segunda-feira, 27 de outubro de 2014

O ÍDOLO DO DINHEIRO - Caso verídico e terrível contado por S. Leonardo de Porto Maurício

   O deus do nosso tempo é o dinheiro. Quão numerosos são os que se prostram diante dele e lhe oferecem adoração em todo tempo e lugar! O resultado é que, correndo atrás deste ídolo, esquecem o verdadeiro Deus, e, por consequência, precipitam-se num abismo de desgraças e perdem toda a felicidade, enquanto que - na afirmação do Profeta Davi - aqueles que buscam a Deus antes de tudo ( dinheiro, parente, amigo, jogo etc.), não caem em nenhum verdadeiro mal e abundam em todos os bens. (cf. Salmo XXXIII, 11). "Os ricos tiveram necessidade e fome, mas os que buscam o Senhor, não terão falta de bem algum". Esta palavra se verifica ainda mais naqueles que, antes de se entregarem a seu trabalho ou a seus negócios, têm o cuidado de assistir à Santa Missa
   É o que prova a história dos três negociantes de Gúbio, Itália. Dirigiram-se a uma feira que se realizava num burgo chamado Cisterno. Depois de vender suas mercadorias, dois deles começaram a pensar na volta e resolveram partir no dia seguinte de madrugada, a fim de estarem em casa ao cair da tarde. O terceiro, homem de fé e que amava a Deus acima de tudo, discordou desta resolução dos dois amigos e declarou sem respeito humano, que, sendo o dia seguinte um domingo, não se punha a caminho sem ter antes ouvido a Santa Missa. E exortou os outros, se queriam voltar como tinham vindo, a concordar em assistir em primeiro lugar ao Santo Sacrifício da Missa; em seguida, fariam uma refeição e partiriam mais satisfeitos. Além disso, se não pudessem chegar naquela mesma noite a Gubio, não faltariam albergues confortáveis no caminho.
   Não se renderam os companheiros a aviso tão sensato e salutar; mas decididos a chegar aquela mesma noite a seus lares, responderam que Deus havia de perdoar-lhes se por aquela vez faltassem à Missa no Domingo. Assim, no domingo, antes da aurora, sem entrar sequer na igreja, montaram a cavalo e tomaram a estrada para sua terra. Em breve chegaram ao rio Corfuone, que a chuva torrencial da noite anterior engrossara a ponto de fazer transbordar. A água, em corrente impetuosa, sacudira e deslocara bastante a ponte de madeira. Os dois negociantes meteram-se por ela com seus animais, mas, bem não tinham chegado ao meio, roupeu-se a madeirame à pressão da água e os dois cavaleiros precipitaram-se no rio onde se afogaram, perdendo assim dinheiro, mercadorias e a vida, e, quem sabe, ainda a alma. Ao fragor desta catástrofe, acorreram os camponeses, e por meio de ganchos e varapaus conseguiram retirar os cadáveres que deixaram estendidos na margem, para que fossem identificados e se lhes pudesse dar sepultura.
   O terceiro, entretanto, que se deixara ficar para cumprir o preceito de ouvir Missa, pôs-se a caminho alegre e animado. Ao chegar à mesma torrente, viu na margem os dois mortos, e por curiosidade se deteve para olhá-los. Reconheceu imediatamente seus dois amigos, e ouviu emocionado o descrição da tragédia. Levantou, então, as mãos aos céus, agradecendo a Deus que tão misericordiosamente o preservara de sememlhante desgraça, e abençoou mil vezes a hora que consagrara à Santa Missa, à qual devia estar são e salvo. Ao chegar a sua cidade, comunicou a triste notícia e excitou em todos os corações um vivo desejo de nunca perder a Santa Missa nos Domingos e até, o quanto for possível, assisti-la todos os dias.
   Permiti-me escrever aqui: continua S. Leonardo, malditos ídolos que afasatam de Deus nosso coração e tiram de certo modo à liberdade de pensar no grande negócio da salvação eterna!

