domingo, 31 de agosto de 2014

A FIGURA DE JESUS POR UMA CARTA DA ÉPOCA

   Como se sabe, a Judéia na época de Jesus Cristo, era governada pelos romanos. Os imperadores romanos, os Césares, nomeiavam governadores e enviava-os de Roma. Antes de Póncio Pilatos, foi governador da Judéia Publius Lentulus. Chegou até os nossos tempos uma carta sua escrita ao César Romano, Tibério César que foi Imperador do ano 14 ao ano 37 depois de Cristo. Nosso Senhor Jesus Cristo já iniciara a sua Vida Pública, quando o governador Romano Publius Lentulus escreveu a carta que passamos a reproduzir:
"O Senador Publius Lentulus da Judéia ao César Romano:
             "Soube, ó César, que desejavas ter conhecimento do que passo a dizer-te.
              "Há aqui um homem chamado Jesus Cristo, a quem o povo chama profeta e os seus discípulos afirmam ser o filho de Deus, criador do Céu e da Terra.
              "Realmente, ó César, todos os dias chegam notícias das maravilhas deste Cristo. Para dizer-te em poucas palavras, dá vistas aos cegos, cura doentes e surpreende toda a Jerusalém.
               "Belo e de aspecto insinuante, é um homem de justa estatura, e a sua figura é tão majestosa, que todos o amam irresistivelmente. Sua fisionomia, de uma beleza incomparável, revela meiguice e, ao mesmo tempo, tal dignidade, que só olhar-se para ele cada qual se sente obrigado a amá-lo e a temê-lo ao mesmo tempo.
                "O cabelo dele até à altura das orelhas é de cor das searas quando maduras, emoldurando divinamente a sua fronte radiosa de jovem mestre; caindo em anéis reluzentes, espalham-se pelos seus ombros com uma graça infinita, sendo então de uma cor indefinível, como o vinho claro e brilhante. Ele o traz apartado ao meio por uma risca à moda dos nazarenos. A barba é da cor dos cabelos e não muito larga e também dividida ao meio. O olhar de paz é profundo e grave, com reflexos nos olhos de várias cores, e o mais surpreendente é que resplandecem! As pupilas parecem os raios do sol. Ninguém pode fitar-lhe o rosto deslumbrante. 
                "O seu porte é muito distinto. Possui encanto e atrai os olhares. Tão belo quanto pode um homem ser belo, ele é o mais nobre que imaginar se pode e muito semelhante à sua mãe, a mais formosa figura de mulher que até hoje apareceu nesta terra.
                 "Nunca foi visto rindo, mas já foi visto chorando várias vezes. As mãos e os braços são de uma grande beleza, que é prazer contemplá-los. Faz-se amigo de todos e mostra-se alegre com gravidade, e quando é visto em público, aparece sempre com grande simplicidade. Quer fale, quer opere, fá-lo sempre com elegância e sobriedade. Toda a gente acha a conversação dele muito agradável e cativante. Fala um idioma de misterioso encanto e as multidões, compostas de judeus e de naturais da Capadócia, Panfília, Cirene e de muitas outras regiões, ficam perplexas ao ouvi-lo, pois cada qual o ouve como se fosse no próprio idioma pátrio. 
                  "Se a tua magestade, ó César, deseja vê-lo, avisa-me, que eu logo to enviarei. Apesar de nunca ter estudado, é senhor de todas as ciências. Em sua expressão divina, ele é a sublimação individualizada de magnetismo pessoal. As criaturas disputam-lhe a presença encantadora; as multidões seguem-lhe os passos, tocadas de singular admiração. Quase todos buscam tocar-lhe a vestidura, pois dele emanam irradiações virtuosas que curam moléstias pertinazes. Ele produz espontaneamente um clima elevado de paz, que atinge a quantos lhe gozam a excelsa companhia. Anda com a cabeça descoberta e quase descalço e a sua túnica, alvíssima, combina com a subtileza de seus traços delicados. 
                    "Muitas pessoas quando o vêem ao longe escarnecem dele, mas quando ele se aproxima e estão na sua frente, então tremem e admiram-no. De sua figura singular, extraordinária beleza simples, vem um quê diferente que arrebata as multidões, e essas serenam, ouvindo as suas promessas sobre um eterno reinado. 
                     " Os  hebreus dizem que nunca viram homem semelhante a ele, cuja sabedoria excede à dos gênios. Nunca ouviram conselhos idênticos, nem tão sublime doutrina de humildade e de amor como a que ensina este Cristo. Amável ao conversar, torna-se temível quando repreende, mas mesmo neste caso, revela segurança e serenidade. É sobremodo sábio, modesto e muito casto. É um homem, enfim, que por suas divinas perfeições excede os outros filhos dos homens.
                     "Muitos judeus o têm por divino e crêem nele. Também o acusam a mim, dizendo, ó César, que ele é contra a tua magestade, porque afirma que reis e vassalos são todos iguais diante de Deus e assevera que acima o teu poder, ó César, reina um único Deus, Todo Poderoso, consolador de todos os homens desesperados e aflitos.
                     "Ando apoquentado com estes hebreus que pretendem convencer-me de que ele nos é prejudicial. Mas os que o conhecem e a ele têm recorrido, afirmam que ele nunca fez mal a pessoa alguma e antes emprega todos os seus esforços para fazer toda a humanidade feliz.
                       "Estou pronto, ó César, a obedecer-te e a cumprir o que me ordenaste"

  

