com facilidade; Jesus, porém, vive sempre, e sua amizade permanece firme até ao fim. 
  Põe em Deus toda a tua confiança e seja Ele o teu Senhor e Pai: Ele responderá por ti e fará o que te for melhor. 
  "Não tens aqui morada permanente": onde quer que estiveres, serás estranho e peregrino, e não terás nunca descanso se não estiveres intimamente unido com Jesus Cristo. O Céu, portanto, deve ser tua morada e como de passagem hás de olhar as coisas terrenas. Tudo acaba e tu igualmente virás a ter fim neste mundo. Por isso tenhas muito cuidado para não criares amor a este mundo. Ele passa, tudo passa. Só Deus é eterno. 
  Quero dar-te o melhor conselho neste mundo: Medita na Paixão do Salvador, e habita gostosamente em suas chagas sagradas! Se devotamente recorreres a estes preciosos e sanguinolentos sinais de seu amor para conosco, sentirás grande ânimo na tribulação, não farás muito caso do desprezo dos homens, e facilmente sofrerás as palavras dos maldizentes. 
  O mesmo Jesus inocentíssimo foi também no mundo desprezado pelos homens. E, na maior aflição entre grandes afrontas, foi desamparado até de amigos e conhecidos. Então, este Senhor quis padecer e ser desprezado; e tu, à vista de tanta paciência e humildade, ousas queixar-te de alguma coisa? Jesus Cristo teve inimigos detratores; e tu queres que todos sejam teus amigos e benfeitores? Se nada queres sofrer, como serás amigo de Cristo? Achas, porventura, que fica bem um membro delicado sob uma cabeça coroada de espinhos?! Sofre, portanto, com Jesus Cristo, se queres reinar com Ele. Se amas verdadeiramente a Nosso Senhor Jesus Cristo, terás forças para te desprezares a ti mesmo. Só o amor nos dá esta força! O amante de Jesus e da verdade, o homem verdadeiramente interior e livre de afeições desordenadas, pode elevar-se sobre si mesmo em espírito, recolher-se facilmente em Deus, e n'Ele descansar com antecipado gozo. 
  O homem interior depressa se recolhe, porque nunca se entrega todo à coisas exteriores. Não o impede o trabalho exterior nem o embaraçam ocupações necessárias em certos tempos; mas acomoda-se às coisas como elas sucedem. 
  Na verdade, se estiveras bem disposto e mortificado em tuas paixões, tudo te sucederia para teu bem e aproveitamento. Examine bem o teu interior e verás que todas as tuas perturbações e desgostos vêm de que ainda não morreste de todo para ti, nem te apartaste das coisas da terra. Nada mancha nem embaraça tanto o coração do homem como o amor desordenado do dinheiro e dos prazeres da carne. Desapegando, porém, teu coração destas coisas, terás as alegrias interiores e ninguém e nada deste mundo poderá roubar-te esta alegria.  
  A alma cristã, desapegada do mundo, não tem senão um desejo para o tempo e para a eternidade: estar unida a Jesus Cristo, com aquela união inefável que excede todo entendimento humano. Desapegada das coisas do mundo (dinheiro, riquezas, honras e prazeres), longe do bulício do mundo, no silêncio, a alma conversa com Jesus com muita unção e suavidade. 
  Ó Jesus, meu Bom Pastor e Senhor desta pobre alma, levai-a para Vós e não permitais que nenhuma criatura dela se aposse. Todo sois formoso, meu Jesus, todo manso, todo suave; sede a minha consolação neste mundo, para serdes depois o enlevo de minha alma na eternidade. 
   O ramalhete espiritual de hoje: "Quem me ama, disse Jesus, guarda meus mandamentos, meu Pai também o amará, e viremos a ele e faremos nele morada". 