sábado, 25 de outubro de 2014

JESUS É O CAMINHO, A VERDADE E A VIDA

   A) JESUS É O CAMINHO que devemos seguir para chegar a Deus. "Éramos, diz o Beato Olier, devedores a Deus de um milhão de deveres religiosos, mas como éramos incapazes por nós próprios de Lho tributarmos - de adorá-Lo como Ele merece e é nosso dever - necessitávamos que o grande Mestre, pela sua caridade, servisse de suplemento aos nossos deveres e fosse mediador da nossa religião. Foi por isso que Ele quis reviver depois da sua morte e estar sempre vivo - ad interpellandum pro nobis, diz São Paulo, para louvar e pedir ao seu Pai por nós e na nossa falta".
   Tivemos a infelicidade de ofender a Deus? É o próprio Jesus, mediador de redenção, que pleiteia a nossa causa e se oferece como vítima de propiciação pelos nossos pecados. Diz São João: 'E se alguém pecar, temos um advogado junto do Pai: Jesus Cristo, o justo. Ele mesmo é uma vítima de propiciação pelos nossos pecdos, não só pelos nossos, mas pelos do mundo inteiro" (1 João, II, 1 e 2).
   Queremos implorar novas graças? Jesus está presente para apoiar as nossas preces com todo o valor dos seus méritos infinitos. O próprio Jesus nos garante: "Em verdade, em verdade vos digo, tudo o que pedirdes ao meu Pai, Ele vo-lo dará em meu nome" (Jo. XVI, 1-4). Jesus pede conosco e por nós. E Ele é sempre ouvido por causa da dignidade da sua pessoa: "Foi atendido pela sua reverência" (Heb. V, 7).
   É por Jesus que nós também recebemos o Espírito Santo. É o próprio Jesus que no-lo afirma: "É bom para vós que eu vá, porque se não for, o Paráclito não virá para vós; mas se eu for, eu vo-Lo enviarei... Quando o Espírito de verdade vier, Ele vos guiará em toda a verdade... O Paráclito, o Espírito Santo, que meu Pai enviará em meu nome, há de ensinar-vos todas as coisas e lembrar-vos-á tudo o que eu vos disse" (S. Jo. XVI, 26; 7-13). Diz São Paulo que é o próprio Espírito Santo que pede por nós com gemidos inenarráveis (Rom. XVI, 7-13).
   Portanto, Jesus nos conduz ao Pai e ao Espírito Santo. Assim é o caminho que nos conduz a mais alta perfeição. É-o também por ser o modelo perfeito de todas as virtudes que devemos praticar. Caríssimos, sigamo-Lo, portanto, com todo amor. Seguindo-O, não nos extraviaremos. Caminharemos para a luz.

   B) JESUS É A VERDADE INFALÍVEL que devemos crer e abraçar com amor. Jesus como Verbo, é a infinita Sabedoria, a luz que ilumina todos os espíritos; como homem, possui três ciências: a visão beatífica, pela qual vê a Deus face a face e, n'Ele, todo o domínio do real, passado, presente e futuro; a ciência infusa, que se estende a todas as realidades do ordem natural e sobrenatural; a ciência experimental, que adquiriu progressivamente e que, sem ser tão universal como as outras duas, acabou por atingir um dia o conjunto das verdades a que o espírito humano pode elevar-se. É neste sentido que o Evangelho diz que o Menino Jesus crescia em idade e ciência. Jesus é, portanto, o nosso Mestre por excelência; "VÓS SÓ TENDES UM MESTRE QUE É CRISTO" (S. Mat. XXIII, 10). Que os outros escolham, se quiserem, "mestres que deleitem os ouvidos e se desviam da verdade para se entregarem a fábulas" (2 Tm. IV, 3 e 4). Quanto a nós, pela graça de Deus, iremos Àquele que tem palavras da vida eterna, Aquele que veio a este mundo para dar testemunho da verdade. Iremos a Ele com toda a nossa alma, com a dupla luz da razão e da fé. Não percamos o nosso tempo em elogiar seja lá que "mestre" for, porque, na verdade, seria elogiar "salteadores". Seja, isto sim, o Verbo Eterno Encarnado a nossa luz nos estudos de todas as ciências, profanas ou sagradas. Não esqueçamos que toda a verdade é uma espécie de parcela da divina Sabedoria, e conduzamos todos os nossos conhecimentos para a glória de Nosso Senhor Jesus Cristo. Mas procuremo-Lo sobretudo no Santo Evangelho, que havemos de ler e reler, sempre interessados na doutrina do Mestre, que é o Doutor infalível. A quem iremos? Só Jesus tem palavras de Vida eterna! Façamos da Sua doutrina a regra da nossa vida, não esquecendo que o melhor meio de conhecer e sentir a verdade, é pô-la em prática.