terça-feira, 26 de agosto de 2014

AS IMAGENS ATRVÉS DOS SÉCULOS DA ERA CRISTÃ

   O uso das imagens tinha que vir aparecendo, portanto, pouco a pouco, de acordo com as circunstãncias. Daí se explica, por exemplo, que os primeiros cristãos não tivessem imagens nas suas igrejas abertas ao público, que aliás não eram numerosas naqueles tempos de tremenda perseguição, como foram os 3 primeiros séculos da nossa era. Não só as imagens e símbolos serviriam para denunciá-los, como também podiam ser mal interpretadas pelos pagãos que os vissem, os quais poderiam pensar que os cristãos apenas tinham mudado de ídolos. Daí também ser no princípio restrito o uso às imagens pintadas, para depois se passar às imagens de escultura.
   Mas que as imagens, pelo menos de pintura, tenham sido usadas pelos cristãos dos primeiros séculos, não há dúvida alguma.
   Temos o testemunho valioso das catacumbas de Roma. Ali naqueles subterrâneos, que eram lugares também de culto coletivo, longe das vistas dos pagãos podiam os artistas cristãos entregar-se mais livremente à sua tarefa de reproduzir os personagens e os mistérios do Cristianismo. E assim é comum nas catacumbas encontrarem-se imagens em pintura do Bom Pastor, de Maria Santíssima e de alguns santos (entre os quais predomina São Pedro, que era muito conhecido em Roma, onde se estabeleceu e sofreu o martírio). Algumas destas imagens dão indícios de pertencerem ao 1º e ao 2º século; e outras em grande número são pertencentes com toda certeza aos séculos 3º e 4º.
   A Virgem Maria é quase sempre representada com seu Divino Filho nos braços, e a sua imagem mais antiga conhecida remonta no máximo à metade do século 2º; encontra-se na Capela Grega das Catacumbas de Priscila. A Virgem aparece juntamente com os três reis magos. Há outra imagem muito célebre, que tudo indica remontar a fins do século 2º, em que aparece a Virgem sentada com o Menino nos braços, vendo-se ao seu lado o profeta Balaão apontando para uma estrela. Outra figura de Maria, de cerca da metade do século 4º, apresenta-a como orante, de braços estendidos diante de seu Divino Filho e se encontra no fundo de um arcosólio no Cemitério Maior. Isso mostra não só o uso da imagens, mas também o apreço que os cristãos sempre tiveram à Mãe do Salvador.
   As estátuas ou esculturas já são frequentes em sarcófagos do século 4º e 5º; e há nas catacumbas, pelo menos, 2 estátuas do Bom Pastor que parecem ser anteriores à época de Constantino (portanto, no máximo, do século 3º).
   Passando o testemunho das catacumbas para o dos livros, como autores que testemunham a existência de imagens, temos no século 3º Tertuliano que fala no Bom Pastor representado nos cálices (De pudicitia VII, 10) e o historiador Eusébio de Cesaréia, que diz ter visto imagens pintadas de Jesus Cristo, de São Pedro e de São Paulo (História Eclesiástica VII, 18).
   Uma vez conseguida a paz no tempo de Constantino (313), passando o Cristianismo a usar da liberdade de culto no Império Romano, vai-se espalhando por toda a parte o culto à cruz , principalmente depois que a rainha Helena, mãe de Constantino, encontrou A VERDADEIRA CRUZ DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO, a qual, no meio das outras duas, demonstrou a sua autenticidade por meio de um milagre; (ao tocá-lo numa doente grave, esta levantou-se imediatamente curada); e à proporção que se vai extinguindo o paganismo e, portanto, desaparecendo o perigo da confusão que poderia surgir entre os ídolos pagãos e as venerandas imagens de Jesus Cristo, da Santíssima Virgem e dos santos, vão aumentando em toda parte, pública e privadamente, o uso e o culto das imagens.
   Que do século 5º em diante já se começam a usar profusamente não só nas casas particulares, mas também nas igrejas públicas, e não só imagens pintadas, mas também esculturas, isto é um fato incontestável.
   Quando aparece no século 8º a heresia dos iconoclastas ou quebradores de imagens, fomentada pelos imperadores bizantinos, é logo condenada pelo 2º Concílio de Nicéia (que é Concílio Ecumênico, isto é, universal) reunido em 787. E é de notar que este Concílio apela, em favor do culto das imagens, para a TRADIÇÃO DA SANTA IGREJA CATÓLICA, ao mesmo tempo que acusa os iconoclastas de quererem introduzir uma novidade, indo de encontro às tradições eclesiásticas. Isto mostra como era antigo na Igreja este culto.
   Se o Imperador Carlos Magno entendeu, por razões políticas, de fazer coro com os imperadores bizantinos e isto produziu uma certa agitação no seio dos francos, a Igreja fez cessar esta perturbação com outro Concílio Ecumênico, o 4º Concílio de Constantinopla (869 e 870) em que reafirmou e redefiniu o que já havia sido determinado no 2º Concílio de Nicéia.
   Do 2º Concílio de Nicéia até os nossos dias, continuou cada vez mais propagado na Igreja Católica o culto das imagens. Aí estão os documentos históricos, os museus, as igrejas antiquíssimas da Europa para atestá-lo. E a prova é esta: por que os protestantes, aparecendo no século 16º faziam tanta grita contra o culto das imagens, provocando assim um novo pronunciamento no Concílio de Trento, senão porque este culto continuava a existir na Igreja Católica?
   O feitiço contra o feiticeiro. Quando os protestantes dizem que o culto das imagens é uma idolatria, quando dizem que, se há este culto é simplesmente porque o paganismo invadiu a Igreja, mostram apenas que NÃO CRÊEM EM NOSSO SENHOR JESUS CRISTO. Podem perguntar porque digo isto. Eis o argumento: Jesus Cristo fundou a sua Igreja e prometeu que as portas do inferno não prevaleceriam contra ela: "Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a MINHA IGREJA, E AS PORTAS DO INFERNO NÃO PREVALECERÃO CONTRA ELA" (S. Mat. XXVI, 18). Bem como mandou seus Apóstolos propagar A SUA IGREJA NO MUNDO TODO, por isso é chamada CATÓLICA,  que em grego significa "do mundo todo": "Ide, pois, ensinai TODAS AS GENTES (S. Mat. XXVIII,19) e prometeu sua proteção, sua assistência até o fim do mundo: "E estai certos de que EU ESTOU CONVOSCO TODOS OS DIAS ATÉ A CONSUMAÇÃO DO SÉCULO" (S. Mat. XXVIII,20).
   Como é que deixou esta Igreja Católica(=Universal) ficar durante mais de mil anos praticando A IDOLATRIA, invadida, como dizem os protestantes, por um grosseiro paganismo e só no século 16º  fez aparecer Calvino para remediar a esta situação? Neste caso, então A PALAVRA DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO NÃO SERIA INFALÍVEL.
   A Igreja é a amada esposa de Cristo (Efésios, V, 25). Não se pode lançar sobre ela a gravíssima acusação de haver-se prostituído pela idolatria, sem ultrajar ao mesmo tempo o seu Divino Esposo que, tendo poder infinito, tão explicitamente prometeu velar sobre ela até a consumação do mundo.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

