domingo, 29 de novembro de 2015

CAPÍTULO 2º - DOUTRINA CATÓLICA SOBRE A SALVAÇÃO

1º  -  A PARTE REALIZADA POR JESUS CRISTO


  11.  A VISÃO BEATÍFICA.


  Quando Deus criou Adão e Eva, destinou-os a irem para o Céu, depois de viverem algum tempo aqui na terra. Dizendo - ir par o Céu - entendemos: ir gozar da felicidade de Deus, vendo-O face a face. É o que se chama VISÃO BEATÍFICA: Nós agora vemos a Deus como por um espelho, em enigmas; mas então FACE A FACE. Agora conheço-O em parte, mas então hei de conhecê-Lo como eu mesmo sou também d'Ele conhecido (1ª Coríntios XII-12). 
  Ora, esta visão beatífica está acima das forças da nossa natureza. Nossa alma não pode ver a Deus diretamente, mas só pode conhecê-Lo como por um espelho, isto é, através do conhecimento das criaturas. Para usarmos uma comparação: assim como na ordem material a luz demasiada cega os nossos olhos e, se nos chegássemos mais perto do sol, não poderíamos contemplá-lo de maneira alguma (seria preciso, então que Deus concedesse aos nossos olhos uma força especial para isto) assim também é preciso que Deus eleve a alma a um estado superior à sua natureza, e que lhe dê uma força toda especial (é o que os teólogos chamam O LUME DA GLÓRIA) para que ela possa gozar da glória divina, vendo a Deus diretamente lá no Céu.
   Em outros termos, foi para um FIM SOBRENATURAL, que Deus destinou a Humanidade, quando criou o primeiro homem.

   12. A GRAÇA SANTIFICANTE.

      Mas um fim sobrenatural exige também meios sobrenaturais. Para chegar à glória, na qual o homem vai ser um HERDEIRO de Deus, gozando, quanto é possível, da própria felicidade divina, é preciso que aqui na terra já seja elevado a um estado sobrenatural, que se torne um FILHO ADOTIVO DE DEUS, pela graça santificante.
    Por esta graça santificante, nós nos tornamos participantes da natureza divina (2ª Pedro I-4). Não no sentido de que ficamos iguais a Deus, mas no sentido de que tomamos uma grande semelhança com Ele. Costuma-se comparar com a barra de ferro que se mete no fogo; não deixa de continuar a ser ferro, mas torna-se como uma brasa viva pela semelhança com o fogo - ou com o cristal banhado pelos raios do sol, recebendo deste modo o seu brilho e esplendor.
    Foi assim que Deus criou o primeiro homem: à Sua imagem e semelhança, em estado de justiça e de santidade. 

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

O HÁBITO NÃO FAZ O MONGE, MAS MOSTRA-O

   O fato que primeiro vamos contar foi ocorrido em Brasília há muitos anos atrás.
   Uma freira, vestida em trajes mundanos, queixou-se a um policial de que estava sendo importunada por um galanteador que a seguia. Travou-se, então, o seguinte diálogo:
   Policial -  O que é que a senhora quer que eu faça?
   Freira  -   O senhor é uma autoridade, portanto é de sua obrigação tomar providências.
   Policial -  Como é que a senhora sabe que eu sou um policial?
   Freira  -   Pelo seu uniforme, é claro!
   Policial -  Pois a senhora use o seu hábito religioso, que é o seu uniforme, e ninguém ousará importuná-la.
   
"A BATINA É O UNIFORME DA MILÍCIA SANTA"
Santo Antônio Maria Claret.

   Agora vou contar um fato sobre a batina, ou melhor, sobre a falta da batina, fato este que também se deu há muitos anos, mas que infelizmente é de aplicação bem atual.
  
O BISPO E A BAILARINA
   Com este título o jornal "A Província do Pará" de 13 de setembro de 1977 publicou a seguinte nota:
   "Um espetáculo totalmente inesperado foi assistido pelos espectadores que participaram da apresentação, sexta feira última, do Holiday on ice, quando uma das bailarinas ao terminar seu número, sentou-se ao colo de D. Alberto Ramos, cobrindo-o de beijos.
   A maior surpresa foi do próprio arcebispo que corado e constrangido, ficou visivelmente incomodado com a inesperada demonstração de carinho da jovem e bonita integrante do balé de gelo. A atitude da jovem, é bom deixar claro, não teve nenhuma intenção desprimorosa, já que a "cena" é feita por ela, ao fim de cada espetáculo, com os espectadores da primeira fila. O que deve ter levado a jovem a cometer a "gaffe" foi o fato de estar D. Alberto Ramos trajando uma roupa de passeio, e por isso mesmo se confundindo com os espectadores comuns".

 Estivesse revestido de sua batina, este bispo, que por sinal não era dos piores, teria evitado um escândalo dessa natureza. A bailarina que se sentou ao seu colo certamente teria respeitado a sua condição de religioso. Talvez, se ele não deixasse a batina, nem lá iria. 

A COMUNHÃO NA MÃO DÁ LUGAR A PROFANAÇÕES DA EUCARISTIA

Antes de provar esta afirmação do título, é mister provar duas teses teológicas atinentes à Eucaristia:
1ª - A Santíssima Eucaristia é um sacramento permanente.
2ª - Jesus está presente na Eucaristia "à maneira de substância"; ou em outras palavras: a substância do Corpo e a substância do Sangue permanecem todas inteiras em cada parcela de hóstia e em cada gota de vinho consagrado.

1- A SANTÍSSIMA EUCARISTIA É UM SACRAMENTO PERMANENTE
   Diferentemente do que acontece nos outros sacramentos, o Sacramento da Eucaristia não consiste num ato que passa, mas consiste numa coisa que permanece. Esta tese é de grande importância contra os protestantes chefiados por um tal Bucero afirmando eles que o Sacramento da Eucaristia só existiria no momento exato do uso, isto é, Jesus só estaria presente sob as espécies do pão no momento exato em que era comungado pelo fiel. Por conseguinte, segundo eles, não se poderiam guardar no sacrário as hóstias restantes, e não se poderia prestar culto de adoração. Segundo eles as hóstias restantes poderiam ser jogadas fora ou serem comidas como os demais alimentos. Segundo estes hereges, Jesus não ficaria presente no momento em que o celebrante termina de pronunciar as palavras essenciais da consagração; mas somente no ato da comunhão do fiel. Estes hereges foram condenados pelo Concílio de Trento.
   Prova-se a tese acima enunciada, pelo testemunho da Sagrada Escritura: Estas palavras "Isto é o meu corpo", "Este é o cálice do meu sangue", (palavras estas que não só significam mas também realizam a presença real de Cristo); foram ditas por Nosso Senhor antes da manducação e da potação, de tal modo que a consagração do pão e do vinho vêem antes da ação de comer e beber. Logo, a presença real de Jesus Cristo é feita antes da manducação e, portanto, independentemente do uso do sacramento.
   Prova-se pelo testemunho dos santos Padres. São unânimes em afirmar que Cristo está realmente presente antes da manducação e que está realmente presente sob as espécies todo inteiro no sacrário em que é conservado e que aí deve ser adorado com culto de latria ou adoração. Querem dizer com isto que a santíssima Eucaristia é uma sacramento permanente.
  Por isso o Concílio de Trento anatematizou quem disser que no Santíssimo Sacramento da Eucaristia Cristo, Filho Unigênito de Deus não pode ser adorado com um culto de latria também externo.
 