   C) JESUS É A NOSSA VIDA. A vida, hauriu-a Ele integralmente como Deus no seio do Pai; como homem, possui uma participação de vida tão abundante que é a fonte onde todos nós devemos beber. Primeiro pelos sacramentos que são os canais da graça. Saem do Sagrado Coração de Jesus e derramam-na nas nossas almas. Devemos estar sempre lembrados que a vida divina de que os sacramentos nos torna participantes, é fruto do sangue de Jesus e do seu amor para conosco. Sobretudo a Eucaristia, porque é o próprio Jesus que recebemos; quer dizer, o Verbo encarnado com todos os tesouros da sua divindade e da sua  humanidade, com o Pai e o Espírito Santo inseparavelmente unidos a Ele. Jesus disse: "Eu vim para que tenham a vida, e  com abundância".
   Não só dos sacramentos nos vem esta vida; mas ainda de todos os atos feitos em estado de graça, em união com Jesus. A graça santificante é uma participação da vida divina. E cada ato nosso feito em união com Jesus, aumenta esta graça e portanto, aumenta a vida divina em nós.
   Caríssimos e amados irmãos, felizes as almas que saboreiam e praticam estas belas doutrinas, que São Paulo e São João ensinavam incessantemente aos primeiros cristãos e que transformaram o mundo! Felizes as almas que, segundo o Beato Olier, têm Jesus diante dos olhos, no coração e nas mãos. Vamos explicar estas três coisas:
   Ter Jesus diante dos olhos: ou seja, comtemplá-Lo como o modelo mais completo de todas as virtudes que devemos praticar. Quando oramos ou meditamos, quando estudamos ou cumprimos os nossos deveres de estado, perguntemo-nos muitas vezes, como São Vicente de Paulo: Que faria Jesus se estivesse no meu lugar?" Ao mesmo tempo  adoremo-Lo e supliquemos-Lhe que nos ajude a reproduzir as suas disposições interiores: "E depois, como diz o Beato Olier, quando o nosso coração estiver cheio de amor, permaneçamos em silêncio  diante d'Ele, nestas mesmas disposições e sentimentos".
   Ter Jesus no coração: Diz o Beato Olier: "Demo-nos a Cristo para que a sua virtude nos anime a deixarmo-nos possuir por Ele, e, depois fiquemos ainda algum tempo em silêncio junto d'Ele, para nos deixarmos imbuir interiormente da sua unção divina". Supliquemos ao Divino Espírito Santo, que animava a alma humana do Salvador e que é ainda hoje a alma do seu corpo místico, que venha até nós para nos tornar semelhantes a Jesus Cristo.
   Ter Jesus nas mãos: isto é, rogar a Ele que faça com que a sua vontade se cumpra em nós, que, como explica o Beato Olier, "como bons membros, devemos obedecer à cabeça, e cujos impulsos só devem vir de Jesus Cristo, o qual, enchendo a nossa alma do seu Espírito, da sua virtude e da sua força. deve operar em nós e por nós tudo quanto deseja".
    Assim como explicou o Beato Olier, Jesus se torna verdadeiramente o centro da nossa vida, dos nossos pensamentos, dos nossos sentimentos, das nossas ações; só assim Ele é sempre para nós uma fonte de água viva. Com São Paulo, digamos de todo o coração: "A MINHA VIDA É JESUS!!!

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

PODE HAVER PROGRESSO NO DOGMA?