NOÇÃO DE ADORAÇÃO E LATRIA

   Nem as nossas imagens são ídolos, como acabamos de ver; nem também o culto que a elas prestamos é de latria ou de verdadeira adoração.
   É o que iremos provar.
   Sabemos todos, católicos e protestantes, que só DEVEMOS ADORAR A DEUS.
   Mas o que não deixa de lançar uma certa confusão sobre o assunto é que a palavra ADORAÇÃO pode ter vários sentidos: existe a adoração impropriamente dita e a adoração propriamente dita.
   ADORAR, por exemplo, pode significar: querer bem, ter muita estima. Um pai pode dizer: Adoro os meus filhinhos. Um filho extremoso pode dizer: Adoro minha mãe. E no entanto não estão cometendo nenhum ato de ofensa a Deus, pois se adorar aí no caso quer dizer querer muito bem, então este pai tem obrigação mesmo de ADORAR os seus filhinhos, isto é, querer bem a eles; este filho tem obrigação de ADORAR a sua mãe, isto é, amá-la de todo o coração. Deus mesmo quer que seja assim; o erro só haverá, se estas pessoas puserem o amor de seus filhinhos ou o amor de sua  mãe acima do amor de Deus, que deve ser superior a todos os outros amores.
   É comum ouvir-se este expressão: uma CRIATURA ADORÁVEL, que ao pé da letra deveria indicar uma criatura digna de ser adorada, mas que, sem nenhuma blasfêmia, exprime simplesmente isto: uma criatura que nos merece toda simpatia, benevolência e estima.
   Na linguagem bíblica, no latim e também no português antigo, a palavra ADORAR tem igualmente o sentido de PROSTERNAR-SE, isto é, ajoelhar-se com os dois joelhos e fazer uma inclinação de cabeça que pode ser mais ou menos profunda e que pode ser profunda até o ponto de se fazer chegar a cabeça até o chão. Existe vários sistemas de saudação entre os diversos povos, como sejam entre nós, por exemplo: tirar o chapéu, fazer uma inclinação de cabeça, dar um aperto de mão etc. Os orientais, muito mais pródigos e exagerados do que nós neste assunto de cumprimentos, costumam diante de personagens muito ilustres, que mereciam grande respeito, levar a saudação até este ponto: a prosternação completa, isto é, não só de joelhos, mas também com muito profunda inclinação de cabeça. Daí não se segue que considerassem a pessoa que recebia tais saudações como se fosse UMA DIVINDADE. O gesto significa apenas isto: um profundo respeito.
   Qual é, então, o conceito da verdadeira adoração, da adoração no sentido próprio(que se expressa com o termo técnico LATRIA) e que só a Deus é devida?
   Latria ou ADORAÇÃO PROPRIAMENTE DITA é o ato pelo qual se tributa homenagem a um ser, como ao Supremo Senhor de todas as coisas, ou em outras palavras, como tendo o supremo domínio sobre nós.
   É um erro, por exemplo, dizer: ajoelhar-se diante de alguém ou de alguma coisa é adorar, é fazer ato de idolatria. Eu posso ajoelhar-me diante de meu pai, de minha mãe ou de uma pessoa qualquer, para lhes pedir perdão de uma falta que cometi; daí não se segue que eu lhes esteja prestando a adoração que só a Deus é devida. Pois posso ajoelhar-me diante dessas pessoas, exclusivamente por um ato de humildade, sem considerar a nenhuma delas, como sendo o SUPREMO SENHOR DE TODAS AS COISAS. Nem mesmo, o ato de ajoelhar-se e curvar a cabeça até o chão indica o culto de latria, pois os orientais faziam este gesto tão espetacular, simplesmente com a intenção de manisfestar o profundo respeito que lhes inspira aquela criatura. Por aí se vê que a adoração propriamente dita, ou seja, o culto de latria é um ATO INTERNO que se processa no nosso espírito, no nosso coração e ato pelo qual se reconhece os nossos sentimentos internos. Esta adoração a Deus, podemos manifestá-la de diversas formas, mas entre estes atos externos só há UM que por si mesmo, indica diretamente, necessariamente o culto de latria: é o SACRIFÍCIO. Imolava-se a vítima precisamente para isto: para indicar com aquela vítima sacrificada, a qual morria ou desaparecia, que o Ser cultuado é o Supremo Senhor da VIDA E DA MORTE. Por isto se explica muito bem que Paulo e Barnabé, confundidos em Listra, respectivamente, com os deuses Mercúrio e Júpiter, rasgassem as suas vestiduras e protestassem veementemente quando o sacerdote de Júpiter, que estava à entrada da cidade, trazendo para ante as portas touros e grinaldas, queria SACRIFICAR com o povo (Atos, XIV, 12).
   Diante dos ÍDOLOS, ou seja dos deuses falsos, qualquer ato externo de homenagem que se fizesse, como seja queimar incenso, ajoelhar-se, ou simplesmente curvar a cabeça era um ATO PECAMINOSO, porque aqueles ídolos eram apresentados como sendo DEUSES, como se tivesse qualquer um deles, ou sozinho ou de parceria com outros, o SUPREMO DOMÍNIO DE TODAS AS COISAS.  Quem lhes prestava culto o prestava diretamente àquela estátua, que não correspondia a nenhuma realidade e assim dava gosto ao demônio que se servia de tão abomináveis invenções para afastar os homens do culto do verdadeiro Deus, trazendo todos os povos pagãos na mais grosseira idolatria.
   Quando, porém, nós católicos que sabemos só existir um Deus, que é Espiritual e Eterno, Supremo Senhor de todas as coisas e só a Ele prestamos o culto de latria, cercamos de carinho e veneração as sagradas imagens de Jesus Cristo, de Maria Santíssima e dos santos, a coisa é muito diversa. Não estamos diante de ÍDOLOS, ou de DEUSES FALSOS.  Diante de uma imagem de Jesus Cristo, sabemos muito bem que não é aquela imagem, mas sim o seu protótipo, Jesus, que é o Supremo Senhor do Universo, Autor da Vida e da morte. Diante da imagem da Maria Santíssima e dos santos, sabemos muito bem que nem aquela imagem, nem o seu protótipo é o Supremo Senhor do Universo. Isto, porém, não nos impede de mostrar-lhes o nosso amor, de fazer-lhes as nossas súplicas, diante destas venerandas representações e imagens que tanto nos excitam ao fervor e à devoção.
   E quando afirmamos categoricamente que não estamos prestando a estas imagens um culto de latria, é inútil que venham os protestantes teimar conosco, querendo convencer-nos de que o nosso culto é de verdadeira adoração. Pois adoração é um sentimento interno, e os protestantes não podem saber melhor do que nós mesmos (e Deus) aquilo que realmente se passa no nosso íntimo, no interior do nosso coração.
   Caríssimos e amados leitores, antes que os protestantes levantem a voz, vamos, se Deus quiser, na próxima postagem, falar sobre a ADORAÇÃO EM ESPÍRITO E VERDADE.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Epístola aos Hebreus, XI, 1: Definição clássica da Fé

São Paulo na sua Epístola aos Hebreus, XI, 1 dá a definição clássica da Fé. Como poucos sabem o grego, vou dar a tradução da Vulgata, portanto, em latim, depois traduzir para o nosso idioma e, finalmente dar a explicação dos termos segundo o grego e o latim. 
   Em Hebreus, XI, 1 diz São Paulo: "Est autem fides sperandarum substantia rerum, argumentum non apparentium". Em Português: "A fé é, pois,  a realidade das coisas que esperamos, e a prova das que não vemos". 

  No hebraico há um paralelismo, como é comum neste idioma. Há dois membros, sendo um como eco do outro. No primeiro a fé seria o apoio sólido de todas as nossas esperanças. Seria a tradução da palavra latina "substantia" que quer dizer realidade e também fundamento. Em grego é "hipóstasis" que quer dizer fundamento, realidade. O Padre Prat como também o Padre Leonel Franca preferem traduzir "substantia" por realidade, no sentido que as coisas que "esperamos" começariam pela fé, a ter, no nosso espírito, uma realidade subsistente, tão certa e indubitável como se as víramos com os olhos. Este segundo significado ou segunda exegese, acentua mais vivamente a fé-crença, o sentido de convicção intelectual. Eis o que diz o Padre Prat: "A fé é o fundamento da esperança e em geral de toda a nossa vida sobrenatural; é outrossim, uma persuasão firme, tão segura que não deixa lugar à dúvida; é, enfim, a realidade das coisas que esperamos, enquanto constitui uma tomada de posse antecipada dos bens futuros e impede sejam vãs ou fantásticas as nossas esperanças... " E o Padre Prat acrescenta que este último sentido, ou seja, o de realidade, lhe parece preferível. (Cf. "La Theologie de Saint Paul", I T. p. 543). 
   É importante notarmos que os Santos Padres gregos, (como, por exemplo, São João Crisóstomo), preferem este segundo sentido.                                                                                  
  Bom! Este é o primeiro membro do paralelismo. Vejamos agora o segundo. No segundo membro da definição paulina, a fé se descreve com uma palavra toda intelectual. "Elegkos" (argumento, prova) tanto no grego antigo quanto no uso dos primeiros tempos cristãos, equivale a prova, argumento, refutação, ato de convencer, demonstração objetiva. E a palavra latina que corresponde exatamente a este termo grego "elegkos" é a palavra "argumentum". E assim traduziu muito bem São Jerônimo na Vulgata. 
   
    Depois de dar o significado mais adequado dos termos, devemos concluir que a fé não é uma persuasão subjetiva. De modo nenhum. É, sim, uma convicção sólida e fundada no que se não vê. O que é a experiência para as coisas sensíveis e a demonstração para as verdades científicas da ordem natural, é a fé para o mundo das realidades invisíveis, isto é, a fé é prova segura e indubitável de sua existência. Aliás, nada mais seguro, mais sólido do que a Fé, baseada que é na autoridade do próprio Deus, e concedida com o auxílio da graça de Deus. E as verdades reveladas são imutáveis, são válidas por todos os séculos dos séculos. Se aparecer um anjo pregando algo diferente do que Jesus Cristo nos revelou e a Santa Igreja nos transmitiu, seja anátema. Se olharmos bem, veremos que este "anjo" é um anjo mau. "Vade retro!  São Judas Tadeu disse na sua Epístola, versículo 3: "Caríssimos, desejando eu com toda a solicitude escrever-vos acerca da vossa comum salvação, tive necessidade de vos escrever agora, para vos exortar a combater pela fé, que foi dada aos santos uma vez por todas".