Tese: JESUS ESTÁ PRESENTE NA SANTÍSSIMA EUCARISTIA "A MANEIRA DE SUBSTÂNCIA".
   Vamos procurar entender o que significa "presença à maneira de substância". A presença de alguma coisa no sentido comum é chamada na filosofia de "presença em razão da quantidade dimensiva, delimitada e mostrada pelos próprios acidentes". Era assim que Jesus estava presente em alguma lugar durante o tempo de sua vida aqui na terra. Mas na Eucaristia não é assim, mas é "à maneira de substância". Substância é uma noção tão simples que não se pode propriamente ser definida. Mas, segundo o nome, é algo que permanentemente está debaixo dos acidentes. Ou então, é a coisa à qual convém o ser em si e não em outro.  Como tal a substância não tem extensão e é indivisível, neste sentido de que tanto se contém numa grande quantidade como numa pequena e até mínima. Por ex. pão e vinho são sempre pão e vinho, embora varie a quantidade: uma migalha de pão é sempre pão, como um pingo de vinho é sempre vinho.
  Ora bem, o Corpo e o Sangue de Cristo tornam-se presentes sob as espécies eucarísticas, do mesmo modo que aí estavam antes da Consagração, a substância do pão e a substância do vinho. Por conseguinte, a substância do Corpo e a substância do Sangue permanecerão todas inteiras em cada parcela de hóstia e em cada gota de vinho consagrado.
   Em consequência o Concílio de Trento anatematiza quem "negar que, no venerável Sacramento da Eucaristia, Cristo todo inteiro está contido sob cada espécie  e sob cada uma das partes de cada espécie, depois de separadas".
   Se a substância do Corpo de Cristo se encontra na hóstia por força das palavras da Consagração, as diversas partes que constituem realmente este Corpo estão presentes por concomitância, porém sempre "à maneira da substância", que elas acompanham. Os nossos sentidos não podem ver as substâncias. São os acidentes que atingem os nossos sentidos externos, que fazem a gente descobrir a substância que está por debaixo destas aparências. Mas na Eucaristia houve uma mudança de substância; mas as aparências não mudaram: são as mesmas do pão e do vinho. O tato, o gosto, a vista nos enganam. Só a audição nos dá a verdade da coisa: Nossos ouvidos ouvem as palavras claras de Jesus, a Verdade Eterna: "Isto é o meu Corpo", "Este é o cálice do meu Sangue".
   É um mistério de fé. Mas, por outro lado, este modo todo especial de presença, isto é, "à maneira de substância" faz a gente compreender um pouco melhor o mistério em virtude do qual Cristo está, simultâneamente, triunfante no céu e prisioneiro de amor nos inúmeros sacrários de nossa terra. É o mesmo Jesus, mas o modo de Sua presença não é o mesmo. Pois, no Céu, Cristo se encontra com o Seu modo natural de presença, condicionada pelas dimensões quantitativas de Seu Corpo Sagrado. Mas, no Santíssimo Sacramento o pão se converte na substância do Corpo de Cristo, e não nas suas dimensões quantitativas. Como já dissemos, na Eucaristia o Corpo de Cristo está "à maneira de substância, portanto, independente da "quantidade extensiva". No Céu e na Hóstia o Corpo de Cristo é um só e mesmo; mas o modo de estar presente é diferente: No céu o Corpo de Jesus está em seu modo conatural, como foi visto e tocado pelos Apóstolos depois da Ressurreição. Na Eucaristia é o mesmo Jesus ressuscitado mas de maneira diferente, isto é, na Hóstia consagrada está no estado sacramental, ou seja "à maneira de substância". Em virtude da transubstanciação que se dá na Consagração o Corpo e o Sangue de Cristo, presentes no céu localmente, adquirem sobre o altar uma presença sacramental.
   E é bom  estarmos bem lembrados que não apenas encontramos a humanidade de Jesus na Eucaristia, mas ainda a sua divindade. Dizemos isto também para avaliarmos melhor a gravidade de uma profanação do Santíssimo Sacramento.
  Os teólogos tradicionais são unânimes em afirmar que, pelo fato de Jesus estar presente na Hóstia Consagrada "`a maneira de substância", em cada parcela da Hóstia, mesmo mínima mas perceptível pelos sentidos, Jesus está realmente presente., todo inteiro, isto é, como homem e como Deus: Corpo,Sangue e Alma (=homem) e Divindade (=Deus).
   O CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, cintando o Concílio de Trento, resume no nº 1377 tudo o que expusemos acima: "A presença eucarística de Cristo começa no momento da consagração e dura também enquanto subsistirem as espécies eucarísticas. Cristo está presente inteiro em cada uma das espécies e inteiro em cada uma das partes delas, de maneira que a fração do pão não divide o Cristo".   
   Pois bem, feita a exposição das duas teses, tiremos, agora as conclusões. Mas, antes queremos fazer ainda algumas observações: 1ª - D. Athanasius Schneider, especialista em Patrística afirma que o gesto da comunhão na mão tal como conhecemos hoje , era completamente desconhecido entre os primeiros cristãos. Pois, na Igreja primitiva era necessário purificar as mãos antes e depois do rito e a mão estava coberta por um corporal (um pequeno pano de linho sobre o qual o celebrante coloca a Hóstia consagrada e dele são retirados os fragmentos com a patena para os colocar no cálice e serem comungados juntamente com o preciosíssimo Sangue). Então, repetindo: a mão do fiel estava coberta por um corporal do qual se tomava a partícula diretamente com a língua.
   Mas não é difícil compreender que ainda havia a possibilidade de ficar fragmentos da hóstia nestes corporais e com real perigo de caírem e serem pisados. A Santa Madre Igreja guiada pelo Espírito Santo mudou esta maneira de comungar por outra mais segura que desde o século V perdura até hoje: é a Comunhão diretamente na língua. Depois do Concílio Vaticano II  há ainda também a comunhão diretamente na mão, caso o fiel assim quiser. O Santo Padre, o Papa (Então Bento XVI) já manifestou o desejo de eliminar a comunhão na mão. Estou escrevendo este artigo pura e justamente para exortar os fiéis que peçam a comunhão na língua e nunca na mão e isto por amor a Jesus e para ajudar o Papa a realizar o seu desejo o quanto antes, e acabar com a comunhão na mão.
   Vejam bem, que mesmo se houvesse voltado ao costume dos primeiros cristãos, este não poderia ser chamado de costume tradicional. Seria um "arqueologismo". Pois Tradicional é o que atravessa os tempos enriquecendo sua vida. O que a Igreja abandona já não pertence mais à Tradição. E quando a Igreja aperfeiçoa os costumes dos fiéis é porque algum inconveniente via no hábito anterior.
   Só agora, com a graça de Deus, é que vou demonstrar o que afirmei no título: A COMUNHÃO NA MÃO DÁ LUGAR A PROFANAÇÕES DA EUCARISTIA.
   Como Jesus está presente nos fragmentos que se desprendem das partículas consagradas, é óbvio que todo gesto de comungar que aumente este perigo de fragmentação e a conseguente queda e perda dos mesmos, é um costume que propicia a profanação. E o que poderia provocar maior fragmentação? É fácil de responder: havendo mais manipulação, mais movimentos e maior percurso. Tudo isto acontece no uso da comunhão na mão. Na comunhão na língua só há dois toques: um dentro da âmbula quando o celebrante pega a partícula; e sobre a língua quando o fiel comunga. E neste único e pequeno trajeto o ajudante acompanha o movimento do celebrante com a patena para amparar os fragmentos que por ventura se desprenderem da Hóstia. Se, por acaso, a própria partícula soltar ou da mão do celebrante ou da língua do comungante, ela é amparada na patena.
  Outro detalhe a considerar: na comunhão na mão: que são feitos dos fragmentos que ficam na mão do comungante? Na Missa Tradicional o celebrante depois de ter tocado na hóstia consagrada fica com os dedos consagrados (polegar e indicador) fechados para segurar algum fragmento; e depois lava estes dedos com vinho e água para depois comungar estes fragmentos. O corporal de linho sobre o qual a hóstia consagrada fica por algum tempo depositada, este corporal é purificado pelo sacerdote antes de ser lavado por alguém. O corporal fica mergulhado na água por algum tempo, suficiente para, caso houver ainda algum fragmento, este se desfaça completamente; e então, desfeitas as espécies, é certo que Jesus não está mais presente. Mesmo assim  esta água em que o padre purificou o corporal é lançada  em lugar da sacristia chamada piscina, debaixo do chão e onde ninguém pisa nem toca. Basta haver fé: em se tratando do próprio Jesus, nunca a reverência será demasiada.
   Na comunhão na mão há ainda perigos maiores e perigos de profanações mais terríveis. Um mal intencionado tem muito mais facilidade de apanhar a hóstia e colocá-la no bolso da camisa, blusa ou paletó e levá-la para onde quiser. Há alguns anos soubemos da triste notícia: um sujeito levou a hóstia para usá-la em uma macumba. Quantas partículas são encontradas no chão! Em Santa Maria, RS. uma senhora me contou que viu uma pessoa pegar a hóstia e jogar ou deixar cair e não a pegou. Esta senhora viu as pessoas pisando a hóstia. Pegou-a e foi entregá-la ao padre. Este ficou irritado e lhe disse: Você pegou, agora consuma-a. Esta senhora com sua família nunca mais entrou numa igreja progressista e construiu uma belíssima igreja e doou-a para a FSSPX.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

O ESTILO DA BÍBLIA E O TEOR DAS DIVINAS PROMESSAS - ( 6 )

   83.  A EUCARISTIA E A VIDA ETERNA.

   Vamos a um terceiro exemplo.

   Cristo prometeu a vida eterna àqueles que participassem da sagrada Eucaristia: O que come a minha carne e bebe o meu sangue TEM A VIDA ETERNA; E EU O RESSUSCITAREI NO ÚLTIMO DIA (João VI-55). O que come deste pão VIVERÁ ETERNAMENTE (João VI-59). 

   Eis aí a PROMESSA. Pode parecer à primeira vista, que para entrar no vida eterna, não se precisa de outra coisa a não ser participar uma só vez da mesa eucarística.

   Mas São Paulo já se encarrega de nos ensinar uma das condições exigidas para isto; condição, na qual Cristo não havia falado (porque a Bíblia não nos ensina tudo de uma vez). É preciso que seja recebida a Eucaristia com a consciência limpa, purificada dos pecados: Examine-se, pois, a si mesmo o homem e assim coma deste pão e beba deste cálice, porque todo aquele que o come e bebe indignamente, come e bebe para si a condenação, não discernindo o corpo do Senhor (1ª Coríntios XI-28 e 29).

   Mas será que pelo simples fato de ter recebido uma vez condignamente o corpo do Senhor, fica o homem com a salvação assegurada para sempre? Não há dúvida que a comunhão lhe traz uma íntima união com Cristo: O que come a minha carne e bebe o meu sangue, esse FICA EM MIM E EU NELE (João VI-57) Da sua parte, Cristo entra com a sua graça, com a sua presença inefável na alma, robustecendo-a, dando-lhe o auxílio necessário para que se vença a si mesma nas tentações e alcance a vida eterna. Mas o homem é livre e não se tornou impecável com a comunhão, tem que corresponder às graças divinas e fazer da sua parte o esforço para permanecer com Cristo em sua alma, e é a isto que Cristo o exorta: O QUE PERMANECE EM MIM E O EM QUE EU PERMANEÇO, esse dá muito fruto; porque vós sem mim não podeis fazer nada. Se alguém NÃO PERMANECER EM MIM será lançado fora como a vara, e secará e enfeixá-lo-ão e lançá-lo-ão no fogo e ali arderá (João XV-5 e 6).