  Extraimos a resposta do livro "POR UM CRISTIANISMO AUTÊNTICO" pág. 4-8. 
   Diz D. Antônio de Castro Mayer, de saudosa memória: "... Os homens fascinados pela miragem de uma felicidade ilusória, procuram criar para si um ideal de vida cristã segundo os moldes das exigências do mundo contemporâneo. Desprezam, neste afã,  o que a tradição católica mantém intransigentemente, e estabelecem novos cânones de um evangelho novo, em nada conforme àquilo que o Filho de Deus veio ensinar aos homens.
   Em primeiro lugar, que é um Dogma?
   Dogma entende-se uma verdade revelada e como tal proposta pela Igreja à profissão de Fé dos   fiéis. Envolve dois elementos. Para que haja "dogma" exige-se que a verdade definida tenha sido revelada, isto é, manifestada aos homens por Jesus Cristo ou mediante outros mensageiros escolhidos por Deus. Tais verdades se encontram no "depósito da revelação", isto é, nas Sagradas  Escrituras e na Tradição Apostólica. Quer dizer que não fazem parte da Revelação outras manifestações particulares de Deus a algumas pessoas, ainda que delas possa advir edificação espiritual para os fiéis. Tais manifestações nada acrescentam de novo à Revelação propriamente dita, e não exigem, como esta, o ato de fé de todos os homens.
   Outro elemento constitutivo do dogma é a definição da Igreja. É a Igreja que tem autoridade para ensinar o que Deus revelou. É a Igreja que goza da assistência do Espírito Santo para não errar quando propõe a Revelação. Pois foi à Igreja que Jesus Cristo mandou pregar o Evangelho a todos os povos (Mc. 16, 15); foi à ela que prometeu sua assistência até o fim do Mundo. (Mt. 28, 20). Assim é a Igreja, o santo Padre, ou o Concílio Ecumênico, que estabelece o Dogma.
   Duas questões, convém, aqui elucidemos. A primeira responde aos incrédulos que vêem nas sucessivas definições da Igreja uma prova da  versatilidade da Instituição de Jesus Cristo.
   Um dogma novo! - A Igreja então varia - dizem - que hoje crê o que ontem negava: tem agora por inconcusso e absolutamente certo o de que antes duvidava; nega no momento ou afirma o que, levada pelo vórtice dos tempos, desdirá mais tarde?!
   Como se enganam estes sábios do mundo que, infelizmente, ignoram a Sabedoria de Deus! No entanto, sua própria ciência deveria encaminhá-los a ver nesta vida da Igreja, que cresce e se desenvolve, um fenômeno natural a todo organismo vivo. Que faz a ciência? - Debruça-se sobre o livro da natureza que Deus, Suma Verdade, lhe abriu à investigação, e vai, pouco a pouco, folheando as páginas desta obra admirável, num esforço contínuo para descobrir as leis que regem este cosmo maravilhoso, e assim melhor conhecê-lo para mais facilmente dominá-lo.
   O sábio não inventa leis, nada cria de novo. Ele apenas verifica as relações existentes nos sêres desde sua origem milenária. Verifica, alegra-se, e coloca-as ao serviço da Humanidade. Quis a Providência dispor as coisas desta maneira, e assim dar à mais nobre das faculdades humanas o alimento espiritual da investigação no grande livro da natureza, onde reluz a Sabedoria da Criação.
   Coisa semelhante se dá com a Revelação, este acervo de verdades sobrenaturais com que se dignou Deus elevar nossa inteligência a uma ordem de conhecimento mais nobre. Este depósito sagrado entregue à Igreja não apresenta todas as verdades de modo explícito e claro. Há nas Sagradas Escrituras e na Tradição muita doutrina que, para ser explícita e claramente conhecida, demanda o estudo laborioso dos Padres e Doutores da Igreja. Assim, muitas verdades da Revelação só vieram a ser definidas mais tarde. E outras,    objeto de fé imediata e direta por parte dos fiéis, com o tempo, graças ao esforço dos estudiosos, tornaram-se mais claras e mais precisas.
   Poderíamos estabelecer um paralelo. Como a Ciência profana aprofunda o conhecimento da natureza, sem nada criar de novo; assim a Ciência sagrada, a Teologia Católica, penetra mais no íntimo do depósito da Fé, elucidando pontos já revelados, sem nada introduzir de absolutamente novo. O conhecimento da Revelação se enriquece e amplia; não há revelação nova. Como a natureza -  com relação à Ciência profana - é melhor apreendida, não é de novo criada.