sábado, 16 de janeiro de 2016

LEITURA ESPIRITUAL - Dia 16 do mês

Da fervorosa emenda de toda a nossa vida

  Um homem que flutuava muitas vezes, cheio de ansiedade, entre o temor e a esperança, estando um dia oprimido de tristeza, entrou numa igreja, e, prostrando-se diante dum altar para fazer sua oração, dizia e repetia consigo mesmo: Oh! se eu soubesse que havia de perseverar! E logo ouviu no íntimo da alma esta divina resposta: Que farias se isso soubesses? Faze agora o que então quiseras fazer, e estarás seguro. E no mesmo instante, consolado e fortalecido, se ofereceu à divina vontade, e cessou sus ansiosa turbação. Nem quis curiosamente esquadrinhar o que lhe havia de suceder; aplicou-se unicamente a conhecer a vontade de Deus, e o que a seus divinos olhos fosse mais agradável e perfeito para começar a perfazer toda a boa obra.
  Duas coisas resfriam em alguns o ardor de se corrigir e progredir na vida espiritual: o receio das dificuldades e o esforço trabalhoso do combate. 
  Certamente progridem mais nas virtudes aqueles que com maior empenho trabalham por vencer-se a si mesmos naquilo que lhes é mais penoso e contraria mais as suas inclinações. Porque, na verdade, o homem tanto mais aproveita e tanto maior graça alcança, quanto mais se vence a si mesmo e se mortifica no espírito.
Coragem no combate para conseguir o Céu!
"Quão desprezível é a Terra quando olho para o Céu!"
 Propõe-te por modelo a Cristo Crucificado. Com razão te podes envergonhar, considerando a vida de Jesus Cristo, de não ter feito até aqui bastante esforço para te conformares com ela, estando há tanto tempo no caminho de Deus. Quem devota e cuidadosamente, se exercita a meditar na santíssima vida e dolorosa paixão do Senhor, acha nela com abundância tudo que é útil e necessário para sua santificação: e não precisa buscar coisa nenhuma melhor fora de Jesus Cristo. 
  As virtudes não se adquirem senão com muito cuidado, e grande diligência. Se começas a ser tíbio, começarás a ir-te mal. Mas se te exercitares no fervor, acharás grande paz, e sentirás o trabalho mui ligeiro pela graça de Deus, e pelo amor da virtude. O homem fervoroso e diligente para tudo está preparado. 
  Uma advertência que nunca será demais lembrar, tanto mais que tem por autor o próprio Espírito Santo: "Quem não evita as faltas pequenas, pouco a pouco cai nas grandes" (Eccl. XXIX, 1). 
   Estás sinceramente resolvido a salvar-te? Tens vontade firme de ganhar o céu? Prepara-te, pois, ao trabalho, à peleja. "Só será coroado quem legitimamente combater". Sem dúvida a unção da graça torna suave aos fiéis este trabalho, este combate; no meio dos trabalhos e dos sofrimentos gozam duma paz celestial que os pecadores não conhecem. Porém têm que fazer contínuos esforços para triunfarem de si mesmos, para vencerem seus desejos, suas paixões, o mundo e o príncipe do mundo.
   O que fizeram os santos, senão esta luta valente e porfiada? "Cercados duma tão grande nuvem de testemunhos, diz S. Paulo, desembaracemo-nos de tudo o que nos prende ao mundo, e do pecado que nos seduz e corramos pela paciência ao combate que nos é proposto. Com os olhos fitos em Jesus Cristo, autor e consumador de nossa fé, o qual, em vista da glória que lhe estava preparada, sofreu na cruz, desprezando a ignomínia; e agora está sentado à direita do trono de Deus" (Leiam Hebreus, XI, 35-38 e XII, 1,2). 
   Compadecei-vos de mim, Senhor, que sou fraco; tende-me da Vossa mão que nada posso por mim só; dai-me fortaleza para que vença os trabalhos da vida, resista às sugestões do inimigo; afastai de mim todo o mau desejo, todas as ciladas da concupiscência, e nada deseje tanto, com dar-Vos honra e glória, trabalhando em minha salvação. 
  O ramalhete espiritual de hoje serão as palavras de Jesus: "O reino do Céus sofre violência, e só os violentos é que poderão arrebatá-lo". 