   Eis aí, portanto, mais outra condição para que a comunhão nos garanta a vida eterna: é preciso permanecer em Cristo pela fuga ao pecado, e isto fica a depender de nós, pois Cristo já nos dá, pela comunhão, um valioso aumento de graça para mantermos a nossa fidelidade. A obrigação de permanecer com Ele supõe, pelo menos, que tenhamos sempre o cuidado de com Ele nos reconciliarmos e de O recebermos novamente, se tivermos a desgraça de afastá-Lo pelo pecado mortal. 

sábado, 21 de novembro de 2015

A MEDALHA MILAGROSA E A CONVERSÃO DE AFONSO RATISBONNE

 "Nessa maravilhosa conversão manifesta-se o dedo de Deus; aí se admira o poder de Maria Santíssima, pois não havia nada, absolutamente nada que dispusesse Afonso Ratisbonne para receber tão assinalado favor.
   Nasceu Afonso em Strasburgo, no meio de uma rica família israelita. Eram ao todo dez irmãos. Teodoro, doze anos mais velho que Afonso, chega à fé cristã após longas e penosas pesquisas, na calma da reflexão e na plena madureza de espírito.
   Teodoro, recebeu o batismo aos 25 anos, após haver concluído seu curso de Direito. Abraçou o estado eclesiástico e foi sagrado sacerdote cinco anos depois do seu batismo.
   Seu irmão Afonso, desde a primeira mocidade jactava-se de não ter nenhuma religião. "Eu era judeu de nome, diz ele; eis tudo, porque eu não acreditava nem sequer em Deus. Nunca abri um livro de religião e, na casa do meu tio, bem como entre meus irmãos e irmãs, não se praticava a menor prescrição do judaísmo".
   Um ano e quatro meses antes da sua conversão, enfermara gravemente um dos seus sobrinhos, filho do seu irmão mais velho. O Padre Teodoro, que então exercia os seus ministérios sacerdotais em Paris, desejava pelo menos abrir as portas do céu a seu sobrinho, conferindo-lhe o santo batismo.
   Teria talvez alcançado o assentimento do pai, se não fosse a intervenção do seu irmão Afonso que, cheio de indignação e de furor, enxotou violentamente para longe do pequenino moribundo o ministro de Deus. Este, que já havia sofrido tanto da parte da sua família e de toda a colônia israelita, retirou-se com calma, disposto a sofrer ainda mais pelo nome de Jesus Cristo e pela salvação dos seus.
   No Santuário de Nossa Senhora das Vitórias, onde trabalhava, fazia o piedoso sacerdote ferventes preces pela conversão do seu irmão Afonso que o não podia tolerar. Como explicar tamanho ódio contra seu bondoso irmão Teodoro, se Afonso era judeu religiosamente falando só de nome? É que ele se filiara a maçonaria e então era implacável inimigo dos cristãos.
   Havia Afonso concluído seu curso de Direito e estava para completar 27 anos, quando os desejos da sua família, corroborados por simpatia recíproca, o induziram a casar-se com a sua sobrinha, filha do seu irmão mais velho. "Pensei, então, narra Afonso, que a minha felicidade fosse completa. Via minha família no auge da alegria, pois devo dizê-lo, há poucas famílias cujos membros se unem tanto como a minha... Só um dos seus membros me parecia odioso: era meu irmão Teodoro. Entretanto ele também nos amava, mas seu hábito me causava repulsa, seu pensamento me turbava, sua palavra grave e séria excitava a minha cólera".
  "E, continua Afonso, "por causa da conversão de Teodoro eu nutria acerbíssimo ódio contra os padres, as igrejas, os conventos, e sobretudo contra os jesuítas, cujo nome só bastava para provocar o meu furor".
   A noiva de Afonso contava 16 anos apenas, pelo que julgaram seus pais conveniente diferir por algum tempo o casamento.
   Neste meio tempo Afonso empreenderia uma viagem ao estrangeiro com o duplo fim de distrair-se e de revigorar a sua saúde.
   Afonso deixou Strasburgo a 17 de novembro de 1841, decidido a visitar Nápoles, a passar o inverno em Malta e a voltar pelo Oriente. Outros, porém, eram os desígnios da Providência. Demorou alguns dias em Marselha e partiu para Nápoles.
   Durante a viagem fundeou o navio em Civitavecchia: era o dia 8 de dezembro e a artilharia disparava algumas salvas. Maravilhado, perguntou Afonso qual era o motivo daqueles rumores de guerra nas terras pacíficas do Papa. Responderam-lhe que era a festa da Imaculada Conceição. Sacudiu os ombros com desdém e não quis desembarcar. Não tinha nenhum desejo de visitar Roma, embora dois amigos seus o estimulassem vivamente a dar esse passo. Deus, porém, o guiava para o Cidade Eterna. Ao deixar Nápoles, em vez de comprar passagem para Palermo. por engano achou-se numa diligência que se dirigia para Roma e lá chegou a 6 de Janeiro.
    Era o ano de 1842. Afonso Ratisbonne achava-se em Roma,  a cidade eterna, da qual cada pedra é uma lembrança sagrada e tem uma voz para celebrar as grandezas da fé cristã. Ali Ratisbonne encontrou seu companheiro de infância Gustavo Bussíère, irmão do barão Teodoro de Busssière.
   Teodoro de Bussière era íntimo amigo do Padre Teodoro Ratisbonne. O Barão abandonara o protestantismo para fazer-se católico e por esta razão inspirava a Afonso Ratisbonne uma profunda antipatia. Gustavo Bussière mantinha-se protestante e, em companhia de Afonso Ratisbonne, metia freqüentemente a rídiculo a Igreja Católica.
   A 15 de Janeiro, nove dias apenas depois de sua chegada, resolveu Afonso deixar Roma e se viu na dura contingência de ir apresentar suas despedidas ao indesejável barão Teodoro de Bussière. O distinto e piedoso barão  suportou pacientemente, durante uma hora, uma saraivada de sarcasmos proferidos pelo jovem Afonso contra o catolicismo, procurando evidentemente atingir os dois Teodoros convertidos: o seu irmão Ratisbonne convertido do judaísmo; e o irmão de Gustavo Bussière, convertido do protestantismo.
   "Então, - refere o barão - apresentou-se à minha mente uma ideia maravilhosa, uma ideia celeste, que os sábios do mundo teriam julgado rematada loucura: "Já que sois um espírito tão forte e seguro de vós mesmo, lhe disse, não recusareis trazer o que estou para dar-vos".
   - De que se trata? perguntou secamente Afonso. - "Respondi-lhe  mansamente - disse Bussière, trata-se simplesmente desta medalha". Era a medalha milagrosa de Nossa Senhora das Graças. Recusou-a Afonso com um misto de indignação e de espanto.
   "Mas - acrescentou o barão Bussière friamente - segundo o vosso modo de ver, isto vos deve ser absolutamente indiferente, ao passo que para mim trará um grandíssimo prazer". - "Oh! - exclamou Afonso rindo a bom rir, a bandeiras despregadas - "então a trarei por mera complacência para mostrar-vos que é sem razão que acusam os judeus de obstinação e de invencível teimosia. Além disso me fornecereis um belíssimo capítulo para as minhas notas e impressões de viagem".
   "E, prossegue  o barão, "Ratisbonne continuava com motejos que me ralavam o coração... Entretanto, passei-lhe ao pescoço uma fita à qual minhas netinhas tinham pregado uma medalha. Mas restava-me ainda uma coisa mais difícil de obter: queria que ele recitasse a piedosa invocação de São Bernardo: "Lembrai-vos, ó piíssima Virgem Maria..." Revoltou-se ao ouvir este segundo pedido. "Mas uma força interior impelia-me, prossegue B. de Bussuère, a lutar contra as suas reiteradas recusas com uma espécie de obstinação. Apresentei-lhe a oração suplicando-lhe que a trouxesse consigo e que tivesse a bondade de copiá-la porque eu não dispunha de outro exemplar". Então, com um movimento de impaciência e ironia, para se ver livre das minhas importunações, disse ele: "Bem! eu escreverei; dar-vos-ei a minha cópia e conservarei a vossa". E retirou-se visivelmente contrariado.
   Afonso cumpriu a palavra; copiou a oração, leu-a e releu-a tantas vezes que já a sabia de cor. As palavras de "Memorare" não lhe saíam da memória.
   No dia 20 de Janeiro, festa de São Sebastião, Afonso ainda se achava em Roma, onde o retinha uma força misteriosa. Ao meio dia conversou num café com dois amigos. "Se neste momento - diz ele - um terceiro interlocutor  se tivesse aproximado de mim e me tivesse dito: "Afonso, dentro de um quarto de hora adorarás Jesus Cristo, teu Deus e teu Salvador... e renunciarás ao mundo, a suas pompas, a seus prazeres, a tua fortuna, a tuas esperanças, a teu futuro, e se for necessário renunciarás ainda a tua noiva, à afeição da tua família... Digo que se algum profeta me tivesse feito semelhante predição, só a um homem eu julgaria mais insensato que ele, e seria aquele que tivesse dado crédito à possibilidade de tal loucura".
   Era 20 de Janeiro de 1842. Ratisbonne acha-se ainda em Roma. Saindo de um Café onde acabara de conversar com dois amigos, encontra uma carruagem: é do Barão de Bussière que o convida para dar um passeio. Afonso, sem muito entusiasmo, mais para não fazer uma descortesia àquele do qual pouco antes tinha sido hóspede, aceita o convite. Acharam-se logo diante da igreja de Santo André delle Fratte. O piedoso conde de Laferronays devia receber as honras fúnebres e o Barão de Bussière fora encarregado de reservar uma tribuna para a família do defunto.
   "Será coisa de dois minutos, diz ele a Afonso que, durante este tempo resolve visitar a igreja. Esperava-o nesta igreja a misericórdia de Maria Santíssima. Soara a hora da graça que desde a conversa no café, já trabalhava suavemente em sua alma. A Mãe de Deus se deixara comover pelas orações do barão de Bussière , do conde de Laferronays que morrera repentinamente depois de ter dito à sua esposa: "Repeti hoje mais de cem vezes o Lembrai-vos", e sobretudo pelas orações e lágrimas ardentes que em seu Santuário derramava seu diletíssimo servo o Padre Teodoro, irmão de Afonso Ratisbonne.
   Tenta Afonso descrever o que então se passou em sua alma: "Esta igreja é pobre e deserta; creio que nela me achei mais ou menos só... Nenhum objeto de arte atraiu a minha atenção... Subitamente nada mais vejo... ou antes, ó meu Deus, vejo uma só coisa! Como seria possível falar do que vi? Oh! não, a palavra humana não deve tentar exprimir o que se não pode exprimir; toda descrição, por sublime que seja, não seria mais que uma profanação da inefável realidade..."
   Tornando à igreja, Barão de Bussière não encontra Afonso onde o havia deixado, mas ajoelhado diante da capela de São Miguel Arcanjo e de São Rafael, submergido em profundo recolhimento.
   "A esta vista, pressentindo um milagre, depõe o barão, apoderou-se de mim um frêmito religioso. Dirijo-me a ele, agito-o várias vezes sem que ele dê conta da minha presença. Afinal, voltando para mim seu rosto banhado de lágrimas, junta as mãos e me diz: "Oh! como este senhor rezou por mim!"
   Compreendi logo que se tratava do falecido Conde de Laferronays. Amparado, quase levado por mim, sobe à carruagem. Onde quereis ir? pergunto-lhe eu.
    _ "Levai-me para onde quiserdes. Depois do que vi, obedeço".
   Declara-me em seguida que só falará com o consentimento de um padre, porque o que eu vi - acrescenta ele - só o posso dizer de joelhos".
   Conduzido à igreja do Jesú, dos padres jesuítas, ao lado do padre Villefort que o convida a explicar-se, tira Afonso a medalha, abraça-a, mostra-a e exclama: "Eu a vi! Eu a vi!... Havia uns instantes que eu estava na igreja, quando repentinamente me senti dominado por uma turbação inexprimível. Ergui os olhos; todo o edifício desparecera à minha vista; só uma capela tinha, por assim dizer, concentrado toda a luz; e, no meio desta irradiação, apareceu, em pé sobre o altar, grande, brilhante, cheia de majestade de doçura a Virgem Maria, tal qual está em minha medalha; uma força irresistível atraiu-me para ela. A Virgem com a mão me fez sinal para que me ajoelhasse. Pareceu dizer-me: "Está bem! Não me falou nada, mas eu compreendi tudo".
   Mais tarde dirigiu-se Afonso à Basílica de Santa Maria Maior a fim de agradecer a sua celeste benfeitora o grande benefício recebido.
   Ao entrar na capela de Nossa Senhora, exclamou: "Oh! como estou bem aqui! Gostaria de ficar aqui para sempre: parece-me que já não estou na terra!"
   Ao fazer a visita ao Santíssimo Sacramento, por pouco não desfaleceu. Apavorado, exclamou: "que coisa horrível estar na presença do Deus vivo sem ser batizado!"
   Afirma o Padre Roothan, geral da Companhia de Jesus, que "depois da sua conversão o senso da fé nele se manifestava de modo tão intenso que lhe fazia sentir, penetrar e reter tudo o que lhe era proposto, tanto que em pouco tempo o julgaram suficientemente instruído para receber o santo Batismo".
   Ratisbonne recebeu sem dúvida uma assistência toda especial de Deus e da Santíssima Virgem.
   A 31 de Janeiro, 11 dias após a aparição, Afonso Ratisbonne abjura solenemente a maçonaria e recebe o batismo na igreja do Gesú das mãos do cardeal Patrizzi. O vasto e suntuoso templo estava repleto. Ali se encontrava o escol da sociedade romana e estrangeira. Acompanhado pelo Padre Villefort e por seu padrinho, o barão de Bussière, Afonso foi levado à porta da igreja. Vestido de uma longa túnica de damasco branco, trazia o Terço e a medalha de Nossa Senhora nas mãos.
   - Que pedes à Igreja de Deus? pergunta-lhe o oficiante.
   - A fé!
   Ah! diz uma testemunha ocular dessa cena majestosa, já tinha a fé católica aquele a quem a estrela da manhã iluminara com os seus raios.
   Afonso beija a terra e fica prostrado até ao fim dos exorcismos.
   Levanta-se e, guiado pelo pontífice, encaminha-se para o altar entre as bênçãos de uma imensa multidão que respeitosamente se abre à sua passagem.
   Perguntam-lhe qual é o seu nome.
   - Maria! responde num arrebatamento de amor e de gratidão.
   - Que desejas?
   - O batismo.
   - Crês em Jesus Cristo?
   - Creio!
   - Queres ser batizado?
   - Quero!
   Com um sorriso de celeste beatitude levantou sua cabeça ainda umedecida da água batismal. Acabava de transpor um abismo: era cristão.
   Afonso, cheio de Deus, radicalmente transformado pela graça, deixa o mundo e entra na Companhia de Jesus. Nela viveu dez anos vida exemplar e só a deixou, desfeito em lágrimas, para fazer a vontade de Deus que o queria ao lado do seu irmão, o Padre Teodoro, para com ele trabalhar numa obra tão grata ao mesmo Deus e de tanta relevância, qual é a da conversão dos judeus.
   O piedoso Padre Maria Afonso Ratisbonne nunca se esqueceu de sua Mãe amantíssima que o arrancou das trevas da incredulidade para os esplendores da verdadeira fé.
   Inclinava-se profundamente sempre que ouvia no canto das ladainhas a invocação: "Refúgio dos pecadores, rogai por nós!"
   Os que o ouviam falar da sua Mãe Celeste adivinhavam o que se passava no seu coração; seu olhar fulgurante parecia que ainda contemplava a mais bela e a mais pura das virgens.
   A medalha milagrosa, que exercera papel preponderante em sua conversão, era o seu mais caro tesouro. Julgou um dia que a havia perdido; sua aflição foi extrema; parecia-lhe que fora abandonado pela Virgem misericordiosíssima. Suas lágrimas não cessaram de correr até que a encontrou.
   Maria Santíssima foi a sua consolação em todas as penas e seu grande motivo de esperança em todas as provações. Dizia que Maria Santíssima não é outra coisa que uma mão de Deus, não a mão que castiga, mas a mão das misericórdias.
    Dizem os historiadores que quando o Padre Ratisbonne pregava sobre Nossa Senhora, todos os ouvintes se comoviam, muitos pecadores se convertiam. Leiam por gentileza o próximo post deste blog e verão a conversão mais importante que o Padre Maria Afonso obteve por intercessão de Maria Santíssima.
   Caríssimos leitores, possa esse episódio tão comovente, que acabais de ler, reavivar em vossos corações a chama da devoção a Santíssima Virgem Maria.
   Se quisermos assegurar o único bem desejável que é a eterna salvação de nossa alma, vivamos, como bons filhos, no Coração maternal de Maria Santíssima.
   Os que a ela recorrem não deixam de ser ouvidos; os que choram em seu regaço materno não deixam de ser consolados e os que nela depositam inteira confiança e evitam tudo o que possa magoar-lhe o coração, nada têm que temer nem na vida nem na morte.
   A devoção sincera a Maria Santíssima é penhor seguro de salvação. Deus quis que por ela tivéssemos Jesus. E Jesus é a nossa salvação. Por isso o pedido que nos faz a Nossa Mãezinha do Céu é este: "Não ofendam mais o meu Filho!!!"
NB: As coisas aqui narradas foram quase integralmente extraídas do livro: "O caminho que leva para Deus" do Pe. Arlindo Vieira, S. J.    