   Há, porém, uma diferença entre as investigações científicas e os estudos teológicos realizados pela Igreja. Na investigação científica, a inteligência humana, falível por natureza, pode desgarrar-se e fixar-se em erros. Daí a sucessão de hipóteses explicativas dos fenômenos naturais, por vezes, em oposição umas às outras. Na Ciência sagrada, o estudo, enquanto é feito pelo conjunto dos doutores e sob a vigilante orientação da Santa Igreja, goza da assistência do Espírito Santo, de maneira que jamais acontece vir a totalidade dos fiéis a aceitar como certo e revelado aquilo que não foi objeto da palavra divina. O desenvolvimento, metódico e vivo da Fé, não se faz por etapas que se chocam e contradizem, mas de maneira harmônica, como o desabrochar de uma natureza que cresce sempre igual a si mesma, afirmando-se sempre melhor e com mais pujança.
   A definição de um dogma, pois, não quer dizer uma verdade nova, embora implique para o fiel uma obrigação nova: o ato de fé explícito na verdade cuja revelação é autenticada pela palavra da Igreja. Desde o começo da Igreja, lá estava este ponto, que entrava como matéria de Fé no conjunto indeterminado de tudo quanto Deus revelara. Agora, após anos de vida em que a Igreja foi explicitando sua Fé, chegou o momento conveniente de o Vigário de Cristo, no uso de sua infalibilidade, como  Pastor Supremo dos fiéis, declarar que, de fato, este mistério é do número dos revelados.
   Eis o sentido em que se pode falar em evolução dos Dogmas. Pois, no conhecimento dos artigos de Fé, podemos distinguir três períodos. No começo, há a posse pacífica da Revelação, na expressão simples e vulgar que nos apresentam os primeiros símbolos, antigos como os tempos apostólicos. Com o correr dos anos, surgem dúvidas, hesitações, às vezes contraditas. É a fase do esclarecimento, da polêmica apologética, do estudo mais aprofundado das fontes da Revelação, as Sagradas Escrituras e a Tradição. Neste período, aparecem heresias, isto é, posições que desvirtuam o conceito da verdade revelada, e não se submetem às diretrizes da Santa Igreja, a quem compete presidir e guiar as investigações teológicas. Como fruto destes estudos, apologética e polêmica, aclaram-se pontos obscuros, e reponta o conceito exato e, quanto possível, claro do mistério. Fixa-se a expressão da verdade, estabelecem os dogmas propriamente ditos, pois, nesta fase, intervém sempre a palavra autorizada e infalível do Concílio ou do Santo Padre que define o conteúdo da revelação na questão agitada.
   O  segundo ponto ,  que elucidar, atende às necessidades apologéticas para fazer face a orientações heretizantes que ressurgem no seio da Igreja.
   Quando a Igreja define um dogma, exprime em conceitos humanos, e em palavras humanas, a verdade divina, o mistério revelado. Esta expressão pode ser exata e própria quando se trata de um fato; será exata, mas analógica, quando o revelado for um mistério, no sentido estrito da palavra. Assim, não podemos ter um conceito próprio da Santíssima Trindade, verdade que supera nossa inteligência, aqui na terra. Mas, temos um conceito exato, isto é, isento de erro, quando analogicamente, através de comparações tomadas às coisas criadas, formamos uma idéia deste mistério altíssimo. Estes conceitos a Igreja os exprime em fórmulas dogmáticas, que sempre e em todo tempo, significam a mesma coisa, sempre e em todas as épocas correspondem àquelas idéias em que a Igreja,  guiada pelo Espírito Santo, concebeu o mistério de Deus... Aquilo que há dois mil anos acreditavam os primeiros cristãos, quando diziam que em Deus há uma natureza e três pessoas, é ainda a mesma coisa que nós hoje cremos quando enunciamos este dogma. Houve aperfeiçoamento na elucidação das noções de "pessoa" e "natureza", mas, em substância, o conteúdo da nossa fé foi e é objetivamente o mesmo... A verdade revelada é sempre a mesma. E o aperfeiçoamento  que, no decurso das idades há, não é evolução de um conceito para outro novo, mas progresso no conhecimento do mesmo conceito  que se aclara, que se aprofunda...Não há eliminação de uma verdade a que outra sucede. Na Igreja há vida, há progresso, há pujança, mas sempre da mesma natureza, por desenvolvimento, não por mudança, como sabiamente notou o Lerinense: " progresso quando uma coisa se desenvolve em si mesma; há mudança, quando uma coisa cessa de ser ela mesma e se torna outra. Cuide que haja progresso não haja mudança. Cresçam, pois, estas santas doutrinas, como é necessário. Progridam em amplidão e rapidez no decurso dos anos, com a ciência, a inteligência, a sabedoria de todos e de cada um, de cada indivíduo e de toda a Igreja! Mas que progridam na sua própria natureza (...) Há certamente uma grande diferença entre o desabrochar da infância e a maturidade do homem. Mas o homem e  o menino são a mesma pessoa(...) Que a doutrina da Igreja obedeça, pois, a esta lei do progresso; que ela seja aprofundada com os anos; mas que ela permaneça sempre uma, pura, incorruptível" (São Vicente de Lérins, Comm. 22).
  