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

LEITURA ESPIRITUAL - Dia 15 do mês

Do juízo e das penas dos pecadores


  Primeiramente, vejamos o que disse o Espírito Santo: "Em todas as tuas obras, pensa nos teus novíssimos e não pecarás jamais" (Eclo 7,40). Já meditamos sobre a morte, hoje vamos pensar um pouco sobre o juízo e os tormentos eternos dos condenados.
    São Paulo, inspirado pelo Divino Espírito Santo diz sobre o juízo particular: "Está estabelecido que morram os homens uma vez; e depois disso o Juízo" (Hebr 9,27). E ainda: "É necessário que todos nós compareçamos diante do tribunal de Cristo, para que cada um receba o que é devido pelo que fez de bom ou de mal" (2Cor 5, 10). E quanto ao Juízo universal eis o que diz também o próprio Espírito Santo: "Comparecerão (os condenados) medrosos com a lembrança dos seus pecados, e as suas iniquidades se levantarão contra eles para os acusar. Então os justos se levantarão com grande afoiteza, contra aqueles que os atribularam, e que lhes roubaram o fruto dos seus trabalhos. Vendo-os assim, perturbar-se-ão com temor horrível os maus, e ficarão assombrados, ao ver a repentina salvação dos justos, a qual eles não esperavam, e dirão dentro de si, tocados de desespero, e gemendo com angústia do espírito: Estes são aqueles a quem nós outrora tínhamos por objeto de zombaria e por motivo de vitupério. Nós, insensatos considerávamos a sua vida uma loucura, e a sua morte uma ignomínia. E ei-los que são contados entre os filhos de Deus, e entre os santos está a sua sorte. Logo, nós extraviamos do caminho da verdade, a luz da justiça não raiou para nós, e o sol da inteligência não nasceu para nós. Cansamo-nos na senda da iniquidade e da perdição, andamos por caminhos ásperos, e ignoramos o caminho do Senhor. De que nos aproveitou a soberba? De que nos serviu a vã ostentação das riquezas. Todas aquelas coisas passaram como sombra..." (Sab. IV, 20; V, 1-9). 
  Portanto, por que não te acautelas para o dia do juízo, quando ninguém poderá ser desculpado nem defendido por outrem. 
  Agora o teu trabalho é frutuoso, as tuas lágrimas são bem acolhidas, os teus gemidos aceitos, a tua dor é satisfatória e justificativa. Aqui tem grande e saudável purgatório o homem paciente, que, recebendo injúrias, mais se dói da maldade do injuriador, que de sua própria ofensa, que roga a Deus sinceramente por seus inimigos, e de coração perdoa os agravos,  se alguém ofendeu não tarda a pedir-lhe perdão; que mais facilmente se compadece do que se ira; que se faz violência a si mesmo e trabalha por sujeitar de todo a carne ao espírito.
  Melhor é satisfazer agora pelos pecados e cortar os vícios, que deixá-los para os satisfazer na outra vida Na verdade nós mesmos nos enganamos pelo amor desordenado que temos à carne. No entanto, quanto mais te perdoas agora a ti mesmo e segues os apetites da carne, tanto mais fortemente serás depois atormentado. 
  Na verdade, não podes ter dois gozos: deleitar-te neste mundo e reinar depois com Jesus Cristo no céu.
  Se até agora tivesses vivido em honras e prazeres, e te chegasse a morte, que te aproveitaria tudo isto? Logo, tudo é vaidade e aflição de espírito, exceto o amar e servir somente a Deus.
  Porque os que amam a Deus de todo o coração não temem a morte, nem o castigo, nem o juízo, nem o inferno; porque o perfeito amor faz ter perfeito acesso a Deus.
À direita de Jesus: os filhos da luz; à esquerda: os
filhos das trevas
  Mas quem se deleita ainda em pecar, não admira que tema a morte e o juízo. Aquele que despreza o temor de Deus, não poderá perseverar muito tempo no bem, antes, mui depressa cairá nos laços do demônio. 
  No Juízo universal separar-se-ão as duas cidades: os que forem trigo, estarão do lado direito de Jesus; os que forem joio estarão do lado esquerdo. A grande e eterna sentença será pronunciada: ela abrirá o Paraíso aos justos, e cairá sobre os pecadores com todo o peso duma solene reprovação.
  Cercado dos anjos fiéis e do exército resplandecente dos escolhidos, sobe Jesus Cristo à sua glória. Satanás apodera-se de sua presa e com ela se precipita nos abismos; tudo se consumou para sempre; nada mais resta senão as alegrias do céu e a desesperação eterna dos maus.
  Caríssimo, enquanto estás na terra, tens a escolha destas duas moradas: escolhe, pois, mas lembra-te que além do túmulo não há arrependimento. 
   Salvador divino, enquanto não vindes como juiz tomar contas aos homens de suas ações, dai-me aquela luz inefável que alumia a alma para ver a torpeza do pecado, e comove o coração para detestar o horror do vício; possa eu, ajudado com ela, deixar o caminho da iniquidade, e só escolher a vereda da virtude que me encaminhe à perfeição neste mundo, e no tremendo juízo me introduza entre os benditos de vosso Pai celestial. Amém!
   O ramalhete espiritual de hoje serão as palavras do Divino Espírito Santo: "Foi estabelecido a todo homem morrer uma só vez, e depois disto virá o juízo".