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

NOTAS DA VERDADEIRA IGREJA

Por Dom Antônio de Castro Mayer na "INSTRUÇÃO PASTORAL SOBRE A IGREJA" escrita em 2 de março de 1965.


 


O que vimos expondo permite-nos indicar as características da verdeira Igreja. Ela é: UNA, SANTA, CATÓLICA, APOSTÓLICA e ROMANA.

   UNA, pela unidade de doutrina, de Sacrifício, de Sacramentos e de governo; una pela unidade do Espírito Santo, alma da Santa Igreja; una, outrossim, porque não pode haver outra que seja realmente Igreja de Cristo.

   SANTA, porque consagrada a Deus Nosso Senhor; santa, porque Corpo Místico de Cristo, que participa da santidade de sua Cabeça; santa, porque somente n'Ela se encontra o legítimo Sacrifício, e os Sacramentos, canais da graça e da santidade; como corolário destes dons, santa pelo catálogo imenso de almas eleitas que na Igreja subiram aos excelsos graus da santidade, e hoje são nossos intercessores junto ao trono de Deus.

   CATÓLICA, porque não é limitada a um povo, a uma raça, a uma estirpe, a uma língua ou nação, mas estende-se pelo universo inteiro, destina-se a todos os homens de qualquer região, origem ou condição social; católica, porque não se limita no tempo, mas recebe no seu seio todos os fiéis, desde Adão e os que viveram na esperança do Reino messiânico, até os que existirão no fim do mundo; católica, também, porque necessária a todos os homens: como fora da Arca de Noé ninguém pôde fugir ao dilúvio; assim, fora da Igreja, ninguém encontra a salvação.

   APOSTÓLICA, porque fundada sobre São Pedro, Príncipe dos Apóstolos, e governada por ele e os demais Apóstolos, ainda hoje vive sob o governo de seus legítimos Sucessores; apostólica ainda porque sua doutrina é a mesma que pregaram os Apóstolos, a qual se conserva intacta, sempre igual a si mesma, porquanto não muda, apenas no decorrer dos séculos seu conhecimento mais se aprofunda.

   ROMANA, porque dirigida pelo Bispo de Roma, legítimo Sucessor de São Pedro, sobre quem edificou Jesus Cristo sua Igreja, à qual deu uma estrutura monárquica; pois é o Papa o Chefe da Igreja e, como tal, o sinal e a causa da unidade visível da sociedade sobrenatural, internamente dirigida e vivificada pelo Espírito Santo.

   Qualquer igreja que se apresente sem uma apenas dessas notas características, podeis, amados filhos, rejeitá-la porque não é a Igreja de Cristo. 