EVOLUÇÃO DO DOGMA?

Artigo extraído do livro "A Igreja, a Reforma e a Civilização" obra do Padre Leonel Franca, S. J.

   "O século XIX encantado da palavra evolução tentou aplicá-la também ao dogma. Daí equívocos funestos que importa dissipar.
   Evolvem os dogmas? Sim e não. Objetivamente, não; subjetivamente, sim. Explico-me.
   Quando emudeceram, gelados pela morte, os lábios do último apóstolo, fechou-se o ciclo das revelações públicas. O período de inspiração estava concluído, inaugurava-se o período de assistência.  No primeiro, acendeu-se o foco de luz, no segundo, conserva-se. Uma vez constituído o depósito divino, Deus confia-o à sua Igreja. Ela o guardará intacto e inviolável até ao fim dos tempos. Nenhuma verdade há de perecer, nenhuma será acrescentada. Objetivamente, pois, não pode haver evolução, não pode haver progresso no dogma.
   Subjetivamente, porém, nós podemos conhecê-lo com maior profundidade, explicá-lo com mais clareza, desenvolvê-lo em novas conclusões. A palavra divina é de inexaurível fecundidade. Quem ousará supor que uma só geração lhe tenha esgotado todos os tesouros? Os gênios depositam muitas vezes nas suas obras germes de verdades que só um futuro distante verá desabrochar e florir. Será menos rica, menos potente a palavra de Deus? Não há também de florescer e frutificar a semente divina confiada à Igreja? Vede com que amor, com que carinho respeitoso ela  a cultiva! Vede como, sob a assistência do Espírito que nela reside, as causas mais encontradas concorrem admiravelmente para a expansão lógica das verdades reveladas!
   São os gênios que, no desfilar dos séculos, sondam, com os olhos de águia, as profundezas dos ensinamentos divinos. Quantas harmonias não sentidas, quantos tesouros dantes ignorados, quantas belezas não advertidas, não logrou descobrir a meditação profunda e afetuosa dos doutores, dos santos, dos teólogos!
   São as mudadas condições da vida dos povos. Com o avançar do progresso, novas aspirações se manifestam, acentuam-se novas exigências. Em função das necessidades dos tempos, a Igreja repensa as verdades que lhe foram confiadas e tira das suas riquezas novas soluções, novas luzes para iluminar o gênero humano em todas as fases de sua existência histórica e social.
   São os erros, são as heresias. Descansavam os espíritos tranqüilos na posse indisputada de sua fé. Surge um espírito temerário que, com a ousadia de suas negações lança a perturbação nas almas. A Igreja consulta as fontes divinas de revelação, estuda-as, aprofunda-as e contra o erro que surge, formula, define em termos precisos a doutrina impugnada. A definição criou o dogma? Não; defendeu-o contra a dúvida, protegeu-o na consciência dos fiéis contra os perigos de uma interpretação falsa e equívoca. A definição é o sim eterno da verdade oposto ao não do erro que nasce.
   No entretanto, os estudos suscitados pela controvérsia banham de desconhecidas claridades a verdade divina que por um instante a negação pretendera ofuscar. Um exemplo. Os primeiros cristãos criam explicitamente que Jesus era Filho de Deus e Filho de Maria. Nesta verdade, porém, quantas outras não se incluem que eles admitiam expressamente mas nem sempre formularam com distinção! Vieram, porém, os gnósticos, vieram os arianos, os nestorianos, os eutiquianos, os monotelitas. Sob a urgência de dar uma resposta a suas multiplicadas negações a fórmula fecunda foi meditada, analisada e dela jorrou imensa luz: explicitamente e distintamente a Igreja enuncia e define os dogmas da consubstancialidade do Verbo, da verdadeira natureza humana de Cristo, da distinção das duas naturezas subsistentes na Pessoa do Verbo, da verdadeira natureza humana de Cristo, da distinção das duas vontades no Homem-Deus, etc., etc. Era uma semente fecunda , hoje é uma árvore que se ostenta em toda a pujança de seus desenvolvimento. Houve progresso, não houve mudança.
   Estudo direto do dogma, progresso das ciências e da vida social, impugnação do erro e da heresia, tais são os principais fatores humanos de que se serve a divina Providência para promover na Igreja o conhecimento mais amplo, mais profundo, mais harmonioso da verdade revelada.
   Colocai diante do firmamento estrelado um observador com a vista desarmada: é um espetáculo grandioso que o extasia. Dai-lhe agora um telescópio comum: como os astros se multiplicam, como se distinguem na viveza de seu fulgor! Imaginai-o agora armado de um destes poderosíssimos instrumentos, maravilhas do ótica e da mecânica moderna. (O autor escrevia em 1922, imaginemos hoje!!!) Que vista deslumbrante! Quantos mundos, cuja existência   nem  sequer se suspeitava! Como das profundezas do espaço surgem miríades de astros desconhecidos! Dizei-me, mudou-se porventura o firmamento, mudaram-se as estrelas? Não; cresceu a potência visual do observador. Assim no firmamento das verdades da Igreja. Em si, são sempre iguais e imutáveis os dogmas revelados; em nós, porém, com o volver dos anos, se manifestam mais claros e mais distintos.
   Nada, portanto, tão simples como responder à pergunta inicial: evolvem os dogmas? Evolvem, isto é, aprofundam-se , precisam-se, definem-se, sim. Evolvem, isto é, nascem, morrem, transmudam-se, crescem por juxtaposição de novos dogmas, não. O primeiro evolver é vida, é progresso na verdade; o segundo, é variação, incoerência, contradição.
   Aos olhos do observador sincero e maravilhado oferece a Igreja o espetáculo singular do desenvolvimento da vida aliado à imutabilidade divina da verdade. E esta admirável imutabilidade do dogma católico outra coisa não é senão o comentário histórico da promessa de Cristo: Eu estarei convosco, todos os dias, até à consumação dos séculos.