   Relembrando a definição de fé dada pelo Concílio Vaticano I: "É uma virtude sobrenatural, pela qual, prevenidos e auxiliados pela graça de Deus, cremos, como verdadeiro, o conteúdo da revelação, não em virtude de sua verdade intrínseca, vista pela luz natural da razão, mas por causa da autoridade de Deus que não pode enganar-se ou enganar-nos". 
    O Concílio Vaticano I não fez senão resumir, com uma precisão técnica perfeita, o ensino tradicional da Igreja. E desta definição se depreendem duas coisas: 1ª - É um ato da inteligência pelo qual admitimos como verdadeira uma doutrina atestada pela autoridade divina; 2ª - é um ato livre, dependente da nossa vontade e, por isso, sob o domínio da nossa responsabilidade moral, digna de mérito como virtude ou de condenação como pecado. "Quem crer, será salvo; quem não crer, será condenado". 

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

A OBLAÇÃO CONSTANTE DE CRISTO

   A oblação ou o oferecimento de si próprio a Deus sempre existiu na alma de Jesus Cristo e era bastante por si só para remir o mundo inteiro. Bastava uma oração, um ato de amor de Cristo para realizar a nossa Redenção, pois qualquer ato de Cristo, que era Homem-Deus, tinha um valor infinito. E que este oferecimento havia sempre na alma do Salvador, nós o sabemos não só pela perfeição desta mesma alma, senão também pela própria Bíblia que nos apresenta o Filho de Deus, dizendo logo desde a sua entrada neste mundo: "Não quiseste hóstia nem oblação mas formaste-me um corpo; os holocaustos pelo pecado não te agradaram. Então eu disse: Eis-me que venho; no princípio do livro está escrito de mim; para fazer, ó Deus a tua vontade" (Hebreus, X, 5-7).
   Este oferecimento total de si mesmo ao Eterno Pai não só existiu em toda a vida de Cristo, antes e depois de Sua Paixão, como existe eternamente no Céu, onde alma de Cristo continua a gozar, como sempre gozou,  da VISÃO BEATÍFICA. A OBLAÇÃO é uma só, porém eterna, sem interrupção na alma de Cristo, oblação total de si mesmo ao seu Pai Eterno.
   Mas acontece que, embora bastasse esta oblação, num só instante que fosse, para remir toda a Humanidade, Deus Pai, nos decretos insondáveis de sua JUSTIÇA, exigiu que a redenção da Humanidade não fosse realizada sem derramamento de sangue, sem a morte de Jesus. "Sem efusão de sangue não há remissão" ( Hebreus, IX, 22). De modo que o preço do resgate da Humanidade só seria oferecido a Deus, quando à oblação, que era permanente na alma de Cristo, se juntasse um fato que era passageiro, que se daria UMA SÓ VEZ, isto é, quando Cristo derramasse o seu sangue e moresse por amor de nós. No Calvário se juntaram as duas coisas: a oblação de Cristo e a SUA MORTE. Nesta hora se operou a nossa Eterna Redenção, ficamos livres da escravidão do demônio, ficamos com o direito à GRAÇA SOBRENATURAL, o Céu se abriu etc.
   Mas daí não se segue que a oblação cessasse na alma de Cristo. A oblação REDENTORA só foi feita uma vez. Cristo não oferece mais o seu Corpo e o seu Sangue PARA REMIR A HUMANIDADE, porque a Humanidade já foi REMIDA NO SACRIFÍCIO DA CRUZ. Mas daí não podemos comcluir que Cristo não possa mais OFERECER O SEU CORPO E O SEU SANGUE para alcançar certas e determinadas graças para nós. Dai não se conclue que Cristo não possa mais oferecer-se a Deus Pai para adorá-Lo e render-Lhe graças. Sabemos que pela Santa Missa Jesus aplica às almas o Seu Sangue de valor infinito.
   A oblação que Jesus Cristo faz no Santo Sacrifício da Missa não é uma OBLAÇÃO REDENTORA, neste sentido de que a Missa seja celebrada para remir a Humanidade, como não tivesse alcançado ainda a Redenção; a Humanidade já está remida, o preço do resgate já foi pago, o Céu já está aberto, a Humanidade já foi restaurada no plano sobrenatural. Nós comemoramos no Sacrifício da Missa A MORTE DE CRISTO; e não matamos a Cristo outra vez, quando a Missa é celebrada. Mas o Sacrifício da Missa é UMA REPRESENTAÇÃO DO DRAMA do Calvário. em que temos no altar o próprio Corpo e o próprio Sangue que Cristo ofereceu na Cruz. Cristo na Missa faz o Seu OFERECIMENTO, a sua OBLAÇÃO, não já para nos remir, mas para suplicar a Deus muitas graças para nós, que Deus absolutamente não está obrigado a nos conceder e para adorá-Lo e render-Lhe graças em nosso lugar. Assim temos a felicidade de assistir pessoalmente ao Sacrifício da Cruz, pois o Sacrifício da Missa é o mesmo Sacrifício do Calvário, (embora levado a efeito de maneira diversa), pois a Vítima é a mesma, e mesmo é o Sacerdote Cristo que é o PRINCIPAL OFERENTE.  E nós  que assistimos à representação do Sacrifício da Cruz, levamos uma vantagem sobre aqueles que assistiram no Calvário à sua CRUENTA REALIZAÇÃO; é que a Missa é o próprio Sacrifício do Calvário desdobrado num banquete, em que nós podemos participar da própria Vítima oferecida, alimentando-nos do seu próprio Corpo, que nos é dado como nutrição especial para mantermos em nós a vida da graça. Com que amor e fé devemos participar da Santa Missa!!!

terça-feira, 12 de agosto de 2014

O QUE DEVEMOS CRER - ( 4 )

   72. AMOR DO PRÓXIMO.

   O amor ao próximo é, portanto, uma consequência necessária do amor de Deus. E Jesus dá ao amor do próximo um novo aspecto. A Lei dizia: Ama ao próximo como a ti mesmo. A medida do amor ao próximo era o amor que naturalmente cada um tem a si próprio. Jesus, que nos deu o maior exemplo de amor aos homens, amor até aos próprios inimigos, propõe o seu exemplo, como a medida do amor: Eu dou-vos um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei (João XIII-34). Este amor ao próximo, mesmo aos inimigos, de que Ele mostrou um modelo no Samaritano da parábola, Jesus pregou-o, e pregou-o como NECESSÁRIO À SALVAÇÃO. 

   1º Jesus pregou o amor aos inimigos:

   Tendes ouvido que foi dito: Amarás ao teu próximo e aborrecerás a teu inimigo. Mas eu vos digo: Amai a vossos inimigos, fazei bem aos que vos têm ódio e orai pelos que vos perseguem e caluniam, para serdes filhos de vosso Pai que está nos Céus, o qual faz nascer o seu sol sobre bons e maus, e vir chuva sobre justos e injustos (Mateus V-43 a 45).

   Por aí já se vê que não se trata de mero conselho: precisamos amar aos inimigos, para sermos filhos de Deus. Mas há outras passagens que nos mostram ainda mais claramente que Jesus

   2º pregou o amor aos inimigos como indispensável à salvação.

   Todos nós pecamos e é claro que não podemos salvar-nos, se Deus não perdoa os nossos pecados. Pois bem, eis o que ensinou Jesus: Quando vos puserdes em oração, se tendes alguma coisa contra alguém, perdoai-lha, para que também vosso Pai, que está nos Céus, vos perdoe vossos pecados; porque, se vós não perdoardes, também vosso Pai, que está nos Céus, vos não há de perdoar vossos pecados (Marcos XI-25 e 26). E, depois da parábola do devedor insolvente, na qual o rei se mostra rigoroso e implacável para com o servo que, depois de perdoado, não quis perdoar ao seu companheiro, acrescenta: ASSIM TAMBÉM VOS HÁ DE FAZER MEU PAI CELESTIAL, SE NÃO PERDOARDES do íntimo de vossos corações cada um a seu irmão (Mateus XVIII-35).