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

A falsa noção de fé dos modernistas

   Com a graça de Deus, procurarei resumir da melhor maneira possível o que diz São Pio X na Encíclica "Pascendi Dominici Gregis".
     O modernista filósofo: Tudo está ligado ao agnosticismo. A razão humana é reduzida à consideração dos fenômenos, isto é, só considera as coisas perceptíveis e pelo modo como são perceptíveis. A razão, pois, não pode elevar-se a Deus, nem reconhecer-lhe a existência, nem mesmo por intermédio dos seres visíveis. Daí a teologia natural, os motivos de credibilidade, a revelação externa são alijados para o intelectualismo, que constitui um sistema ridículo, morto já há muito tempo. Este erro foi condenado pelo Concílio Vaticano I, como já vimos alhures. 
    Consequência destes falsos princípios: Deus fica repelido, como também tudo o que é divino. A ciência deve ser ateia e juntamente com a história, tudo comanda.
    Na doutrina modernista, este agnosticismo constitui apenas a parte negativa. A parte positiva do sistema modernista é a chamada imanência vital. A religião não deve ser procurada fora do homem, mas no mesmo homem; pois a religião não é de fato senão uma forma da vida. Daí a imanência religiosa. A primeira moção de todo fenômeno vital, deve ser sempre atribuída a uma necessidade: os primórdios, porém, devem ser atribuídos a um movimento do coração, que se chama sentimento. Aqui está uma palavra chave dos modernistas. Porque, como o objeto da religião é Deus, devemos concluir que a fé,(princípio e base de toda religião), se deve fundar em um sentimento, nascido da necessidade da divindade. Esta necessidade, dizem os modernistas, está oculta sob a consciência, isto é, na subconsciência. Desta necessidade que está na subconsciência brota ou rebenta a religião. Como? Dizem os modernistas: "A ciência e a história, acham-se fechadas entre dois termos: um externo, que é o mundo visível; outro interno, que é a consciência. Chegados a estes dois termos, não se pode ir além: é o incognoscível. Diante deste incognoscível, aquela necessidade de algo divino, sem intervenção da inteligência, gera um sentimento  particular, este traz em si a mesma realidade divina e assim une o homem com Deus. Aí está a fé modernista. E é princípio de religião. E nesta fé e com esta mesma fé, está também a revelação. Daí toda religião é igualmente natural e sobrenatural. 
   Os modernistas ressaltam uma coisa: Aquele incognoscível não se apresenta à fé como que nu e isolado; mas intimamente unido a algum fenômeno, que, de certo modo transpõe os limites da ciência e da história. Este fenômeno poderá ser um fato qualquer da natureza, contendo em si algum quê de misterioso, ou poderá também ser um homem, cujo talento, cujos atos, cujas palavras parecem nada ter de comum com as leis ordinárias da história. A fé, pois, atraída pelo Incognoscível unido ao fenômeno, apodera-se de todo mesmo fenômeno e de certo modo o penetra da sua vida. Donde se seguem duas coisas: a primeira é uma certa transfiguração do fenômeno, por uma espécie de elevação das suas próprias condições, que o torna mais apto, qual matéria, para receber o ser divino. A segunda é uma desfiguração, resultante de que, tendo a fé subtraído ao fenômeno os seus adjuntos de tempo e de lugar, facilmente lhe atribui aquilo que em realidade não tem; o que particularmente se dá em se tratando de fenômenos de antigas datas, e isto tanto mais quanto mais remotas são elas. Destes dois pressupostos, os modernistas deduzem outros tantos cânones que, unidos a um terceiro já deduzido de agnosticismos, constituem a base da crítica histórica. Por exemplo: Na pessoa de Jesus Cristo, dizem os modernistas, a ciência e a história não acham mais do que um homem. Portanto, em virtude do primeiro cânon deduzido do agnosticismo, da história desta pessoa se deve riscar o que tem sabor de divino. Ainda mais, por força do segundo cânon, a pessoa histórica de Jesus Cristo foi transfigurada pela fé; convém despojá-la de tudo o que a eleva acima das condições históricas. Finalmente, a história mesma também foi desfigurada pela fé, em virtude do terceiro cânon; logo, se devem remover dela as falas, as ações, tudo enfim que não corresponde aos seu caráter, condição e educação, lugar e tempo em que viveu.
   O sentimento religioso, que por imanência vital surge dos esconderijos da subconsciência, é pois o germe de toda a religião e a razão de tudo o que tem havido e haverá ainda em qualquer religião. Assim todas as religiões estão no mesmo nível. Pois, todas não passam de explicações deste sentimento religioso. Todas nascem do processo da imanência vital. A religião católica, nasceu deste processo de imanência vital na consciência de Cristo, homem de natureza extremamente privilegiada. Afinal, a religião é fruto inteiramente espontâneo da natureza.
    Para os modernistas, a inteligência tem também a sua parte no ato de fé. Mas como? O homem religioso deve pensar a sua fé. Primeiro: exprime a sua noção por uma proposição simples e vulgar; depois, elaborando o seu pensamento, exprime o que pensou com proposições secundárias. Justamente estas proposições secundárias, se forem sancionadas pelo supremo magistério da Igreja, passam a ser dogmas.
    Estas fórmulas que constituem o dogma são simples símbolos, e não exprimem uma verdade absoluta.  Porque elas também dependem do sentimento religioso que está sujeito a vicissitudes. Donde devem também variar. É este o ponto de chegada desejado pelos modernistas: a EVOLUÇÃO DO DOGMA. 

sábado, 7 de novembro de 2015

FLORES DA EUCARISTIA

Leitura espiritual  -  7 de novembro

   Agar, no deserto, chorava por não poder refrigerar e nutrir seu filho, prestes a expirar de inanição.

   A Sinagoga, as seitas protestantes, são as mães impotentes para acudir às necessidades de seus filhos, que pedem pão e ninguém possui para dar-lhes.

   A Igreja, porém, recebe todos os dias o pão do céu para cada um de seus filhos: Quantum isti, tantum illi. É o pão dos anjos, o Pão dos reis.

   Seus filhos se tornam belos, então, como o Pão de que se nutrem; são fortes, alimentados com o trigo dos eleitos. Têm o direito de tomar parte diariamente no festim real; para isto as mesas estão sempre preparadas na Igreja, que os convida, instando para que venham haurir a força e a vida.

   Nosso Senhor disse: "Aquele que come a minha carne tem a vida".

   E que vida? A própria vida de Jesus. "Como o Pai, que vive, Me enviou,  como Eu vivo por meu Pai, assim também aquele que come a minha carne viverá por Mim".

   Quando temos Jesus em nós, somos dois e o fardo assim repartido é leve. E São Paulo também dizia: "Posso tudo naquele que me conforta" e Aquele que o conforta assim é Aquele que vive nele como em nós, o Cristo Jesus. 

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

FLORES DA EUCARISTIA

Leitura espiritual  -  6 de novembro

   É por meio da Eucaristia que a Igreja é poderosa e fecunda; seus filhos são inúmeros e se espalham por toda terra; e os missionários, diariamente dão-lhe novos filhos.

   É que a Igreja deve ser a mãe do gênero humano. E donde lhe vem a fecundidade? Será do Batismo, da Penitência? Estes sacramentos, sem dúvida, comunicam ou restituem a vida. Que fazer, porém, aos filhos recém-nascidos pela água da regeneração divina? Alimentar e educar. É necessário desenvolver e fazer frutificar o gérmen divino que eles têm em si.

   Ora, é pela Eucaristia que a Igreja forma Jesus Cristo em seus filhos. A Eucaristia é o pão vivo com que lhes entretém a vida sobrenatural, e o meio de que se serve para educá-los, pois somente na Eucaristia as almas encontram a abundância de luz e de vida, a força de todas as virtudes.

   A educação que Nosso Senhor faz em nós pela Comunhão conduz ao amor, nos incita a praticar inúmeros atos de amor, e nisto se encerram todas as virtudes. Pela demonstração íntima e refulgente de seu amor para conosco, Jesus nos impele a amá-Lo; convence-nos de que nos dá tudo o que tem, tudo quanto é; força-nos amá-Lo pelo excesso de sua caridade para conosco. 