AS FONTES FILOSÓFICAS DA FALSA NOÇÃO DE FÉ MODERNISTA

  São Pio X na Encíclica "Pascendi" diz: "Se, pois, de uma só vista de olhos atentarmos para todo o sistema (dos modernistas), a ninguém causará pasmo ouvir-nos defini-lo, afirmando ser ele a síntese de todas as heresias. Certo é que se alguém se propusesse juntar, por assim dizer, o distilado de todos os erros, que a respeito da fé têm sido até hoje levantados, nunca poderia chegar a resultado mais completo do que alcançaram os modernistas". 
  Este diabólico sistema elaborado sobretudo por católicos mas também por protestantes máxime nos inícios do século XX, teve como finalidade precípua ADAPTAR OS DOGMAS À MENTALIDADE MODERNA. 
  Seus chefes foram: em França, Loisy, Turmel, Le Roy, Wilbois, e os protestantes A. Sabatier e Réville; na Alemanha, os protestantes liberais, chefiados por A. Harnack; em Inglaterra, o jesuíta J. Tyrrel; em Itália, A. Fogazzaro, etc. ...
  Os modernistas empregaram duas táticas: permanecer dentro da Igreja e usar a dissimulação. Mas foram desmascarados por São Pio X, que excomungou os hereges formais como o Padre Loisy. Fingiram abaixar a cabeça, como serpentes que, diante do perigo, se enrolam, aguardando o momento azado para dar o bote. Este momento, talvez tenha sido o Concílio Vaticano II, no qual houve (arredondando os números)  proporcionalmente 2000 modernistas (de todas as gamas) contra 200 tradicionalistas. O resultado não poderia ser outro, levando em conta ser um Concílio Pastoral. 
  Mas, voltemos ao assunto proposto. Os modernistas, na verdade, não desenvolveram uma filosofia completa; nem era seu intento. Só lhes interessavam a natureza de nosso conhecimento de Deus e o valor dos dogmas. Ensinaram um conhecimento sentimental de Deus; e, quanto aos dogmas, simplesmente tiraram-lhes todo valor, pregando sua contínua evolução. Só com isto, teriam destruído a Santa Religião pelos fundamentos, caso tal coisa fosse possível. 
   O AGNOSTICISMO ABSOLUTO foi a alavanca secreta do Modernismo. Estriba-se nas críticas de Kant e de Bergson. Dizem os modernistas que, a exemplo dos místicos, tomamos consciência do Divino por meio de um contato imediato, de um conhecimento de ordem sentimental. Este é o fundamento de toda verdadeira religião. Dizia Loisy na sua obra "Autour d'un petit livre, p. 198: "É antes de tudo e principalmente o trabalho de Deus no homem e com o homem". Pretendem os modernistas salvar a religião do intelectualismo escolástico, que foi o responsável pela ruína da religião. Desenvolvem a parte metafísica da hipótese da subconsciência de William James. A inteligência é radicalmente incapaz de conhecer a verdade. Ela entra no ato de fé, mas é impulsionada sempre pelo coração, ou sentimento religioso. Citando São Paulo em Atos XVII, 28: "In Ipso, enim, vivimus, movemur et sumus", dizem os modernistas que não devemos procurar Deus fora de nós, Ele está no meio de nós, ou melhor, Ele está no íntimo de nossa alma. 
   Não há dúvida que os místicos têm um conhecimento mais imediato de Deus, mas isto é pouco frequente e particular. Também é verdade que Deus está dentro de nós pela graça santificante. Mas só quem é batizado e está sem pecado mortal. Mas muito diferente é o contato imediato com Deus em nós, segundo os modernistas. Sem as precisões da Teologia Escolástica (que os modernistas odeiam) a sua doutrina da imanência ou da experiência do divino, leva diretamente ao panteísmo, como demonstra São Pio X na "Pascendi". Pois, segundo eles, é uma união íntima entre o Eu e o Divino que nos faz pensar que nos identificamos com Deus na subconsciência. Esta era, aliás, a hipótese de William James. 