   Ninguém pode alcançar a salvação, se não obtiver o perdão dos pecados. O perdão dos pecados, não o recebe quem não perdoa a seu próximo. Logo, não basta a fé para a salvação; é necessário também o perdão dos inimigos.

   E, enquanto os protestantes dizem que o homem pelas suas obras nada pode merecer, mas só pela fé, Nosso Senhor exalta o merecimento daqueles que sabem dispensar e perdoar, e lhes promete grande recompensa: E. se vós amais aos que vos amam, que MERECIMENTO é o que vós tereis? porque os pecadores também amam aos que os amam a eles. E, se fizerdes bem aos que vos fazem bem, que MERECIMENTO é o que vós tereis? porque também os pecadores emprestam uns aos outros, para que se lhes faça outro tanto. Amai, pois, a vossos inimigos, fazei bem e emprestai sem daí esperardes nada; e tereis MUITO AVULTADA RECOMPENSA (Lucas VI-32 a 35). 

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Jesus pregando Retiro aos seus sacerdotes

A Mãe e Rainha do Sacerdote


   Maria, a Virgem Imaculada, é minha Mãe e Mãe também tua. Escolhi-a para nós ambos. Enriquecia-a de graças e de pureza. Cumulei-a de todos os dons que pode suportar uma pura criatura. 
  Eu recebi a plenitude do sacerdócio no momento da Encarnação no seu puríssimo seio, e isto por obediência ao decreto eterno de meu Pai.
   De igual maneira tu, meu filho, embora infinitamente indigno, foste concebido sacerdote comigo neste augusto e virginal santuário.
    Eu não quis encarnar e ser sacerdote sem o antecedente consentimento e sem a cooperação da minha divina Mãe. De igual sorte tu também não chegaste a ser seu filho e meu sacerdote senão porque Ela assim quis, escolhendo-te e adotando-te como filho.
   Oh, como deves ser feliz e agradecido por lhe pertenceres, não somente pelo entusiasmo filial do teu coração, mas também por uma eleição pessoal do seu coração maternal, e por um decreto imutável e terno do nosso divino Pai!
    Eu amei e amo a minha Mãe mais que todas as outras criaturas juntas. E desejo que tu, meu sacerdote, que és outro Jesus, também a ames por tua vez como eu próprio a amei.
     Eu não pus limites à minha ternura para com ela. Não receies tampouco tu, que ocupas junto dela o meu lugar, exceder-te no carinho filial com a tua Mãe.
    Ela é a Virgem fiel. Todo o amor que os seus filhos lhe dedicam, devolve-mo a mim que sou o Princípio e o Fim de todas as coisas.
    Ainda sendo Deus, quis na terra receber tudo da minha Mãe. Era a Ela a quem expunha todas as minhas necessidades e a quem fazia todos os meus pedidos.
    Tu dirigir-lhe-ás igualmente as tuas preces e receberás tudo da sua mão maternal.
   Eu sou infinitamente bom e poderoso e estou disposto a tudo te conceder. Porém, não o farei sem um aceno da minha Mãe Imaculada.
    É Ela a dispensadora de todas as graças.
    Eu quis depender em tudo da minha Mãe como uma terna criancinha. Se queres dar-me gosto, permite-me continuar por teu intermédio esta vida de humilde e amorosa sujeição para com Ela.
    Não empreenderás coisa alguma sem Ela, sem o seu conselho, e sem lhe teres pedido que te ilumine.
    Eu quis ter o seu consentimento, não somente para receber dela a minha vida humana, mas ainda para a perder na cruz; porque Ela recebeu do meu Pai autoridade sobre mim. 
    Assim tu far-lhe-ás também homenagem de toda a tua vida de sacerdote, da tua atividade, das tuas alegrias, dos teu sofrimentos, da tua morte; porque és coisa e propriedade sua.
    A minha Mãe muito amada, depois de me ter dado o ser humano, a matéria do meu sacrifício, ofereceu-me ao Pai Eterno em holocausto ao pé da cruz.
    De igual sorte, presente invisivelmente à tua Missa, continua por intermédio teu, seu filho sacerdote, a oferecer-me ainda como vítima à divina Majestade.
    Antes de morrer, confiei à sua solicitude maternal São João, o discípulo que eu amava. Nele estavam representados todos os fiéis, mas sobretudo os meus prediletos, os sacerdotes.
    Então confiei-te também pessoalmente à minha Mãe. Eu mesmo coloquei os teus estudos sacerdotais sob a sua proteção maternal.
    Reciprocamente confiei também minha Mãe a São João para que a guardasse em sua casa, cuidando dela, e consolando-a, na minha ausência, durante o resto da sua peregrinação sobre a terra. 
    Desta maneira, meu filho muito amado, eu te confiei também a minha Mãe: a sua honra, a sua glória, e a defesa dos seus privilégios.
    Por toda a parte espalharás o seu culto, inspirando aos fiéis confiança e amor à sua Mãe do Céu, à Mãe do Perpétuo Socorro. 
    Amiúde recordarás com emoção, e recordarás também aos teus fiéis, as lágrimas derramadas por ela e as angústias sofridas pelo seu Coração Maternal no tempo da minha paixão.
    E quando soar a tua última hora, Ela estará junto do teu leito de dor como estava junto da minha Cruz. Suster-te-á então com a sua presença, e no momento da tua morte acolherá nos seus braços maternais a tua alma sacerdotal e apresentar-ma-á para que eu coloque na tua fronte a coroa de glória, destinada para aquele que corajosamente lutou.
    E assim estaremos juntos, para sempre, na casa do nosso Pai, a quem pertence toda a glória e toda a honra por séculos sem fim.
     Amém. 

    
   




   

sábado, 9 de agosto de 2014

Jesus pregando Retiro aos seus sacerdotes - ( XII )