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

O PAPA HONÓRIO I E SÃO MÁXIMO, O CONFESSOR

   Honório I foi um papa legitimamente eleito em 625 e que governou a Santa Igreja até sua morte que se deu no ano de 638. Portanto governou a Igreja durante 13 anos.Na lista dos papas legítimos da Igreja, Honório I ocupa o 70º lugar. Dizem os historiadores que ele foi um ótimo administrador. Reconstruiu o Aqueduto de Trajano e o teto da Basílica de São Pedro construída por Constantino. Transformou muitos ambientes pagãos em igrejas cristãs. O essencial, porém, é que um papa seja um muro de bronze contra as heresias. Mas, infelizmente, não o foi.
   Baseada nas Sagradas Escrituras e na Tradição a Teologia Católica sempre ensinou que em Jesus Cristo há uma só pessoa (a Pessoa Divina do Filho de Deus); mas são duas naturezas, a divina e a humana, que tem cada uma sua vontade e sua operação; de sorte que há em Jesus Cristo duas vontades e duas operações, isto é, a vontade e a operação divina, a vontade e a operação humana.
   A heresia que ensinava haver em Jesus Cristo uma só vontade e uma só operação, chamava-se Monotelismo. E os seus principais chefes foram dois Bispos e Patriarcas: Sérgio e Pirro. É bom saber que Patriarca era a maior autoridade no Oriente. O Bispo Sérgio era Patriarca de Constantinopla; e o Bispo Pirro era Patriarca de Alexandria. Diz São João Bosco que estes dois hereges empregaram toda sorte de meios para arrastar o Papa Honório I a seu erro. E também o Imperador que, na época, era Constante, favorecia os hereges. Para este fim o Bispo Patriarca Sérgio escreveu uma carta mui subtilmente insidiosa ao Papa Honório I. Nesta carta o Bispo Patriarca Sérgio dizia que, em vista da efervescência de opiniões, seria coisa muito prudente para se evitar tais discussões e escândalos, proibir que se afirmasse haver em Jesus Cristo uma só vontade e operação ou duas, e que se impusesse silêncio a respeito. E o Papa Honório I não tendo advertido o laço que lhe havia armado o Bispo e Patriarca Sérgio, aprovou como prudente o silêncio aconselhado por este herege. O Papa Honório I em duas cartas dirigidas ao Bispo Sérgio (Cf. D. 251 e 252) além de expor a doutrina de maneira ambígua (sobre as duas vontades em Jesus Cristo) cai também na cilada do Bispo e Patriarca Sérgio. Eis, em resumo, o que escreveu o Papa Honório I nestas cartas ao Bispo e Patriarca de Constantinopla: 1º - a ambigüidade: Ele afirma que em Jesus Cristo há uma só vontade. A primeira vista e não lendo todo o contexto, e, sobretudo, escrevendo para o Bispo Sérgio que erradamente dizia haver uma só vontade em Jesus Cristo, esta afirmação de Honório I parecia herética. Mas, na verdade, ele queria apenas dizer uma vontade moral, e não física; em outras palavras, ele queria dizer que em Jesus Cristo não podia haver duas vontades contrárias, como acontece conosco pecadores, em que pela concupiscência encontram-se em nós a vontade do espírito e a vontade da carne. Então todos os teólogos dizem que no contexto a doutrina era ortodoxa, mas dado o contexto histórico, ou seja, naquelas circunstâncias, o Papa Honório I deu ocasião para ser mal interpretado, ou melhor dizendo, ele deu azo para ser malevolamente interpretado pelos hereges monotelitas.
   Além desta falha, ou seja a ambigüidade, que é sempre um mal, mas que se torna mais desastrosa na época de heresia, Honório I teve uma outra falha não menos perniciosa: foi negligente e consequentemente imprudente, fazendo não o que os teólogos ortodoxos, como São Máximo monge e São Sofrônio bispo, ensinaram segundo a Tradição e as Sagradas Escrituras, mas deu ouvidos com facilidade, para não dizer com displicência, aos Bispos e Patriarcas hereges Sérgio e Pirro.
   Eis algumas de suas palavras: "Não nos devemos preocupar em dizer ou entender que em Jesus Cristo, por causa das obras da divindade e da humanidade, seja uma ou duas operações. Deixamos estas coisas para os gramáticos discutirem... Nós, porém, não percebemos pelas Sagradas Escrituras, se (em Jesus Cristo) é uma ou se são duas operações, mas vemos que Ele opera de muitas maneiras."... "Portanto, para evitar o escândalo de uma nova invenção, não nos interessa pregar definindo se é uma ou se são duas operações". E depois o Papa Honório I diz que se pode falar em duas naturezas, mas não se deveria empregar a expressão "duas operações". Em latim está assim: "ablato geminae operationis vocabulo".
   Agora vejamos a atitude de São Máximo, o Confessor. Na verdade, não foi só ele que não obedeceu ao Papa Honório I, mas, entre muitos outros podemos citar ainda: São Sofrônio que era Bispo e dois discípulos de São Máximo ambos chamados Anastácio. Um era núncio do Papa, e o outro era monge. Mas vamos falar só de São Máximo, o Confessor. D. Antônio de Castro Mayer na sua carta pastoral "Aggiornamento e Tradição" diz: "Entre os que continuaram a ensinar as duas vontades em Jesus Cristo está o grande São Máximo, chamado o Confessor porque selou com o martírio sua fidelidade à doutrina católica tradicional".
   São Máximo se tornou um dos homens mais sábios do século VII. Sua capacidade era tanto mais notável quanto a cobria uma grande humildade.
   Embora em consciência viu claramente que não podia obedecer ao Papa Honório I, no entanto, nunca lhe faltou o respeito, e na medida do possível, procurou até defender o Papa Honório I. Por exemplo, numa carta a um padre chamado Marino, São Máximo faz ver que os Santos Padres da Igreja reconhecem em Jesus Cristo duas vontades e diz: "Eu estou mesmo persuadido de que o Papa Honório, falando em sua carta a Sérgio de uma vontade, não negou as duas vontades naturais, mas ao contrário, as estabelece. Pois ele somente negou a vontade carnal e viciosa. A razão que dá prova-o, isto é, que a divindade tomou nossa natureza e não nosso pecado".
   São Máximo, apesar da proibição do Papa Honório I, teve uma disputa pública com o Bispo Pirro, Patriarca de Alexandria, e companheiro de heresia do Bispo e Patriarca Sérgio. Pois bem! São Máximo conseguiu refutar o Bispo Pirro e este terminou abjurando a heresia do monotelismo. Mas, talvez influenciado pelas fraquezas que teve o papa Honório I, infelizmente recaiu na heresia.
   Como acontecera com o Arianismo, favorecido pelo Papa Libério (embora isto seja nebuloso) e pelos imperadores, e, por outro lado, combatido por mais de quarenta anos seguidos por Santo Atanásio, o Monotelismo foi favorecido pelo Papa Honório I e também pelos imperadores.
   Quase 1200 anos mais tarde, se discutia no Concílio Vaticano I, a proclamação do dogma da Infalibilidade papal, e os adversários da definição, puseram sobre o tapete a chamada questão de Honório I, e se procedeu a um estudo de todas as fontes documentais e se rechaçou a objeção como infundada.
   1º - A defesa de Honório I, feita pelo próprio São Máximo, como já vimos.
   2º- A defesa feita por alguns papas. Por exemplo: o Papa João IV (640-642) dá, das palavras de seu antecessor o papa Honório I, a mesma explicação dada por São Máximo, que referimos acima.
   3º - A maior objeção contra Honório I, foi o III Concílio de Constantinopla, que foi o VI Concílio Ecumênico na Igreaja (680). Neste Concílio os bispos (que eram em número de 160) condenaram os monotelitas como hereges e entre eles o papa Honório I. Mas é preciso lembrar uma verdade básica sobre um Concílio Ecumênico. E é o seguinte: Os bispos num Concílio Ecumênico são infalíveis em questão de fé e moral. Mas não podemos esquecer que para tanto é absolutamente necessária a confirmação do Papa. Do contrário não é infalível. Pois bem! O que aconteceu neste Concílio de Constantinopla III? Todos os bispos condenaram o Papa Honório como herege. Mas o Papa São Leão II, não aprovou esta condenação de Honório I como herege. É certo que aprovou a condenação dos monotelitas como hereges. Mas quanto ao Papa Honório I, aprovou a sua condenação, ou seja, o lançamento do anátema, não por ter sido herege, mas por ter favorecido a heresia por sua ambiguidade, negligência e omissão. Eis então a condenação do Papa Honório I feita pelo Papa São Leão II: "Anatematizamos também Honório (Papa) que não ilustrou esta Igreja Apostólica com a doutrina da tradição apostólica, mas permitiu, por sua traição sacrílega, que fosse maculada a fé imaculada (...) "e não extinguiu, como convinha à sua autoridade apostólica, a chama incipiente da heresia, mas a estimulou por sua negligência". ( Denz-Sch. 563 e 561).
   O Papa Adriano II diz que Honório I foi condenado pelos bispos orientais como herético. Sabemos que os bispos reunidos no 3º Concílio de Constantinopla realmente incluíram o papa Honório I na condenação dos monotelitas como hereges. Mas, como acabamos de ver, a decisão de um Concílio mesmo Ecumênico, depende da aprovação do Papa. E São Leão II aprovou o anátema contra os monotelitas por serem heréticos, mas, quanto ao papa Honório I, lançou um anátema em separado, ou seja, como favorecedor de heresia por ambiguidade, negligência e omissão. E, em um papa, estas faltas são realmente merecedoras de anátema.
   Vamos resumir aqui as falhas do Papa Honório I:
   1º - O Papa Honório I foi ambíguo em expor a verdade. E isto é objetivamente muito grave da parte de um papa. E se torna mais grave ainda se a ambiguidade é sobre uma verdade pregada pela Tradição da Santa Igreja e que está sendo negada pelos hereges como foi o caso. E vejam bem, caríssimos leitores. Apesar de alguns papas sucessores de Honório I terem procurado dar a interpretação ortodoxa da exposição ambígua de Honório I, no entanto, a heresia continuou, alimentada sempre pela fraqueza de Honório I. A ambiguidade é como algo inflamável. Mas, se uma tubulação de gaz está com algum vazamento, é claro que as pessoas de bem evitarão qualquer faísca; mas, não faltará um terrorista para lançar de propósito a faísca.  Então, não é suficiente, colocar um aviso alertando para o perigo. Chama-se imediatamente o Corpo de Bombeiros para eliminar o vazamento. Na verdade, o papa Honório I fora ambíguo. Não resolveu o problema o fato de alguns papas sucessores de Honório alertarem para não se lançar nenhuma faísca herética. Mas a ambiguidade continuava. Consequentemente também o perigo. Então, que fez o Papa Leão II. Eliminou a causa, eliminou a mal pela raiz. Condenou o Papa Honório I pela sua ambiguidade e negligência. E, assim, a heresia do Monotelismo só acabou mesmo depois que São Leão condenou expressamente e de maneira enérgica, as falhas de Honório I. E, para sermos mais preciso, a heresia ainda sobreviveu alguns poucos anos após a condenação de Honório  feita pelo Papa São Leão II; mais ou menos como uma roda de uma máquina que, mesmo depois de desligada da energia elétrica, ainda trabalha mais um pouco pelo impulso anteriormente recebido. É bom, caríssimos leitores, para se avaliar melhor o mal que Honório I causou à Igreja, saber que a heresia do Monotelismo durou mais de 40 anos. O papa Honório I morreu no ano de 638 e o Papa São Leão II condenou-o no ano 680.
   2º- Além da ambiguidade, a segunda falha do Papa Honório I foi a imprudência.
   Se o pastor e guia, não vigia, ai do rebanho!!! Os hereges, sobretudo os saídos da própria hierarquia da Igreja (e a maioria o é) são astutos, são lobos com peles de ovelha. Então, o guia supremo da Igreja, o Papa, deve estar muito atento para não cair nas ciladas dos seus inimigos. Aliás, não é precisamente isto que a Santa Madre Igreja nos ensina a rezar?! ..."et non tradat eum in animam inimicorum ejus"? (Oração pelo Sumo Pontífice na bênção do SS. Sacramento). E pedimos a Deus na Ladainha de Todos os Santos: "Para que Vos digneis conservar em santa Religião o Sumo Pontífice".
   Como diz São Leão II, a atitude de Honório I foi uma "traição sacrílega", porque, como papa, ele tinha obrigação de vigiar e, notando que a fumaça, ou melhor, a chama de Satanás estava começando, ele, como autoridade apostólica e suprema, tinha o grave dever de extingui-la inteira e imediatamente; e, não só não o fez, mas alimentou esta mesma chama com a ambiguidade e negligência e, sobretudo tendo a fraqueza de impor silêncio aos santos e doutos homens da Igreja, São Máximo e São Sofrônio que defendiam a verdade contra os bispos e patriarcas hereges. Ainda bem que estes homens, hoje canonizados pela Igreja, não obedeceram ao Papa Honório I. Não faltaram o respeito ao Papa Honório I, que favorecia a heresia; nem tão pouco caíram no SEDEVACANTISMO.
   Para terminar,vejamos as lições que nos dá São Máximo, o Confessor: Quando um papa, por sua negligência e/ou imprudência, favorece a heresia, em consciência diante de Deus, não podemos obedecer; não podemos segui-lo. Aí, devemos obedecer antes a Deus que aos homens. O Papa Honório I proibiu que se falasse em duas operações em Jesus Cristo. São Máximo não obedeceu e continuou pregando a verdade da Tradição. Talvez, na época, o monge Máximo fosse considerado desobediente e rebelde. Mas hoje sabemos que um papa e aliás, um papa santo, ou seja São Leão II condenou o Papa Honório I como Traidor da Tradição; e o monge Máximo foi canonizado pela Igreja e recebeu o epíteto de "o Confessor". De fato desobedeceu ao Papa, para confessar a Tradição.
   O que o Papa Honório I fez moralmente contra São Máximo, fê-lo também fisicamente o Imperador que era monotelita. Este também proibiu São Máximo de continuar pregando que em Cristo há duas operações e duas vontades. Como São Máximo não obedeceu, o imperador mandou o carrasco lançá-lo na prisão, açoitá-lo e finalmente mandou cortar-lhe a língua e a mão direita.
   São Máximo é venerado na Igreja como mártir e "o Confessor" no dia 13 de agosto.
   Caríssimos e amados leitores, invoquemos a São Máximo que nos obtenha junto a Nosso Senhor Jesus Cristo as luzes e a força necessárias para defendermos a Santa Madre Igreja contra as ciladas dos modernistas, contra a fumaça de Satanás, contra a autodemolição desta amada "Esposa de Nosso Senhor Jesus Cristo". Peçamos, outrossim, a Nosso Senhor Jesus Cristo que nos livre do Sedevacantismo; que nos livre de toda rebelião contra a autoridade em si. Que nos dê a firmeza para obedecermos antes a Deus que aos homens, quando as autoridades legítimas nos mandarem algo contra a Lei de Deus. Mas, mesmo nestes casos de resistência às autoridades, que Deus, Nosso Senhor, nos guarde de qualquer desrespeito, insulto à autoridade em si mesma. Amém!