   Os modernistas rechaçam a autoridade da Igreja Católica e transformam a significação dos dogmas segundo a filosofia pragmatista. Pensam que a "experiência religiosa" ou o conhecimento sentimental do Divino é o fruto primordial e a base de toda religião. Empregam o vocabulário católico, mas mudam radicalmente o seu conteúdo. Deixam a casca, mas tiram a substância. A Revelação, por exemplo, reduz-se a esta experiência fundamental que todo homem leva em si mesmo. Os dogmas e os mistérios da fé, não têm, segundo os modernistas, nenhum valor absoluto. Sua verdade consiste em sua utilidade para a vida religiosa individual ou social. O homem deve estar aberto às surpresas de Deus que em cada tempo usa da sua misericórdia segundo à utilidade presente.  Se inspiraram nos filósofos: W. James, Bergson, Schiller (ao pragmatismo deu o nome de humanismo) e muitos outros que têm outra noção de VERDADE. A concepção pragmática da verdade, para eles, deixa de ser uma equação entre o pensamento e o seu objeto, para ser apenas o índice da utilidade de uma afirmação. É verdade aquilo que é proveitoso. Como a utilidade de uma coisa é relativa, os modernistas tomam esta noção errada para daí poderem chegar à evolução dos dogmas.
   Individualmente, isto se dá da seguinte maneira: O indivíduo, dizem os modernistas, querendo conformar sua vida com sua fé e expressar seus sentimentos religiosos na vida prática, sente a necessidade de dissipar a imprecisão que o rodeia e de possuir fórmulas claras que dirijam sua atividade. Assim, então, entra a inteligência, mas movida pelo coração, para elaborar os dados imanentes. São, no entanto, apenas símbolos  ou instrumentos. Devem, mudar com o tempo, de acordo com a utilidade presente. 
   Depois vem a organização social. Os homens que gozam de experiências mais interessantes para a vida desejam que os demais participem delas, e empregam fórmulas diversas. Entre estas, a sociedade religiosa sanciona as melhores e aprova as práticas mais fecundas, isto é, as que melhor fomentam a conservação e o progresso do sentimento religioso. Assim é que se formam os DOGMAS. Portanto, é verdadeira qualquer religião que dê bons resultados, tanto mais quanto mais intensa for a vida interior (sentimental) dos fiéis. Mas, os dogmas já antiquados necessitam renovar-se, posto que todo seu valor e verdade residem em sua conveniência com o sentimento religioso, que vive e progride na massa dos fiéis. É da massa que sai o impulso reformador. Por sua função conservadora, a autoridade reprova a princípio e combate as reformas, mas termina por aceitar e sancionar como novos dogmas o que a massa na sua vivência descobriu pela experiência religiosa e sentimental o que era mais proveitoso. Daí a Igreja não só deve aceitar as reformas que o povo pede mas até estabelecê-las como dogmas (que, na verdade, não são dogmas, mas ficam à mercê da massa). A Igreja tem que estar de ouvido atento aos "sinais dos tempos" indicados pelo povo. Os modernistas certamente gostaram, e como! da palavra chave do Concílio Vaticano II, "AGGIORNAMENTO". Não era esta a intenção do então Papa João XXIII. Mas, na verdade, os modernistas estavam com a faca e o queixo na mão. E este foi o veneno que o Reno lançou no Tibre. 

  RESUMINDO: O Modernismo, começou por colocar como fundamento filosófico o Agnosticismo absoluto da inteligência. Feito isto, estabeleceu um só conhecimento verdadeiro: - A EXPERIÊNCIA RELIGIOSA - SENTIMENTO VAGO DO DIVINO. Vida interna e identificada com a própria vida de Deus. Toda a utilidade da atividade intelectual, teodiceia e dogma, consiste, segundo eles, em conservar e, exteriorizar e aperfeiçoar aquele sentimento em que compendia todo nosso conhecimento. O Modernismo é uma aplicação atrevida e temerária da mentalidade moderna pragmatista à doutrina religiosa.