Jesus, amor dos sacerdotes

   
   Eu amo todos os homens com ternura. Morri por todos com uma sede inexprimível da sua salvação. E estaria pronto a morrer ainda por cada um deles em particular, se esta prova de amor pudesse abrandar a dureza do seu coração.
   Mas, meu sacerdote, meu filho, amo-te mais do que aos outros e quero que o saibas e que me dês em retorno mais amor que os simples fiéis.
   Não te chamo meu servo, mas sim meu amigo, porque te confiei todos os meus segredos.
   Que pena me causarias, se só tivesses para mim a frieza e o temor servil!
   Esgotei todos os recursos ao meu alcance para te provar a terna afeição que te tenho. Consegui ganhar toda a tua confiança?
   Escolhi-te desde a eternidade e separei-te do resto dos homens; fiz-te participante do meu sacerdócio e revesti-te do meu poder, adornando-te de todas as virtudes e confiando-te a minha honra. Entreguei à tua guarda as minhas ovelhas compradas com  o meu sangue, e encarreguei-te de povoar o meu céu.
   Que mais podia eu fazer pela minha vinha eleita?
   Não tenho eu então direito, depois de tudo isto, a exigir só para mim todo o amor do teu coração?
   E não me prometeste no dia da nossa aliança que me tomarias como a sorte da tua herança?
   Que tristeza para mim se profanas esta amor, prodigalizando-o, com desprezo da minha lei, a criaturas indignas!
   O teu coração sacerdotal deve ser jardim fechado, fonte selada, Santo dos santos, onde tão somente o Sacerdote eterno tem o direito de entrar.
   Eu amo os sacerdotes. Sobre a sua cabeça acumulei carvões ardentes para que não possam negar-me o seu amor.
   Vou pelo mundo a fora como um mendigo, chamando a todas as portas e pedindo a esmola de um pouco de amor. Mas chamo com mais insistência à porta dos meus sacerdotes muito amados. Como poderão eles negar ao seu Jesus o acolhimento quente do seu amor?
   Amiúde, fatigado pelo longo caminhar, sento-me à beira do caminho como outrora junto do poço de Jacob à espera de ver passar perto de mim uma alma sedenta, para lhe poder oferecer a água da minha graça que jorra para a vida eterna. 
   E que felicidade para mim, quando encontro um sacerdote desejoso de haurir o amor na fonte do meu divino Coração!
   Tenho sede do amor dos homens e vim à terra em busca deste amor.
   Oh, no Céu estou cercado de anjos e de santos que me amam com um amor puro e sem mistura!. Mas na terra os meus altares estão cercados de legiões de sacerdotes que podem amar-me com um amor livre e espontâneo. Podem ajudar-me a encontrar as almas criadas à minha imagem, e tudo sacrificarão para me darem prazer.
   Oh, com eu me sinto atraído a esta terra onde tanto amei e tanto sofri!
   Meu filho, ajuda-me a formar almas que sem reservas se entreguem a mim. Dize-lhes que se tiverem confiança na minha bondade, me darei a elas para sempre, mil e mil vezes, com uma ternura e com uma solicitude cuja delicadeza estão longe de suspeitar!
   Meu Pai vê-se extremamente desonrado pelos homens pecadores. E eu sinto por estes ultrajes uma pena indizível, porque sou seu único Filho e o amo infinitamente.
   Por todo o decorrer do dia sobem ao meu Pai muito amado blasfêmias sem conta, injustiças e impurezas inúmeras.
   Porém, nenhum mal fez aos homens. Só bem lhes fez!...
   Compreendes agora o meu desejo de reparar a honra deste Pai divino, destruindo o pecado, como de o compensar trazendo-lhe aos pés os seus filhos rebeldes?
   Compreendes a paciência e a misericórdia de que uso com os pecadores, não obstante as suas quedas repetidas?
   E não queres tu, meu sacerdote, ajudar-me a consolar o meu divino Pai?
   Os pecadores convertidos são minha conquista e minha glória junto do Pai. São as minhas delícias, quando, após tanta ingratidão, compreendem por fim o meu amor e me permitem fazer-lhes bem.
   Meu Padre, ajuda-me a convertê-los. Dize-lhes que pecado algum, por enorme que seja, pode deter a minha misericórdia, desde que o pecador se arrependa e confesse as suas fraquezas.
   Dize-lhes que, se vierem com a consciência carregada de pecados sem número e trouxerem a alma vermelha como o escarlate, num momento lhes devolverei a candura da lã mais branca, sempre que venham com o coração humilhado e contrito.
   Eu amo os homens. Sem mim não têm paz nem felicidade e espera-os uma desgraça eterna. Oh, como eu quereria prendê-los nos laços do meu amor para os impedir de caírem no inferno!
   E que decepção a minha, quando apesar dos meus esforços escapam das minhas mãos e resvalam por entre as malhas da minha graça para se precipitarem voluntariamente no abismo!
   Oh, meu filho, e que ardente serias em me ajudares no meu empenho, se compreendesses o que é uma alma criada à minha imagem e o que é o inferno eterno!
   Prega por toda a parte o amor que eu tenho às almas. Repete sem cessar aos fiéis quanta é a minha bondade e a minha compaixão com os pecadores, bem como a misericórdia inexaurível da minha Mãe para com todos os homens. Dize-lhes que todo o Céu está em festa, quando volta aos meus pés um só filho pródigo que for.
   Mas, meu filho, promete-me tu mesmo que me hás de amar mais do que os outros. como poderia eu com alma tranquila confiar-te o que me é mais caro no mundo, as minhas ovelhas queridas, não sabendo que és meu inteiramente?
   Repete-me amiudadas vezes com o apóstolo Pedro: "Sim, Senhor, amo-vos; Vós bem sabeis que vos amo".

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

CORAÇÃO E MÃOS SACERDOTAIS

CORAÇÃO SACERDOTAL
                         Germano de Novais

   Um coração sacerdotal deve ser um cálice cheio de Jesus. Um relicário precioso em que Cristo almeje dascansar das ingratidões humanas.
     Um coração sacerdotal deve ser grande como o oceano para receber todos os rios dos sofrimentos e da miséria que afligem e envolvem os outros corações. Um coração que se desdobre em gestos de paz para as almas sofredoras. Um coração que tenha para todos uma palavra de conforto, uma prece de amigo, uma bênção de perdão.
     Um coração sacerdotal deve revestir-se da pureza dos lírios trescalantes de frescura, donde se evole o suave aroma da caridade.
     Um coração sacerdotal deve ser um lago repleto de bondade, de alegria, misericórdia, perdão e amor. Sempre calmo, capaz de refletir o céu estrelado das almas. E ainda sempre tranqüilo, mesmo depois de receber dentro de si as torrentes caudalosas dos pecados e dos crimes da humanidade pecadora.
    Um coração sacerdotal deve ser uma patena viva sobre a qual repousem todos os corações humanos dispostos a oferecer-se, juntamente com a Vítima divina dos nossos Altares, e ao Pai dos Céus.
     Um coração bondoso como um coração materno, amigo como um coração de pai, generoso como um coração consagrado a Deus. Um coração que tremule de ternura e de amor para com a mais bela das Virgens e a mais carinhosa das Mães. Um coração que procure espalhar e irradiar a beleza, o perdão e o amor infinito do Coração de Jesus, Rei e Centro de todos os corações, e modelo de todo coração sacerdotal.


MÃOS SACERDOTAIS
Mãos do sacerdote, mãos predestinadas,
Mãos de Jesus Cristo, mãos divinizadas,
Feitas lá no céu de essências imortais.
Mãos do sacerdote, feitas sob modelo
Que Jesus traçara cheio de desvelo,
Desde todo sempre, mãos sacerdotais.

 Mãos do sacerdote para a cruz voltadas,
 Mãos de lírios roxos sobre a cruz pregadas,
 Sempre, sempre abertas, sem fechá-las mais,
 Mãos de sofrimentos, mãos de mil suplícios,
 Têm as veias rubras feitas de cilícios,
 Mãos de mil calvários, mãos sacerdotais.

  Mãos do sacerdote, mãos de toda hora,
  Quando a noite é negra, quando brlha a aurora,
  Quando reina a calma, quando há temporais,
  Mãos de sacerdote, mãos de toda gente,
  Mãos do fervoroso, mãos do indifenrente,
  Mãos dos sofredores, mãos sacerdotais.

   Mãos do sacerdote, mãos feitas de lodos,
   Frágeis, passageiras, como as mãos de todos,
   Filhas do pecado como as dos demais,
   Mãos feitas de lodo, frágeis, pecadoras...
   Mãos purificadas, santas, redentoras...
   Beatificantes, mãos sacerdotais.

    Quantas mãos existem. Que diversidade!
    Mãos para a virtude, mãos para a maldade,
    Mãos cheias de lodo, mãos cheias de luz.
    Mãos que ferem, mãos que fecham as feridas,
    Mãos que dão a morte, mãos que dão a vida,
    Mãos que dão o diabo, mãos que dão Jesus.

     Quantas mãos existem. Que diversidade!
     Mas somente vós não sois como as demais.
     Pois somente vós levais à eternidade;
     E há recantos n'alma em que só vós tocais.
     E há espinhos fundos que ninguém alcança,
     E há doridos prantos que ninguém estanca
     A não serdes vós, ó mãos sacerdotais!