FLORES DA EUCARISTIA


Leitura espiritual  -  5 de novembro

   Ao testemunho de sua palavra, a Igreja acrescenta o do exemplo, da fé prática.

   À semelhança de João Batista, que depois de ter indicado o Messias se ajoelhou aos seus pés para atestar a vivacidade de sua fé, a Igreja consagra um culto solene, ou melhor, todo o seu culto à pessoa adorável de Jesus Cristo no Santíssimo Sacramento. 

   Adora Jesus Cristo como Deus presente e oculto na divina Hóstia. Presta-Lhe as honras devidas tão somente a Deus, prostrando-se diante do Santíssimo Sacramento, como a corte celeste ante a Majestade divina. Aqui não há distinções: os grandes e os pequenos, os reis e os súditos, os sacerdotes e os fiéis, todos, instintivamente, caem de joelhos na presença do Deus da Eucaristia. 

   Ah! Em face de uma assembléia de fiéis prostrada aos pés do tabernáculo, somos levados a exclamar: "Aqui há mais do que Salomão; mais do que um Anjo!" Sim, aí está Jesus Cristo em cuja presença todo joelho se dobra no céu, na terra e nos infernos.

   Diante de Jesus Cristo no Santíssimo Sacramento, toda a grandeza se eclipsa, toda a santidade se humilha e se aniquila. 

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

A INFALIBILIDADE - O OBJETO DA INFALIBILIDADE ( IX )

   O objeto da infalibilidade é a matéria em torno da qual a Igreja é infalível. O objeto da infalibilidade pode ser direto ou indireto.
   Objeto direto ou primário: é aquele que contém verdades formalmente reveladas, isto é, verdades que Deus manifestou com palavras da linguagem humana, pelas quais é manifestada com suficiente clareza a intenção divina.
   Objeto indireto ou secundário: é aquele que contém verdades intimamente conexas às verdades reveladas. Estas verdades embora não sejam reveladas em si mesmas, são necessárias, no entanto, para que o depósito da fé seja integralmente guardado, corretamente explicado e eficazmente definido.
   As principais verdades conexas à verdades reveladas são:
   1º - Os preâmbulos da fé.
   2º - As conclusões teológicas.
   3º - Os fatos dogmáticos.
   4º - Os decretos disciplinares quando obrigatórios para toda a Igreja.
   5º - A canonização dos santos quando feita com exame rigoroso.
   6º - A aprovação das Ordens Religiosas.

   O objeto da infalibilidade se deduz do fim que a Igreja procura por seu ensino. O fim da Igreja, é distribuir as verdades que interessam a salvação. Logo, tudo quanto se refere a este ponto, quer direta quer indiretamente, vem a ser objeto da infalibilidade.
   O objeto direto da infalibilidade se encontra nas duas fontes da Revelação: A Sagrada Escritura e a Tradição.
   O objeto indireto da infalibilidade, são todas as verdades não reveladas, mas em conexão tão  íntima com as verdades reveladas, que se tornam indispensáveis para a conservação integral do depósito da fé. São aquelas seis que acabamos de enumerar e que agora, vamos considerar cada uma em particular.

1º - OS PREÂMBULOS DA FÉ
   Muitas verdades de ordem filosófica, ou seja, natural, são pressupostas pelas verdades reveladas. Estas verdades são chamados: "preâmbulos da fé".
   Por exemplo, se você pudesse negar impunemente ao homem a capacidade de conhecer, só pela luz natural da razão (o que faz a filosofia) a existência de Deus, você poderia também negar o dogma católico definido pelo Concílio Vaticano I, segundo o qual devemos crer que é possível tal conhecimento da existência de Deus só pela luz natural da razão. Em outras palavras, se a Igreja não pudesse definir verdades naturalmente conhecidas, de modo algum poderia também guardar o depósito da fé que lhe foi confiado, justamente por causa da relação necessária existente entre as verdades de ordem natural e as verdades reveladas. Esta doutrina está sustentada pelo Concílio Vaticano I contra os Racionalistas.
   Portanto, os preâmbulos da fé não são definíveis porque revelados, mas antes por causa da ligação necessária com as verdades reveladas. 

2º - AS CONCLUSÕES TEOLÓGICAS
   Conclusão teológica é uma proposição que se deduz de duas outras, sendo, a primeira destas, verdade revelada; e a segunda, verdade conhecida pela razão. Por exemplo se eu disser: "Jesus Cristo é verdadeiro homem". (verdade revelada), e se por outra parte eu acrescentar: "Todo homem pode adquirir a ciência pela experiência e pela observação"; e então fazendo um verdadeiro raciocínio através da razão (isto na filosofia se chama "silogismo") eu concluo igual e verdadeiramente das duas afirmações anteriores uma nova verdade. Eis então como se faz o silogismo:
   1ª - "Jesus Cristo é verdadeiro homem" (= verdade revelada).
  2ª - "Ora, todo homem pode adquirir a ciência (= conhecimento de uma coisa), pela experiência e pela observação" (= verdade de razão).
   3ª -  Logo, Jesus Cristo teve a ciência adquirida. Esta conclusão é uma nova verdade que se chama conclusão teológica.

Observação: É teologicamente certo ( não é de fé ) que a Igreja é infalível com relação as conclusões teológicas, mas não é dogma, a não ser que a Igreja termine definindo uma conclusão teológica como dogma. Portanto, quem negasse uma conclusão teológica definida como dogma seria herético. Uma opinião, porém, contrária a uma conclusão teológica ainda não definida pela Igreja, seria classificada como opinião "errônea".

FLORES DA EUCARISTIA

Leitura espiritual  -  4 de novembro


    A missão de João Batista foi anunciar e mostrar o Salvador prometido e preparar-Lhe o caminho.

   A Igreja desempenha igual missão com referência a Jesus-Eucaristia, missão mais ampla e mais constante, que abraça todos os países e todas as idades, e que ela desempenha mostrando Jesus no Santíssimo Sacramento.

   A Igreja se apresenta a nós com as palavras de Jesus Cristo nos lábios, repetindo-as e explicando-as com a mesma autoridade do Salvador: "Isto é meu Corpo, isto é meu Sangue"; ela nos diz, e devemos acreditar, que pela força divina dessas palavras sacramentais, Jesus Cristo está verdadeira, real e substancialmente presente no Santíssimo Sacramento do altar sob as aparências do pão e do vinho.

   A Igreja nos afirma, e devemos acreditar, que Jesus Cristo, por sua onipotência, transforma a substância do pão em seu Corpo, a substância do vinho em seu Sangue, e que sua Alma e sua Divindade estão unidas ao seu Corpo e Sangue.


   Devemos ainda acreditar que, conforme nos ensina a Igreja, a obra divina da transubstanciação se opera sempre por meio do sacerdote de Jesus Cristo, a quem Ele investiu de seu poder com estas palavras: "Fazei isto em memória de Mim". 

terça-feira, 3 de novembro de 2015

FLORES DA EUCARISTIA

Leitura espiritual  -  3 de novembro


   A vida de uma esposa privada de seu esposo não é mais vida, é agonia e luto. Ao lado de seu esposo, porém, a esposa é grande e forte e alegre; possui o coração do esposo, e sente-se feliz em servi-lo.

   Tal é a Igreja em face da Eucaristia, finalidade de seu amor, centro de seu coração, felicidade e enlevo de sua vida. Por meio de seus filhos, a Igreja vela dia e noite aos pés do Céus do tabernáculo, para honrá-Lo, amá-Lo e servi-Lo. A Eucaristia é o móvel, o fim, a alma de todo o seu culto que, sem ela, desapareceria não tendo mais razão de ser.

   Eis porque as seitas protestantes, que não gozam da presença do Esposo divino abandonam o culto exterior como supérfluo e inútil.


   Oh! como são infelizes os povos que não vivem na Igreja de Jesus Cristo! Assemelham-se aos que, no dilúvio, ficaram fora da arca. Separados da Igreja, são viajores que divagam sem guia no meio do deserto ou em navio sem leme e sem piloto. São filhos desditosos, abandonados na via pública, sem mãe para nutri-los e amá-los. Não tardarão em sucumbir vítimas do frio e da fome!

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

FLORES DA EUCARISTIA


Leitura espiritual   -   2 de novembro

   Uma das razões da instituição da Eucaristia é o amor de Jesus Cristo para com sua Igreja.

   Nosso Senhor desceu do céu para constituí-la, fundá-la, e por ela morreu sobre a cruz. Como outra Eva formada do corpo do segundo Adão, ela nasceu do sangue e água que jorraram do lado aberto de Jesus.

   Toda ação, todo sofrimento de Nosso Senhor, teve por fim conquistar para a Igreja um tesouro infinito de graças e merecimentos de que ela pudesse dispor em benefício de seus filhos.

   Mas, se devendo voltar ao céu após a ressurreição, Jesus se contentasse em deixar a Igreja como depositária de sua verdade e de suas graças, seria ela semelhante a uma esposa enlutada, chorando a perda de seu Esposo divino. Assim não poderia acontecer, nem seria digno do poder e do amor do Salvador.

   Jesus permanecerá com a sua Igreja para ser-lhe vida, poder e glória.

   Se Nosso Senhor não vivesse no seu sacramento, as festas cristãs não passariam de repetidos funerais. Ma a Eucaristia é o sol das festas da Igreja, sol que as ilumina, tornando-as cheias de vida e de alegria. 

   

domingo, 1 de novembro de 2015

FLORES DA EUCARISTIA


Leitura espiritual  -  1 de novembro

   A Eucaristia é a glória da Igreja. Jesus Cristo, seu Esposo, é Rei, e Rei de glória. Seu Pai Lhe colocou sobre a cabeça uma coroa resplandecente. 

   A glória do esposo é a glória da esposa, e a Igreja, como o belo astro das noites, reflete os raios divinos do sol de glória.

   Na presença de Deus-Eucaristia, a Igreja é bela nos dias das festas de seu Esposo, adornada com suas vestes de honra, cantando hinos solenes, convidando todos os filhos a se reunirem para honrar o Deus de seu coração. E Ela se sente feliz de render glória aos seu Rei e ao seu Deus; ao vê-La, ao escutá-La, temos a impressão de havermos sido transportados à Jerusalém Celeste, onde a corte angelical, numa festa perpétua, glorifica o Rei imortal dos séculos.

   A Igreja se apresenta triunfante quando, no dia do Corpo de Deus, faz desfilar suas longas procissões, cortejo do Deus-Eucaristia; adianta-se então como um exército em ordem de batalha, acompanhando o seu chefe, e os reis e os povos, os pequenos e os grandes, cantam a glória do Senhor, que estabeleceu sua morada no meio da Igreja.

   O reinado da Eucaristia é o reinado da Igreja, e onde a Eucaristia é esquecida, a Igreja conta com filhos infiéis, e muito cedo há de chorar uma nova ruína. 

FLORES DA EUCARISTIA

REFLEXÕES PARA O MÊS DE NOVEMBRO

A Santa Igreja católica, apostólica e romana - a única e verdadeira Igreja de Jesus Cristo, - e sua hierarquia.

"Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Dar-te-ei as chaves do reino dos céus; tudo o que ligares na terra será ligado também no céu e tudo o que desligares na terra será também desligado no céu". (S. Mateus, XVI, 18 e 19). 


   Se excluirdes a misericórdia do caráter de Jesus Cristo, Ele deixará de existir.

   A misericórdia é a norma de seus pensamentos, de seus olhares, de suas palavras, de todos os seus atos. Jesus se apresenta sempre revestido de misericórdia, a fim de que todos os pecadores, mesmo os mais culpados e endurecidos se aproximem d'Ele.

   Nas catacumbas, nossos antepassados que viveram ao seu lado, representavam-no sob a figura de Orfeu que, pela harmonia de sua lira, seduzia os animais ferozes, atraindo-os e mantendo-os cativos aos seus pés.

   Assim também Nosso Senhor atraiu os pecadores que O cercavam então. Gostava de estar no meio deles, e com suas palavras de bondade lhes tocava o coração e restituía a vida: "Vim para os pecadores e as ovelhas  desgarradas!"

   Eis s sua missão, perdoar, salvar, usar de misericórdia. São Paulo diz que o Pai O enviou para mostrar a todos os séculos as riquezas superabundantes de sua bondade e misericórdia.

   Na instituição da Igreja e do sacerdócio Jesus quis perpetuar a sua misericórdia, e a missão dos sacerdotes não é a de conferir atestados de virtude aos justos, mas absolver e consolar os pobres pecadores. 

   

AS BEM-AVENTURANÇAS

   1ª - Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino do céu.

   Modo de falar próprio da língua hebraica. Significa  os que têm espírito de pobreza, isto é, são desapegados das riquezas materiais. Podem existir ricos que tenham espírito de pobreza: são aqueles que não se apegam à fortuna, não depositam nela a sua felicidade e sabem utilizá-la em boas obras. Ao contrário, podem existir pobres sem este espírito de pobreza: se por acaso se julgarem infelizes por estarem desprovidos de bens materiais. Pobres de espírito, portanto, são os humildes, os que não têm apego aos bens da terra, os que voluntariamente renunciaram a eles para mais de perto seguirem a Jesus Cristo. Um pobre, pois, mal satisfeito com sua sorte, dominado pela ambição e pelo orgulho, é um rico de espírito: não é para ele o reino do céu. Do mesmo modo, no seio da abundância e na prosperidade, pode um rico ser pobre de espírito pelo nenhum apego aos bens da fortuna, pelo espírito de caridade e submissão à vontade de Deus. O santo homem Jó é um dos mais belos exemplos desta verdade. Donde concluímos que é uma interpretação despropositada e, portanto, inteiramente errada, aquela que considera a expressão "pobres de espírito" no sentido deprimente de "os tolos, os ignorantes, os que, enfim, são sem capacidade intelectual". É uma interpretação absurda!

   2ª - Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra. 

   Esta expressão significa a recompensa da felicidade do reino do Messias, tanto nesta vida como na vida futura. Os mansos, isto é, os que não murmuram nem se irritam, os que evitam a discórdia, os que sabem perdoar com generosidade as ofensas alheias, aqueles, enfim, que suportam o peso da vida conformados com a vontade de Deus. "Eles possuirão a terra: isto é, o céu, - a terra dos vivos - "terra viventium". Todavia, mesmo neste mundo, a paciência é uma arma poderosa para vencer ainda as maiores resistências. "Pegam-se mais moscas, dizia São Francisco de Sales, com uma gota de mel do que com um barril de vinagre". 

   3ª - Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados.

   Obs.: Na Vulgata e em numerosos manuscritos, aprecem invertidas a 2ª e a 3ª bem-aventuranças. Estou seguindo a Vulgata.

   Bem-aventurados os que choram os seus pecados e os dos seus irmãos. Santas lágrimas que tanta consolação nos merecem no céu. Também as lágrimas que, todos os dias e com tanta abundância, caem dos olhos dos pobres, dos aflitos, dos doentes e abandonados têm bem-aventurança. "Lázaro só teve males na vida, - diz Abraão ao rico epulão, - agora ele é consolado". 

   4ª - Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.

   Ter fome e sede de justiça quer dizer: desejar ardentemente a justiça, que consiste na perfeição moral ou santidade. É a necessidade que sente toda alma boa e reta, todo coração bem formado, de fazer a vontade de Deus, essa vontade de que Jesus fazia o seu alimento: "O meu alimento é fazer a vontade d'Aquele que me enviou". Bem-aventurados os que comem com prazer o Pão (Sua palavra e a Eucaristia) que Jesus lhes apresenta, e bebem, com delícia, a água, que Ele ofereceu à Samaritana, isto é, a graça de Deus, que é como água viva que jorra para a vida eterna. 

   5ª - Bem-aventurados os misericordiosos, porque também alcançarão misericórdia.

   Os misericordiosos, isto é, os que perdoam, os que se compadecem das misérias do próximo, os que choram com os que choram, os que curam as feridas do corpo e da alma daqueles que sofrem; enfim, os justos, bons e dedicados. No último dia, Nosso Senhor será também misericordioso para com eles. 

   6ª - Bem-aventurados os puros de coração, porque eles verão a Deus.

   Puros de coração ou os que têm o coração puro. Aqui não se refere exclusivamente à castidade, mas à isenção de qualquer mancha moral. São os corações desprendidos dos sentimentos carnais e sensuais, sentimentos estes que mancham o corpo e a alma; são os corações abertos a tudo o que é nobre, santo, justo, amável e virtuoso, a tudo o que é louvável nos bons costumes. Esses corações verão a Deus, neste mundo, através das sombras da fé, e no Céu O contemplarão face à face.

   7ª - Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus.

   Os pacíficos, isto é, os que odeiam as discussões, dissensões e demandas injustas; os que buscam, de preferência, tudo o que une e aproxima os corações; os que têm, por assim dizer, o culto dos direitos alheios. Filhos da paz, eles preferem ceder o seu direito, para não defendê-lo com quebra da caridade. São firmes em defender os mandamentos e direitos de Deus, mas o fazem de maneira mansa, suave e caridosa. Não são canas agitadas pelos ventos, nem tão pouco, "filhos do trovão". 

  8ª - Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça, porque deles é o reino do céu. 

   O próprio Jesus explica: "Sereis bem-aventurados, quando os homens vos amaldiçoarem, vos perseguirem e vos expulsarem da sua companhia, vos odiarem, vos carregarem de opróbrios e de injúrias, e repelirem vosso nome com infame por causa do Filho do Homem, e falsamente disserem de vós toda sorte de mal, por minha causa. Alegrai-vos e exultai, porque uma grande recompensa vos está reservada no Céu; assim perseguiram eles o Profetas, que vieram antes de vós".
   A justiça é a causa de Deus. Os perseguidos combatem por Ele, e Ele se encarrega de os recompensar como merecem, e ainda mais do que merecem. 


   Caríssimos, aí está o código sublime da Bem-aventurança eterna. A felicidade que Jesus promete está colocada tão alto que os maus não podem atingi-la, e, ao mesmo tempo, é de acesso tão fácil que os bons podem alcançá-la. O caminho está, pois, aberto para todos. O Céu não é mais o privilégio desta ou daquela classe, mas de todos - grandes e pequenos, ricos e pobres, felizes e infelizes.