      Mãos do sacerdote, luz, calor, guarida,
      Para cada morte trazem uma vida,
      Para cada vida acendem mil fanais.
      Mãos do sacerdote, báculo que arrima,
      Bálsamo que alenta, asa que sublima,
      Cofre dos consolos, mãos sacerdotais. 

Colóquio do sacerdote com Jesus

Livro IV da Imitação de Cristo,  capítulos VI e VII



   1. VOZ DO DISCÍPULO: Senhor, quando penso em vossa dignidade e em minha vileza, tenho grande temor e me acho confuso. Porque se não me chego a Vós, fujo da vida; e se indignamente me atrevo a chegar-me, incorro em vossa indignação. Que farei pois, meu Deus, meu protetor, meu conselheiro, em minhas necessidades?
    2. Mostrai-me o caminho direito, ensinai-me algum breve exercício para me preparar à santa comunhão. Importa-me muito saber com que fervor e reverência devo preparar meu coração, para receber com fruto vosso Sacramento, ou para oferecer tão grande e divino sacrifício.

O Apóstolo São João, a quem Jesus mais
amava, reclinado sobre o coração de Jesus
   1. A VOZ DO SALVADOR: Sobre todas as coisas é necessário que o sacerdote de Deus se prepare para celebrar os santos mistérios, tocar e receber o corpo de Jesus Cristo; chegue a este sacramento com profunda humildade de coração, devota reverência, inteira fé e piedosa intenção de dar honra e glória a Deus.
    Examina diligentemente tua consciência e, segundo tuas forças, purifica-a e orna-a com verdadeira dor e humilde confissão; de maneira que, livre do peso de tuas culpas, isento de turbação ou remorsos, possas livremente vir a mim.
    Tem aborrecimento de todos os teus pecados em geral, e pelas faltas diárias doe-te e geme mais particularmente. E se o tempo permite, confessa a Deus, no segredo de teu coração, todas as misérias de tuas paixões.
    2. Chora e geme por estares ainda tão carnal e mundano, tão pouco mortificado nas paixões, tão cheio do movimento de concupiscência; tão pouco diligente na guarda dos sentidos exteriores, tão envolto muitas vezes em vãs imaginações; tão inclinado às coisas exteriores; tão negligente nas interiores; tão fácil ao riso e à dissipação, tão duro para as lágrimas e compunção; tão disposto à relaxação e regalos da carne, tão lento para seguir vida austera e fervorosa; tão curioso para ouvir novidades e ver coisas formosas, tão remisso em abraçar as humildes e desprezadas; tão cobiçoso de ter muito, tão avaro em dar; tão sôfrego em reter; tão inconsiderado em falar, tão pouco acautelado no calar; tão pouco regulado nos costumes, tão indiscreto nas ações; tão intemperante no comer e beber; tão surdo às vozes de Deus; tão pronto para o descanso; tão preguiçoso para o trabalho; tão esperto para ouvir contos e fábulas; tão sonolento para velar na oração; tão impaciente por chegar ao fim e tão vago na atenção; negligente em rezar o Ofício Divino, tão tíbio em celebrar a Missa, tão indevoto na comunhão, tão fácil em te distraíres, tão difícil em te recolheres, tão ligeiro em irar-te, tão fácil em magoar os outros; tão precipitado em julgar; tão rigoroso em repreender, tão alegre na prosperidade, tão abatido na desgraça; tão fecundo em bons propósitos e tão estéril em boas obras.
   3. Depois de teres confessado e chorado com grande dor e vivo sentimento de tua fraqueza estes defeitos e tantos outros que em ti conheces, propõe firmemente emendar tua vida e adiantar na virtude.
   Oferece-te depois, com absoluta  e inteira resignação, no altar de teu coração, como perpétuo holocausto, em honra do meu nome, entregando-me fielmente o teu coração e a tua alma, para alcançares assim a graça de celebrar dignamente o santo sacrifício e receber com fruto o Sacramento de meu Corpo. 

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

LIBERDADE RELIGIOSA DO VATICANO II - (continuação)

Por  D. Lefebvre, obra citada

  A Mansidão Evangélica

  Assegura o Concílio que a revelação divina "mostra o grande respeito que Cristo teve pela liberdade do homem, no cumprimento de seu dever de crer na palavra de Deus (DH. 9); Jesus manso e humilde de coração, manda deixar crescer o joio até a colheita, não quebra a cana rachada nem apaga a chama bruxuleante (DH. 11, cf. Mt. XIII, 29; Is. XLII, 3). Eis a resposta: quando o Senhor manda deixar crescer o joio, não lhe concede o direito de não ser arrancado, mas aconselha aquilo aos que colhem, "para evitar que sejam arrancados os grãos bons". Conselho de prudência: às vezes é preferível não escandalizar os fiéis com o espetáculo da repreensão dos infiéis; algumas vezes mais vale evitar a guerra civil, que despertaria a intolerância. Igualmente, se Jesus não quebra a cana rachada e faz disso uma regra pastoral para seus apóstolos, é por caridade para com os que erram, para não separá-los mais da verdade, o que poderia acontecer se usassem os meios coercitivos. 

  É claro, às vezes existe um dever de prudência e de caridade por parte da Igreja e dos Estados católicos para com os adeptos dos falsos cultos, mas este dever não confere ao outro nenhum direito. Por não distinguir a virtude da justiça (a que dá os direitos) da prudência e da caridade (que por si, só dá deveres), o Vaticano II mergulha no erro. Fazer da caridade uma justiça é perverter a ordem social e política da cidade.  

  Mesmo quando se considerar que Nosso Senhor dá, apesar de tudo, ao joio o direito "de não ser arrancado" este direito seria totalmente relativo às razões particulares que o motivaram, não seria nunca um direito natural e inviolável. Diz Santo Agostinho: "Ali onde se deve temer arrancar o grão bom ao mesmo tempo que o ruim, que a severidade da disciplina não durma", que não se tolere o exercício dos falsos cultos. E São João Crisóstomo, também não partidário das supressão dos dissidentes, não exclui a supressão de seus cultos: "Quem sabe, diz ele, se algum joio não se transformará em boa semente? Se o arrancais agora, prejudicareis a próxima colheita, arrancando os que poderiam mudar e chegar a ser melhores. Ele (o Senhor) certamente não proíbe reprimir os hereges, fechar suas bocas, negar-lhes a liberdade de falar, dispersar suas assembleias, e repudiar seus juramentos; o que Ele proíbe é derramar seu sangue e mata-los" (Cf. Homilia 46, sobre São Mateus, citado por Santo Tomás).  A autoridade destes Padres da Igreja me parece suficiente para refutar a interpretação abusiva que faz o Concílio da mansidão evangélica. Sem dúvida Nosso Senhor não pregou medidas militares, o que não é motivo para transformá-lo em um apóstolo da tolerância liberal. 

domingo, 3 de agosto de 2014

A ALEGRIA ESPIRITUAL É ÚTIL E NECESSÁRIA À NOSSA SANTIFICAÇÃO

    Ouçamos o Divino Espírito Santo no Eclesiástico XXX, 23: "O júbilo do coração esse é a vida do homem, e um tesouro inexaurível de santidade". A alegria espiritual, como a verdadeira piedade de que é inseparável, é portanto útil para tudo: tem promessas para a vida presente e para a vida futura. Nós só a encaramos aqui debaixo deste último aspecto.

   Se a tristeza tem matado a muitos, como afirma a Sagrada Escritura: "A tristeza tem matado a muitos. e não há utilidade nela" (Eclesiástico XXX, 25), a alegria, espiritual, no entanto, tem salvado a muitos. Ela é um baluarte que protege a inocência, e um poderoso meio de reparar a sua perda. Se sois tentado, e a tristeza se apodera do vosso coração, ei-vos nas trevas, perdeis as vossas forças, sois vencido. As vossas armas seriam a oração, a confiança em Deus, a mortificação; mas a oração desgosta-vos, a confiança em Deus desamparava-vos, a mortificação torna-se-vos impraticável. Se ao contrário tendes a alegria da esperança, Deus vos livrará; prometeu-o; ainda que não tivesse outra razão para vos socorrer contra o demônio, que não é vosso inimigo senão porque é inimigo de Deus, só a vossa esperança o obrigaria a isso. Caístes? Venha a esperança do perdão tranquilizar a vossa alma, conturbada pela primeira impressão da queda, e conduza-vos de novo para Deus. Dando-vos a alegria, dar-vos-á a salvação. Diz o Salmo L, 14: "Dai-me a alegria da Tua salvação". Trata-se do cumprimento dos vossos deveres? Nada o facilitará tanto, como a santa alegria. Convém dizer dela o que com tanta verdade se diz do amor santo: "Não sente o peso, não repara em trabalhos; aparenta mais do que pode; não julga impossível, pois, crê, que tudo pode"  (Confira Imitação de Cristo, L III, c. V, n 4). A tristeza enerva o ânimo; a menor dificuldade abate-o. Faz que o nosso trato seja penoso, descontente dos outros e de nós mesmos. Arrasta para dois precipícios inteiramente opostos: a desesperação, ou o amor desordenado dos gozos criminosos; a Psicologia explica que os  melancólicos são mais inclinados aos deleites, precisamente porque se abandonaram à sua dor. Concluamos que a alegria não só é útil, mas necessária. O coração do homem, diz São Gregório, não pode estar sem gozo; se o não acha em cima, busca-o em baixo. A tristeza é certamente um grande obstáculo à salvação, visto que a Igreja pede com a mesma instância, que sejamos livres da presente tristeza e gozemos da eterna alegria. 

   Senhor, se eu vos amo, terei a alegria e uma alegria inalterável; mas se tenho a alegria espiritual, amar-Vos-ei; a alegria dilata o coração e abre-o às suaves impressões do amor. ó meu Deus! dai-me o vosso amor, nada poderá separar-me de vós, nem perturbar a minha felicidade. Amém!

sábado, 2 de agosto de 2014

A ALEGRIA ESPIRITUAL É AGRADÁVEL A DEUS

   A nossa alegria é tão agradável a Deus, quando Ele é o objeto dela, que é um meio seguro de conseguir d'Ele tudo o que desejamos. É o que declara a Sagrada Escritura no Salmo XXXVI, 4: "Põe as tuas delícias no Senhor, e Ele te concederá o que teu coração deseja". 

   A alegria é fruto da graça: "O fruto do Espírito (Santo) é a alegria" (Gálatas V, 22). Buscais, caríssimos fiéis, o Senhor, quereis ser todo d'Ele, é o bastante; tendes direito a alegrar-vos. Deus, Nosso Pai do Céu, cobre-nos com as suas asas, como a galinha cobre seus pintainhos. Por que encher-se de tristeza quando a Bíblia Sagrada mostra o justo tripudiante de alegria? Eis alguns trechos: "Alegrai-vos no Senhor e regozijai-vos, ó justos, e gloriai-vos todos os que sois de coração reto" (Salmo XXXI, 11); "Exultai, ó justos, no Senhor... (Salmo XXXII, 10; "Guiai-me, Senhor, pelo teu caminho, e andarei na tua verdade; que o meu coração ponha a sua alegria em temer teu nome" [ou seja, em não pecar] (Salmo LXXXV, 11); "O temor do Senhor é glória e honra, alegria e uma coroa de regozijo" (Eclesiástico I, 11). 

   Caríssimos, não digais que, se a alegria é preceituada, o temor o é também. Não, os vossos receios, as vossas inquietações, os vossos abatimentos, não são o temor que Deus ordena. Este não gela o coração, pois ao contrário é necessário estar alegre, para possuir este temor salutar: é Davi que no-lo ensina na Bíblia: " Alegre-se o meu coração para que tema o seu nome" (Salmo XXXII, 1 e 21). Os santos temem desagradar a Deus, porque consideram o seu beneplácito com o maior de todos os bens, e o seu desagrado com o maior de todos os males. Este temor tem o seu princípio no amor. "O temor do Senhor é a alegria e o motivo de cada um se gloriar e a alegria é uma coroa de regozijo: deleitará o coração, e dará alegria, gosto e longa vida" (Confira Eclesiástico I, 11). Caríssimos, fazeis uma oferenda ao Senhor? Não a façais com tristeza, nem constrangidos; porque "Deus ama aquele que dá com alegria" (II Cor. IX, 7). Entrais no seu templo para orar? Entre a alegria convosco e não a expulseis contra a vontade de Deus, que vos quer alegrar na sua casa de oração: "Conduzi-los-ei ao meu santo monte (=Templo) e os alegrarei na minha casa de oração" (Isaías LVI, 7). 

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

A ALEGRIA ESPIRITUAL

   São Paulo na sua Epístola aos Filipenses, IV, 4-6, mostra os caracteres e motivos da verdadeira alegria espiritual: Meus irmãos, alegrai-vos incessantemente no Senhor; outra vez digo, alegrai-vos. A vossa modéstia seja conhecida de todos os homens; o Senhor está perto. Não vos inquieteis com coisa alguma, mas com muita oração e rogos, com ação de graças sejam manifestadas as vossas petições diante de Deus. 

   A alegria espiritual se funda em Deus -  NO SENHOR: por isso é constante e inalterável. A alegria que provém das paixões satisfeitas, passa como uma enxurrada após tempestade que seca logo, e só deixa após si um lodo imundo. A que provém das criaturas, ainda que seja inocente, é pelo menos vã, superficial e passageira, como os bens que a causam. A alegria espiritual é a única que enche o coração e que pode durar sempre, porque dimana da fonte: alegrai-vos SEMPRE. É modesta. e nada tem de comum com as alegrias loucas e turbulentas dos mundanos; São Paulo dá como razão, que ela é fundada na nossa fé na presença de Deus, O SENHOR ESTÁ PERTO, no seu poder, na sua bondade, e na fidelidade às suas promessas, donde nasce em nós o sentimento da confiança. Quem poderia inquietar-nos? Deus está em toda a parte, vê tudo, pode tudo, e quer sempre a nossa felicidade. Os seus tesouros são nossos; entregou-nos a chave deles: A ORAÇÃO. "A oração do justo, diz Santo Agostinho, é a chave do Céu"; e Deus deseja que usemos dela. Animada pela lembrança dos benefícios já recebidos, a oração obtém tudo: "manifestai a Deus as vossas necessidades por meio de orações e de súplicas unidas à ação de graças" (Filipenses IV, 6). A alegria espiritual é em nós um dom do Espírito Santo, e um começo de participação da alegria do mesmo Deus: Entra na alegria de teu Senhor. Na terra, a alegria cai gota a gota na alma dos justos; no Céu são dela inundados, como de uma torrente. 

   Que é pois alegrar-se no Senhor? É pôr n'Ele e no seu serviço todo o meu contentamento. Alegro-me em Deus, quando me felicito de ser criado de tão bom Senhor, filho de tão bom Pai... quando me alegro do amor que me tem, das provas que dele me dá, dos bens que espero d'Ele. Mas alegro-me em Deus da maneira mais perfeita, quando contemplo com júbilo as suas infinitas perfeições, a sua absoluta independência, a sua suma felicidade, que todos os atentados dos maus corações não podem perturbar nem alterar; a minha alegria é então o amor do filho, que se compraz em olhar para seu pai, e se sente feliz da sua felicidade.